domingo, 7 de abril de 2013

França quer punir clientes para acabar com a prostituição
Gaëlle Dupont - Le Monde
7.jul.2012 - Ana Arevalo/AFP

Mulheres protestam em Paris contra projeto que visa acabar com a prostituição na França, em 2012Mulheres protestam em Paris contra projeto que visa acabar com a prostituição na França, em 2012
As duas irmãs Ana e Maria dão gargalhadas por qualquer motivo. De maquiagem azul nos olhos e rosa nas bochechas, roupas justas e saltos vertiginosos, elas estão trabalhando sob o ponto de ônibus à beira do Loire, em Nantes. Já passou da meia-noite e só Ana teve um cliente. Noite ruim, fase ruim --a crise tem os mesmos efeitos nas esquinas que em outros lugares.
Maria, 27, foi a primeira a chegar da Romênia, quatro anos atrás. Uma amiga lhe havia dito que ela poderia ganhar "muito dinheiro" se prostituindo. Mas, com dois filhos e um marido para sustentar, ela tem encontrado dificuldades.
Ana, 30, se juntou a ela um ano depois. "Só quero viver melhor", ela diz, em um francês elementar. Mas não tem chovido dinheiro, e esse não é um trabalho simples. "É difícil tirar a roupa por dinheiro", conta Ana. "Fico nervosa. Sou apaixonada por alguém, sabe? É difícil. Então penso no dinheiro." De repente lágrimas começam a escorrer, quando as duas irmãs lembram de sua mãe na Romênia, que não sabe como suas filhas ganham a vida.
É noite de quinta-feira. Das 22h às 3h da manhã, um ônibus da Médicos do Mundo para em cada ponto de ônibus, em cada rotatória, para não perder ninguém. Vestígio de uma recente manifestação em Paris, o ônibus passa coberto de slogans a favor da anulação do crime de abordagem passiva, como propõe a senadora (EELV) Esther Benbassa em um texto discutido no Senado na quinta-feira (28).
Irène Aboudaram, coordenadora da missão, e Maiwenn Henriquet, consultora de saúde, oferecem bebidas quentes, preservativos, lubrificante, dão conselhos sobre saúde e direitos. As jovens vêm em pequenos grupos. Elas aceitam falar, contanto que não sejam identificadas. Como em toda a França, são praticamente todas imigrantes --sendo aqui a maioria de romenas e nigerianas.
Ana e Maria foram "dezenas de vezes" mantidas sob custódia por abordagem, mas nenhuma vez no último ano. As outras prostitutas, recém-chegadas, confirmam a trégua e não se queixam da polícia. Elas tampouco foram banidas para longe do centro, como em outras cidades.
Em compensação, elas têm muito o que dizer sobre seu ganha-pão. Favor, uma nigeriana de 25 anos, não sabia que ia se prostituir quando chegou à França. "Eu esperava algo de diferente, de normal", diz. "Não existe trabalho fácil, mas esse é especialmente difícil. Corremos muitos riscos".
Mary, 22, também recém-chegada da África, reclama do frio, dos horários noturnos e sobretudo dos clientes. "Alguns deles são legais, mas outros são tão asquerosos", diz. "Depois do programa, eles querem o dinheiro de volta". Mary já foi ameaçada duas vezes com um revólver. Blessing, 21, também teve de devolver dinheiro a seu agressor "para salvar a pele". Juliana, uma brasileira de 45 anos, foi "roubada, agredida, estuprada". Ela não prestou queixa. "Para a polícia não somos nada."
A experiência é um grande trunfo, segundo Ana. "Eu observo bem, seleciono os clientes", diz. "Trabalho com os franceses [querendo dizer, não imigrantes], é tranquilo. Eu escolho o que quero fazer e o que não quero." Os pedidos de relações sexuais sem preservativos são frequentes, mas são negados. Muitas dizem que só têm uma coisa na cabeça quando estão com um cliente: terminar o mais rápido possível. "Não penso em nada", descreve Tiffany, uma romena de 26 anos. "Senão eu os recusaria."
Como elas chegaram até aqui? Quanto elas devem àqueles que organizaram a viagem? Que porcentagem de seus ganhos elas pagam a cafetões independentes ou pertencentes a uma rede? Elas não falam nada a respeito, todas afirmam trabalhar por conta própria. A polícia pensa o contrário, especialmente no caso das nigerianas. As cerimônias rituais antes da partida, as ameaças que pairam sobre as famílias que permanecem no país são conhecidas. Além disso, muitas vezes elas afirmam só ter descoberto qual seria a atividade ao chegar à França, cujo idioma elas não dominam. Tracy, 25, chegou a imaginar que iria continuar seus estudos de enfermagem.
Elas começam a falar sobre as razões da viagem. "Na Romênia, mesmo que você trabalhe cem anos, nunca conseguirá comprar uma casa", diz Tiffany. "A vida é muito difícil na Nigéria", concorda Favor. "Somos muito pobres. Meus pais são agricultores, tenho cinco irmãos e quatro irmãs. Quero ajudá-los". "Quando você mora em um país difícil, se tem a oportunidade de ir embora, você vai", resume Juliette, 24. "Por sua própria sobrevivência e a de sua família".
E elas se arrependem? "Quando eu tiver meus documentos não terei arrependimentos", responde Juliette. "Mas prefiro estar aqui nas ruas a estar na Nigéria". Elas queriam algum outro trabalho, mas de jeito nenhum voltar para seus países. Seus vistos são temporários, ou até inexistentes. O maior objetivo delas é conseguir documentos. "Quem está nessa profissão tendo documentos ou é louco ou estúpido", afirma Silvia, 25, com olhar de reprovação.
Elas sabem que o governo, que quer acabar com a prostituição, pretende punir os clientes. Essa perspectiva as apavora. "Essa lei não vai nos ajudar", diz Mary. "Os clientes ficarão com medo e não teremos mais trabalho. O que vamos fazer?" Ana acredita que continuará. "Trabalharei na minha casa", ela afirma. "Os clientes me chamarão." Nas ruas, a prostituição poderá diminuir temporariamente, e depois se deslocar para lugares mais sombrios, mas afastados e mais perigosos, segundo elas.
Essas jovens gostariam que o governo as deixasse em paz, assim como os clientes. "Se eles querem acabar com a prostituição, então que nos deem documentos!", elas dizem em coro. Algumas delas usam a liberdade como argumento. "O corpo é meu, faço o que quiser com ele!", diz Christina, 25. Outras, sua utilidade. "Minha profissão é a mais antiga do mundo", afirma Juliana. "Os homens precisam do nosso trabalho!" Tiffany pensa em voz alta: "Tenho uma sobrinha jovem e não gostaria que ela entrasse nessa profissão, então talvez seja necessário combatê-la", conta a jovem, que se prepara para se despedir, definitivamente, da prostituição. "Mas algumas mulheres precisam disso para sobreviver. Então não sei o que pensar."
Tradutor: Lana Lim

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