Ferida moral
Merval Pereira - O Globo
Embora se refiram à campanha do primeiro mandato, o que, de acordo
com a interpretação do Procurador-Geral da República Rodrigo Janot e do
relator do STF Teori Zavascki, não pode atingir a presidente Dilma
reeleita, a confirmação das ilegalidades fere moralmente a imagem
presidencial, que hoje só se sustenta em pé diante da sua aparente
honestidade pessoal.
A principal proteção, razão pela qual o Procurador-Geral da República
já recusou investigar Dilma no início da Operação Lava-Jato, é a
chamada "relativa e temporária irresponsabilidade" pela prática de atos
estranhos ao exercício de suas funções, como está previsto no art. 86, §
4º da Constituição.
Nesse caso, há uma discussão teórica sobre se a proibição de o
Presidente ser "responsabilizado" por atos estranhos a seu mandato
inclui a investigação do crime. Há juízes que consideram que o
Presidente não pode ser condenado no exercício do cargo, mas pode ser
investigado. Outros afirmam que a proteção à figura do Presidente da
República existe em diversos países para impedir que uma eventual
investigação que o considere culpado produza uma crise institucional.
O Procurador-Geral insiste em que a jurisprudência do STF diz que a
presidente não pode ser nem mesmo investigada, no que é contestado pelo
ministro do Supremo Gilmar Mendes, que garante que já existe uma decisão
permitindo a investigação.
Outra questão técnica que influencia a política é definir se um ato
cometido no primeiro mandato pode ser investigado e punido no segundo
mandato. O Procurador-Geral Janot entende que são dois mandatos
distintos, mas o Supremo ainda se definirá sobre isso.
Em princípio não há sentido em considerarem-se os mandatos
separadamente num sistema de reeleição, pois nesse caso estaria sendo
dada ao governante a permissão para cometer crimes para se manter no
poder.
Uma série de delações premiadas já indicou que o PT vem utilizando
dinheiro desviado da Petrobrás para financiar suas atividades, muitas
vezes fazendo uma lavagem de dinheiro simulando doações oficiais
declaradas ao Tribunal Superior Eleitoral. Já há inclusive uma
condenação do ex-tesoureiro João Vaccari devido a essas doações.
A pedido de Renato Duque, ex-diretor da Petrobras, foram feitas 24
doações ao Partido dos Trabalhadores (PT) entre outubro de 2008 e abril
de 2010, totalizando R$ 4,26 milhões.
Empreiteiros como Ricardo Pessoa, da UTC, também já denunciaram terem
sido obrigados, através de ameaças do então tesoureiro e hoje ministro
Edinho Silva, a fazerem doações na campanha de 2014, utilizando recursos
desviados da Petrobras, e foram localizados depósitos feitos pela
Odebrecht ao marqueteiro João Santana até mesmo nos dias do segundo
turno da campanha de 2014.
O cruzamento dos dados da Operação Lava-Jato com as contas da
campanha de 2014 traz para o atual mandato as investigações. Já existem
suficientes provas testemunhais e muitas documentais – como comprovantes
de depósitos em contas daqui e do exterior – de que o PT utilizou o
dinheiro desviado por seu esquema criminoso para financiar sua atividade
política, incluindo as campanhas eleitorais de Lula em 2006 e de Dilma
em 2010 e 2014.
É provável que novas condenações saiam da caneta do Juiz Sérgio Moro à
medida que as delações premiadas forem sendo checadas e comprovadas e
os cruzamentos de dados confirmem as denúncias. É só uma questão de
tempo, mas o tempo de que o TSE necessita para as análises técnicas não
bate com o tempo político e econômico que o país vive.
Mesmo que não sirva como peça acusatória, pelo menos no momento, para
a impugnação da chapa no TSE, a denúncia da Andrade Gutierrez serve
para esquentar os ânimos dentro do Congresso, que recomeça a ter o
impeachment como solução possível diante do descalabro que está sendo
desvelado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.