Onda de imigrantes da Bulgária e Romênia surpreende sistema alemão
Özlem Gezer - Der Spiegel
Mundos diferentes estão em colisão, enquanto uma enxurrada de búlgaros e romenos empobrecidos invade a Alemanha, surpreendendo as autoridades. Os esforços para ajudar a integrar os novos moradores, contudo, têm sido lentos, e muitos imigrantes se sentem perdidos em um sistema que não compreendem.
Em suas mãos, a búlgara carrega sacolas plásticas cheias de cartas de autoridades alemãs e notas de cobrança de agências de empréstimos, na maior parte fechadas.
“Por que os alemães escrevem tantas cartas? Em nossa aldeia, nem tínhamos carteiros”, diz a senhora, balançando a cabeça em descrença na longa fila diante do centro de assessoria da Verikom, em Hamburgo.
Para aliviar sua frustração, ela estudou sua enorme pilha de correspondência. Envelopes amarelos são notificações de pagamentos em atraso e, portanto, perigosos. As cartas com uma águia são do Estado. Logotipos coloridos em geral são contas de empresas de telefone.
Os mundos estão colidindo desde que números crescentes de búlgaros e romenos começaram a chegar na Alemanha. De muitas formas, as autoridades estão tão atrapalhadas com os pobres imigrantes cidadãos da União Europeia quanto os próprios imigrantes estão com a realidade da vida na Alemanha.
Nesta semana, o Conselho Especialista sobre Integração e Migração de Fundações Alemãs (SVR) vai apresentar sua avaliação de 2012. O relatório anual, que avalia a colaboração da política de integração entre as autoridades federais e estaduais, chega a uma conclusão séria: a coordenação é inadequada, e quase não há uma cooperação eficaz.
Planos de ficar
O problema é mais evidente na forma como as autoridades lidam com novos grupos de imigrantes do Sudeste da Europa. Não há uma estratégia específica. Pior, muitos políticos locais e nacionais assumem que os imigrantes búlgaros e romenos são apenas trabalhadores temporários que logo voltarão ao seu país de origem -exatamente como o governo alemão esperou que os “trabalhadores convidados” da Turquia e Grécia fizessem décadas atrás.
As autoridades locais só agora estão começando a compreender que os imigrantes dos países vizinhos da Alemanha a leste também pretendem ficar. Berlim está adotando um papel pioneiro neste respeito e quer ratificar um plano de ação formulado para melhorar fundamentalmente as condições para os imigrantes até 2016.
A cada semana, relatórios de outras cidades mostram como essas medidas são necessárias. No final de março, uma ação policial na cidade Mannheim, no Sudoeste, revelou sérios casos nos quais os proprietários estavam cobrando alugueis exorbitantes dos imigrantes por apartamentos com condições desumanas e sem contratos. Dois romenos em Stuttgart recentemente foram condenados por explorarem meninas em seu próprio país como prostitutas, nos chamados “bordeis de tarifa única”. Outros recém-chegados em Münster acamparam ao longo de um canal.
Inúmeros europeus do sudeste conseguem sobreviver com diárias, algumas vezes ganhando apenas 3 euros (em torno de R$ 8) por hora, sem seguro saúde ou contribuições ao sistema de previdência social. Só em Frankfurt, os investigadores estimam que haja entre 10 mil e 17 mil búlgaros falsamente classificados como autônomos, que de fato estão fazendo trabalho que deveria estar sujeito a contribuições de saúde e segurança social, assim como um contrato de emprego.
Como muitas cidades não têm programas de integração ou centros de aconselhamento para búlgaros e romenos, grupos sem fins lucrativos, como a associação intercultural de comunicação e educação Verikom de Hamburgo estão tentando ajudar.
"O último elo da cadeia"
Tülay Beyoglu, filha de imigrantes turcos de 33 anos, em geral trabalha na Verikom ajudando migrantes árabes e turcos sobre questões relativas a divórcio e pensão alimentícia. Há algum tempo, porém, o escritório dela tem sido inundado com pedidos de ajuda de búlgaros que mal falam alemão e muitas vezes estão desempregados e sem teto.
Beyoglu é paciente, e muitas vezes trabalha além do horário. “Precisaríamos de outras 50 pessoas trabalhando aqui”, diz ela.
