Reforma de aluguel
Mudanças ministeriais parecem atender apenas ao objetivo de Dilma Rousseff contar com maior tempo de propaganda eleitoral
FSP
Raros eventos realçam com tanta clareza o pouco préstimo dos 39
ministérios brasileiros quanto as rotineiras reformas promovidas às
vésperas de eleições.
Não que, com uma ou outra exceção, as próprias dificuldades de planejar e
executar projetos já não sejam atestado convincente da ineficiência da
máquina pública federal --um padrão que se repete nas esferas estadual e
municipal.
Tais demonstrações de incompetência administrativa, porém, talvez por
sua transformação em prática cotidiana, terminam confundidas com simples
falhas cometidas ao longo da cadeia de comando. Como deficiências
pontuais, e não estruturais, seriam passíveis de algum tipo de conserto.
A ilusão se desfaz quando, por força de lei, auxiliares da Presidência
interessados em disputar cargos eletivos precisam se afastar de seus
postos. Idealmente, seria uma boa ocasião para corrigir rumos do
governo; a recomposição ministerial, no entanto, costuma seguir
orientações menos nobres.
Tome-se o governo Dilma Rousseff (PT), que deve resolver a questão até
março. Não é segredo em Brasília que a presidente pretende aproveitar os
postos vacantes para engordar sua já balofa coalizão e, com isso,
ampliar sua exposição no rádio e na televisão durante a campanha pela
reeleição.
Se tudo sair como quer o Planalto, a aliança de Dilma terá 12 partidos, o
que lhe poderia garantir inéditos 49% do tempo de propaganda eleitoral
--a maior marca, até aqui, são os 47% de Fernando Henrique Cardoso
(PSDB), em 1998. A cada bloco de 25 minutos na TV, a presidente teria,
nesse cenário, mais de 12 minutos.
Seu sucesso na empreitada, ao que tudo indica, dependerá menos da
compreensível ausência de quadros nos partidos menores --nomes
qualificados escasseiam mesmo no PT-- do que da voracidade do PMDB,
sempre disposto a abocanhar novos pedaços do governo.
Se conduzidas sobre bases programáticas e transparentes, negociações por
espaço na administração federal não são, em si, um problema. No Brasil,
todavia, os vícios patrimonialistas e fisiológicos são tão fortes que
se torna quase impossível distinguir a politicagem rasteira da gestão
profissional.
O ceticismo quanto à atuação do poder público é, em larga medida,
consequência desses acordos espúrios. Romper o ciclo deletério
demandaria disposição para reduzir o número de pastas e cargos de livre
nomeação, para nada dizer da observância de critérios de eficiência e
competência.
Em vez disso, com a reforma que fará, Dilma Rousseff parece propensa a
evidenciar que nem ela tem seus ministérios em alta conta.
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