sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Aduladores do caos 
O Brasil não é o Egito. A nossa democracia não vive sob tutela, a não ser a desses milicianos do futuro
Reinaldo Azevedo - VEJA
Para o submarxismo vigente naqueles ambientes que o poeta Bruno Tolentino (1940-2007) chamava "Complexo Pucusp" --onde a imprensa colhe seus "especialistas"--, o futuro já aconteceu faz tempo. O que virá será só a materialização do que já estava inscrito na natureza humana. E essa natureza, consta, é libertar-se da opressão. Assim, toda ação, todo acontecimento, todo evento só encontram sentido na medida em que podem ou não ser úteis a esse propósito. A história deixa de ser "a contínua marcha do desejo", na expressão de Thomas Hobbes, para ser uma sequência de capítulos de fim conhecido, que nos conduzirá ao encontro com a verdade. Parece complicado? Eu me esforcei. Das nuvens para os ônibus.
Desde 1º de janeiro, 33 ônibus municipais e outros tantos intermunicipais já foram incendiados na periferia de São Paulo e adjacências. Em dois ou três casos, alega-se uma reação à suspeita de que a PM teria matado um rapaz da "comunidade". E os demais? Ah, esses ficariam por conta do "malaise" social que levaria adolescentes da periferia a fazer "rolezinhos", "black blocs" a quebrar tudo, funkeiros a tentar explodir posto de gasolina... Teria sido acionado o gatilho do DNA libertador das massas.
Analistas muito severos trovejam: "Eu bem que avisei". Outros iluminam suas esperanças com as chamas dos ônibus. Estão com o povo, contra os reacionários! A antropologia da reparação ameaça: "Chegou a hora de entregar os dedos; os oprimidos não se contentam mais com os anéis do reformismo tucano-petista!".
O espírito do tempo tem peso determinante na história. São os poderes instituídos e as matrizes influentes de valores --onde estão a imprensa e a indústria cultural-- que definem a recompensa e a punição aos comportamentos desejáveis ou indesejáveis. Se essas instâncias flertam com a desordem, esta passa a ser encarada como um instrumento eficaz de luta. Se a violência é recompensada com o reconhecimento da legitimidade da "causa", já se tem erigida uma moral. Aí a vaca vai para o brejo.
Defende-se hoje, a céu aberto, que PMs enfrentem desarmados os fascistoides que vão para as ruas portando coquetéis molotov --e assim é desde a primeira manifestação em São Paulo, no dia 6 de junho do ano passado. Tenta-se linchar um policial que cometeu a ousadia da legítima defesa. A repressão ao tráfico de drogas vira agressão aos direitos humanos. O desvio assume, enfim, o papel de contenção que cabe à norma.
Insiste-se na farsa ridícula da luta da "sociedade contra o Estado", e policiais "negros e morenos" (como diria Gilberto Carvalho), saídos daquela mesma periferia que seria a portadora do futuro, são tratados como o braço armado da velha ordem a retardar a aurora. O Brasil não é o Egito. A nossa democracia, por enquanto ao menos, não vive sob tutela, a não ser a desses milicianos do futuro. É bem verdade que o PT se esforça para tomar o lugar da sociedade e tenta estatizar até os "manos" e as "minas" dos "rolezinhos". Mas ainda não logrou o seu intento.
Não pensem que este rottweiler do reacionarismo acredita numa moral intrínseca da história, oposta à dos submarxistas, que nos conduziria para o bem. A história, em si, é amoral e se move por relações de força. Ocorre que, por esse caminho, democracia, fascismo ou comunismo seriam resultados plausíveis até que não se chegasse àquele momento do encontro do homem com o seu começo. Besteira!
A história não é moral, mas nós somos seres morais. Falaremos em nome de quais valores? A democracia é um regime legitimado pela maioria, mas sustentado, nos seus fundamentos --muito especialmente a proteção às minorias--, por elites de pensamento capazes de fazer escolhas que transcendem seus próprios interesses. É nesse lugar que está a imprensa. Não, meus caros! Os pobres não herdarão o Reino da Terra. Quais serão, então, as nossas escolhas?
Índios são presos sob suspeita de participar da morte de 3 no AM
FABIANO MAISONNAVE - FSP 
DE SÃO PAULO - Cinco índios da etnia tenharim foram presos ontem na região de Humaitá (AM) por suposto envolvimento no assassinato de três pessoas, em dezembro, informaram fontes policiais à Folha.
Todos os presos foram levados a Porto Velho, a 200 km dali. Para a captura, a Polícia Federal comandou uma megaoperação com agentes seus, da Polícia Rodoviária Federal, do Exército e da Força Nacional.
Até a conclusão desta edição, não havia informações sobre se foram achados os corpos do funcionário da Eletrobras Aldeney Salvador, do representante comercial Luciano Ferreira e do professor Stef de Souza.
Eles sumiram em viagem pela Transamazônica, em 16 de dezembro. O caso motivou protestos que tiveram depredação de carros e de instalações da Funai. O governo enviou uma força-tarefa para a região. A Folha tentou falar com o advogado dos índios, mas ele não foi localizado. 

