quinta-feira, 10 de maio de 2012

LIDERANÇA DA ALEMANHA NA UE É COLOCADA EM XEQUE

Alemanha mais isolada: começa a quebra da liderança alemã na Europa
Rafael Poch - La Vanguardia Depois da tríplice derrota de sua política --em Paris, Atenas e na região de Schleswig-Holstein, no norte da Alemanha--, a chanceler Angela Merkel está mais isolada na Europa e na Alemanha. Começa a quebra de certa liderança alemã na Europa, que a reunificação de 1990 e sua estratégia exportadora tornaram possível. O peso da Alemanha é maior que o de qualquer outra nação europeia, mas não consegue se impor ao conjunto.
São três dados impossíveis de ignorar. Na França, onde Merkel apoiava Nicolas Sarkozy, ganhou François Hollande, o rival que ela não quis receber e cujo programa central é revisar o receituário alemão. Na Grécia, 60% dos votos foram para forças políticas que rejeitam esse mesmo receituário: o que fez a renda média cair 25% em apenas um ano e que torna o país ingovernável. As regionais de Schleswig-Holstein revelaram a décima região alemã consecutiva em que o governo conservador de Merkel não tem maioria.
Esses três aspectos, ainda não diretamente intercomunicados para os alemães, provocam perguntas no interior da Alemanha. O problema, entretanto, está na França, como se sugere aqui: a França é um país anômalo que deve mudar. Em Bruxelas, a liderança alemã tornou o establishment de funcionários não eleitos ainda mais autocrático no que, em essência, é uma defesa dos desmandos do poder financeiro e uma rejeição à política solidária.
Então, mudar a França ou pôr de novo a Alemanha em seu lugar? Na batalha por uma renovação da UE, a França representa o vetor cidadão, a tradição do protesto e da legitimidade popular. A atual Alemanha representa o contrário, a obediência devida ("Obrigkeit") às leis econômicas que são apresentadas como princípios inexoráveis de física, fora de qualquer opção política. A questão é "a política ou os mercados", diz Jakob Augstein, filho do histórico editor de "Der Spiegel". Sua visão não é a mais alemã da questão.
A visão majoritária é representada por Gunther Nonnemacher, editor do jornal "Frankfurter Allgemeine Zeitung": "Os franceses são um povo conservador e anárquico, aferrado a um modo de vida tradicional e antiquado", diz. Essa desqualificação, que não impede uma tímida admiração pela civilização francesa, inclui um assombro político: "Enquanto Tony Blair com o Novo Trabalhismo e o SPD com Schroeder testaram novos caminhos, o Partido Socialista francês continua preso à nostalgia de Mitterrand", opinam os correspondentes da grande imprensa alemã em Paris. Um assombro que desemboca em irritada incompreensão: "A França não precisa de eleições, e sim de uma crise", afirma um deles.
As projeções para o futuro não podem ser outras que as de um regresso francês ao senso comum alemão: "Seu modelo social é impagável, sindicatos e empresários se veem mais como inimigos do que como sócios, a exceção francesa chega a seu final", anuncia o editorial do "Suddeutsche Zeitung", um jornal de centro-esquerda. Em consequência, Hollande deve se orientar pelo que Schroeder fez em 2003, o grande corte social trabalhista da Agenda 2010, isto é, submeter-se à física neoliberal que causou a quebra. De todo modo, esta é a mensagem sobre a França que predomina na Alemanha.
O problema é que esse pobre país vizinho que se descreve, essa nação perdida em seus atavismos para a globalização do imaginário alemão, não tem grande coisa a ver com a realidade. Nos últimos dez anos, até 2011, a França cresceu em média 1,2% (a Alemanha, 1,1%), com 3,9% de déficit (a Alemanha, 2,6%) e uma dívida de 82% (contra 83% na Alemanha). O modelo francês tem defeitos e um Estado mais intervencionista, mas isso não piorou seus resultados e, apesar da doutrina, não há evidência empírica que demonstre que isso pesa. A Ásia Oriental sugere mais o contrário.
A zona do euro contém economias muito diferentes, sistemas muito organizados no norte e capitalismo mediterrâneo no sul. A França está no meio. O sistema alemão é muito capaz para formular estratégias nacionais integradas de exportação, que no sul são impensáveis. Nos últimos dez anos essa capacidade desequilibrou sobretudo a zona do euro, fazendo disparar déficits e superávits.
"O motor franco-alemão é crucial, mas rejeito o duopólio", diz Hollande. A Europa é diversa e não deve ser uma questão de receitas únicas que se impõem à base de disciplina, senão de valores e com atenção para os procedimentos. As posições devem ser consensuais e sensíveis à vontade cidadã. Merkel não terá remédio senão retificar. Por razões internas não pode renegociar seu pacto fiscal sem perder a cara. Anuncia-se uma agitação sutil.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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