sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Mohammed Deif, o intocável líder militar do Hamas
Hélène Sallon - Le Monde
No pátio da mesquita de Al-Khulafa, em Jabaliya, a 4 quilômetros de Gaza, dezenas de jovens enfileirados voltados para Meca rezam no meio da multidão sob as bandeiras verdes do Hamas, na quarta-feira (20). Não couberam na pequena mesquita dessa cidade do norte da faixa de Gaza as centenas de partidários e simpatizantes do movimento islamita, que foram fazer uma homenagem a Wadad al-Asfour e seu filho de sete meses, mortos na véspera em decorrência do bombardeio do prédio onde eles viviam, no bairro de Sheikh Radwan, na Cidade de Gaza.
Vários amigos e vizinhos tiveram a surpresa de descobrir, com a morte da jovem de 27 anos, a identidade daquele que foi seu marido por sete anos. Não era ninguém menos que Mohammed Deif, o comandante supremo das brigadas Ezzedine al-Qassam, o braço armado do Hamas. A aura mítica do homem, alvo "terrorista" número um de Israel, foi forjada tanto pelo mistério que cerca sua personalidade, quanto pelas façanhas que ele demonstrou com seu "exército" diante de Israel, ao longo dos 45 dias da operação "Margem Protetora".
Essa nova tentativa de assassinato direcionado contra Mohammed Deif foi ordenada pelo governo israelense, na noite de terça-feira, com base em informações do Shin Bet. De acordo com dados de sua ampla rede de colaboradores na Faixa de Gaza, a segurança interna israelense fez-se convicta de que Deif se encontrava então junto de sua família. 
"Gato de sete vidas"
Na mídia israelense, fontes militares anônimas afirmam que Deif foi morto no ataque, ou pelo menos ferido. Na quarta-feira à noite, a facção armada do Hamas negou. "Nós prometemos que Mohammed Deif será o comandante militar do exército que libertará a mesquita de Al-Aqsa" em Jerusalém, garantiu, na quarta-feira, seu porta-voz, Abou Obaida.
Em um discurso para a TV, uma hora mais tarde, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, se ateve a ignorar o assunto. Contudo, ele reiterou o objetivo de Israel de eliminar os líderes políticos e militares do Hamas. Essa ameaça foi posta em prática com o assassinato direcionado, na quinta-feira de manhã, em um ataque em Rafa, de três altos comandantes das brigadas Ezzedine al-Qassam: Raed al-Attar, comandante de Raffah, Mohammed Abu Chamaleh, comandante da região sul da Faixa de Gaza, e Mohammed Barhoum.
Em 25 anos, Mohammed Deif já sobreviveu a cinco tentativas de assassinato, o que lhe vale hoje o apelido de "gato de sete vidas". Ele gosta de alimentar seu mito de intocável e tem um cuidado paranoico em apagar qualquer vestígio seu, tanto em seus deslocamentos quanto em suas conversas. "Isso faz parte tanto de uma estratégia de dissimulação quanto de um gosto pela clandestinidade e pelo mistério", afirma Dominique Thomas, especialista em movimentos islâmicos.
Em seu site, a Irmandade Muçulmana alimenta o mito de um "homem simples e solitário, que pode ficar um ano inteiro dentro de um quarto sem sentir frustração ou tédio". "Ele só aparece em um círculo muito restrito", diz Hani el-Bassous, professor da Universidade Islâmica de Gaza.
 "Ninguém sabia com quem ela era casada"
No funeral de sua filha, Mostapha al-Asfour afirmou só ter encontrado o homem uma única vez, quando ele pediu a mão de sua filha, em 2007. "Nós lhe demos nossa filha pois apoiamos a resistência. Ela estava muito orgulhosa de se tornar sua esposa e eu, seu sogro", alega Al-Asfour, carregando em seus braços o corpo de seu neto envolto em uma mortalha branca. "Ninguém sabia com quem ela era casada. Só soubemos depois que ela morreu", afirma Oum Moaz, 45, uma amiga de Wadad. Nenhuma cerimônia foi organizada para o casamento, e a jovem costumava visitar sozinha sua família.
Diante de seu modesto prédio em Jabaliya, as mulheres, envoltas em seus véus negros, alternavam lamentos e gemidos com insultos a Israel, aos Estados Unidos, ao presidente egípcio Abdelfattah Sissi e aos colaboradores que mataram sua "irmã". "Se Israel tiver conseguido matar Mohammed Deif, seu sangue alimentará a resistência", jura Oum Ahmed, 47, a irmã do xeque Nizar Rayan, um dos dirigentes do Hamas, morto por Israel em 2009. 
Trajetória misteriosa
Sobre Mohammed Diab al-Masri, seu nome verdadeiro, eles dizem não saber muita coisa. A única foto conhecida dele é da época de sua detenção em Israel, no ano de 1989. Ele nasceu em 1965 em uma família pobre do campo de refugiados de Khan Yunis. Estudante de biologia na Universidade Islâmica, ele assumiu a liderança da união estudantil da Irmandade Muçulmana, dentro da qual foi criado o Hamas em 1987. Ele teve seu treinamento no braço militar junto de Yahia Ayache, usando o nome de guerra "Abou Khaled", personagem que ele gostava de interpretar na trupe da universidade. Seu patronímico "Deif" ("convidado", em árabe) veio de seu hábito de estar sempre mudando de casa.
Quando elas o prenderam em 1989, durante a primeira Intifada, as autoridades israelenses suspeitavam que ele ocuparia um lugar importante na força militar secreta do Hamas. Depois de ser libertado, 16 mezes depois, ele assumiu o comando do braço sul, o mais radical, das brigadas Ezzedine al-Qassam, criadas em 1990, e tornou-se mestre na arte das ações direcionadas contra os soldados israelenses em atentados a bomba. 
Reflexão militar e política
Suas várias passagens pelos cárceres da Autoridade Palestina, que persegue os militantes islamitas desde sua criação em 1994, não puseram um fim a suas atividades. Libertado pelo presidente palestino em 2001, no início da segunda Intifada, assim como todos os prisioneiros islamitas, ele se tornou o cabeça da onda de atentados suicidas que matou dezenas de israelenses até 2006.
Esse período também foi o de sua ascensão ao topo da organização. Israel foi decapitando uma a uma as cabeças do movimento. O assassinato de Salah Chehadeh, em julho de 2002, o projetou como comandante supremo das brigadas e membro da direção secreta do Hamas. Mas, gravemente ferido – alguns dizem que ele ficou paralítico – em uma tentativa de assassinato no mesmo ano, ele iniciou um longo período de reclusão, afastando-se para dar lugar ao segundo no comando, Ahmed Jabari.
Ele se empenhou em forjar seu "exército", aumentando em muito suas capacidades tecnológicas e operacionais. Com a morte de Jabari, em um ataque direcionado em novembro de 2012, ele se mostrou pela primeira vez, com o rosto pixelizado. Ele só reapareceu no dia 30 de julho, para um discurso de vitória diante do "inimigo sionista", sob a figura de um "líder que alia reflexão militar e política", afirma El-Bassous.

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