DÓRICAS

Um giro no parafuso
Dora Kramer - O Estado de S.Paulo
Leis draconianas não garantem a saúde legal do ambiente. Disso estamos cansados de saber e habituados a ver, principalmente quando negócios privados se misturam com entes públicos.
Decretar que isso ou aquilo é proibido, é ilegal, é inconstitucional tampouco basta para balizar comportamentos. Nem por essa razão se pode deixar de aperfeiçoar os mecanismos de prevenção e repressão à ilegalidade ou de saudar novas ferramentas que permitam dar mais um aperto na rosca do parafuso.
Senso crítico é essencial até para separar atos bem intencionados, mas de pouca eficácia prática, de ações que realmente tenham o poder de atuar no cerne da questão. Aqui falamos de corrupção.
Mais especificamente da lei (12.846) que entrou em vigor nesta semana, cujo objetivo é investigar, processar e punir empresas envolvidas em ilicitudes na prestação de quaisquer serviços ao Estado.
Muito bem, a corrupção já é ilegal e, no entanto, grassa. No que mais uma legislação poderia mudar essa situação? Mudar totalmente e principalmente do dia para a noite é algo que, de fato, não vai acontecer. Mas, como dizia o então ministro da Fazenda Pedro Malan nos primeiros anos do Plano Real, é tudo uma questão de "processo".
A chamada lei da Empresa Limpa (inspiração óbvia) pode ser enquadrada nessa categoria da qual faz parte a lei da Ficha Limpa. Não obstante a evidência de que a correção na vida pregressa fosse um atributo indispensável a candidatos a cargos eletivos, nenhuma importância se dava a isso.
Até o dia em que uma emenda constitucional de iniciativa popular cruzou o caminho de um ano de eleições (2010), entidades civis se mexeram, a oposição saiu da inércia, a situação não teve jeito, foi a reboque e pronto: estavam plantadas as sementes.
A existência da lei não fará desaparecerem do cenário, como que por encanto, os candidatos fichas sujas, mas sem dúvida é um fator importante de inibição para o desfile de folhas corridas que acaba resultando num Parlamento cheio de gente com contas em aberto na Justiça.
Pois com todas as questões que ainda precisam ser resolvidas na nova lei anticorrupção - conforme apontam os especialistas, em relação à delação premiada e à ordenação da competência para instauração dos processos - o ponto essencial é este: ela sem dúvida alguma inibirá os corruptores e, por consequência, dificultará o campo de atuação dos potenciais corrompidos.
A legislação não prevê prisão, mas impõe multas altas levando em conta o faturamento bruto das empresas que podem ter suas atividades suspensas ou que, em último caso, podem até vir a ser dissolvidas. Isso independentemente de os donos serem os responsáveis diretos pelo ilícito. Mal comparando, é a teoria do domínio do fato aplicada no julgamento do processo do mensalão. Estando o negócio todo em jogo é de se acreditar que haverá, sim, muito mais precaução por parte dos empresários.
Quando põe no risco o empreendimento e torna o empreendedor responsável pelos atos do conjunto, a lei busca atingir a parte que sempre ficou fora do alcance dos grandes escândalos de corrupção, cujo fôlego costuma se esgotar quando se chega aos corruptos. Até por serem mais notórios.
Se um elo dessa cadeia de promiscuidade fica solto, o sistema vai se realimentando por si. Repetindo: a lei sozinha acaba com isso? Não, mas dá uma boa ajuda.
Muito maior e mais eficaz, por exemplo, do que se proibirem pura e simplesmente as doações lícitas de empresas para campanhas eleitorais na ilusão de que, assim, estará extinto o uso do caixa dois e, com ele, o ovo da serpente da corrupção no setor público.
Graça Salgueiro - MSM  
Entre os dias 25 e 29 de janeiro de 2014, a CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) celebra seu II Encontro em Havana, Cuba, reunindo representantes de 33 países para “debater” assuntos de interesse dessas regiões. Cabe salientar que a CELAC é mais um braço do Foro de São Paulo (FSP) e foi criada em 2011 pelo falecido Hugo Chávez, ex-presidente da Venezuela. Seu primeiro encontro deu-se oficialmente no ano passado no Chile, que ostentava a presidência pró-tempore da organização e foi passada para Cuba, na pessoa do ditador Raúl Castro.
dilmafidel
Dilma na CELAC em Havana: para os ditadores Castro, sorrisos, carinho e bilhões de dólares do povo brasileiro
Do mesmo modo que nos Encontros do FSP, a CELAC inicia com um encontro entre os coordenadores nacionais, que são os chanceleres dos países membros, onde estes estabelecem as metas e preparam o “documento final”, o que significa que nada será de fato debatido nos dias oficiais que, nesse caso, são 28 e 29, e posteriormente mais 20 declarações especiais serão dadas a conhecer. Como nos tribunais revolucionários, a sentença chega pronta antes do julgamento do réu.
A presidente Dilma esteve em Davos, Suíça, onde participou do encontro com países capitalistas e de lá deveria seguir para Cuba para participar da CELAC. Entre os endinheirados do mundo dona Dilma passou o pires, pedindo que investissem no Brasil, enquanto gasta o dinheiro desses investimentos com ditadores de republiquetas comunistas como a Cuba dos Castro.
Antes de seguir para Havana ela resolveu fazer uma “parada técnica” em Portugal, alegando necessidade de abastecer o avião, e hospedou-se, ela e a enorme comitiva de “aspones”, nos dois hotéis mais caros de Lisboa, cuja despesa total custou a bagatela de R$ 71.000,00. À noite saiu para jantar no restaurante mais caro da cidade e no domingo rumou para Havana onde deveria beijar as botas dos ditadores e inaugurar a primeira etapa do porto de Mariel. Dentre as asneiras ditas em seu discurso destaco as seguintes: “O Brasil acredita e aposta no potencial humano e econômico de Cuba”. “O Brasil quer tornar-se parceiro econômico de primeira ordem para Cuba (...) parceria bilateral de comércio em equipamentos para a saúde, medicamentos e vacinas, nos quais a tecnologia de ponta é dominada por Cuba”. Dispenso os comentários, uma vez que todo mundo sabe que Cuba é um fracasso tecnológico e não tem nada a exportar, além de sua ideologia assassina e seus espiões que já se encontram aqui, na forma de “médicos”. O discurso completo pode-se ver no final deste artigo.
Além dos bilhões doados aos cofres pessoais dos Castro com o programa “Mais Médicos”, dona Dilma financiou 80% da construção do porto de Mariel com dinheiro do BNDES, ou seja, de todos os brasileiros que sequer foram consultados, sendo - segundo palavras dela própria - 802 milhões de dólares na primeira etapa, e 290 milhões de dólares na segunda etapa, com recuperação de rodovias e ferrovias de acesso ao porto. Enquanto isso, as rodovias federais brasileiras continuam fazendo vítimas fatais todos os dias, por falta de sinalização e buracos no asfalto. Nos hospitais públicos pacientes são atendidos no chão dos corredores por falta de leitos disponíveis, e muitos pacientes morrem por não terem exames e tratamentos atendidos em tempo de salvar-lhes a vida.
Com toda essa dinheirama caída do céu, construiu-se um mega edifício especificamente para a CELAC que diz “buscar aprofundar a integração política, social e cultural da América Latina e o Caribe, baseado no pleno respeito pela democracia e direitos humanos”. O que Cuba entende por democracia e que direitos humanos são respeitados, uma vez que uma semana antes de ocorrer o encontro da CELAC a polícia começou a “advertir” e perseguir a dissidência, recolheu da rua os mendigos e as prostitutas, desconectou os celulares, redobrou a vigilância dos domicílios e prendeu alguns dissidentes? Os opositores ainda procuram pelo paradeiro de José Daniel Ferrer e Oscar Elías Biscet que foram detidos quando se dirigiam às Embaixadas da Espanha e Hungria em Havana. 72 horas antes do encontro começar, já haviam 250 dissidentes detidos, alguns dos quais se desconhece o paradeiro. 
O foro paralelo que a dissidência pretendia fazer foi abortado por vários fatores, dentre eles a vigilância ostensiva e a prisão domiciliar compulsória nas residências dos líderes opositores, além de muitos deles estarem detidos em lugares completamente desconhecidos de seus familiares. A respeito dessa cúpula paralela, o chanceler Bruno Rodríguez disse em uma coletiva de imprensa: “Não haverá aqui uma cúpula de governos e uma cúpula alternativa dos povos. Havana é o lugar onde podem confluir e confluem naturalmente governos e povos em uma só sala, em um só lugar, em um só evento”, ratificando o autoritarismo ditatorial que não respeita a democracia, a divergência de opinião, nem a liberdade de expressão, malgrado afirme cinicamente que a CELAC é o lugar onde “podem confluir governos e povos”.
Cuba ser anfitriã e pertencer a uma organização que diz defender esses princípios é uma bofetada na cara dos povos livres, cujos governos se curvam e se calam ante todos os crimes que se cometem naquela ilha há 55 anos. Nesse encontro a OEA foi convidada a participar, e seu Secretário Geral, José Miguel Insulza, aceitou o convite. Isso gerou ações de repúdio dos chilenos e da velha guarda cubana em Miami, que denunciam a conivência dos países livres com tamanha opressão e falta total de liberdades, alegando que Insulza deveria cobrar pluralidade de partidos, liberdade de expressão, associação e crença religiosa, direito de ir e vir e que se cumpra a Carta Democrática Interamericana. Cuba foi suspensa da OEA em 1962 por ser declaradamente um país comunista, mas em 2009 por ser comunista e apreciar a ditadura cubana, o próprio Insulza retirou a suspensão, mesmo que NADA tenha mudado no regime, mas os irmãos Castro rechaçaram a oferta.
bankiraulTambém foi convidado o Secretário Geral da ONU, Ban Ki-Moon, que em seu discurso fez um chamado a “fortalecer o sistema de direitos humanos” e expressou sua confiança de que este encontro “contribuirá para a paz, o desenvolvimento e os direitos humanos na região”. Palavras ao vento, formalidades protocolares mas nenhuma crítica efetiva ou condenação ao regime de escravidão a que são submetidos 11 milhões de seres humanos. Todos, sem exceção, se curvam e se rendem aos crimes cometidos pelos ditadores Castro e os tratam com respeito e admiração. TODOS os presentes são coniventes com o genocídio cometido há 55 anos contra gente inocente, ainda hoje, durante este evento. O presidente do México, Henrique Peña Nieto, que ainda não havia visitado Cuba desde sua eleição em 2012, correu a fazer o beija-mão (ou beija botas), e resolveu “anistiar” 70% da dívida de 487 milhões de dólares que a ilha contraiu há mais de 15 anos. TODOS fazem caridade e financiam uma ditadura maldita com o dinheiro do povo, desavergonhadamente!
Além de falar dessas abstrações, a CELAC “defende” a “independência” da Costa Rica que, segundo eles, é uma “colônia do império”, a erradicação da pobreza e da fome, e uma declaração de reconhecimento a Chávez como idealizador da organização. Porém, a mais cínica e sórdida das proposições desse encontro é a que declara que a América Latina é uma “zona de paz”, e que “desterra-se para sempre a ameaça e o uso da força em nossa região”. Certamente isto foi imposto pelas FARC que estão lá em Havana com a farsa do “acordo de paz” com o governo da Colômbia e que, provavelmente, participarão dos encontros dos dias 28 e 29. Já está agendado oficialmente um encontro entre o terrorista presidente do Uruguai, José Mujica, com representantes das FARC, que disse ter a intenção de se colocar como “mediador” entre o bando terrorista e o governo colombiano.
Num encontro ocorrido em Miami com a velha guarda opositora e convidados, a médica epidemióloga venezuelana, Dinorah Figuera, citou a influência cubana em seu país, fazendo denúncias muitíssimo graves, sobretudo para o Brasil que agora escancarou suas portas para a infiltração desses agentes. Disse a doutora Dinorah:
“A corrupção e o escasso recurso humano devastaram a saúde pública na Venezuela. Hoje a Venezuela tem a mais alta taxa de mortalidade da América Latina, a primeira taxa de gravidez precoce, há um grave problema de saúde pública, de malária, de dengue, de tuberculose que eram enfermidades que haviam sido reduzidas, mas procura-se remediá-las só com médicos cubanos que substituem os médicos venezuelanos”
Cabe salientar que, quando os médicos cubanos começaram a chegar no Brasil, Cuba passava por uma forte epidemia de dengue e cólera que já vinha de vários anos, mas isso foi criminosamente omitido da sociedade brasileira. E eles não param de chegar, porque este é um anos eleitoral e, coincidência ou não, o governo  brasileiro tem como meta contratar 13 mil no total.
E no discurso de abertura o ditador hereditário Raúl Castro disse com a maior desfaçatez, de cara para os Secretários da OEA e ONU, de cujas entidades fazem parte os Estados Unidos, que aquele grupo que reúne os países das três Américas, menos Estados Unidos e Canadá, deveria cooperar entre si como “um antídoto contra a espionagem dos Estados Unidos”. Ora, Cuba sempre espionou e continuará espionando quem lhe dá na telha, e todos aplaudem este engodo talvez porque prefiram ser espionados por Cuba em vez do império...
E para este mega evento, foi construído um moderníssimo edifício intitulado Centro de Imprensa que deve ter custado uma fortuna, mas isso para os Castro não é problema porque somos nós, os otários brasileiros, que estamos pagando. Pode-se constatar a magnitude da edificação no vídeo da abertura ocorrida no dia 28.
A imprensa nacional não denuncia nada disso, limitando-se apenas a reportar alguns fatos, com a candura de quem informa um evento esportivo. Nada é o que parece, se tomarmos apenas o que sai na mídia. Tal como ocorreu com o FSP, a CELAC será mais uma organização que a mídia tratará com displicência enquanto seus membros conspiram contra a liberdade de sua própria gente.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A dinheirama para Delúbio: armação ou sem-vergonhice contagiosa?
Reinaldo Azevedo - VEJA

