terça-feira, 22 de outubro de 2013

China declara guerra ao luxo e à corrupção
José Reinoso - El Pais                                          
24.set.2013 - Jinan Intermediate People's Court/AP
A recente condenação à prisão perpétua do ex-dirigente comunista Bo Xilai é o maior expoente da campanha contra a corrupção
A recente condenação à prisão perpétua do ex-dirigente comunista Bo Xilai é o maior expoente da campanha contra a corrupção
Os tubarões estão de parabéns. Os cetáceos se transformaram em um dos grandes beneficiários da campanha anticorrupção implementada pela nova geração de líderes próximos à cúpula do Partido Comunista Chinês (PCCh) em novembro passado, e que se intensificou nos últimos meses.
A barbatana de tubarão é utilizada na China para elaborar uma sopa muito apreciada, cara, mas insípida, que era prato obrigatório em muitos banquetes oficiais na China. Mas a diminuição dessas comemorações, devido à luta contra a corrupção e o desperdício na administração, promovida pelo presidente chinês, Xi Jinping, provocou uma queda da demanda que afetou os restaurantes de luxo na China continental e muitos negócios em Hong Kong, que fornecem a barbatana a hotéis e estabelecimentos do outro lado da fronteira.
A recente condenação à prisão perpétua do ex-dirigente comunista Bo Xilai é o maior expoente da campanha contra a corrupção. Mas é só a ponta do iceberg. Pequim acelerou a batalha contra essa praga que, segundo reconheceu o próprio Xi Jinping, ameaça a sobrevivência do PCCh. O último tigre (alto cargo suspeito) a ser caçado foi Ji Jianye, prefeito de Nanquim, capital da província oriental de Jiangsu e uma das principais cidades da China, investigado por suspeitas de que "violou a disciplina do partido e a lei" --eufemismo para corrupção--, segundo afirmou na quinta-feira passada o órgão de supervisão do PCCh.
"Xi Jinping considera a luta contra a corrupção um requisito para a continuidade do partido, a transformou em chave para sua vida política", afirma Hu Zingdou, professor na Escola de Humanidades e Ciências Sociais do Instituto de Tecnologia de Pequim. "Xi tinha que fazer algo devido ao caso Bo Xilai e o crescente ressentimento na sociedade sobre a corrupção dos funcionários públicos. Os empresários também estão cada vez mais fartos de ter que pagar subornos e fazer presentes para que as coisas avancem", diz Jean-Pierre Cabestan, diretor do departamento de Governo e Estudos Internacionais na Universidade Batista de Hong Kong.
Até agora, foram anunciadas a investigação ou a detenção de pelo menos nove funcionários de alto nível, incluindo três membros do Comitê Central do PCCh, que é integrado por 376 pessoas. Entre eles estão Liu Xiaobo Tienan --ex-subdiretor da influente Comissão Nacional de Reforma e Desenvolvimento-- e vários ex-executivos da China National Petroleum Corporation (CNPC) --o maior produtor de petróleo do país--, como Jiang Zhemin, que foi seu presidente e era responsável pela comissão que supervisiona as empresas estatais. Na investigação na CNPC parece ser a maior realizada em uma empresa pública em anos.
O movimento alcançou diversos funcionários governamentais de menor patente e as multinacionais estrangeiras instaladas na China --em particular do setor farmacêutico, que teve alguns diretores detidos-- e afetou setores da economia como bebidas e alimentos, que são presenteados habitualmente a funcionários em troca de influência e favores, e automóveis.
Fabricantes de carros de luxo e esportivos como Bentley e Lamborghini e outras firmas exclusivas como Louis Vuitton Moët Hennessy e Burberry advertiram sobre uma freada significativa de suas vendas na China no último ano, em parte devido às medidas contra o gasto excessivo e o suborno. A demanda por carros de luxo, que se tornaram símbolo da corrupção na China, é especialmente sensível à campanha.
O mesmo ocorreu com as tortas de lua - presente que, durante o festival de Meados de Outono, realizado este ano em 19 de setembro --em sua modalidade mais luxuosa. A Comissão Central de Inspeção da Disciplina - organismo interno de vigilância do PCCh --proibiu a utilização de dinheiro público para comprar esse doce recheado de pasta de sementes de lótus ou feijão vermelho que, embora em si mesmo seja relativamente barato - cerca de 12 euros por oito unidades--, também é presenteado com recheio de barbatana de tubarão ou lâminas de ouro, e inclusive acompanhado de um par de palitos de prata, para subornar de forma discreta os funcionários públicos. Algumas bebidas de alta gama também foram muito afetadas. O preço despencou este ano em alguns casos pela metade. O baijiu (álcool branco), sobretudo suas modalidades mais caras como o Moutai, é oferecido nos banquetes oficiais e como presente.
A Comissão da Disciplina também pediu que os cidadãos denunciem os membros do partido e empregados de empresas estatais que gastaram dinheiro público em presentes, banquete, viagens e artigos de luxo durante as festas do Dia Nacional, 1º de outubro. A imprensa estatal publicou que serão instalados GPS nos carros oficiais para evitar seu uso particular e os militares serão auditados antes de poderem se aposentar ou ser promovidos. A China figura no 80º lugar entre 176 países e territórios na classificação de corrupção da Transparência Internacional. Uma posição mais alta indica um setor público mais limpo.
Pequim anunciou anteriormente campanhas contra a corrupção que tiveram pouco êxito. A atual parece ter mais garra. "Os parâmetros anunciados são mais amplos que em outras campanhas do passado, mas que tenha um grande efeito dependerá de até que ponto a cúpula em Pequim é capaz de conseguir o apoio das fileiras inferiores da hierarquia política", explica Barry Sautman, cientista político da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong.
Alguns críticos acreditam que a campanha pode estar sendo utilizada com fins políticos, devido a lutas internas de poder, e que, em todo caso, a corrupção está tão enraizada na China que uma limpeza real não será possível enquanto não se realizarem difíceis e profundas reformas políticas.

