Edward Wong e Nicola Clark - NYT
Sim Chi Yin/The New York Times
Chineses seguram modelo de caça JF-17 durante feira de aviação em Pequim. As empresas chinesas estão entrando de forma agressiva no mercado global com a venda de drones, fragatas e aviões de combate
Há dois anos, desde o momento em que a Turquia anunciou seus planos para adquirir um sistema de defesa de mísseis de longo alcance, o contrato de vários bilhões de dólares do país, que é membro-chave da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), já parecia que não cairia nas mãos de nenhuma empresa norte-americana.Durante anos, as forças armadas da Turquia contaram com mísseis Patriot fornecidos pela Otan e fabricados pelas empresas norte-americanas Raytheon e Lockheed Martin para defender seu espaço aéreo, e o sistema era totalmente compatível com as plataformas de defesa aérea operadas por outros membros da própria Otan.
Mas dessa vez, obviamente havia outros concorrentes na disputa pelo negócio. Fabricantes rivais da Rússia e da Europa apresentaram suas propostas. A Turquia rejeitou essas ofertas, mas não em favor das empresas norte-americanas. A decisão turca de escolher, no mês passado, uma empresa chinesa de equipamentos de defesa pouco conhecida --a China Precision Machinery Export-Import Corp.-- surpreendeu o establishment militar-industrial de Washington e Bruxelas.
A venda foi especialmente incomum devido ao fato de que será difícil integrar o sistema de defesa antimísseis chinês, conhecido como HQ-9, aos equipamentos existentes da Otan.
Além disso, a China Precision também é alvo de sanções por parte dos EUA devido à comercialização de tecnologias que, segundo os norte-americanos, poderão ajudar o Irã, a Síria e a Coréia do Norte a desenvolver armas não convencionais. Uma porta-voz do Departamento de Estado dos EUA disse este mês que autoridades norte-americanas manifestaram "sérias preocupações" ao governo turco em relação ao negócio, que ainda não foi fechado.
Executivos do setor e analistas que monitoram as vendas de armamentos dizem que os chineses provavelmente venceram seus concorrentes mais antigos e tradicionais após reduzirem significativamente os preços, oferecendo seu sistema por US$ 3 bilhões. No entanto, a escolha de uma fabricante estatal chinesa pela Turquia é um avanço para a China, país que definiu como objetivo ascender na cadeia de valor da tecnologia de armamentos e se estabelecer se como um concorrente digno de confiança no mercado de armas global.
"Esta é uma vitória extraordinária para a indústria de armamentos chinesa", disse Pieter Wezeman, pesquisador sênior do Instituto de Pesquisa para a Paz Internacional de Estocolmo, que monitora as vendas e transferências de armas em todo o mundo.
No passado, as empresas chinesas eram conhecidas principalmente como fornecedoras de armas de pequeno porte – mas isso está mudando rapidamente. De drones a fragatas até caças, as companhias chinesas estão tentando ampliar agressivamente suas vendas de hardware de alta tecnologia para outros países, principalmente para as nações em desenvolvimento.
Este ano, o instituto de Estocolmo divulgou um relatório sobre as transferências mundiais de armas. Segundo o documento, o volume de armas convencionais --que inclui aeronaves equipadas com tecnologia de ponta, além de mísseis, navios e artilharia-- exportadas pelos chineses saltou 162% entre 2008 e 2012 em comparação com os cinco anos anteriores. O Paquistão é o principal cliente da China.
O instituto estima que a China seja o quinto maior exportador de armas do mundo, à frente da Grã-Bretanha. De 2003 a 2007, a China ficou em oitavo lugar nesse ranking.
As vendas de armas da China para outros países também têm aumentado rapidamente em dólares. De acordo com a IHS Jane's, empresa de consultoria e análise do setor armamentista, as exportações chinesas quase dobraram nos últimos cinco anos, saltando para US$ 2,2 bilhões e superando as exportações do Canadá e da Suécia. Esse resultado transformou a China no oitavo maior exportador mundial em termos de valores monetários.
As autoridades da China sabem que a invasão chinesa dos mercados militares dominados pelo Ocidente gera preocupações. Quando questionada sobre a venda de mísseis de defesa para a Turquia, uma porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China disse: "as exportações militares da China não fazem mal para a paz, para segurança nem para a estabilidade" e não "interferem nos assuntos internos dos países compradores".
