Europa recebe Hollande a contragosto
Claudi Pérez - El País
Para muitos europeus isto não é mais uma recessão; é uma depressão. Vinte e cinco milhões de pessoas estão desempregadas no continente, o consumo está paralisado, a confiança das empresas é mínima e diariamente são anunciados cortes do Estado do bem-estar diante da interminável crise fiscal e financeira.
As eleições na França e na Grécia funcionaram como uma espécie de plebiscito sobre essa rígida política de disciplina fiscal imposta por Berlim e Bruxelas para acalmar os mercados: a tesoura é muito necessária, mas franceses e gregos abjuram a cruzada ideológica promovida pela Alemanha. Além de Paris e Atenas, a Europa inteira quer voltar a discutir a profundidade do ajuste, a velocidade em que se corta, a necessidade de acompanhar a imprescindível tesoura com políticas de estímulo. Bruxelas, a contragosto, começa a mover-se nessa linha. Berlim não. Berlim continua obstinada.
A chanceler alemã, Angela Merkel, rejeitou categoricamente na segunda-feira (7) a possibilidade de renegociar o tratado que consagra a austeridade na zona do euro. Merkel afirmou que receberá "de braços abertos" o presidente eleito da França, o socialista François Hollande, que durante a campanha prometeu dezenas de vezes reabrir o tratado para acrescentar um anexo sobre crescimento. Essa promessa e a contumácia dos fatos (com meia Europa já em recessão) obrigam a UE, a Alemanha e o próprio Banco Central Europeu a mudar de ritmo.
Mas imediatamente depois de suas calorosas boas-vindas Merkel afirmou que não está "em disposição" de assumir mudanças no tratado. Uma das duas: ou se trata de um movimento tático para testar a integridade do novo inquilino do Eliseu, que não tem margem de sobra pela fragilidade da economia francesa, ou o que se aproxima na Europa é um choque de trens entre França e Alemanha e esses "braços abertos" são para dar um abraço de urso.
Bruxelas assiste aparentemente impassível a essa aproximação que deriva dos primeiros rodeios entre Paris e Berlim, que terminarão com uma fórmula que satisfaça as duas partes, dentro do cabível. "Não interessa a ninguém na Europa que o eixo franco-alemão se rompa", segundo fontes europeias que afirmam que o domínio alemão nos últimos anos --e a falta de um contrapeso da França-- foi contraproducente.
A UE não tem uma verdadeira agenda de crescimento desde o Livro Branco de Delors, por volta dos anos 1990, ou desde o falido projeto constitucional promovido por Romano Prodi. O presidente da Comissão, o conservador José Manuel Durão Barroso, começou seu mandato abraçando a desregulamentação e o "laissez-faire", para mais tarde apostar nos estímulos keynesianos depois da quebra do Lehman Brothers. Quando chegou a crise fiscal, foi fiel aliado de Merkel e Sarkozy na aplicação estrita do rigor fiscal e das reformas estruturais. Agora a Comissão começa a corrigir o tiro: Barroso se reunirá proximamente com Hollande para discutir "como impulsionar a economia a fim de gerar um crescimento duradouro sobre bases saudáveis e como criar novos empregos", afirmou um porta-voz.
Em apenas alguns dias anunciou um plano de investimentos, e na segunda-feira Bruxelas confirmou que vai suavizar os prazos para cortar o déficit nos países com problemas, como a Espanha. Mas a equipe de Barroso considera que Bruxelas está há dois anos promovendo esse tipo de políticas pró-crescimento. A realidade é outra: a austeridade se consagrou nos tratados, enquanto os estímulos estão apenas na cozinha, em uma multidão de informes que se plasmaram em algum documento oficial, mas esperam que se substancie a mudança de rumo que Hollande imprimiu à política europeia.
O debate que emerge na Europa é fundamental. Estão em jogo as relações franco-alemãs sobre a base da velocidade dos ajustes. A margem de Hollande é reduzida: não pode repetir os erros de Mitterrand nos anos 1980 --um programa keynesiano de gasto público e social que desafiou o capitalismo financeiro--, porque os mercados reagiriam com uma forte pressão sobre a França. "A grande pergunta é se Hollande pode conseguir uma mudança na posição inarredável de Merkel: se realmente a Alemanha cede e assim se liberam fundos para promover o crescimento. Tem apenas algumas semanas para consegui-lo", aponta Guntram Wolf, vice-diretor do laboratório de ideias Bruegel.
Não há muito tempo, e além disso os resultados das eleições gregas deixam na Europa uma incógnita preocupante. A queda dos partidos pró-europeus deixa aberta uma possibilidade --remota, é verdade-- de abandono do euro. "Uma maioria pró-europeia esclareceria o horizonte e é possível, mas nada segura. E com o segundo programa de ajuda em marcha o mercado começa a se preocupar com quanto vai durar o próximo governo", adverte Daniel Gros, diretor do CEPS de Bruxelas.
Essas interrogações devem ser respondidas com as eleições legislativas pendentes na França e as regionais na Alemanha, e em meio de toda a fanfarra ligada a uma mudança na presidência da França, tão significativa para um continente dominado maciçamente pela direita. No domingo à noite terminou o desprezo da família conservadora europeia pelo presidente eleito francês. Merkel pegou o telefone e ligou para Hollande. "Felicitou-o, mostrou-lhe sua vontade de cooperar e convidou-o a viajar a Berlim quando tomar posse", resumiu Pierre Moscovici, diretor da campanha socialista.
A França não ratificará o tratado que consagra a austeridade na Europa tal como está. Nas próximas semanas se verá o que consegue arrancar da Alemanha: parecem factíveis a aprovação da taxa Tobin, o impulso ao Banco Europeu de Investimentos e o uso imediato dos fundos estruturais bloqueados para estimular o crescimento, e inclusive o relaxamento dos prazos para reduzir o déficit em vários países. Sobre a mesa também há algumas ideias heréticas na Alemanha: os eurotítulos e o papel do BCE.
Colaboraram Juan Gómez, em Berlim, e Miguel Mora, em Paris
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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