Comissão de Disciplina dirige nova campanha estatal

À frente da campanha anticorrupção do governo chinês se encontra Wang Qishan, um historiador reciclado em economista com reputação de modéstia e honestidade, que dirige a Comissão Central de Inspeção da Disciplina. Esse homem de 65 anos, membro do Comitê Permanente do Birô Político --o órgão máximo de poder do país, composto por sete dirigentes-- ocupa o sexto lugar na hierarquia do Partido Comunista Chinês, embora alguns analistas políticos acreditem que é a segunda pessoa mais poderosa do país, apenas atrás do presidente Xi Jinping. Outros afirmam que os esforços para que os funcionários se comportem de forma mais austera levam seu selo.

Wang pediu que os membros do partido ponham fim ao "hedonismo e à extravagância" que, segundo ele, infectaram a sociedade chinesa. Insistiu em que devem viver de forma frugal e rejeitar os estilos de vida decadentes que, definitivamente, estão ligados à corrupção. Em março passado, afirmou que "a guerra contra a corrupção precisa ser firme e de longa duração, deve ser uma batalha de morte".

Foi ele quem propôs que o PCCh abandonasse a regra não escrita que isentava os membros atuais e aposentados do Comitê Permanente do Birô Político de qualquer investigação por corrupção, segundo fontes citadas pela agência Reuters. A decisão foi aprovada este ano. Wang também reorganizou a comissão e acrescentou dois departamentos para aprofundar as investigações dos líderes provinciais.
"Wang Qishan é um político sério, muito inteligente, que compreende a sociedade chinesa moderna", afirma Hu Xingdou, professor na Escola de Humanidades e Ciências Sociais no Instituto de Tecnologia de Pequim. Hu acredita que Wang fará avançar as coisas quando consolidar sua posição.
O governo quer levar a batalha contra a corrupção à Internet e prometeu que protegerá de represálias os que denunciarem a corrupção por essa via, mas só quando o fizerem através do site oficial criado com esse fim; e não aos que utilizarem para isso as redes sociais.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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