Tentativa e erro
CELSO MING - O Estado de S.Paulo
Todos os dias aparece alguém para dizer que a oposição
não tem discurso, não tem proposta de política econômica que possa se
contrapor ao que está aí. Nada mais verdadeiro. As análises dos cartolas
da oposição são episódicas, descosturadas, sem estratégia.
Mas o oposto também é verdadeiro. O governo não sabe como consertar o
que está errado. Vai sendo surpreendido todos os dias com novos
estragos na economia. O mais recente é a surpresa do estouro das
despesas com seguro-desemprego, em R$ 47 bilhões neste ano,
paradoxalmente, num ambiente de pleno emprego. Igualmente surpreendente é
a falta de proposta para resolver o problema.
Quando faz andar uma solução, quase sempre casuística e parcial, o
governo produz novas distorções. Mas, para não dar o braço a torcer,
repete mecanicamente que está tudo bem e que melhor ficará, sem explicar
como.
Em meados do ano passado, havia convicção dentro do governo de que
era preciso derrubar determinantemente os juros, não só para acelerar a
atividade econômica, mas, também, para reduzir as despesas com o serviço
da dívida. Uma dívida mais baixa, por sua vez, deixaria recursos para
mais políticas de renda. Em vez do crescimento econômico pretendido de
4,0% a 4,5% ao ano, os números obtidos foram medíocres: avanço do PIB de
2,7% em 2011 e de 0,9% em 2012. Para este ano, mais do que 2,5% é uma
possibilidade tão remota quanto a ocorrência de uma tempestade de neve
em Brasília.
Para a recuperação da indústria, um a um, os economistas do governo
recomendaram uma forte desvalorização cambial (alta do dólar) e uma
política de desoneração de encargos sociais. Tão logo começou o processo
de desvalorização do real, a inflação empinou com a arrancada dos
preços dos produtos importados e o Banco Central foi obrigado a voltar a
puxar os juros para cima e a vender dólares para evitar uma alta
cambial maior.
A desoneração foi afinal parcialmente implementada, mas vai
produzindo novos furos e novos desequilíbrios. O furo mais evidente é o
que aparece na arrecadação: perda de receitas de R$ 60 bilhões em 12
meses. Apesar dessa bondade oficial, a indústria continua prostrada e
esse é outro objetivo frustrado. Como é um processo que parou a meio
caminho, os setores que ficaram de fora desfrutam de menos vantagens
para operar do que os beneficiados.
Outra ideia-força do governo foi trabalhar com políticas
anticíclicas: gastar mais quando a economia está emperrada, para deixar a
austeridade para os dias radiantes. As tentativas de políticas
anticíclicas esbarraram com fortes limitações fiscais: as laranjas foram
espremidas e não há de onde tirar mais suco.
Houve um momento em que nossos dirigentes entenderam ter sido um erro
pretender acionar a economia apenas com estímulos ao consumo, porque a
produção não acompanhou a procura. A decisão seguinte foi dar ênfase ao
investimento e às concessões públicas. Foi uma decisão sábia que, no
entanto, chegou um pouco tarde e enfrenta o problema do baixíssimo nível
de poupança do brasileiro (coisa aí de 17% do PIB).
Depois que falhou a tal Nova Matriz de Política Macroeconômica, o
governo segue no escuro, na base da tentativa e erro, sem estratégia
clara de saída e sem saber o que fará para reconquistar a confiança do
produtor.
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