O senador e os ovos de ouro
É um exagero sacrificar o chanceler para acalmar a Bolívia, que
depende mais do Brasil do que o inverso
Clóvis Rossi - FSP
Não faz sentido sacrificar o chanceler Antonio Patriota no altar das relações
com a Bolívia. Quem errou no caso todo foi o governo Evo Morales, que se recusou
a respeitar o direito de asilo.
Afinal, se Patriota foi cúmplice, ainda que por omissão, da atitude do
subordinado Eduardo Saboia, o diplomata que trouxe ao Brasil o senador
boliviano, é uma omissão baseada em elogiável pressuposto:
"Escolhi a vida. Escolhi proteger um perseguido político, como a presidente
Dilma (Rousseff) foi perseguida", declarou Saboia ao chegar.
É bom deixar claro que, para o governo brasileiro (e não apenas para Saboia
ou para Patriota), Roger Pinto é um cidadão que merece proteção, tanto que lhe
foi concedido asilo já faz 15 meses. Não é considerado um criminoso, ao
contrário do que diz o governo boliviano.
Se é assim, nada mais natural do que trazê-lo para o Brasil, já que o governo
Evo Morales se recusa a conceder o salvo-conduto de praxe, um comportamento
inaceitável.
Afinal, o governo boliviano se prontificou a oferecer refúgio a Edward
Snowden, que, guardadas as proporções, fez mais ou menos o que fez Pinto: um
denunciou a megaespionagem dos EUA, evento obviamente de dimensões planetárias.
Já Pinto denunciou um escândalo (tráfico de drogas) de dimensões apenas
internas, ainda por cima de um país absolutamente periférico. Nem por isso
deixou de correr riscos, do que dá prova definitiva a frase de Eduardo Saboia
sobre "escolher a vida", ao tirar o senador do país que o ameaçava.
Claro que o Itamaraty, como instituição, teria imensa dificuldade em assumir
o gesto humanitário de seu funcionário, o que dá um verniz de correção
burocrática à demissão de Patriota. Mas, se foi uma decisão para acalmar o
governo Evo, Dilma Rousseff precipitou-se.
Ainda mais que La Paz reagira com relativa moderação, quando é usualmente
escandalosa ao reagir ao que considera ofensivo à sua soberania/dignidade.
Juan Ramón Quintana, o ministro da Presidência da Bolívia, admitiu, é
verdade, que o episódio afeta as relações bilaterais entre os países, mas logo
acrescentou que "devemos resolvê-lo no âmbito diplomático", âmbito sabidamente
avesso a ruídos escandalosos.
Explique-se a contenção, se é que ela será mantida nos próximos capítulos:
"Não é possível matar a galhinha dos ovos de ouro, e o Brasil é isso para a
Bolívia", como escreve Pablo Ortiz para o jornal "El Deber", de Santa Cruz de la
Sierra.
Completa o ministro Quintana: "O Brasil é o nosso principal aliado comercial,
é o nosso principal sócio em questões energéticas, é o país com o qual temos a
maior fronteira territorial. Temos temas comuns, formamos parte de mecanismos de
integração regional, temos muitas tarefas pendentes para construir economias
solidárias. Devemos conviver de maneira harmoniosa, e nossa política exterior
com o Brasil deve ser amigável, de benefícios recíprocos".
Muita coisa para que Evo, que já fez desfeitas até com seu amigo Lula, se
arriscasse a uma crise, que a cabeça de Patriota deve matar de uma vez.
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