quarta-feira, 2 de abril de 2014

Influência econômica russa em Londres pode ser ameaça vazia
Kimiko De Freytas Tamura e Steven Erlanger - NYT
Empresas russas com ações negociadas na London Stock Exchange (a bolsa de valores de Londres); russos que compram casas avaliadas em milhões de dólares no bairro de Chelsea, em ruas como a Travessa dos Bilionários; crianças russas que estudam nas escolas mais exclusivas da Grã-Bretanha enquanto seus pais fazem compras na Harrods e na Asprey; russos que dirigem clubes de futebol, jornais e adegas que comercializam alguns dos vinhos mais caros do mundo.
Todas essas são supostas provas de que Londres tem uma dependência tão grande do dinheiro russo que a Grã-Bretanha deveria pensar duas vezes antes de aceitar qualquer ampliação das limitadas sanções econômicas que a União Econômica (UE) e os Estados Unidos impuseram à Rússia desde a anexação da Crimeia. A preocupação é que Londres, como um centro financeiro global, possa vir a sofrer danos colaterais desproporcionais.
Mas os dados sugerem o contrário.
Embora a contribuição dos russos à prosperidade e à atividade econômica de Londres seja significativa, ela não é crucial. A conspícua afluência russa é enganosa, pois a riqueza está concentrada nas mãos de muito poucas pessoas. Oligarcas como Roman Abramovich, dono do clube de futebol Chelsea, chamam muita atenção. Mas, entre os cerca de 300 mil russos que vivem na Grã-Bretanha, poucos de seus compatriotas se aproximam da riqueza acumulada por Abramovich.
"A batalha de Londresgrado?", zombou Raoul Ruparel, chefe de pesquisa econômica do Open Europe, um instituto de pesquisa sediado em Londres. "O quão vulnerável está a cidade se levarmos em conta as sanções adotadas contra a Rússia?", perguntou ele, retoricamente, referindo-se ao distrito financeiro de Londres. "As alegações de que a cidade de Londres iria sofrer grandes prejuízos no caso da adoção de sanções financeiras contra a Rússia são exageradas".
Os valores absolutos movimentados pelos negócios e as compras realizadas pelos russos são grandes, disse Ruparel, "mas isso é porque Londres é um grande centro financeiro global, e você precisa contextualizar os números".
Comenta-se que a influência russa deverá ser mais sentida nos mercados financeiros de Londres.
Desde que a Gazprom, a gigante russa do setor de energia, se tornou a primeira empresa russa a ter suas ações negociadas na bolsa de valores de Londres, há 18 anos, outras 67 empresas russas seguiram pelo mesmo caminho. Mas, juntas, elas representam apenas cerca de 5% do total de companhias listadas na bolsa londrina. As companhias de origem russa compõem mais ou menos o mesmo contingente que o das empresas de outras nacionalidades: 95 são dos Estados Unidos, 62, da Índia e 59, da China, de acordo com a bolsa de Londres.
Durante a última década, as emitentes de ações russas foram responsáveis por cerca de US$ 50 bilhões entre os papéis negociados nas bolsas de Londres, o que representa cerca de um quinto das ofertas em termos de valor durante esse período, de acordo com a Dealogic, uma provedora de dados. Mas a maior parte dessa atividade ocorreu antes da crise financeira global. Em 2007, 14 empresas russas obtiveram registro para operar em Londres. No ano passado, apenas uma: o banco e empresa de cartões de crédito TCS Group Holding.
Os bancos britânicos também não estão muito expostos ao capital russo, disse Gilles Moec, economista-chefe para Europa do Deutsche Bank. Ele estima que os russos representem um volume de risco financeiro de aproximadamente US$ 19 bilhões, incluindo empréstimos e valores mobiliários, o que significa apenas cerca de 0,2% dos ativos totais dos bancos britânicos. Os bancos franceses e austríacos estão muito mais expostos a esse tipo de risco do que seus colegas britânicos, disse ele.
De 2009 a 2013, a Grã-Bretanha concedeu vistos de três anos para 433 russos que investiram pelo menos 1 milhão de libras, ou US$ 1,66 milhão, em títulos do governo britânico, aquisição que lhes permitiria adquirir um visto permanente caso decidissem desembolsar 10 milhões de libras dois anos depois e desde que mantivessem os títulos do governo. Só os chineses chegaram perto dos russos nesse quesito: 419 cidadãos da China receberam esse tipo de visto de investidor. Embora o número seja alto, a participação dos russos capazes de arcar com esses vistos representa apenas 0,14% do total de russos que vivem na Grã-Bretanha.
Apesar disso, alguns empresários de Londres que atendem russos temem que as sanções ocidentais estejam começando a irritar. Julia Titova, por exemplo, tem menos de um mês antes do início de seu concurso de beleza Miss URSS, que atrai competidoras da Rússia e de outras 14 ex-repúblicas soviéticas que estão vivendo em Londres. Mas, alguns de seus convidados famosos e juízes originários de Moscou estão aguardando vistos de viagem britânicos, e ela está preocupada com a possibilidade de eles não conseguirem chegar a tempo para o concurso. Julia suspeita que o atraso seja intencional. "O tempo de espera por um visto agora é muito mais longo do que antes", disse ela.
Mas o departamento de fronteiras britânico disse que o atraso foi "apenas uma coincidência" relacionada à contratação, há algumas semanas atrás, de um novo prestador de serviços russo que atua localmente e será responsável pela emissão de vistos comerciais.
Algumas escolas também estão se mostrando ansiosas. Cerca de 2.150 crianças russas estavam matriculadas em escolas particulares e internatos britânicos no ano passado, um aumento de 25% em relação ao ano anterior. Mas esse número representa apenas cerca de um terço do total de estudantes originários da China e de Hong Kong, de acordo com o Independent Schools Council.
Com a exceção da compra de propriedades, os russos não costumam investir na Grã-Bretanha a menos que exista uma ótima oportunidade, disse um consultor fiscal que atende russos e só aceitou falar se sua identidade fosse mantida em sigilo, pois ele teme que suas opiniões possam afastar os clientes. A principal preocupação dos russos ricos, segundo ele, é manter seu dinheiro o mais longe possível do governo da Rússia e de qualquer coisa que possa vir a colocá-los na cadeia em sua terra natal. Eles se importam menos – se é que se importam – com os danos causados pelas sanções ocidentais, acrescentou ele.
Um funcionário do governo britânico reforçou esse sentimento. "Ser um russo rico não é algo condenável", disse um alto funcionário do Ministério das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, que também preferiu manter sua identidade em sigilo, seguindo o costume diplomático. O oficial, no entanto, enfatizou que a Grã-Bretanha está agindo de acordo com as diretrizes da UE, que até o momento só impôs sanções contra indivíduos que acredita estarem diretamente envolvidos na anexação da Crimeia.
Tradutor: Cláudia Gonçalves

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