Crônica francesa: Adeus Merkozy
Sylvie Kauffmann - Le Monde
Quando se ouve Vladimir Putin explicar que um debate público entre candidatos (incluindo ele) durante uma campanha eleitoral é perfeitamente inútil porque o que conta “não é o debate, mas sim o resultado”; quando se vê a China, superpotência em formação, administrar em total opacidade dois casos explosivos, deixando a administração Obama se enredar em explicações nebulosas; quando se vê a Grécia, berço da democracia, dependendo do carisma do jovem líder de um obscuro partido de extrema esquerda que obteve quase 17%, ou seja, 10% a mais que o partido neonazista...
Então se entende melhor esse tweet do embaixador dos Estados Unidos em Paris, Charles Rivkin, postado no domingo (6) à noite logo após o anúncio da vitória de François Hollande no segundo turno da eleição presidencial: “Parabéns aos franceses por essa admirável eleição. A França continua sendo um modelo para todos os povos que aspiram à democracia”.
Haveria, nesse cumprimento, um tanto de paternalismo? Não necessariamente. Os próprios americanos têm pensado sobre os problemas de sua democracia, os bloqueios institucionais, o veneno do dinheiro que chove nas campanhas eleitorais.
Se os franceses não fossem os campeões em todas as categorias de autoflagelo, eles pensariam que na verdade essa eleição presidencial de 2012 foi um notável sucesso. Porque, quando em plena crise econômica, por duas vezes em duas semanas, 80% dos eleitores saem de suas casas para depositar seus votos nas urnas, após uma campanha conduzida sobre temas difíceis e brigas de números, esse é um sinal de ótima saúde democrática.
A mobilização de boa parte desses mesmos eleitores no momento das prévias socialistas, no outono de 2011, já havia sido uma surpresa. Depois, programas intermináveis de televisão reunindo os candidatos no primeiro turno bateram recordes de audiência. A grande participação nos grandes comícios passou a imagem de um eleitorado motivado e engajado. O apogeu foi atingido pelos 18 milhões de telespectadores que, no dia 2 de maio, acompanharam três horas do cara-a-cara televisionado dos dois finalistas, Nicolas Sarkozy e François Hollande.
A mídia estrangeira e sobretudo a mídia europeia também acompanharam esse debate, que eles “twittaram” e “postaram” ao vivo nas redes sociais e em seus websites como nunca se vira antes. Os políticos europeus, estupefatos, começaram a sonhar em ter direito também em seus países a três horas de televisão em horário nobre sem que o público desligasse: impensável!
O que têm a nos dizer essa eleição e o interesse que ela tem suscitado na França e no exterior? Primeiro, que a democracia está se portando bem e que ela continua sendo um marcador forte da identidade europeia --inclusive naquilo que às vezes ela nos lembra de desagradável. O extremismo hoje na Europa se exprime através das urnas, e é mais saudável do que pela violência ou pela passividade. É a vitória do político.
Segundo, que essa eleição presidencial francesa foi, bem além das fronteiras do país, uma eleição europeia, pela repercussão que teve e pela importância que representava para a União Europeia. Por quê? Um outro elemento forte da identidade europeia, além da democracia e do Estado de direito, é seu modelo social, fundamentado na solidariedade. Esse modelo pode ter variantes, uma vez que passa por regimes conservadores, liberais ou social-democratas, mas é fundamentalmente comum aos países da União Europeia.
Hoje, o modelo social europeu está sendo violentamente colocado em xeque, tanto pelo choque da globalização e da fragmentação econômica por ela gerada quanto pela crise da dívida. É por isso que, entre os dois turnos, a eleição presidencial francesa se tornou uma eleição europeia: o primeiro turno revelou uma rejeição, por cerca de 30% do eleitorado, de regras impostas pelo exterior, pela Europa ou pela globalização.
No segundo turno, diante do presidente em final de mandato, que, apesar de seus esforços tardios para se diferenciar, encarnava a Europa da austeridade e a Europa “Merkozy”, François Hollande se transformou em arauto da Europa da esperança, aquele que poderá salvar o modelo social europeu através do crescimento. De repente, num momento em que espanhóis, italianos e gregos vivem um impiedoso cotidiano de reduções orçamentárias, um candidato francês consolidou uma alternativa possível, uma luz no fim do túnel.
Pouco importa que essa esperança se baseie em um gigantesco mal-entendido: muitos na França acreditam que o “crescimento”, remédio milagroso proposto pelo candidato Hollande, permitirá que escapemos das reformas estruturais tão dolorosamente instauradas nos países vizinhos.
Caberá ao presidente Hollande esclarecer esse mal-entendido --ele e sua equipe sabem bem que um eventual “pacto de crescimento” não nos dispensa do pacto orçamentário para controlar os déficits e, portanto, a dívida do país. Como lembrou Laurent Fabius logo no dia seguinte à eleição, “a cada dia que passa, a França precisa pedir emprestado 500 milhões de euros”. A eleição de François Hollande não mudou essa equação.
Mas o que colocou a França de volta na linha de frente no debate sobre o futuro da Europa foi a ideia, defendida por Hollande, de que o modelo europeu de solidariedade e de proteção do meio ambiente não é incompatível com os ajustes impostos pela globalização, pela competição das economias emergentes e pela política de curto prazo dos mercados financeiros.
Os países escandinavos já abriram o caminho para essa ideia. Mas, na escala da França e de suas obrigações, é uma aposta enorme.
E essa aposta só pode ser imaginada se for experimentada junto com a Alemanha. Um leitor do “Financial Times” sugeriu recentemente que, em caso de vitória de Hollande, a dupla franco-alemã fosse batizada de “Homer” [“Homero”], sucedendo o “Merkozy”: será possível de fato sonhar com um possível relançamento da odisseia europeia?
Tradutor: Lana Lim
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