Educação - 'Desafio # 1 com Oportunidades'
Charles B. Holland - O Estado de S.Paulo
A área mais sucateada e desprestigiada pelo governo e pela nossa
sociedade é a da educação. Os salários médios dos professores no
Brasil, principalmente no ensino fundamental, são pífios. Até
ascensorista ou motorista do Senado Federal recebe várias vezes mais do
que professores do fundamental I. Educação é tratada com negligência por
quase todos.
Os países desenvolvidos, ou com essas pretensões, promovem ensino sempre
em tempo integral - do fundamental ao colegial e universitário -, com
boas instalações. Na Ásia é normal também ter aulas aos sábados. Aqui,
no Brasil, todas as escolas em todos os níveis só funcionam por turnos -
de manhã, à tarde e à noite. Poucas faculdades têm ensino em tempo
integral. As instalações da maioria das escolas são precárias e os
professores são mal remunerados.
Na Alemanha e em países interessados em manter a competitividade em
alta, a remuneração dos professores é elevada, principalmente no ensino
fundamental I. Sabem que precisam atrair e reter os melhores talentos
para transmitir conhecimentos, experiência e entusiasmo às crianças no
seu auge de assimilação de aprendizado. Por exemplo, um professor do
fundamental I recebe na Alemanha, na média, em torno de R$ 124 mil a RS
167 mil anuais. No Brasil gira em torno de R$ 24 mil a R$ 30 mil anuais
assumindo dedicação integral.
Infelizmente, o ensino público no Brasil está engessado, dirigido por
burocratas governamentais distantes das atuais necessidades do mercado.
Os recursos públicos alocados para educação, comparados com outros
países, não são baixos; são, em geral, mal aplicados.
No setor público há ausência de meritocracia: há, sim, vantagens em
decorrência de tempo de serviço e acumulação de direitos adquiridos.
Inexiste a obrigatoriedade de atualizações periódicas voltadas para as
necessidades crescentes do mercado. São urgentes adaptações nos
currículos, melhor uso de novas tecnologias e de atendimento, voltadas
para as necessidades efetivas do mercado atual de trabalho. Com a
estabilidade de emprego no setor público, os ruins nunca são
dispensados. Afinal, a sociedade sempre bancou e banca as contas. Até
quando?
A educação não se pode restringir a informações formais. Assume uma
ampliação cultural, conhecimentos técnicos práticos, aderência a
disciplina, relacionamentos comportamentais, civismo, interação pessoal,
habilidades de trabalho em equipe, música, línguas, prática de esportes
coletivos, etc. É impraticável transmitir educação abrangente com
dedicação de apenas umas poucas horas por semana, em escolas e
faculdades com instalações e ensino precários, professores mal
remunerados, sem valorizar e praticar meritocracia. O povo mantido nas
trevas explica o status quo de complacência.
Como um inusitado em nível mundial, a sociedade brasileira aloca muitos
recursos para lazer. Por exemplo, temos mais casas de campo e de
veraneio do que a totalidade da Ásia, com os seus 4,4 bilhões de
habitantes. Nos feriados no meio da semana, dezenas de milhões de
brasileiros prolongam as folgas para curtirem lazer, distanciando-se do
trabalho e da educação, levando junto suas crianças e seus jovens.
Entre os países que mais investiram em educação nas últimas décadas, e
ainda investem, citamos a Austrália, a Coreia do Sul, Israel, Japão,
Nova Zelândia e Cingapura. Não por acaso estão entre as nações que mais
cresceram e oferecem melhor qualidade de vida a seus habitantes.
É constrangedor saber que a proporção de pessoas que não sabem ler ou
escrever, no Brasil, é maior que a média registrada na América Latina. O
Brasil está atrás de países como Uruguai (1,7%), Argentina (2,4%),
Chile (2,95%), Paraguai (4,7%), Colômbia (5,9%) e Bolívia (9,4%).
Novas tecnologias não faltam. O Brasil possui uma excelente rede
nacional de comunicações - rede nacional de TV e de banda larga -,
todavia, é pouco utilizada para tirar o atraso na educação. Por que a
nossa sociedade e o governo hesitam tanto em massificar mais rapidamente
o uso intensivo das novas tecnologias de educação na rede pública e
para todos de forma gratuita? O baixo nível de propostas e discussões
nas campanhas eleitorais a cada dois anos reflete com fidedignidade as
expectativas da maioria da nossa sociedade.
O que impede de introduzir muitos canais de televisão e websites 24/7
dedicados exclusivamente à educação? O que impede de pôr à disposição em
rede nacional todos os cursos básicos, intermediários, colegiais,
profissionalizantes (informática, turismo, entretenimento, gastronomia,
educação física, de línguas, torneiro mecânico, cozinheiro, etc., e
outros 200 cursos igualmente importantes para o nosso desenvolvimento) e
de ensino universitário (contabilidade, engenharia, física, agronomia,
veterinária e química, entre outros); tudo isso com o apoio dos melhores
professores, excelência de didática, metodologia e conteúdo para
beneficiar 202 milhões de brasileiros?
A Austrália há mais de 80 anos erradicou o analfabetismo no país por
meio do uso intensivo das rádios comunitárias via ondas curtas. Por que
não podemos almejar um progresso semelhante, só que agora, oito décadas
depois?
Concluindo, um país gigante com um povo jovem não se pode contentar em
manter a nossa sociedade nas trevas e no atraso, investindo pouco e
administrando mal os recursos arrecadados da sociedade. Precisamos
começar a administrar efetivamente aplicando meritocracia, competência, e
recursos apropriados para transformar a nossa nação de modo compatível
com o destino que merecemos.
É necessário aceitar mudanças para enfrentar nosso desafio # 1: educação.
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