delúbio
Ser mensaleiro, ora vejam, pode render mais de milhão. Isso se o sujeito for um condenado e estiver em cana — ou, ao menos, dormindo na cadeia. Em plena operação do esquema, rendia muito mais. O site criado para arrecadar dinheiro para pagar a multa de Delúbio Soares já teria juntado mais de R$ 1 milhão de reais.
É um acinte! Por que escrevo “teria juntado”, pondo a informação sob suspeita? Porque só nesta quinta-feira R$ 600 mil caíram na conta de uma vez só. A multa que Delúbio tem de pagar é R$ 466.888,90. Até ontem, o total arrecadado era de R$ 1.013.657,26.
Quem é essa gente que doa com tanta generosidade?. O único ente oficial que vai ter acesso aos nomes é a Receita Federal, já que esse tipo de operação é tributada — e, claro!, o partido. Se os próprios comandantes do PT fizeram boa parte das doações, como deve ter acontecido, ninguém ficará sabendo.
É claro que o PT decidiu debochar da Justiça como um todo e do Supremo Tribunal Federal em particular. Ao criar um site para doações de pessoas que permanecerão anônimas, tenta fazer de conta que a sociedade está contra o tribunal. O petista Marco Aurélio Garcia, que é assessor especial de Dilma para assuntos internacionais, não escondeu a intenção: “Isso é uma resposta ao ministro Joaquim Barbosa. Ele, com seus exageros, acabou mobilizando ainda mais a militância”.
Os mensaleiros também trocam a grana entre si. Da campanha de Genoino, sobraram R$ 30 mil reais, que ele decidiu doar a Delúbio. Da de Delúbio, sobrarão mais de R$ 500 mil, que vão para José Dirceu e João Paulo Cunha…
É um mau sinal. Estamos diante da evidência de que o PT, além de não admitir os crimes cometidos, ainda parece se orgulhar deles e da suposta adesão de sua militância. Digo que a adesão é suposta porque, enquanto os respectivos nomes dos doadores continuarem em sigilo, o bom senso obriga a desconfiar.
E notem o seguinte: a hipótese da farsa é a benevolente. A não-benevolente é mais grave. Se há mesmo tanta gente disposta a condescender com o crime e a colaborar com criminosos, é sinal de que a sem-vergonhice é contagiosa.
Exijamos providências de nós mesmos, os indivíduos 
Colombo Mendes - FSP  
“Todos reclamam reformas, mas ninguém se quer reformar.”
Mariano José Pereira da Fonseca, o Marquês de Maricá

