Dois Brasis
O Estado de S.Paulo
Em discursos simultâneos, um em Brasília, outro em Nova
York, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o economista-chefe do
Fundo Monetário Internacional (FMI), Olivier Blanchard, traçaram
retratos muito diferentes da economia brasileira e principalmente da
política econômica em vigor no Brasil. O país do ministro e de sua
presidente, Dilma Rousseff, continua em boas condições, com inflação
controlada, contas públicas em ordem e expansão de investimentos em
ritmo quase chinês. A descrição do professor Blanchard mostra um Brasil
com baixo crescimento, investimento muito inferior aos padrões
observados em outros países emergentes e uma política econômica sem
credibilidade. Este segundo quadro é muito mais parecido com aquele
apresentado por analistas do mercado financeiro, de consultorias
independentes e de outras instituições multilaterais.
Em exposição no Congresso, o ministro da Fazenda prometeu maior
crescimento econômico, nos próximos anos, em sincronia com a recuperação
dos países mais avançados. Em outras palavras, voltou a apontar a crise
internacional como causa principal - talvez única - dos problemas
brasileiros nos últimos anos. Criticou de novo a decisão da Standard
& Poor's de rebaixar a nota de crédito do País - um gesto sem
repercussão nos mercados, segundo ele. O investimento estrangeiro
continua entrando, argumentou, em ritmo equivalente a US$ 65 bilhões por
ano, depois de uma breve turbulência ocasionada, no ano passado, pelo
anúncio de mudança da política monetária americana.
Os investidores, disse Blanchard em Nova York, em reunião organizada
pela Fundação Getúlio Vargas e pela Câmara de Comércio Brasil-EUA,
continuam "um pouco preocupados" com o Brasil. O motivo da preocupação,
segundo ele, é a deterioração de indicadores importantes, sobretudo da
inflação, das contas externas e das contas fiscais. Em Brasília, ao
mencionar o ingresso de capitais, o ministro Mantega negligenciou um
detalhe: o investimento estrangeiro direto foi insuficiente para cobrir
em 2013 o déficit na conta corrente do balanço de pagamentos, de US$
81,07 bilhões, e neste ano será, quase certamente, insuficiente para
cobrir o rombo previsto, de US$ 80 bilhões.
O ministro da Fazenda reiterou o compromisso de entregar no fim do
ano um superávit primário - dinheiro para pagar os juros da dívida
pública - equivalente a 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB). Esse
resultado, lembrou, foi obtido no ano passado. Essa lembrança foi má
ideia. Afinal, o balanço fiscal foi fechado nos últimos dois anos graças
a artifícios conhecidos como "contabilidade criativa", nome gentil para
uma série de maquiagens e disfarces. Neste ano, o esforço para tornar
menos feias as contas federais começou bem mais cedo, com o registro, já
no primeiro trimestre, de dividendos 667,6% maiores que os de janeiro a
março do ano anterior. Como se conhecesse a fala de Mantega, Blanchard
observou em Nova York: "A questão da credibilidade das políticas é
particularmente relevante no caso do Brasil".
Um dos pontos altos da exibição ministerial de otimismo, em Brasília,
foi a referência à expansão do investimento em máquinas, equipamentos,
instalações e outros meios de produção. O investimento brasileiro, disse
Mantega, só tem crescido menos que o chinês. Blanchard foi mais
prosaico. O Brasil tem investido, segundo lembrou, algo próximo de 18%
do PIB. Não lembrou, nem precisaria lembrar, a proporção observada na
China, de cerca de 40% do PIB, ou mesmo em vários países
latino-americanos, igual ou superior a 24%. A insuficiente formação de
capital fixo é uma das explicações, como observou o economista do FMI,
do baixo crescimento econômico brasileiro.
O Fundo projeta para o Brasil, neste ano, uma expansão de 1,8%.
Estimativas iguais ou em torno desse número têm sido apresentadas por
outras entidades internacionais e por instituições privadas. O governo
tem projetado números maiores - até 2,5% -, mas ainda muito baixos para
os padrões dos emergentes e até de alguns países desenvolvidos. Em
matéria de resultados econômicos, esse governo continua, como se vê, a
contentar-se com bem pouco.
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