terça-feira, 27 de agosto de 2013

Angela Merkel deixa a porta aberta para corte da dívida grega
Christian Rickens - Der Spiegel
A chanceler alemã Angela Merkel recusou-se a descartar categoricamente um corte para a dívida da Grécia na segunda-feira passada, em um sinal de que está mantendo todas as opções em aberto para enfrentar a crise do euro caso vença as eleições gerais da Alemanha e ganhe um terceiro mandato --como é amplamente esperado-- no próximo dia 22 de setembro.
"Eu gostaria de advertir explicitamente contra um corte da dívida", disse Merkel em entrevista à revista Focus.
Essa foi apenas uma advertência, e ela está muito aquém da afirmação categórica feita pelo ministro da Fazenda da Alemanha, Wolfgang Schäuble, que disse que os ministros da Fazenda da zona do euro haviam prometido que o primeiro corte da dívida da Grécia seria um "evento totalmente extraordinário, que nunca mais ocorreria". Ou seja, o corte da dívida não iria se repetir, disse Schäuble.
Outros políticos da coalizão de centro-direita de Merkel também descartaram a possibilidade de um novo corte da dívida, embora o comissário europeu de Energia, Günther Oettinger, membro da União Democrata Cristã (CDU), do partido de Angela Merkel, tenha dito que um corte ainda pode ocorrer. "Um corte da dívida não é uma questão para o futuro próximo, mas não se pode descartá-lo para sempre", disse Oettinger ao jornal Welt am Sonntag.
O próprio Schäuble já havia levantado a questão relativa à liberação de novos financiamentos para a Grécia ao dizer, durante um comício de campanha eleitoral na terça-feira passada, que o país precisará de um terceiro programa de ajuda financeira em 2014.
Oettinger e o ministro da Fazenda da Grécia, Giannis Stournaras, apresentaram estimativas notavelmente semelhantes para o financiamento adicional necessário. Oettinger falou sobre uma "uma pequena soma de dois dígitos de bilhões", e Stournaras citou a quantia de aproximadamente 10 bilhões de euros.
Em sua entrevista à Focus, Merkel fez apenas uma referência indireta ao pacote de ajuda financeira para a Grécia que Schäuble mencionou com tanta certeza. Merkel disse: "Em 2014, como foi acordado, vamos abordar novamente a questão de como o nível de endividamento e as reformas estruturais da Grécia estão avançando". Até lá, a Grécia ainda tem "muito a fazer" e precisa "continuar implementando suas reformas com força total", acrescentou a chanceler.
Essa é uma visão compartilhada por Jörg Asmussen, membro alemão da diretoria do Banco Central Europeu (BCE). "Falar continuamente sobre um corte da dívida não é algo útil", disse Asmussen ao jornal alemão Welt am Sonntag. Esses comentários desviam a atenção "do que precisa ser feito no âmbito do programa atual para a consolidação orçamentária e para fomentar mais crescimento".

Superávit primário não ajuda muito

Asmussen mencionou uma decisão tomada em novembro passado pelo Grupo do Euro, formado pelos ministros da Fazenda da zona do euro. "Se o país conseguir alcançar um superávit orçamentário primário dentro de um ano e se continuar implementando o programa integralmente, mas, seu nível de endividamento ainda for muito alto, o Grupo Euro discutirá novas medidas de ajuda financeira", disse Asmussen. Ele acrescentou que os números do atual exercício orçamentário só estarão disponíveis a partir da primavera de 2014 (no hemisfério norte).
O superávit primário refere-se ao orçamento antes do pagamento dos juros da dívida. Nos primeiros sete meses de 2013, Atenas tinha realmente conseguido obter um superávit primário. A Grécia também tem como objetivo manter o superávit orçamentário durante todo o ano. Se isso acontecer, Atenas terá cumprido uma exigência fundamental estabelecida por seus credores.
Mas se os pagamentos de juros forem levados em conta, o orçamento grego permanece afundado no vermelho. A dívida da Grécia continua crescendo, pois a economia do país ainda está encolhendo. O governo grego espera que a dívida avance para o patamar de 173% do Produto Interno Bruto (PIB) anual até o final de 2013 --nível quase tão alto quanto o registrado antes do primeiro corte da dívida do país. É por isso que especialistas duvidam da possibilidade da Grécia ser capaz de romper com esse círculo vicioso caso seus credores não concordem com uma redução adicional da dívida.
Uma sugestão apresentada pelo líder do grupo parlamentar dos conservadores de Merkel, Volker Kauder, provavelmente não funcionará. Kauder propôs ajudar a Grécia com verbas adicionais provenientes dos fundos estruturais da União Europeia (EU). Mas uma força-tarefa da UE já vem tentando encontrar projetos na Grécia que mereceriam a ajuda financeira estrutural do bloco --e, até o momento, não encontrou muitos.
Considerando-se esse cenário, Merkel está certa não descartar categoricamente um corte da dívida grega. Para que não restem dúvidas, ela disse à Focus que essa medida poderia provocar um "efeito dominó de incertezas que talvez acabasse com a disposição dos investidores privados para investir na zona euro, fazendo-a retornar à estaca zero".
E é verdade que apenas o falatório sobre um novo corte da dívida grega pode fazer com que os rendimentos dos títulos da Grécia e de outros países da zona do euro que estão em dificuldades subam novamente. Afinal de contas, os credores podem exigir ágio para compensar a possibilidade de eles não conseguirem receber todo o seu dinheiro de volta.

Uma saída: prazos mais longos

Mas ninguém está pedindo que se adote um corte generalizado da dívida da Grécia, redução que afetaria também os investidores do setor privado. Qualquer novo corte afetaria principalmente os credores que detêm títulos da dívida soberana do país, ou seja, os outros países-membros da zona do euro. Isso significaria que, pela primeira vez durante a crise do euro, o dinheiro dos contribuintes alemães estaria irremediavelmente perdido. Com a Alemanha no meio de uma campanha eleitoral, essa é uma questão altamente explosiva no momento.
Um compromisso para salvar a reputação da Grécia poderia envolver o prolongamento da duração dos empréstimos concedidos ao país ou a redução dos pagamentos de juros ou até mesmo a eliminação total dos juros caso determinadas condições sejam respeitadas. Isso evitaria um corte formal da dívida e iria permitir que os credores da Grécia mantivessem a pressão sobre Atenas para que o país prossiga com suas reformas.
Stournaras, ministro da Fazenda da Grécia, levantou essa possibilidade em entrevista concedida ao diário de negócios alemão Handelsblatt. A mensagem seria a seguinte: O dinheiro emprestado à Grécia não está totalmente perdido. Os alemães só não vão recebê-lo de volta agora.

Tradutor: Cláudia Gonçalves

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