Rumo à tempestade perfeita
O Estado de S.Paulo
Para evitar uma tempestade perfeita, a presidente Dilma
Rousseff terá de apertar no próximo ano a gestão das contas públicas,
disse o professor e ex-ministro Antonio Delfim Netto em entrevista ao
Broadcast, serviço online da Agência Estado. Inventada para designar uma
catástrofe natural causada pela rara conjunção de várias condições
meteorológicas adversas, essa expressão tem sido usada, principalmente
em inglês, para indicar desastres econômicos resultantes da confluência
de uma porção de eventos negativos. Uma tempestade perfeita para o
Brasil, em 2014, poderia nascer da combinação de um aperto na política
monetária americana, uma deterioração das contas externas, uma
depreciação cambial exagerada e uma forte desconfiança em relação à
política fiscal.
Essa desconfiança já está presente, reflete-se no prêmio de seguro
cobrado nas transações com títulos públicos brasileiros e pode aumentar
nos próximos meses, por causa das pressões, típicas de períodos
eleitorais, por maiores gastos do governo. A presidente Dilma Rousseff,
segundo o economista, tem noção do risco, é pragmática e tem como evitar
a piora das contas públicas.
Quanto ao pragmatismo, é justo acrescentar, tem sido demonstrado
principalmente quando se trata da imagem popular e de interesses
eleitorais, como tem sido demonstrado pelas políticas de controle de
preços de combustíveis, de redução das contas de luz e de corte das
tarifas de transporte público. Essas iniciativas frearam a alta dos
índices de preços por algum tempo, mas nunca eliminaram os focos de
pressões inflacionárias e, além disso, envolveram pesados custos
fiscais. Sem esses e muitos outros detalhes negativos, seria muito mais
fácil concordar com a imagem de uma governante pragmática na condução da
política econômica e, de modo especial, na gestão orçamentária.
As preocupações em relação às contas públicas e à economia brasileira
são neste momento exageradas, segundo o professor Delfim Netto. Mas o
governo, acrescenta o ex-ministro, tem de agir com firmeza e de modo
claro para induzir o mercado a uma avaliação menos pessimista do quadro
nacional. A ação deve incluir, segundo ele, um compromisso bem definido
com um superávit primário - o dinheiro separado para o serviço da dívida
pública - equivalente a 2% do Produto Interno Bruto (PIB). Neste ano,
de acordo com o ex-ministro, esse superávit mal chegará a 1,5% do PIB.
Esse resultado, segundo ele, será suficiente para controlar o
endividamento, se o PIB crescer em torno de 2% em 2014 e o juro real
pago pelo governo ficar em 4% ao ano.
O cenário esboçado pelo ex-ministro parece realista, com um
crescimento muito moderado, inflação próxima de 6% e taxa básica de
juros na altura de 10% ou pouco acima. Mas até essas avaliações podem
revelar-se otimistas, se os principais indicadores da economia
continuarem evoluindo como nos últimos meses.
Os números da inflação voltaram a crescer rapidamente nos últimos
meses, depois de esgotados os truques. A piora das contas públicas
acelerou-se e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, já desistiu de
compensar o fraco resultado de Estados, municípios e estatais. Esse
critério deve ser mantido em 2014. Além disso, nada garante a repetição
de receitas extraordinárias, como os R$ 15 bilhões do bônus no leilão do
Campo de Libra. A presidente poderá ser forçada a um ajuste doloroso
para reconquistar a confiança.
Enfim, nada prenuncia um crescimento muito maior que o deste ano. O
recém-divulgado Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br)
mostrou um terceiro trimestre mais fraco que o segundo. Sem confiança,
os empresários continuarão investindo pouco. O investimento público só
aumentará de forma significativa se as novas licitações na área de
infraestrutura derem mais certo que as anteriores. Isso dependerá mais
do governo que dos candidatos. Enquanto isso, as contas externas
afundam.
Começar a reação pelo compromisso fiscal, como sugeriu o ex-ministro,
parece boa ideia. Difícil é apostar na regeneração de um governo
populista em ano de eleição.
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