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Mulher observa vitrine de loja em Kuala Lumpur, na Malásia
Quando Fabiola Nava Carrera contou aos amigos que ia fazer mestrado em Administração empresarial (MBA) em finanças islâmicas em uma universidade da Malásia, eles ficaram surpresos."Eu fiquei muito interessada ver como era, porque não sabia nada sobre cultura islâmica e cultura asiática", disse Carrera, mexicana de 27 anos que trabalhava com comércio internacional. "Mas meus amigos no México não conseguiram acreditar que eu queria ir para a Malásia, porque achavam que seria perigoso demais ou que a cultura seria diferente demais."
Carrera seguiu seu caminho mesmo assim. No ano passado, foi uma de quatro estudantes –sendo três não muçulmanos-- a se graduar da classe inaugural do programa de MBA de Finanças Islâmicas Globais da Universiti Tun Abdul Razak, em Kuala Lumpur.
As finanças islâmicas são diferentes dos sistemas financeiros convencionais porque a usura e a especulação são proibidas. As transações têm que cumprir a sharia --o código legal islâmico baseado no Alcorão-- e se baseiam em princípios de compartilhamento de riscos e lucros.
As finanças islâmicas estão em expansão. De acordo com dados do Banco Islâmico Hong Leong, uma instituição financeira de Kuala Lumpur, as atividades financeiras islâmicas vêm crescendo 14% ao ano, e os ativos financeiros islâmicos excederam US$ 1,1 trilhão em valor acumulado em 2011.
Tal crescimento levou instituições de ensino a criarem programas de finanças islâmicas. Em 2005, a Universidade Islâmica Internacional da Malásia abriu um instituto bancário islâmico que oferece cursos de mestrado e doutorado no assunto. Nos últimos anos, pelo menos meia dúzia de escolas de administração no Reino Unido, inclusive a Universidade do Leste de Londres e a Universidade Bangor, em Wales, montaram programas de MBA em finanças islâmicas.
A faculdade de Carrera, também conhecida como Unirazak, é uma escola rara de negócios localizada em um centro financeiro islâmico amigável a estrangeiros --de acordo com a instituição, cerca de um quarto da atividade financeira na Malásia cumpre as leis e costumes islâmicos.
"A Malásia é o terceiro maior mercado islâmico, depois da Arábia Saudita e o Irã", disse Geoffrey Alan Williams, vice-reitor da Unirazak, usando um broche com a bandeira da União Europeia e a bandeira da Malásia. "Então, se você quer estudar finanças islâmicas, você tem que vir para cá ou ir para Teerã."
A participação da Unirazak na Aliança Internacional de Escolas de Negócios (Ibsa), uma rede de sete escolas, também é útil. A aliança, à qual a Unirazak se uniu em 2011, permite que os alunos passem tempo em duas escolas e se graduem com dois MBAs. Depois de um ano em uma escola, dois terços deles passados na Universidade de Ciências Aplicadas de Bremen, na Alemanha, e um terço na Unirazak, Carrera concluiu um MBA em logística e cadeia de fornecedores pela instituição europeia e um MBA em finanças islâmicas pela instituição malasiana.
As outras universidades da aliança são: Universidade de Valência na Espanha, Universidade de Hertfordshire no Reino Unido, Universidade de Negócios Noancia em Paris, Instituto de Estudos de Negócios em Moscou e Universidade da Carolina do Norte Wilmington.
Cada membro se especializa em uma área específica de finanças, e apenas os alunos inscritos no programa especial de sua universidade podem participar das aulas nas escolas afiliadas. A Unirazak também oferece programas de MBA mais convencionais, contudo, os alunos não têm acesso aos recursos da aliança.
"Nossos parceiros inicialmente hesitaram" porque pensaram que um programa de finanças islâmico seria muito arriscado, disse Barjoyai Bardai, diretor do programa. "Mas finanças mundiais islâmicas estão em alta e terão um impacto. Depois de um ano, achamos que fizemos a escolha certa."
A Unirazak teve que contratar uma série de professores para o curso, com um palestrante especializado para cada módulo. Além de contadores treinados como Berjoyai, a escola trouxe um acadêmico de sharia do Egito.
A maior parte dos alunos, até os muçulmanos praticantes, não conhecia os conceitos básicos das finanças islâmicas. Assim, as aulas foram especialmente vigorosas, pois a escola precisava passar um conhecimento muito especializado em um tempo limitado.
Para um módulo em produtos e serviços islâmicos, por exemplo, os alunos tiveram 14 aulas de 4 horas. As aulas têm como meta familiarizá-los com a histórica dos produtos bancários islâmicos e estimulá-los a pensarem em desenvolver serviços mais contemporâneos. Além das palestras, os alunos têm que trabalhar em suas monografias.
"Teria sido mais fácil tirar o MBA em outra coisa", disse Azrina Muhammad Aznan, malasiano de 28 anos inscrito no programa. "Outros alunos têm tempo de ir às festas, mas eu tenho que ficar sentado estudando."
"Para estudar finanças islâmicas você também deve conhecer as finanças convencionais", disse Raja Teh Maimunah, diretora executiva do Banco Islâmico Hong Leong, que recentemente deu uma aula de finanças islâmicas na Unirazak.
O mestrado mundial em finanças islâmicas da Unirazak custa mais de 61.460 ringgits malasianos, ou quase US$ 40 mil (cerca de R$ 80 mil). Já o mestrado em liderança oferecido pela Unirazak custa menos da metade: 29.020 ringgits.
Williams, administrador da universidade, disse que a razão da discrepância é a padronização dos preços de todos os programas da Ibsa.
Como os programas de mestrado em finanças islâmicas foram desenvolvidos recentemente, é difícil avaliar o sucesso de seus graduados.
"Deve ser relativamente novo, porque não vejo muitos deles", disse Maimunah, a banqueira. "Posso entender a vantagem de banqueiros convencionais passarem por programas de certificação que os ajude a entender a jurisprudência islâmica. Não sei se alguém com um MBA islâmico pode me dar algo diferente."
Ela citou programas como os oferecidos pelo Centro Internacional de Educação em Finanças Islâmicas, ou Inceif, uma organização estabelecida pelo banco central malasiano, como particularmente valorizados na indústria. Observando que a Unirazak colabora regularmente com a Inceif, Williams insistiu que tais programas eram complementares com os diplomas de sua escola.
"A indústria está explodindo, então não estamos competindo com outras pessoas", disse ele. "Há tanta demanda, só precisamos achar o tipo certo de cursos".
Tradutor: Deborah Weinberg
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