sábado, 19 de outubro de 2013

Com promessa de filme sobre sua vida, pirata somali é preso ao chegar na Bélgica
Lucía Abellán - El Pais
A vaidade custou muito caro ao pirata somali Mohamed Abdi Hassan, chamado de Afweyne ("fanfarrão" em somali), um dos mais procurados do mundo e envolvido em certa época no sequestro do pesqueiro basco Alakrana, segundo suspeita a Espanha. As autoridades belgas o detiveram no último sábado (12), depois de tê-lo atraído para o país com uma falsa promessa: participar de um filme sobre sua vida. A jogada de mestre exigiu meses de negociação, nos quais um grupo de agentes se fez passar por artífices desse suposto documentário para seduzir o pirata. Assim que pisou no aeroporto de Bruxelas ele foi detido pelos crimes de sequestro, crime organizado e pirataria.

A peculiar estratégia das autoridades belgas deu frutos, embora tenham sido necessários meses de dedicação. A promotoria decidiu infiltrar seus agentes nesta missão quando ficou claro que uma ordem internacional de prisão não conseguiria deter Hassan nem seu companheiro, Mohamed M.A., aliás Tiiceey, que viajava com ele com a promessa de também participar do documentário.
"Depois de iniciar pacientemente uma relação de confiança com Tiiceey e Afweyne, que durou vários meses, os dois estavam preparados para participar desse projeto", explicou o promotor federal belga Johan Delmulle, na última segunda-feira (14).
Afweyne tinha decidido recentemente abandonar a pirataria, depois de anos de dedicação. A forma como anunciou ao mundo sua retirada do ofício dá pistas sobre a vaidade desse personagem, decidido a dar rédea solta a suas ânsias de notoriedade no mundo do celuloide. "Estivemos nesse sujo negócio durante muito tempo, mas experimentamos sua amargura e suas consequências negativas. Eu e outros camaradas decidimos deixá-lo", disse solenemente em uma cerimônia pública que ocorreu no início de janeiro na região central da Somália.
Apesar de acumular uma dezena de crimes nas costas, segundo estimativas da ONU, o pirata pretendeu inclusive redimir outros: "Também gostaria de animar muitos de meus colegas a renunciar à pirataria e entregar qualquer material que tenham: barcos, armas...", afirmou sem pudor em janeiro.
E nessa fase de arrependimento, surgiu a falsa possibilidade de contar sua lucrativa vida em alto-mar, à frente de sequestros milionários nas costas da África oriental. Com esse sonho entre as mãos, embarcou em um avião em Nairóbi que o deixou no aeroporto internacional de Bruxelas. Ali o esperava a Justiça. Tanto Afweyne como seu cúmplice já estão em prisão preventiva.
Embora o tenham prendido na Bélgica, a detenção tem grande importância para a Espanha. A Audiência Nacional não confirma que Afweyne estivesse por trás do sequestro do Alakrana, mas tem constância de que naquele momento, em 2009, era o chefe da zona onde foi retido o pesqueiro basco, ao norte de Mogadício, informa María Fabra. Os 36 tripulantes desse barco permaneceram 47 dias como reféns diante das costas somalis.
A Justiça da Bélgica o procurava pelo sequestro de um barco belga --mais prolongado que o do espanhol-- que ocorreu no mesmo ano perto das costas da Somália. Os sequestradores mantiveram a tripulação durante 70 dias em condições "sub-humanas", segundo a promotoria belga. O crime terminou com dois piratas detidos e julgados, a 10 e 9 anos de prisão respectivamente, mas as autoridades belgas suspeitavam de que fossem meros executores dos planos que outros orquestravam. Esses outros cérebros da trama cometeram o erro de querer se transformar em estrelas de cinema.
A ingenuidade dos dois piratas demonstra em boa medida até que ponto se sentiram impunes, apesar da evidência de seus crimes. O "Fanfarrão" vivia protegido pelos governantes somalis, segundo a ONU. Seus especialistas acusam um ex-presidente desse país de ter oferecido um passaporte diplomático ao pirata, com o qual tinha ampla liberdade de movimentos. E até gozou do favor de antigos líderes, como o líbio Muammar Gaddafi, que o convidou para as festas de comemoração de seus 40 anos no poder. Não fosse por esse engano digno de um filme, a Justiça belga teria poucas possibilidades de caçar os dois supostos criminosos que caíram presos pela vaidade.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

Nenhum comentário: