Orçamento da Venezuela para 2015 só cobre gasto do país até abril, diz jornal
O orçamento do governo da Venezuela
para 2015, aprovado na terça-feira pela Assembleia Nacional, de maioria
chavista, ficará muito abaixo do necessário para cobrir os gastos de
Caracas no ano que vem - e deverá durar somente até abril. O cálculo foi
feito por especialistas consultados pelo jornal venezuelano El Nacional, de orientação crítica ao chavismo.
O Estado de S.Paulo
O
orçamento aprovado, de 741,7 bilhões de bolívares (US$ 117,7 bilhões,
na cotação oficial mais baixa da moeda americana na Venezuela, de 6,30
bolívares por US$ 1), elevou-se em 34,7% em relação ao montante previsto
para 2014:550,6 bilhões de bolívares (US$ 87,5 bi). De acordo com o
Nacional, porém, este ano, o governo venezuelano gastará 1,12 trilhão de
bolívares, somando-se o orçamento a créditos adicionais do governo - e o
gasto de 2015 tende a se elevar.
O jornal ressalta que,
enquanto Caracas prevê um déficit fiscal equivalente a 3% do PIB, as
projeções extraoficiais para os gastos que extrapolam a receita
venezuelana chegam a 25%.
O economista Luis Oliveros disse
ao Nacional que o fato de o preço do barril do petróleo poder se manter
abaixo dos US$ 60, valor previsto pelo governo no orçamento, compromete
"o financiamento via créditos adicionais" - que são alimentados pelo
excedente da produção petrolífera venezuelana.
A Venezuela
tem uma das maiores reservas de petróleo do mundo. É o terceiro maior
exportador da commodity para os EUA e nono maior exportador do insumo no
planeta. Estima-se que 96% da receita do país sul-americano venha da
exportação de petróleo.
A baixa no preço do produto tem
feito o barril valer pouco mais de US$ 60, em média - e a Venezuela tem
tentado fazer com que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo
(Opep), da qual é membro, diminua a produção do insumo para tentar
elevar o valor do barril por meio da diminuição da oferta. Nações do
Golfo, porém, não têm mostrado interesse em aumentar o preço do
petróleo, para manter seu produto competitivo com o óleo de xisto
betuminoso, produzido principalmente pelos EUA.
Otimismo chavista. O
orçamento de 2015 da Venezuela conta com um crescimento de 3% no PIB do
país e situa sua taxa de inflação entre 25% e 30%. O Fundo Monetário
Internacional (FMI), porém, prevê uma contração de 1% no ano que vem e
inflação de 63,9%. Em 2014, o FMI afirma que a economia venezuelana
diminuiu 3% - prevendo uma inflação de 64,3%.
O deputado
Ricardo Sanguino, do governista Partido Socialista Unido da Venezuela
(PSUV), declarou no dia da aprovação do orçamento que 38% dos gastos
oficiais serão destinados para programas sociais - a principal bandeira
do chavismo - e educação.
Já o deputado opositor Enrique
Márquez, do partido Um Novo Tempo, criticou o fato de o orçamento prever
um preço de petróleo tão próximo ao negociado atualmente, diante da
constante queda no valor da commodity. "Aparentemente, os altos preços
do petróleo não regressarão no curto prazo, por isso, o orçamento é
preocupantemente deficitário."
Escassez. O
presidente da Federação Farmacêutica Venezuelana, Freddy Ceballos,
afirmou ontem à Unión Radio que seu setor encerrará 2014 registrando
escassez de 60% dos produtos que comercializa. Desde agosto, entidades
de representação de farmacêuticos e médicos denunciam uma grave falta de
medicamentos e insumos hospitalares básicos em todo o país, pedindo ao
governo uma "política de emergência".
A falta dos itens é
atribuída à não concessão, por parte do governo, dos dólares de que os
importadores precisam para comprar as mercadorias no exterior e honrar
suas dívidas com os fornecedores.
"Temos um grande Estado
importador. As pessoas buscam seringas nas farmácias e nem isso
conseguem. Fechamos 2014 com 60% de escassez nos produtos do setor",
disse Ceballos, afirmando que a concessão de dólares ocorrida entre
novembro e dezembro não conseguiu pôr fim à escassez. "O problema não é
que não sejam suficientes, mas que não podemos continuar esperando que o
Estado conceda as divisas quando tenha vontade." A escassez também
atinge alimentos e outros itens básicos. Ontem, o presidente Nicolás
Maduro anunciou 111 milhões de bolívares (US$ 17,5 milhões) para uma
"revolução alimentar e produtiva nas escolas". O objetivo, inicialmente,
é instalar 3 mil hortas em estabelecimentos de ensino venezuelanos.
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