Aluga-se namorado
Pressão sobre mulheres solteiras em festas como Ano-Novo chinês faz prosperar o mercado de aluguel de companhia 
MARCELO NINIO - FSP
Enquanto milhões de chineses se reúnem hoje com as famílias para comemorar o seu Ano-Novo, na data mais importante do calendário nacional, os solteiros viverão uma prova de fogo.
É o momento em que eles são encurralados por parentes, vizinhos e enxeridos de plantão com cobranças sobre ainda não terem casado, listas de potenciais candidatos e intermináveis sermões.
Antes disso, muitos ainda têm que enfrentar o caos dos transportes, junto com outros milhões de migrantes a caminho de casa.
Como ocorre a cada ano, será o maior deslocamento humano do planeta: desta vez, a previsão é de 3,6 bilhões de viagens durante os 40 dias da temporada.
A pressão sobre as solteiras é tamanha que uma jovem da província de Hubei, no leste do país, foi internada nesta semana com esgotamento nervoso.
À imprensa local Wang Yan, funcionária de uma firma de investimentos prestes a completar 30 anos, disse que desmoronou ao pensar que viveria uma repetição do último Ano-Novo, quando foi "bombardeada" por dezenas de parentes ao aparecer sem namorado.
Ser solteiro após os 30 é um tabu na China, principalmente para as mulheres. Pela tradição, a partir dos 27 as mulheres já são consideradas encalhadas e ganham o rótulo pejorativo de "sheng nu" (sobra). A angústia deu origem a um mercado de namorados de aluguel, que oferecem companhia às solteiras nas festas familiares para calar os parentes e diminuir o estresse do feriadão.
No popular site de vendas on-line Alibaba, há mais de mil anúncios do serviço, com opções e preços variados. Procurado pela Folha, um deles disse que tem "centenas de clientes" durante o ano, mas que o Ano-Novo é a alta estação.
"Você está encalhada, não é tão jovem e não aguenta mais ser importunada por parentes? Quer um namorado para encarar a família e os amigos? Sou um rapaz bem-humorado e positivo, que pode lhe proporcionar um agradável feriado", diz o seu anúncio.
Por email, o rapaz diz que tem 28 anos e trabalha numa empresa de comércio eletrônico. Prefere não revelar o nome e pede para ser identificado pelo apelido que usa nos anúncios: 51haoquan.
O preço é salgado: 2000 yuans por dia (R$ 800) para ele bancar o namorado, sem contar as despesas com transporte.
É o equivalente à renda mensal média da população chinesa, portanto um preço inacessível para a maioria. O serviço tem como alvo mulheres da classe média urbana, com boas carreiras, mas sem um namorado.
O anúncio de 51haoquan enuncia algumas regras:
"Posso abraçar e ficar de mãos dadas de graça, mas só uma vez. Não durmo na mesma cama! Se tiver que dormir num sofá, cobro mais 600 yuans (R$ 240)".
Ele conta que a maioria de suas clientes é de mulheres "acima da idade de casar" e que o negócio vai bem.
"Não é só nos feriados. Elas querem um namorado' para fazer compras, ir ao cinema e se exibir para os amigos. Há também as amantes de dirigentes do partido. Essas só querem uma companhia", explica ele.
Argentina: país-bandoneón 
Com a atual crise, a Argentina tornou-se laboratório avançado do que não se deve fazer 
Marcos Troyjo - FSP
Nenhum objeto é tão representativo da Argentina quanto o bandoneón. Seu som é a trilha sonora do país. Vaivém que musicaliza diferentes estados de alma. Útil metáfora da Argentina, sua economia e potencialidade. Expansão e contração que há 200 anos pontuam sua história.
A segunda metade do século 19 foi de grande arrancada argentina. O centro cíclico da economia mundial era Londres. Subia a renda na Inglaterra pela produtividade industrial, elevava-se a demanda por bens em que a nação platina dispunha de vantagens comparativas.
A Argentina deliciava-se nas trocas ricardianas. Exportar commodities bastava. Em 1910, nossos vizinhos ostentavam a 10ª renda per capita mundial "" equivalente à da França. Hoje, isso significaria riqueza por habitante igual à dos EUA.
Converse com um portenho de mais idade. Ele dirá que cresceu na certeza de que seu país seria potência tão robusta quanto os EUA. Atingira na década de 1890 acesso à educação fundamental que o Brasil só alcançou 100 anos depois.
Na imponente Buenos Aires, arquitetos europeus traçavam suntuosos "hôtels particuliers". Contavam-se tantos teatros quanto em Londres; livrarias de fazer inveja a Paris.
Até 1930, Deus era argentino. Desde então, a decadência singulariza o país. É a única nação que, com indicadores socioeconômicos comparáveis aos das mais avançadas, deixou de ser "desenvolvida".
Por que isso aconteceu?
Nos 1940, Prebisch alertava compatriotas de que o mundo mudaria. Os EUA fortaleciam-se na condição de protagonista industrial --e, ao mesmo tempo, de principal potência agrícola. Elites latino-americanas não conseguiriam manter padrão de vida e engrossar fileiras de classe média apenas com renda exportadora de commodities eternamente valorizadas.
Era "industrialização ou morte". Daí a política de substituição de importações. Em seu nome, novas e crescentes intervenções em toda economia. Se hoje o Ministro da Fazenda ameaça fechar lojas que ajustam preços, decreto peronista de 1947 determinava quanto valeria os itens no cardápio dos restaurantes.
É toda uma história de distorções. Apoio a indústrias nascentes descambando para protecionismo setorial. Patriotismo confundido com nacionalismo. Classe política que não é de esquerda ou direita, apenas fisiológica. Desperdício de extraordinários recursos físicos e humanos. Sociedade cara demais para o que produz.
Equívocos recentes somam-se às disfuncionalidades estruturais. Estranhamento com a banca internacional. Imaginada parceria com a China. Bolivarianismo como visão de mundo. Regras do jogo instáveis. Ecossistema público-privado adverso à inovação. Em suma, receita segura de uma potência estacionária.
Com a atual crise, a Argentina tornou-se laboratório avançado do que não se deve fazer. Aprendamos com as valiosas lições do vizinho. Sem correção de rumo, em futuro não distante o Brasil também corre risco de transformar-se num "país-sanfona" --expandindo e contraindo à mercê da conjuntura internacional e da indefinição de estratégias.
Polêmica universitária: Estudantes neonazistas devem ser denunciados? 
Philipp Alvares de Souza Soares e Maximilian Popp - Der Spiegel 
O professor falava sobre "lições básicas do direito civil" para estudantes calouros na Universidade de Bochum, na Alemanha, quando um grupo de ativistas "Antifa" (antifascistas) de esquerda irrompeu na sala. Vestidos como Papai Noel, eles correram até um estudante e o apontaram.


Poucos na sala conheciam o rapaz, que tinha cabelo cortado rente e rosto rechonchudo. Mas Michael Brück, 23, é bem conhecido nos círculos de extrema-direita. Ele foi membro do grupo neonazista Resistência Nacional Dortmund até que este foi proibido, há um ano e meio. Seus membros atemorizavam pessoas contrárias a eles, realizavam festas em comemoração a Adolf Hitler e atacavam imigrantes e policiais com facas e spray de pimenta. Brück é vice-presidente regional do partido extremista Die Rechte --ou A Direita.
O palestrante gritou "Saiam! Saiam!" Os ativistas gritaram: "Seu aluno é um neonazista!" Então o professor Borges se aproximou deles, segurou um Papai Noel pelo braço e o empurrou para a porta. Houve empurrões e golpes. Borges disse mais tarde que foi atacado e agredido por pessoas mascaradas. Mas um vídeo gravado com celular não confirma que os ativistas iniciaram a briga. "Eu não pude aceitar que tomassem atitudes contra um dos meus alunos", disse Borges. Ele retomou a palestra com o nariz sangrando.
A operação da Antifa levanta uma questão que muitas universidades e faculdades da Alemanha estão enfrentando. Como as universidades devem reagir quando extremistas de direita estudam nos campi? E como alguém deve reagir se for publicamente denunciado?
Em novembro passado, ativistas de esquerda na Universidade de Hanôver desmascararam uma estudante como um membro graduado do Partido Nacional Democrático (NPD) de extrema-direita. O instituto de ciência política da universidade condenou o comportamento da Antifa como uma "forma de protesto denunciatória". E Marian Döhler, diretora do instituto, disse: "Nós ensinamos independentemente da opinião política, afiliação religiosa ou outras características". A estudante do NPD postou uma mensagem no Facebook dizendo que a ação foi "a melhor publicidade para o partido".

