Psicologia de guerra
Dora Kramer - O Estado de S.Paulo
O uso da expressão "guerra psicológica" pela presidente
Dilma Rousseff em seu pronunciamento de fim de ano para explicar a razão
pela qual a condução do governo vem sendo alvo de tanta crítica e
desconfiança remeteu os analistas aos tempos da ditadura. Não deixa de
ser uma simplificação.
De um modo geral o tom da celeuma foi de surpresa e estranheza com o
fato de a presidente ter adotado a filosofia em voga durante o regime
militar que a prendeu e torturou: críticas são produtos da má-fé de
adversários; conspiradores que procuram criar artificialmente um
ambiente desfavorável com o objetivo preciso de desestabilizar o
governo.
A estranheza justifica-se, embora até certo ponto. A surpresa não tem
razão de ser, uma vez que não é novidade a dinâmica do atrito
permanente adotada desde o início do primeiro mandato de Luiz Inácio da
Silva, cuja essência se expressava em três palavras muito caras ao então
presidente: "Nós contra eles".
Por si, uma definição perfeita do conceito do inimigo interno,
presente não apenas em ditaduras, mas em quaisquer grupos de comando com
traço autoritário. Mesmo os eleitos dentro das legítimas regras da
democracia.
Por esse raciocínio, os bons brasileiros são aqueles que concordam.
Quem discorda está fora, não é patriota. Isso vindo de um partido que
fez a vida sendo do contra recende a ideologia de resultados.
O PT tem a psicologia da guerra, traz o gene da disputa no sangue, é
competente no ataque, usa da corda estendida ao máximo, mantém a tensão e
se posiciona como vítima em todas as situações, ainda que os inimigos -
sempre apresentados como sujeitos ocultos - sejam na verdade seus
sustentáculos.
São 11 anos de poder durante a maior parte dos quais os altos
escalões (quando interessa também conhecidos por "as elites")
empresariais, culturais, políticos e sociais estiveram submissos aos
ditames petistas.
A maioria movida por interesses objetivos, alguns imbuídos da
convicção convencidos de que a classe operária levaria o Brasil ao
paraíso, outros constrangidos pelo receio das patrulhas sempre prontas a
apontar preconceito onde há apenas o saudável e necessário exercício do
contraditório.
Mais forte que a referência à "guerra psicológica" que a tantos
impressionou foi o discurso feito pela presidente em 14 de junho de 2013
na favela da Rocinha (Rio) apontando a existência de "estardalhaço e
terrorismo informativo" na veiculação de notícias e análises sobre a
situação econômica do País. Na véspera, havia comparado os críticos ao
Velho do Restelo, arauto do pessimismo em Os Lusíadas.
Um dia antes, Dilma chamara de "vendedores do caos" os que apontavam
problemas relativos à inflação, às perdas da Petrobrás, ao aumento dos
gastos públicos, ao crescimento pífio, à maquiagem de dados oficiais, à
relação animosa com o empresariado, ao intervencionismo, aos privilégios
setoriais, ao incentivo ao consumo em detrimento dos investimentos, à
deficiência de gestão.
Já haviam ocorrido as primeiras manifestações contra o custo do
transporte público em várias capitais, mas o Palácio do Planalto ainda
estava indiferente aos protestos. Na semana seguinte, teve a dimensão da
revolta contra a ineficácia dos serviços públicos e deixou de lado a
retórica da guerra para adotar o discurso da conciliação.
Já não havia alarmistas em cena, mas "vozes das ruas" que precisavam
"ser ouvidas" e, de imediato, abastecidas com promessas de pactos
genéricos e propostas inexequíveis como o plebiscito para convocação de
uma Constituinte para fazer a reforma política.
Eleição batendo à porta, se impõe de novo a lógica da batalha pela via da mistificação.
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