A bolsa de valores planejava atrair milhares de pessoas físicas para o mercado acionário. Só não contava com o mau desempenho da economia brasileira e com empresas-vitrine, como a Petrobras, que passaram a espantar mais do que atrair
Naiara Infante Bertão - VEJA
Mercado de capitais não vive seu melhor momento
(Reinaldo Canato)
Em 2007, as empresas que abriram capital na bolsa amealharam nada menos que 28,8 bilhões de reais, enquanto o Ibovespa atingia patamares nunca registrados até então, como os 63 mil pontos no encerramento daquele ano. À época, cerca de 450 mil pessoas físicas participavam desse movimento. A Bovespa (que ainda não havia se unido à BM&F, a bolsa de mercados futuros) aproveitou a maré alta para implementar programas de estímulo ao investimento de longo prazo para pessoas físicas que não conheciam muitas opções de aplicação além da caderneta de poupança. Em sete anos, o número de investidores cresceu apenas 30%, enquanto o Ibovespa vem renovando suas baixas. Nos últimos meses, foram poucas as vezes que o índice ultrapassou 50 mil pontos. Na sexta-feira, 21, fechou em 47.380. Em seu pico, maio de 2008, chegou a 73,5 mil pontos.
Acertou quem investiu antes da crise financeira e, principalmente, conseguiu realizar o lucro antes da onda de queda das ações. “É muito difícil convencer um cliente a comprar ações em um momento que elas estão caindo. É muito mais fácil ele comprar em um momento de alta, na euforia”, explica Guilherme Benchimol, presidente da XP Investimentos. O Ibovespa recuou 15,5% em 2013.
Atrair pessoas físicas para o mercado de ações não é tarefa fácil - nem mesmo com Pelé como garoto-propaganda, como fez a bolsa em campanha veiculada em 2010. Poucos possuem sangue frio suficiente para assistir, inertes, à queda de suas aplicações. Um dos motivos que mais prejudicou a atratividade do mercado para brasileiros, segundo o presidente da BM&FBovespa, Edemir Pinto, foi a queda das ações da Petrobras. A estatal está presente em 90% das carteiras dos investidores pessoa física. “O investidor brasileiro tem perfil conservador e muitos usavam o fundo de garantia para comprar participações na Petro (Petrobras) ou Vale”, afirma. As ações ordinárias da petroleira caíram 70% entre maio de 2008 e o fechamento desta quinta-feira. O valor de mercado da empresa neste intervalo despencou 65%, ou seja, os investidores perderam 331 bilhões de reais. As perdas são explicadas, em parte, pela política do governo de impedir o reajuste do preço da gasolina e impor à estatal altos custos para subsidiar as oscilações de petróleo no mercado internacional.
Outro setor que atraía as pessoas físicas era o de empresas elétricas, conhecidas por serem boas pagadoras de dividendos e com pouca volatilidade. Esse cenário, porém, mudou completamente em 2012, quando a presidente Dilma Rousseff anunciou as novas regras para o setor. O valor de mercado das empresas elétricas de capital aberto despencou 27% de setembro daquele ano até meados de fevereiro, segundo levantamento da consultoria Economatica. Há ainda a derrocada das empresas do grupo EBX, de Eike Batista, que também colocou em xeque a credibilidade das ofertas e das companhias listadas, ainda que tenha sido caso pontual.
O contexto econômico afetou o interesse das empresas em abrir capital. “A redução do número de IPOs, dentro da situação macroeconômica, também prejudicou. A abertura de capital de uma nova empresa atrai até 100 mil novos acionistas à bolsa”, afirmou Edemir Pinto. Depois da bonança que teve como auge o ano de 2010, veio a ressaca. Em 2011, houve apenas duas ofertas de ações de 904 milhões de reais. Em 2012, foram apenas 332 milhões de reais. Houve alguma recuperação em 2013 graças à abertura de capital da empresa de milhagens Smiles, da Gol, que ajudou a elevar o valor captado para 3,563 bilhões de reais.. “O que poderia fazer o mercado voltar seria a abertura de capital de novas empresas que estão nascendo e sejam atraentes, como aconteceu com o Google e Facebook”, afirma Flávio Conde, da Gradual Investimentos.
Baixa poupança — Uma pesquisa recente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) mostrou que 80% dos brasileiros não controlam suas finanças e apenas 18% têm um bom conhecimento quando o assunto é finanças pessoais. Num país ainda carente por educação em geral, em especial financeira, a BM&FBovespa e as corretoras de valores tentam promover cursos, palestras, seminários e eventos. O Instituto Educacional BM&FBovespa possui planos de curto, médio e longo prazos para diversos públicos e faixas de renda.
Em paralelo, a Bolsa deu início, no fim do ano passado, a um programa junto às corretoras que oferece crédito por novo investidor pessoa física que aderir à bolsa.. As corretoras, por sua vez, podem usar esses créditos para abater tarifas que tenham de pagar à bolsa. Hoje, 26 corretoras já apresentaram seu plano para atrair pessoas físicas. “Estamos dividindo uma receita que ainda não temos, porque é um cliente novo, e reconhecendo que a corretora tem papel importante no processo de atração de novos investidores”, afirma o diretor de Produtos e de Relações com Investidores da BM&FBovespa, Eduardo Refinetti Guardia.
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