Abordagens diferentes

Outras universidades reagem de modo diferente. A Universidade de Potsdam tentou impedir que um estudante contasse seu período no NPD como um de seus estágios de trabalho obrigatórios. O estudante moveu uma ação legal contra a decisão e venceu.
Órgãos estudantis também reagem de modos diferentes. Em Leipzig e Bielefeld, neonazistas foram denunciados em salas de aula. Mas em Trier e Colônia, extremistas de direita foram eleitos para comitês estudantis. Os neonazistas com frequência estudam direito para que possam representar seus camaradas como advogados mais tarde. Segundo Marc Brandstetter, do grupo antinazista Endstation Rechts, as mulheres muitas vezes estudam para ser professoras --possivelmente para poderem transmitir a ideologia nazista para as crianças.
Mas isso não é motivo para impedi-las de entrar nas universidades. O reitor da Universidade de Bochum, Elmar Weiler, criticou "o pensamento extremista de direita" depois do incidente na sala de aula, mas disse que o estudante de direito não deveria ter sido denunciado. O professor Borges disse que ninguém que cumpra as exigências formais da universidade deve ser privado de seu direito de estudar. Ele acrescentou que, se encontrar Brück, lhe dará um "conselho urgente" para repensar sua ideologia.
O órgão representativo dos estudantes da faculdade de direito emitiu uma declaração condenando "a discriminação com base no envolvimento em partidos políticos", mas salientou mais tarde que não havia espaço para a ideologia de extrema-direita entre os estudantes. O conselho não quis responder a mais perguntas, dizendo que qualquer debate adicional "prejudicaria a reputação da faculdade".
Mas o silêncio resolve o problema? Andreas Zick, diretor do Instituto de Pesquisa de Conflitos em Bielefeld, disse que as universidades precisam lidar com o problema de maneira mais firme. "Não podemos expulsá-los, mas podemos claramente expressar nossa posição", disse Zick.
No início do semestre de inverno, a Universidade de Bielefeld distribuiu distintivos e cartões-postais para os estudantes do primeiro ano com o slogan "Uni Ohne Nazis" (universidade sem nazistas). Zick organizou uma palestra sobre o tema e convidou palestrantes contrários ao racismo assim como um dos advogados que representam os parentes das vítimas da célula terrorista neonazista NSU. "Não podemos deixar só para a Antifa lidar com isso", disse Zick.
Expulsar os estudantes de extrema-direita é polêmico mesmo entre os grupos antifascistas. O método se assemelha ao comportamento dos neonazistas que agridem pessoas que discordam deles, disse um ativista baseado em Berlim.
Depois da briga na Universidade de Bochum, a ira da maioria dos estudantes na página da universidade no Facebook foi dirigida contra a Antifa --e não contra o aluno neonazista.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Governo de Kiev tenta manter clima de terror em protestos
Benoît Vitkine - Le Monde 
Onde está Dmitry Bulatov?
Desde que ele desapareceu, há uma semana, o rosto mais famoso do "AutoMaidan", um dos braços mais criativos do movimento de protestos contra o governo ucraniano, tem sido visto em cartazes em todas as ruas de Kiev. Uma das únicas pistas que seus amigos têm é a última mensagem postada no Facebook por esse ativista de 35 anos: "Estou recebendo cada vez mais ameaças. As trevas estão se abatendo sobre nós, mas vamos vencer."
"Queremos acreditar que ele está escondido em algum lugar", suspira Alina Lizunova, 26, uma das centenas de motoristas do AutoMaidan cujas patrulhas, bloqueios a ônibus da polícia e cortejos motorizados até as ricas residências de deputados irritaram o governo. "Mas é impossível não pensar que ele pode ter tido o mesmo destino que Yuri Verbitsky."
O corpo desse tranquilo pai de família de Lviv foi encontrado sem vida em uma floresta nos arredores de Kiev no dia 22 de janeiro, dia em que Bulatov desapareceu. Ferido durante confrontos na capital, ele havia sido levado ao hospital na companhia de Igor Lutsenko, um dos líderes dos militantes de Maidan. Ambos foram sequestrados por homens à paisana, torturados e abandonados no meio da floresta. Lutsenko escapou, mas não Verbitsky.
Das dezenas de casos de desaparecimentos assinalados nas últimas semanas, a Euromaidan SOS, uma estrutura especializada em auxílio aos manifestantes, registrou 36 casos não solucionados. "Nem todos são tão preocupantes quanto o de Bulatov", diz Maria Tomak, membro do grupo. "Mas encontrar pistas dessas pessoas é um trabalho de formiguinha." Os manifestantes detidos para averiguação podem sumir do radar para reaparecerem alguns dias depois, livres ou diante de um tribunal. Os outros vivem com medo.
"Cirurgia pesada"
Além de uma repressão mais comum --espancamento de jornalistas e manifestantes, condenações a penas de prisão preventiva, uso de capangas--, o governo parece ter procurado criar um clima de incerteza e de terror. Embora a tensão tenha diminuído nos últimos dias, essa mistura de repressão arbitrária e de ameaça permanente que paira sobre os manifestantes explica em boa parte o clima de desconfiança no qual a presidência e a oposição começaram a dialogar, na terça-feira (28).
Elas também explicam a recusa da oposição em votar a lei de anistia aprovada na quarta-feira somente pela ala presidencial e que impõe condições difíceis de serem aceitas pelos manifestantes.
Essa desconfiança é perceptível no principal centro médico da oposição, instalado na Casa dos Sindicatos, na praça da Independência. Os médicos e enfermeiros que trabalham ali, ameaçados de demissão caso sejam identificados por seus empregadores, se recusam a ser fotografados. Esse centro, assim como os postos médicos instalados na rua ou os "mini-hospitais" abrigados na casa de cidadãos, teve um aumento em suas atividades desde os confrontos da semana passada.
"A natureza dos ferimentos mudou. Da noite para o dia passamos a fazer cirurgias pesadas", afirma Oleg Moussiy, um anestesista de Maidan. "Precisamos também receber todos os feridos que não querem mais ir até os hospitais públicos". Houve muitos casos de militantes feridos que foram presos pela polícia antes mesmo de receberem primeiros-socorros.
O médico também dá detalhes sobre os ferimentos que suas equipes tiveram de tratar, que provam as violações cometidas pelas tropas de choque, que deram tiros com balas de verdade e usaram bombas de efeito moral com pedaços de metal. Três pessoas morreram durante esses confrontos. Todos os dias continuam chegando ao centro médico manifestantes que sofrem ataques de capangas assim que saem do centro de Maidan.
Mas é a AutoMaidan, a organização de Dmitry Bulatov, que mais tem sofrido com esses métodos. Seus líderes foram todos presos, espancados, e o carro deles foi destruído em armadilhas feitas pelas autoridades no domingo e segunda-feira: falsos pedidos de ajuda se revelaram verdadeiras emboscadas. Ativistas tiveram seus veículos incendiados por desconhecidos --11 só na quarta-feira (29)-- depois que a placa do carro foi divulgada na internet.
Legado da máfia contamina o solo do sul da Itália
Jim Yardley - NYT

