T.M. Luhrmann - IHT
Pesquisas sugerem que um número impressionante de americanos acredita no sobrenatural. Em 2011, uma pesquisa da agência de notícias "The Associated Press" apontou que 8 entre 10 americanos acreditavam em anjos –até mesmo 4 entre 10 pessoas que nunca foram à igreja. Em 2009, o Centro de Pesquisa Pew relatou que 1 entre 5 americanos já teve experiência com fantasmas, e 1 entre 7 já consultou algum médium. Em 2005, o Gallup apontou que 3 entre 4 americanos acreditavam em algo paranormal, e que 4 entre 10 disseram que casas podiam ser assombradas.
Uma interpretação desses dados é que a crença no sobrenatural é na verdade
intrínseca. Que é a implicação de uma das teorias mais importantes sobre
religião produzidas pelas ciências sociais nos últimos 50 anos. Acadêmicos como
o antropólogo Pascal Boyer, autor de "Religion Explained: The Evolutionary
Origin of Religious Thought", e o psicólogo Justin L. Barrett, autor de "Why
Would Anyone Believe in God?", argumentam que o temor de uma pessoa ser devorada
por um leão ou ser morta por um homem interessado por suas coisas moldou a forma
como nossas mentes evoluíram. Nossos ancestrais caçadores-coletores apresentavam
maior probabilidade de sobreviver se interpretassem ruídos ambíguos como o som
de um predador. Na maior parte do tempo era apenas o vento, é claro, mas se
houvesse realmente um perigo, as pessoas preocupadas a respeito apresentavam
maior probabilidade de sobreviver.
Isso torna a ideia de um deus invisível parecer plausível para nós. Isso torna "natural" acreditar em Deus. (É possível contestar essa teoria de posições teológicas diferentes. Boyer é um ateísta e trata a religião como sendo um erro. Barrett é um cristão evangélico que acha que a evolução foi guiada pela mão de Deus.)
Mas plausibilidade intuitiva é uma coisa, e fé sóbria e calculada é outra. Esses são os dois tipos de pensamento que o ganhador do Nobel, Daniel Kahneman, autor de "Rápido e Devagar", chama de "sistema um" (intuições rápidas) e "sistema dois" (julgamento lento e deliberado). Quando estamos com medo no escuro, nós habitamos o mundo com fantasmas. Quando consideramos em plena luz do dia se os fantasmas são reais: ah, isso é outra história.
Uma das formas mais interessantes de ver a diferença é a dificuldade em tornar real o que só pode ser imaginado como sendo real.
Quando Jack Wilkerson estava na faculdade, ele decidiu criar uma tulpa. Tulpas são formas-pensamento ou criaturas imaginadas. Seus criadores humanos tentam imaginar tão vividamente, que as tulpas começam a parecer como se pudessem falar ou agir por conta própria. O termo entrou na literatura ocidental em 1929, por meio do livro "Tibete: Magia e Mistério", da exploradora Alexandra David-Néel. Ela escreveu que os monges tibetanos criavam tulpas como uma disciplina espiritual durante meditação intensa e contou a história da criação de sua própria. A internet se transformou em um terreno propício para a prática da tulpa, com dezenas de sites relacionados com instruções sobre como criar uma tulpa e como lidar com ela assim que vier a existir.
Jack destinava uma hora e meia por dia. Ele passava os primeiros cerca de 40 minutos relaxando e clareando sua mente. Então ele visualizava uma raposa (ele gostava de raposas). Após quatro semanas, ele passou a sentir a presença da raposa. Ele começou a ter sentimentos que achava que não eram dele, mas da raposa. E então a raposa começou a adquirir suas próprias qualidades, como se ela as estivesse escolhendo, não ele.
Finalmente, ela falou com ele. Após uma prova de química, Jack saiu e disse para sua raposa que tinha terminado e seguiria para casa para dormir. "Eu ouvi claramente: 'E então, como você se saiu?'", ele lembrou. Ela não falava com frequência de uma forma que ele pudesse ouvir. Por algum tempo ele ficou intensamente envolvido com ela, e a sensação era mais maravilhosa do que quando ele se apaixonou por uma garota humana.
Então ele parou de passar tanto tempo meditando –e a raposa desapareceu. Ela revelou ser bastante frágil. Jack não conseguia sentir sua presença a menos que estivesse ativamente envolvido em imaginá-la. Ela volta quando ele pratica e às vezes aparece inesperadamente. Ela o acalma e escuta o que o incomoda.
O mero fato de pessoas como Jack considerarem intuitivamente possível ter companhias invisíveis com as quais conversar apoia a alegação de que a ideia de um agente invisível é básica em nossa psique. Mas a história de Jack também deixa claro que a experiência de uma companhia invisível como realmente presente –especialmente na idade adulta– exige trabalho: concentração constante, um estado que lembra a oração.
Pode parecer paradoxal, mas essa mesma dificuldade pode ser o motivo para as igrejas evangélicas enfatizarem um Deus íntimo e pessoal. Apesar da ideia de Deus poder ser intuitivamente plausível –assim como não há ateístas em trincheiras, há ateístas que já rezaram por uma vaga de estacionamento–, a crença pode ser frágil. De fato, as igrejas que se apoiam em um Deus relativamente impessoal (como as denominações protestantes principais) viram suas congregações encolherem nos últimos 50 anos.
