Zona de risco
José Paulo Kupfer - O Estado de S.Paulo
Assim como em outros indicadores econômicos, que
registraram resultados piores em 2013, a impressionante deterioração das
contas externas no ano passado parece ter influenciado, negativamente,
as projeções para 2014. Até mesmo o Banco Central está projetando um
desempenho não muito animador nas relações da economia brasileira com o
resto do mundo.
O melhor a se esperar, para 2014, supondo a confirmação das previsões
do momento, é que as perdas sejam estancadas e os números do setor
externo permaneçam em área de desconforto. Nas projeções do Banco
Central, por exemplo, o déficit em transações correntes, que bateu em
3,7% do PIB no fechamento de 2013, se mantém na zona de risco,
alcançando 3,5% do PIB. O mercado, de acordo com a pesquisa Focus, não
vai tão longe, mas ainda assim prevê um déficit externo equivalente a
3,3% do PIB.
É um quadro bem mais estressado do que o existente antes do
fechamento de 2012. Embora os sinais de dificuldades começassem a se
acumular em 2008, a partir da eclosão da atual grande crise global, até
um ano atrás os limites de segurança estavam longe de serem testados. Em
2013, no entanto, mesmo com alguma desvalorização do real, a casa caiu e
o setor externo desceu ladeira abaixo em ritmo acelerado.
A balança comercial registrou o menor saldo desde 2000 e ainda assim
só foi obtido no último mês do ano, depois de manobras contábeis, que
transformaram plataformas de petróleo que nunca saíram de onde estavam
em produtos de exportação. O mau desempenho da balança comercial explica
o forte avanço do déficit em transações correntes, que aumentou 50%
sobre 2012 e foi do equivalente a 2,4% do PIB para 3,7% do PIB num único
ano. Os demais componentes das transações correntes - serviços e rendas
-, normalmente deficitários, acrescentaram ao déficit, em relação aos
valores costumeiros, não mais de 10% cada um.
Com o salto negativo das transações correntes, o volume de
Investimento Externo Direto (IED), pela primeira vez desde 2001, não foi
suficiente para cobrir a totalidade do déficit. O total de recursos ao
País não mudou em relação aos anos anteriores, mas com o aumento da
necessidade de cobertura, o IED cobriu 80% do déficit. Dívidas e ativos
financeiros completaram os 20% que faltaram, com destaque para as
aplicações em renda fixa, que aumentaram cinco vezes no ano.
Além de insuficiente, o IED, em 2013, mostrou uma composição menos
favorável, com recuo nos recursos dirigidos a participações no capital -
o investimento direto propriamente dito - e um pulo no item
"empréstimos intercompanhias", que contabiliza os recursos transferidos
de matrizes de empresas no exterior a suas subsidiárias no Brasil.
Historicamente, os empréstimos intercompanhias representam cerca de 20%
do IED, mas, em 2013, sua participação elevou-se a 35%.
A perspectiva de uma estagnação das transações correntes, em 2014,
nos níveis mais preocupantes de 2013, se sustenta em estimativas de uma
modesta recuperação da balança comercial. O Banco Central projeta um
saldo positivo de US$ 10 bilhões e o mercado aposta em números 20%
menores. Mas há quem, mesmo concordando que a taxa de câmbio pode ir a
R$ 2,50 por dólar, considera tais projeções muito otimistas. Janeiro,
com um déficit na casa dos US$ 5 bilhões, levará água para esse moinho.
Previsões para a balança comercial, em todo caso, devem ser tomadas
com o máximo de cautela. Elas estão entre as tradicionalmente mais
sujeitas a chuvas e trovoadas. Se, no começo de 2012, os analistas
previram o saldo comercial próximo de US$ 20 bilhões efetivamente
registrado, erraram feio nos dois anos anteriores. Em 2010 e 2011, por
exemplo, para ficar em casos mais recentes, os números reais foram,
respectivamente, 80% e 240% maiores do que as previsões do começo do
ano.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.