Nadia Shira Cohen/The New York Times
Maria Formisano, que foi diagnosticada com câncer de mama, em sua casa em Marigliano, na Itália 
Maria Formisano, que foi diagnosticada com câncer de mama, em sua casa em Marigliano, na Itália
Este mês, o governo italiano chegou ao epicentro dos domínios da Camorra usando uma retroescavadeira. Policiais com botas pretas lustrosas posaram para as câmeras de TV enquanto a retroescavadeira rasgava a terra sob um matagal em busca de barris de lixo tóxico ou de algum outro sarcófago de detritos industriais ilegais.
Dois informantes da máfia que estão presos tinham identificado o terreno como um dos locais secretos onde a Camorra havia enterrado resíduos tóxicos, perto de uma região ao norte de Nápoles conhecida como o Triângulo da Morte devido ao surgimento de vários casos de câncer em série. Um grupo de ambientalistas estima que 10 milhões de toneladas de lixo tóxico foram ilegalmente enterradas nesse local desde o início da década de 1990, um negócio que gerou bilhões de dólares para a máfia enquanto substâncias tóxicas contaminavam o solo e o lençol freático da região.
Apesar de o descarte de substâncias tóxicas ter sido amplamente documentado, a crise do lixo só tem piorado, uma vez que outro problema semelhante, o da queima ilegal de resíduos tóxicos, fez a região ganhar outro apelido: o de Terra das Fogueiras. Com as novas revelações alimentando a indignação pública, a dúvida agora é saber se o governo italiano vai confrontar a Camorra e limpar essa bagunça --e se essa bagunça pode realmente ser limpa.
"Aqui, o meio ambiente está envenenado", disse o doutor Alfredo Mazza, cardiologista que documentou um aumento alarmante nos casos de câncer na região em um estudo de 2004 publicado pela revista médica britânica The Lancet. "É impossível limpar tudo. A área é grande demais." E acrescentou: "Nós estamos vivendo em cima de uma bomba".
O lixo é um problema perene na Itália à medida que os aterros ficam sem espaço, desencadeando crises periódicas em cidades como Roma e Nápoles. Mas a terra da Camorra, que se estende do mar Tirreno e vai até o sopé dos Apeninos, representa um quadro particularmente vivo de beleza arruinada.
Lá, o lixo se espalha ao longo de estradas, é atirado sob viadutos ou jogado sobre canais de irrigação. Ratos procuram comida em meio a placas de amianto descartadas, telas de computadores quebrados e latas de tinta vazias. Frequentemente, se veem colunas de fumaça preta subindo para o céu, além de montes de lixo ilegalmente queimado nas encostas distantes ou em campos abandonados.
Toda essa paisagem é resultado de décadas de negociações secretas entre industriais italianos e estrangeiros --que tentavam evitar os altos custos do descarte legal de resíduos perigosos-- e a Camorra, uma das três principais organizações mafiosas da Itália, que detectou o potencial de lucrar muito com o descarte ilegal desse lixo.
Ao enterrar o lixo em seu quintal, perto de Nápoles e da região circundante da Campânia, onde a Camorra nasceu, a máfia garantiu uma medida de proteção e silêncio. Os chefões da organização muitas vezes exercem uma poderosa influência sobre a economia e os políticos locais, especialmente em pequenas cidades como Casal di Principe.
"A máfia ganhou dinheiro com o lixo", disse Ciro Tufano, 44, contador que passou duas décadas pressionando as autoridades para que um lixão de resíduos tóxicos localizado perto de sua casa fosse limpo. "Os políticos devem ter conhecimento sobre isso, mas eles não se importam. Ninguém estava seguindo esse rastro de lixo."
Mas o público despertou para o tema nos últimos meses, depois da divulgação de uma série informações e da realização de vários protestos, que levaram milhares de pessoas às ruas de Nápoles em novembro do ano passado.
Algumas revelações surgiram após a queda do sigilo do depoimento prestado em 1997 por Carmine Schiavone, ex-tesoureiro do clã Casalesi, que é uma das facções mais poderosas da Camorra. Falando sob sigilo para uma comissão parlamentar de inquérito, Schiavone havia descrito operações noturnas durante as quais mafiosos vestidos com uniformes da polícia supervisionavam o enterro de lixo tóxico proveniente de locais tão distantes quanto a Alemanha.
"Nós estamos falando de milhões de toneladas", advertiu Schiavone em seu depoimento, concedido há 17 anos, no qual ele retratava um desastre ambiental.
Em seguida, a revista italiana L' Espresso publicou uma reportagem de capa intitulada "Beba Nápoles e morra". O artigo apresentava detalhes de uma pesquisa de saúde pública realizada em 2008 pela Marinha dos Estados Unidos, que mantem uma base em Nápoles. O estudo da Marinha norte-americana, que não tinha sido divulgado na Itália, detectou uma grave contaminação da água local. O levantamento descreveu "riscos inaceitáveis" em algumas áreas e recomendou que todos os norte-americanos estacionados na região utilizassem apenas água mineral engarrafada para beber, preparar seus alimentos e escovar os dentes.
No mês passado, o primeiro-ministro Enrico Letta aprovou um decreto para aumentar as penas de prisão para o descarte ou a queima ilegal de resíduos. Neste mês, o governo italiano anunciou que um contingente de soldados italianos realizaria patrulhas contra o descarte de resíduos ilegais na região.
"Essa é uma resposta a uma situação emergencial", disse o general Sergio Costa, comandante da polícia ambiental da Itália para a região de Nápoles. "Os políticos agora têm que responder por que as pessoas estão protestando nas ruas."
A operação de escavação com a retroescavadeira, iniciada neste mês, deveria demonstrar a recente determinação do governo italiano em combater o problema. O local escolhido fica fora dos limites habituais da zona de descarte do "Triângulo da Morte", mas em uma cidade que é o quintal do clã Casalesi. Jornalistas foram convidados em meio a expectativas de que a retroescavadeira desenterraria latas de resíduos perigosos. Em 2008, um caminhão de transporte de produtos químicos foi encontrado sob um terreno localizado a poucos quilômetros de distância desse local.
Mas o que surgiu depois de horas de escavação foi apenas sujeira e ceticismo. Autoridades disseram mais tarde que as escavações continuariam por várias semanas e que grandes volumes de amianto e lama contaminada por resíduos industriais já tinham sido removidos do local. O proprietário do terreno, Stanislao Di Bello, um advogado que comprou o lote em 1990 como forma de investimento, assistiu ao trabalho usando óculos escuros --e não parecia estar impressionado. Ele disse que as autoridades já tinham escavado o terreno no início da década de 1990, mas que nada havia sido encontrado.
"Agora, 16 anos depois, o filme se repete", disse ele.
A grande questão é saber se os materiais tóxicos enterrados podem causar uma crise de saúde pública. Mais de 500 mil pessoas vivem na região, e o estudo da Lancet e outros relatórios documentaram taxas de câncer muito acima da média nacional no local. Embora nenhum estudo tenha tentado provar que há uma ligação direta entre o lixo e os casos de câncer, um relatório da OMS (Organização Mundial da Saúde) produzido em parceria com instituições de saúde nacionais e locais documentou casos concentrados de câncer de fígado, rim, pâncreas e outros em áreas conhecidas como locais de descarte de resíduos tóxicos.
Na cidade vizinha de Marigliano, o reverendo Giannino Pasquale viu o câncer se espalhar rapidamente entre seus paroquianos. Ele abriu o livro verde que serve como registro de óbitos da paróquia e contou as ocorrências do ano passado: 27 mortes, 10 por câncer. Um dos voluntários mais dedicados da paróquia morreu de câncer no pâncreas em 2012, três anos após a sua mulher também ter sido vitimada pelo câncer.
"Minha sensação é de que há um acordo entre os partidos políticos e a Camorra", disse Pasquale. "Basta olhar ao redor. Pneus e pedaços de amianto são atirados nos acostamentos das estradas. Por que é que não é possível fiscalizar esta área?"
Luigi Sodano, 57, que é membro da paróquia, perdeu mais de 60 quilos durante sua batalha contra o câncer de pâncreas. A mãe de Sodano tem câncer de bexiga, seu sobrinho tem câncer de testículo e a esposa de seu sobrinho tem câncer de mama. Ele se sente tão apático devido ao tratamento de radioterapia que raramente sai de seu apartamento.
"Eu sou o anjo dele, pois estou sempre com ele", disse sua mulher, Angela Dioguardi, 53.
Costa, o comandante da polícia ambiental, disse que a Camorra parou de enterrar os resíduos na região há alguns anos e que, agora, a organização criminosa está enviando lixo tóxico ilegalmente para a Europa Oriental ou os Balcãs. A área total dos terrenos onde os resíduos estão enterrados é relativamente pequena, disse Costa, mas os riscos são significativamente mais elevados porque os lixões estão espalhados por uma região muito grande.
"Os resíduos se infiltram por todos os lugares", disse ele. "Você pode ser um agricultor que involuntariamente está irrigando suas terras com água poluída."
Os agricultores locais se queixam de que os preços de seus produtos estão caindo porque os atacadistas estão desconfiados e se recusam a comprá-los. Também há receio sobre o famoso queijo muçarela da região, embora Costa tenha dito que a produção foi rigidamente controlada e que nenhum caso de contaminação ocorreu.
Ele relembrou os primeiros dias da crise do lixo, quando ouviu uma conversa grampeada entre um chefão da Camorra e outro mafioso. "Nós estamos poluindo a nossa própria casa e a nossa própria terra", disse o mafioso. "O que é que nós vamos beber?" "Seu idiota", respondeu o chefão. "Nós vamos beber água mineral."