Um ano e meio atrás, uma búlgara veio ver Beyoglu pela primeira vez. A mulher tinha sido enganada por uma loja de móveis turca e ainda está pagando um empréstimo duvidoso. Ela e a família até hoje moram em um apartamento precário no bairro de Wilhelmsburg, em Hamburgo. O prédio é conhecido como “a hospedaria búlgara”. Ela não tem um contrato de aluguel e, se precisar de comprovante de residência, que é exigido por lei na Alemanha, ela tem que pagar ao proprietário uma propina de $ 400 euros. “Os búlgaros são o último elo da cadeia”, diz Beyoglu.
Todos os dias, multidões de europeus do Sudeste convergem para o escritório de Beyoglu. Alguns reclamam de patrões corruptos, outros começam a chorar contando como os contrabandistas roubaram todo seu dinheiro. Famílias maiores pagam aos contrabandistas $ 5.000 euros para que as levem para a Alemanha. Pais mal informados pagam $ 1.000 euros para “despachantes” simplesmente preencherem um pedido de salário família.
As pessoas que vêm ver Beyoglu muitas vezes oferecem dinheiro por sua ajuda. “Eles estão acostumados a pagar por tudo em seus países de origem”, explica. Muitos dos imigrantes mais recentes da Bulgária e Romênia são romas. “Eles ainda não entendem o sistema de bem-estar social alemão”, diz Beyoglu.
Erros do passado são repetidos
Essa noção parece que ainda não chegou ao governo federal. Em dezembro último, o Ministério do Interior enviou à Comissão Europeia um relatório sobre a situação dos romas na Alemanha. O relatório concluiu que não “era necessária” uma estratégia nacional porque os romas tinham acesso aos programas de integração existentes.
A regra que se aplica aos romas se aplica a todos os outros romenos e búlgaros. Como há cidadãos da UE, eles não podem ser forçados a participar de cursos de integração -e se escolherem fazê-lo, são cobrados pelo privilégio.
“O relatório do governo está muito distante da realidade”, diz o diretor do SVR, Klaus J. Bade. “Mostra que a máquina política não vai começar a se mexer até que ocorra um acidente”.
Bade estudou bem os recém-chegados do sudeste europeu e adverte do perigo de repetir os erros de política de integração cometidos no passado. Afinal, os programas montados para árabes ou turcos que moram na Alemanha há tantos anos são inadequados para as necessidades dos romas da Bulgária e Romênia. Eles precisam primeiro “entender as regras do cotidiano do mundo Ocidental -coisas que não podem ser aprendidas em uma aldeia do Sudeste europeu”, diz ele.
Circunstâncias precárias
O bairro tradicionalmente multicultural de Neuköln, em Berlim, fornece um bom exemplo da profunda cisão entre os imigrantes recém-chegados e os estrangeiros bem estabelecidos. Há algum tempo, romenos e búlgaros vêm tentando encontrar lugar ao longo dos turcos e árabes de Neukölln.
Em abril, o bairro publicou seu segundo “relatório da situação dos romas”, que revelou que muitos vivem em “circunstâncias precárias”. Além disso, muitas crianças são “subdesenvolvidas para sua idade, são analfabetas” e têm “pouca ou nenhuma escolaridade”.
Outros problemas detalhados no relatório incluem “poluição sonora, maior produção de lixo, danos às propriedades e um conceito diferente de coexistência com os vizinhos”. Estes muitas vezes reagem aos imigrantes com “falta de compreensão, resignação, pedidos de ajuda, fúria, revolta e até ódio”. Apesar de serem cidadãos da UE, os romenos e búlgaros estão em último lugar na “hierarquia” das nacionalidades representadas em Neukölln, segundo o relatório.
A supervisora de educação de Neukölln, Franziska Giffey, pode testemunhar as conclusões do relatório quase todos os dias. Dois anos atrás, ela foi uma das primeiras pessoas a notarem a enxurrada de crianças de novos grupos de imigrantes em suas escolas. Giffey tentou encontrar professores e profissionais com idiomas adequados e alertou as autoridades locais e do senado de Berlim. Ainda assim, muitas vezes se sente impotente. “O que estamos vendo aqui é o impacto da migração dos pobres da Europa”, diz ela. “Não podemos controlar a situação, só reagir a ela”.
No final de abril, uma força tarefa de vários departamentos do senado de Berlim discutiram as dificuldades dos novos imigrantes da cidade. Após muito atraso, a questão finalmente será abordada pelo governo regional.
Tradução: Deborah Weinberg
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