As maiores fabricantes de armas da China, todas estatais, se recusaram a atender pedidos de entrevista. Os registros contábeis dessas companhias são obscuros, embora existam algumas estatísticas e informações disponíveis em seus sites e nos meios de comunicação estatais.
A China North Industries Group Corp., ou Norinco Group, informou em seu site que obteve um lucro de 9,81 bilhões de renminbi, ou cerca de US$ 1,6 bilhão, em 2012, um aumento de 45% em relação a 2010. No ano passado, o faturamento da empresa alcançou aproximadamente US$ 59 bilhões, num salto de 53% em relação a 2010.
Outra empresa, a China South Industries Group Corp., ou CSGC, divulgou em seu site que registrou um lucro de aproximadamente US$ 1 bilhão em 2011 sobre um faturamento de cerca de US$ 45 bilhões. As duas cifras representam grandes aumentos em relação aos resultados de 2008.
Entre os novos clientes dos equipamentos chineses estão a Argentina, que em 2011 assinou um contrato com a empresa chinesa Avicopter para fabricar, sob licença, os helicópteros leves Z-11. A produção em massa para as forças armadas argentinas teve início este ano, e um total de 40 helicópteros deverão ser fabricados nos próximos anos. O valor do contrato não foi divulgado.
As empresas que comercializam drones, produto que é outro ponto focal da indústria bélica chinesa, são onipresentes em feiras de aviação e armamentos. Em uma exposição de aviação realizada em Pequim no final de setembro passado, uma empresa chinesa, a China Aerospace Science and Technology Corp., exibia um drone de reconhecimento e combate modelo CH-4 ao lado de quatro modelos de mísseis.
Dois caças fabricados por empresas chinesas estão sendo observados de perto por analistas do setor e por empresas estrangeiras que desejam determinar seu potencial de exportação.
Um deles é o J-31, da Shenyang Aircraft, um caça que, segundo as autoridades chinesas, é capaz de passar incógnito pelos radares. Uma reportagem divulgada no mês passado pelo Diário do Povo (People's Daily) informou que o J-31 está sendo fabricado pela Shenyang, uma subsidiária da AVIC, e que a aeronave se destina principalmente à exportação. A reportagem citava uma entrevista com Zhang Zhaozhong, um almirante da marinha chinesa. Em março deste ano, o designer-chefe do avião, Sun Cong, disse ao Diário do Povo que o J-31 poderia ser o principal caça de última geração para transporte em porta-aviões da China.
O outro jato é o JF-17, uma aeronave menos sofisticada que, segundo uma autoridade dos EUA, vinha sendo desenvolvida há cerca de duas décadas como parte de um projeto "que foi suspenso e retomado várias vezes". Supostamente, o jato foi produzido por uma joint venture entre a Pakistan Aeronautical Complex e a chinesa Chengdu Aircraft Industry Corp., que também é uma subsidiária da AVIC, mas a China teria sido responsável pela maior parte do trabalho, disse essa autoridade norte-americana, que falou sob condição de anonimato devido ao sigilo que envolve projetos militares. Até agora, o Paquistão é o único cliente do novo jato e, ainda segundo essa autoridade, a decisão dos paquistaneses em adquiri-lo teria sido uma "decisão política".
A China é o maior aliado do Paquistão, e os dois países contam um com o outro para combater a Índia. Além do JF-17, os dois países firmaram acordos oficiais de produção conjunta referentes a uma fragata, um tanque de guerra e um avião de pequeno porte.
Enquanto a China avança em sua tentativa para alcançar seus concorrentes ocidentais mais estabelecidos no mercado mundial, competindo não só no preço, mas também na oferta de tecnologias comparáveis às melhores disponíveis, Hakan Buskhe, principal-executivo da Saab, afirma que sua empresa e outras companhias provavelmente serão pressionadas a cortar seus próprios gastos com pesquisa e desenvolvimento para reduzir os preços. Essa é uma tendência que poderá beneficiar os governos da América do Norte e da Europa, que atualmente visam maximizar suas capacidades a partir de orçamentos de defesa que não param de encolher.
"Nós precisamos ser capazes de desenvolver mais por menos", disse Buskhe.
Tradutor: Cláudia Gonçalves
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