Tradutor: Cláudia Gonçalves
Obama escolhe militar especializado em criptografia para assumir direção da NSA 
Vice-almirante Michael S. Rogers, que ainda ser confirmado pelo Senado, vai substituir Keith Alexander 
OM
 
O presidente norte-americano Barack Obama vai indicar o vice-almirante Michael S. Rogers como novo diretor da Agência Nacional de Segurança (NSA, da sigla em inglês), que é responsável pelas operações de espionagem do país, informaram nesta quinta-feira (30/01) os jornais The New York Times e USA Today. Ele substitui o general Keith Alexander, que vai se aposentar em março.

Michael Rogers, em foto oficial da Marinha dos EUA
Rogers, que é especializado em criptografia, assume o cargo em meio às revelações de espionagem de líderes mundiais feitas pelo ex-agente Edward Snowden, que está asilado na Rússia.
Para assumir o cargo, ele precisa ser aprovado no Senado, onde deve enfrentar questionamentos sobre as atividades de espionagem da NSA. Atualmente, Rogers é responsável pela parte de guerra cibernética da Marinha dos EUA.
Mudanças
O governo dos EUA afirma que a saída de Alexander estava prevista. Porém, isso não impediu que, após reclamações de chefes de estado de todo o mundo, Washington anunciasse mudanças na agência em meados deste mês – entre elas, de que líderes de nações aliadas não serão mais espionados, "a menos que exista um forte motivo de segurança nacional".
Obama também anunciou que os dados telefônicos coletados pelas agências de inteligência dos EUA deixariam de ser controlados pelo governo, mas ficariam sob a tutela de um setor privado e independente.
Sempre que precisarem acessar esse banco de dados, os agentes norte-americanos terão que obter autorizações judiciais específicas do tribunal secreto de vigilância (Fisa, em inglês).
O escândalo de espionagem e monitoramento em massa deflagrado há seis meses pelo ex-analista da NSA Edward Snowden abalou a relação dos EUA com alguns países. Documentos revelaram que a presidente Dilma Rousseff foi monitorada, bem como seu colega mexicano, Enrique Peña Nieto, e a chanceler alemã, Angela Merkel. Países europeus também vêm criticando duramente as medidas adotadas pelos EUA, sendo que uma comissão foi criada no Parlamento da União Europeia especificamente para analisar o tema.
Preconceito em Coimbra vai muito além de xenofobia contra brasileiros, dizem estudantes
Cartazes fazem parte de campanha que também denuncia racismo, machismo e homofobia no campus português
Paulo Pastor Monteiro - OM 
Os brasileiros e os pretos deveriam morrer.
‘Mas você é brasileira!’ – quando recusei uma investida sexual
‘Burro! Aprenda a falar/escrever o português direito’ — tudo isso porque sou brasileiro
‘Sabe o quê brasileira fala quando vai tirar foto? Pênis’ – depois ele sorriu ironicamente...

Cartazes de protesto com os dizeres acima ganharam as redes sociais nos últimos dias denunciando a xenofobia praticada contra brasileiras e brasileiros estudantes da Universidade de Coimbra, em Portugal. A repercussão das mensagens na internet, entretanto, esconde uma realidade muito mais complexa: o ódio contra estrangeiros é apenas uma das formas do preconceito perpetrado diariamente no campus universitário português. Indiscriminadamente, alunos e professores de Coimbra adotam, com agressividade, posturas racistas, machistas e homofóbicas.
"Queremos melhorar o ambiente da Universidade de Coimbra para os atuais e futuros estudantes, sendo eles portugueses ou brasileiros, e isso só se faz quando os problemas são realmente expostos e tratados, não quando se finge que não acontecem”, afirma em entrevista por email a Opera Mundi os membros do movimento estudantil responsável pela manifestação: Jéssica Araldi, Vinicius Cabrera e Alexandra Correira. 
Reprodução/Lista R - Reset à AAC
O que houve foi uma confusão criada a partir de uma versão equivocada que circulou na internet. No início, acreditou-se que os cartazes faziam parte de uma manifestação organizada apenas por brasileiros vítimas de xenofobia em Coimbra.
Mais tarde, viu-se que a história não era bem essa. Durante uma campanha eleitoral para uma instituição acadêmica discente, uma das chapas estudantis adotou como bandeira política a denúncia das diversas formas de opressão presenciadas na universidade — entre elas, o preconceito contra brasileiros. Resolveram então produzir “ensaios” e estampar cartazes com as agressões ouvidas e presenciadas por alunos. 
Reprodução/Lista R - Reset à AAC
A chapa Lista R – Reset à AAC, organizadora da manifestação, lamentou a descontextualização da campanha e disse que se assustou com a repercussão equivocada. Os membros do grupo, contudo, confirmaram que há sim casos de xenofobia contra estudantes estrangeiros, brasileiros ou não.
“Isso não é uma guerra entre portugueses e brasileiros. Estamos todos juntos no combate a todo tipo de discriminação”, afirmam os representantes da chapa.
Em nota, a Universidade de Coimbra disse que investigou o ocorrido e negou que haja casos de racismo na instituição, mas afirmou estar aberta a receber qualquer denúncia. "Refutamos categoricamente a acusação de que haja um ambiente de xenofobia na Universidade de Coimbra. Em qualquer caso, se viermos a ter conhecimento de alguma situação de discriminação efetiva em função da nacionalidade, atuaremos com determinação, nomeadamente através de ação disciplinar”, destacou o comunicado.
Reprodução/Lista R - Reset à AAC
Os estudantes, por sua vez, afirmam que são poucos os casos que chegam a ser denunciados — tanto pelo medo das vítimas, quanto pela falta de informações a respeito. Em função disso, os episódios ocorridos na Faculdade de Letras (FLUC) ganharam mais repercussão justamente terem sido denunciados à direção.
A Universidade de Coimbra afirma ter mais de 4 mil estudantes estrangeiros, de mais de 90 nacionalidades. Recentemente, Portugal tem investido na atração de alunos estrangeiros como forma de obter recursos para as instituições de ensino superior. Desde 2005, os repasses anuais às universidades caíram quase um terço. Em 2014, o corte será de 4,1%.
Após comercial para marca israelense, Scarlett Johansson deixa ONG pró-Palestina 
Atriz dos EUA perdeu posto de embaixadora da Oxfam, após colaborar com a empresa, que atua em assentamentos na Cisjordânia
OM 


A atriz Scarlett Johansson deixou o posto de embaixadora da organização beneficente Oxfam, após ter participado de uma propaganda de uma marca de refrigerantes israelense instalada na Cisjordânia, atual território da autoridade palestina. O anúncio foi dado pela própria instituição nesta quinta-feira (30/01), que afirma discordar da atitude da garota-propaganda, qualificando-a como “incompatível com seu papel na instituição”.

