sábado, 4 de maio de 2013

Indústria fraca reduz previsões para o PIB
Com reação abaixo do esperado em março, setor encolhe 0,5% no 1º tri e analistas já esperam que país cresça só 2% no ano
Apesar de medidas de estímulo, retomada é frágil, dizem analistas; indústria é responsável por 25% da economia
MARIANA SALLOWICZ - FSP
Bancos e consultorias revisaram para baixo as previsões de crescimento da economia para o primeiro trimestre e para o ano, após o IBGE divulgar uma recuperação da indústria em março abaixo do que era esperado.
O Bradesco reduziu de 3,5% para 2,8% a estimativa de expansão do PIB neste ano e de 4% para 3,5% a para 2014.
"Nossa revisão foi influenciada pela incorporação recente de resultados mais fracos de atividade econômica", disse em relatório Octavio de Barros, diretor de pesquisas e estudos econômicos.
A indústria, que encolheu 0,5% no primeiro trimestre, tem participação de 25% no PIB, segundo o IBGE, que vai divulgar os dados da atividade econômica no fim do mês.
A consultoria Tendências projetava expansão de 1,1% no primeiro trimestre ante os três meses anteriores, número que está sendo revisto e deve ficar entre 0,8% e 0,9%. Na comparação anual, a estimativa caiu de 2,2% para 2%.
"Temos visto uma indústria errática e com sinais de recuperação lenta", afirma Alessandra Ribeiro, economista da Tendências.
A consultoria LCA previa alta de 1,3% no PIB nos três primeiros meses do ano, número que passou para 1,2%. A estimativa para 2013 caiu de 2,8% para 2,6%.
O Itaú estuda rever as projeções.
O RESULTADO
Após o tombo de 2,4%, a produção industrial teve leve alta de 0,7% em março ante o mês anterior.
Apesar de ter sido beneficiada por diversas medidas de estímulo, a indústria ainda apresenta uma frágil retomada, afirmam especialistas.
"O cenário mostra que deveremos ver ao longo do ano as altas se alternando com as baixas", diz Fernanda Consorte, economista do Santander, que não mudou as projeções.
"A indústria mostra melhora neste início de ano, mas não quer dizer que vai muito bem. Ainda há uma distância a ser percorrida em relação aos patamares em que o setor já operou", afirma André Macedo, técnico do IBGE.
Segundo ele, há uma diferença de 3,7% entre o dado de março e o de maio de 2011, patamar recorde.
A alta mensal atingiu 13 dos 27 setores analisados pelo IBGE.
A indústria de veículos, uma das beneficiadas pelas medidas de estímulo do governo, teve a maior influência positiva. A produção subiu 5,1% em março, eliminando parte da queda de 8,1% verificada no mês anterior.
O economista da LCA Rodrigo Nishida destaca também o desempenho positivo da produção de bens de capital (máquinas e equipamentos), o que sinaliza retomada dos investimentos.
"Em 2012, foi exatamente esse setor que puxou o resultado para baixo."
O setor teve alta de 11,7% nos três primeiros meses do ano, considerando as taxas acumuladas por mês.
Já a indústria de alimentos teve o maior peso negativo no resultado, com queda acumulada de 4% nos últimos dois meses da pesquisa.
Os principais motivos para a retração foram a inflação em alta e as exportações menores.
Diretor do Bradesco diz que dados de março foram só um fator a mais' para revisar PIB


Indústria deve continuar fraca por muito tempo
Pequena recuperação é concentrada em poucos setores; cenário externo não é favorável e gargalos internos permanecem
SÉRGIO VALE - FSP
O resultado da indústria deixou um cheiro de que "agora vai" no ar.
Os números negativos continuam negativos, mas em proporção menor, vide a pequena queda de 0,5% no primeiro trimestre ante o mesmo período do ano anterior.
Isso ajudará muito pouco no PIB, que deve crescer magro 1,8% na mesma comparação e parcos 2,5% no ano. Mas por que números tão baixos ainda?
Ainda há certa concentração na recuperação, especialmente nos setores de caminhões e tratores. Para os primeiros, continuam valendo os efeitos estatísticos de um 2012 muito fraco por mudanças na configuração dos motores usados.
Para tratores, vale o efeito da supersafra e da observação cada vez mais óbvia de que só resta a agropecuária como setor competitivo no país.
Além disso, a indústria começa a ter leve recuperação em um momento de comércio começando a fraquejar e cenário internacional ainda de lado, especialmente com dados ambíguos na economia americana, sem falar na Europa, que continua em crise.
As desvalorizações no Japão, que podem instigar desvalorizações em outros países asiáticos, dificultam ainda mais nossas exportações.
Na América do Sul, dois parceiros importantes para nossas exportações de manufaturados, Argentina e Venezuela, devem ter ano de crise.
Uma megadepreciação do câmbio na Argentina não pode ser descartada.
Isso sem falar que o México tem grande potencial de ganhar mercado em cima do Brasil. Basta dizer que o custo unitário do trabalho naquele país já se iguala ao chinês.
E, por fim, a cereja do bolo: a indústria brasileira continuará sendo pouco competitiva pelos velhos problemas de sempre, desde o custo do trabalho até a infraestrutura em crise sem fim.
Com essa barafunda de problemas, é difícil esperar bons resultados não só para 2013 mas a perder de vista. Mudar esse cenário demandará mudança radical de política econômica, que não deve acontecer.
SERGIO VALE é economista-chefe da MB Associados.

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