Experimentar Deus como alguém que caminha ao seu lado conversando com você é difícil. Os pastores evangélicos frequentemente rezam como se estivessem ensinando as pessoas como manter Deus constantemente em mente, porque é fácil demais não rezar, não se concentrar e deixar que a presença de Deus escape. Mas quando funciona para as pessoas, elas adoram, porque elas experimentam Deus como estando vivo.
Liberais seculares às vezes usam a psicologia evolutiva para dizer que acreditar em Deus é uma opção preguiçosa. Mas muitas pessoas que vão à igreja dirão que manter Deus real é que é difícil.
(T.M. Luhrmann, professor de antropologia de Stanford, é autor de "When God Talks Back: Understanding the American Evangelical Relationship With God")
Tradutor: George El Khouri Andolfato
Isso torna a ideia de um deus invisível parecer plausível para nós. Isso torna "natural" acreditar em Deus. (É possível contestar essa teoria de posições teológicas diferentes. Boyer é um ateísta e trata a religião como sendo um erro. Barrett é um cristão evangélico que acha que a evolução foi guiada pela mão de Deus.)
Mas plausibilidade intuitiva é uma coisa, e fé sóbria e calculada é outra. Esses são os dois tipos de pensamento que o ganhador do Nobel, Daniel Kahneman, autor de "Rápido e Devagar", chama de "sistema um" (intuições rápidas) e "sistema dois" (julgamento lento e deliberado). Quando estamos com medo no escuro, nós habitamos o mundo com fantasmas. Quando consideramos em plena luz do dia se os fantasmas são reais: ah, isso é outra história.
Uma das formas mais interessantes de ver a diferença é a dificuldade em tornar real o que só pode ser imaginado como sendo real.
Quando Jack Wilkerson estava na faculdade, ele decidiu criar uma tulpa. Tulpas são formas-pensamento ou criaturas imaginadas. Seus criadores humanos tentam imaginar tão vividamente, que as tulpas começam a parecer como se pudessem falar ou agir por conta própria. O termo entrou na literatura ocidental em 1929, por meio do livro "Tibete: Magia e Mistério", da exploradora Alexandra David-Néel. Ela escreveu que os monges tibetanos criavam tulpas como uma disciplina espiritual durante meditação intensa e contou a história da criação de sua própria. A internet se transformou em um terreno propício para a prática da tulpa, com dezenas de sites relacionados com instruções sobre como criar uma tulpa e como lidar com ela assim que vier a existir.
Jack destinava uma hora e meia por dia. Ele passava os primeiros cerca de 40 minutos relaxando e clareando sua mente. Então ele visualizava uma raposa (ele gostava de raposas). Após quatro semanas, ele passou a sentir a presença da raposa. Ele começou a ter sentimentos que achava que não eram dele, mas da raposa. E então a raposa começou a adquirir suas próprias qualidades, como se ela as estivesse escolhendo, não ele.
Finalmente, ela falou com ele. Após uma prova de química, Jack saiu e disse para sua raposa que tinha terminado e seguiria para casa para dormir. "Eu ouvi claramente: 'E então, como você se saiu?'", ele lembrou. Ela não falava com frequência de uma forma que ele pudesse ouvir. Por algum tempo ele ficou intensamente envolvido com ela, e a sensação era mais maravilhosa do que quando ele se apaixonou por uma garota humana.
Então ele parou de passar tanto tempo meditando –e a raposa desapareceu. Ela revelou ser bastante frágil. Jack não conseguia sentir sua presença a menos que estivesse ativamente envolvido em imaginá-la. Ela volta quando ele pratica e às vezes aparece inesperadamente. Ela o acalma e escuta o que o incomoda.
O mero fato de pessoas como Jack considerarem intuitivamente possível ter companhias invisíveis com as quais conversar apoia a alegação de que a ideia de um agente invisível é básica em nossa psique. Mas a história de Jack também deixa claro que a experiência de uma companhia invisível como realmente presente –especialmente na idade adulta– exige trabalho: concentração constante, um estado que lembra a oração.
Pode parecer paradoxal, mas essa mesma dificuldade pode ser o motivo para as igrejas evangélicas enfatizarem um Deus íntimo e pessoal. Apesar da ideia de Deus poder ser intuitivamente plausível –assim como não há ateístas em trincheiras, há ateístas que já rezaram por uma vaga de estacionamento–, a crença pode ser frágil. De fato, as igrejas que se apoiam em um Deus relativamente impessoal (como as denominações protestantes principais) viram suas congregações encolherem nos últimos 50 anos.
Experimentar Deus como alguém que caminha ao seu lado conversando com você é difícil. Os pastores evangélicos frequentemente rezam como se estivessem ensinando as pessoas como manter Deus constantemente em mente, porque é fácil demais não rezar, não se concentrar e deixar que a presença de Deus escape. Mas quando funciona para as pessoas, elas adoram, porque elas experimentam Deus como estando vivo.
Liberais seculares às vezes usam a psicologia evolutiva para dizer que acreditar em Deus é uma opção preguiçosa. Mas muitas pessoas que vão à igreja dirão que manter Deus real é que é difícil.
(T.M. Luhrmann, professor de antropologia de Stanford, é autor de "When God Talks Back: Understanding the American Evangelical Relationship With God")
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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