A usina no caminho
GILLES LAPOUGE - O Estado de S.Paulo
Foram retomadas em Genebra as negociações envolvendo o
programa nuclear iraniano, depois que a última rodada, há duas semanas,
fracassou quando a França se opôs ao acordo que parecia ter sido
alcançado entre iranianos e as grandes potências. O novo presidente do
Irã, Hassan Rohani - que não é um falcão, tampouco um reformador, mas um
homem realista - deseja o acordo. É verdade que ele é vigiado de perto
pelo líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, que mantém uma posição mais
radical.
Às vésperas da retomada das conversações, o aiatolá Khamenei
pronunciou um discurso feroz para censurar o presidente François
Hollande por ter feito fracassar o acordo. Hollande ainda se permitiu
visitar Israel no início da semana. Para Khamenei, esse foi um pecado
mortal. "O regime sionista está condenado a desaparecer porque nenhum
fenômeno imposto à força pode durar", disse.
O intransigente Khamenei aceitará que o realista Rohani conclua um
acordo com o Irã moderando suas ambições no campo nuclear e, do outro
lado, seus parceiros afrouxando as garras das sanções que levaram o rico
Estado iraniano ao desamparo econômico.
Mesmo que suas estratégias sejam diferentes, Khamenei e o presidente
Rohani nutrem uma simpatia recíproca. Desde que Rohani não ultrapasse
algumas "linhas vermelhas", o líder supremo deverá deixá-lo seguir
adiante.
Mas existe um "pomo da discórdia" entre os iranianos e o grupo dos
5+1, formado pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da
ONU (EUA, França, Grã-Bretanha, China e Rússia), mais a Alemanha. A
construção da usina de Arak, com um reator de água pesada projetado para
produzir plutônio, que serviria para a fabricação de uma bomba atômica.
Isso significa que o Irã não se contenta em instalar uma cadeia de
reatores para enriquecimento de urânio e produzir armas nucleares, mas
também avança para produzir plutônio.
Às suspeitas dos ocidentais, especialmente da França, os iranianos
sempre responderam que o plutônio da usina de Arak tem finalidade apenas
civil (médica). Mas os serviços ocidentais descobriram que o Irã
colocou em funcionamento uma outra central, de Shiraz, chamada IR-10,
cuja finalidade em particular seria facilitar a obtenção de material
físsil necessário para a produção de armas nucleares.
O que deixa os franceses inquietos é que os iranianos podem colocar o
reator em operação e então será impossível bombardear a usina sem uma
catástrofe nuclear. Essas são as razões que levaram o ministro do
Exterior da França, Laurent Fabius, a rejeitar o acordo.
Fabius e o seu chefe, o presidente Hollande, mostraram sensatez e
coragem, pois todos os seus parceiros queriam se livrar enfim desse
"abacaxi". Se as discussões seguirem na direção de um acordo, mesmo que
provisório, porém mais sério e mais responsável que o acordo de fachada
desejado por Obama, então a conduta francesa no caso terá demonstrado
talento e determinação.
TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
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