A campanha da empresa SodaStream foi produzida especialmente para ser exibida durante o Super Bowl — final do campeonato de futebol-americano dos EUA —, conhecido por ter comerciais milionários durante seus intervalos. Contudo, a parceria causou mal-estar entre os ativistas da Oxfam, pois a principal fábrica da marca fica situada no meio de um assentamento judeu na Cisjordânia.
"A Oxfam acredita que empresas como a SodaStream, que operam em assentamentos, agravam a pobreza e a negação dos direitos das comunidades palestinas que trabalhamos para apoiar", afirmou a organização. "Nos opomos a qualquer comércio dos assentamentos israelenses, que são ilegais sob a lei internacional", completou.
Agência Efe

Fábrica da SodaStream na comunidade de Maalé Adumim, na Cisjordânia; comercial custou à atriz seu papel na Oxfam

Em comunicado, a atriz norte-americana afirmou que apoiava a cooperação econômica e a interação social entre Israel e Palestina. No entanto, também concordou com o fim do acordo com a instituição de direitos humanos, por uma “fundamental diferença de opinião”. Ela colaborava com a Oxfam desde 2005 e em 2007 se converteu em embaixadora mundial de sua causa.

Vídeo banido
Além de causar polêmica pelo conflito entre Israel e Palestina, o vídeo acabou sendo banido do mercado publicitário norte-americano. Isto, pois no final da gravação, Scarlett diz : “Desculpe-me, Coca-Cola e Pepsi!”.
A atitude provocativa foi censurada pela Fox — canal responsável pela transmissão do Super Bowl neste ano. A emissora proibiu a divulgação do vídeo durante o intervalo do campeonato, temendo a reação das duas outras empresas de refrigerantes. 
Netanyahu se mostra impassível diante do isolamento crescente de Israel
Laurent Zecchini - Le Monde

Os líderes dos partidos da esquerda israelense têm comparado o primeiro-ministro ao comandante do Titanic: assim como Edward Smith, que havia ignorado as mensagens de alerta sobre as formações de icebergs, Binyamin Netanyahu continua surdo aos avisos daqueles que preveem uma catástrofe diplomática para Israel, sob a forma de um fracasso definitivo na solução de dois Estados, acompanhado de um crescente isolamento internacional.
A Alemanha, a aliada mais próxima do Estado judaico no Velho Continente, talvez tenha acabado de dar o exemplo à União Europeia. Berlim decidiu que no futuro as empresas de alta tecnologia israelenses situadas nos assentamentos da Cisjordânia e em Jerusalém Oriental não poderão mais receber financiamentos alemães, uma vez que essa cláusula territorial também deve estar inserida em certos acordos de cooperação.
Esse endurecimento vai na mesma direção do acordo assinado a contragosto por Israel com a União Europeia, que previu um mecanismo parecido para o programa científico europeu Horizon 2020. A Holanda havia sido a primeira a embarcar naquilo que parece uma campanha de boicote. Vários fundos de pensão europeus acabam de se associar a ela, bem como certas universidades americanas que se recusam a cooperar com as universidades israelenses situadas nas colônias.   

O temor de uma intifada armada    

Netanyahu, que acusa os europeus de serem "hipócritas", talvez devesse prestar atenção à crescente irritação deles. É verdade que Israel pode relativizar uma ameaça que afinal é limitada, e optar por ouvir seu ministro da Economia, o nacionalista religioso Naftali Bennett, para quem "é melhor um boicote econômico do que a criação de um Estado palestino".
No final, o ano de 2013 terminou sem que um único dos graves riscos apontados pelos pessimistas se materializasse. A guerra sobre a questão nuclear iraniana não aconteceu; os jihadistas sírios não exportaram para Israel o conflito contra o regime de Damasco; o Hezbollah libanês, apesar de vários ataques militares israelenses contra seus interesses, evitou reagir; a Cisjordânia permaneceu calma e a Faixa de Gaza não sofreu uma réplica da guerra de 2012 contra o Hamas.
Mas, além do fato de que todas essas incertezas continuarão em 2014, a contagem regressiva das negociações com os palestinos está em sua fase final: no fim de abril, o ciclo de nove meses destinado a essas negociações de paz terminará. Se for constatado um fracasso, os palestinos não terão outra escolha além de "uma intifada armada ou uma intifada diplomática", acredita Amos Yadlin, diretor do Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Tel-Aviv, fazendo uma alusão a um recurso desesperado junto à ONU e ao Tribunal Penal Internacional.
Israel alega questões de segurança para justificar sua intransigência. Para os comandantes de seu exército, a tranquilidade que tem imperado em suas fronteiras com a Jordânia e o Egito não deve incentivar o Estado judaico a baixar a guarda: as guerras inter-islâmicas do Iraque e da Síria podem se espalhar, e está fora de questão que as Forças Armadas Israelenses cedam o controle militar do vale do Jordão a um futuro Estado palestino. Essa tensão vem acompanhada de uma preocupação silenciosa, que confirma aquela sentida pela Arábia Saudita e pelos países do Golfo, e que está associada à vontade dos Estados Unidos de agora se envolverem o mínimo possível nos conflitos no Oriente Médio, o que alimenta a deterioração de sua imagem na região.    

Arábia Saudita, aliada improvável    

De nada adianta que Barack Obama saliente que a cooperação entre Israel e EUA em matéria de segurança "nunca esteve tão forte", ou que o secretário de Estado John Kerry feche os olhos para a retomada dos assentamentos: a certeza de que o Estado judaico só pode contar consigo mesmo vem ganhando força em Israel. Paradoxalmente, esse complexo histórico da "fortaleza sitiada" vem acompanhado de uma vontade de se romper um crescente isolamento.
Essa vontade se manifesta através de veleidades de aproximação com os países árabes que têm um inimigo comum com Israel: o Irã. Silvan Shalom, o ministro encarregado das Energias, foi até Abu Dhabi para uma conferência sobre energias renováveis, onde o presidente israelense Shimon Peres havia feito um discreto discurso (por vídeo) na ocasião de uma conferência sobre segurança.
A Arábia Saudita é uma aliada potencial mais improvável, ainda que os dois países partilhem de uma mesma aversão pelo regime de Teerã e de uma mesma preocupação diante do reavivamento de suas relações com Washington. Mas o apoio dado pela monarquia wahhabita aos jihadistas de todas as espécies na Síria constitui uma "linha vermelha" para o Estado judaico. De qualquer maneira, os pequenos passos de Israel para se aproximar de países árabes considerados moderados estarão fadados ao fracasso enquanto os governos desses países não puderem justificar uma reaproximação com o "inimigo sionista" através de um desbloqueio do processo de paz entre Israel e Palestina.
Só que ao exigir dos palestinos que eles reconheçam Israel como o "Estado-nação do povo judeu", ao se recusar a discutir o direito à volta dos refugiados palestinos e a divisão de Jerusalém, ao insistir que é "vital garantir que um Estado palestino não se tornará um novo Irã", Netanyahu está matando tal perspectiva de forma definitiva.