quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Dilma defende manutenção de modelo de leilão de Libra
Técnicos de Petrobras e ANP e membros do governo, porém, falam em ajustes
Para assessores do governo, resultado reforça necessidade de reajustar combustíveis até o fim deste ano
TAI NALON, FLÁVIA FOREQUE E VALDO CRUZ - FSP
A presidente Dilma Rousseff atacou ontem os críticos do modelo de partilha de produção, usado no leilão do Campo de Libra, e negou que o governo pretenda fazer ajustes nas novas regras.
"Eu não vejo onde esse modelo precisa de ajustes. Sabe por quê? Porque aqueles que são contra o conteúdo local querem transferir a riqueza do pré-sal por outra forma para o exterior", disse ela.
Dentro do governo, porém, assessores presidenciais admitem que será preciso avaliar eventuais ajustes no modelo, mesma posição defendida por técnicos da ANP.
Técnicos da Petrobras gostariam de alterar a obrigatoriedade de a estatal ser a operadora exclusiva do pré-sal e ter no mínimo 30% de todos os campos da área.
Segundo eles, o ideal seria que essas regras fossem opcionais, principalmente nos próximos leilões, que devem envolver áreas menores e de risco de exploração maior.
A estatal enfrenta problemas de caixa e, para assessores do governo, o resultado do leilão reforça a necessidade de a gasolina ser reajustada até o fim deste ano.
A Petrobras, que já vinha pressionando por reajuste, sofrerá pressões adicionais de caixa com a obrigação de ter que bancar parcela do bônus do leilão e também diante dos investimentos que terá que fazer no megacampo.
Em entrevista ontem, Dilma afirmou que o modelo de partilha "tem o mérito" de garantir que 85% da renda do petróleo de Libra ficará com o Estado brasileiro.
"Não tem por que modificar conteúdo nacional. Não tem por que modificar o papel da PPSA [estatal do pré-sal]. A PPSA controla o custo do óleo. Não tem por que tirar os 30% da Petrobras."
DISPUTA SATISFATÓRIA
Ela classificou o resultado do leilão como "um sucesso" e disse estar "bastante satisfeita" com a concorrência, embora um único consórcio tenha participado --e venceu pelo preço mínimo.
Dilma reclamou de informações repassadas à imprensa. "Fico intrigada, muitas vezes acordo de manhã e pergunto a mim mesma: quem é essa fonte do Planalto? Quem é essa fonte do governo?"
Em tom irônico, acrescentou que, "um dia desses", fez essa pergunta a seus "botões". Mas disse que "são, assim, muito ignorantes, não conseguem me responder".

Investimento privado não vai aumentar sem regras estáveis
ARMANDO CASTELAR - FSP
A privatização entrou no debate econômico brasileiro com Eugênio Gudin, em 1974, e com a Campanha contra a Estatização, em 1975.
Nos anos 1980, foram vendidas as primeiras estatais: empresas pequenas e deficitárias de setores competitivos.
Nos anos 1990, a privatização deu um salto. Primeiro, abarcou grandes empresas, criadas no passado como campeãs nacionais, como CSN, Usiminas e Embraer. A partir de 1996, passou a incluir ferrovias, telecomunicações, portos e parte do saneamento e do setor elétrico.
O objetivo era aumentar a eficiência e principalmente o investimento. Em mãos privadas as empresas ficaram mais eficientes. Para algumas, era privatizar ou fechar, pois não dava mais para bancar seus prejuízos. Hoje são globalmente competitivas.
Precisava-se da privatização para elevar o investimento --as estatais não pagavam suas dívidas e, por isso, não tinham crédito. Com a privatização, o financiamento voltava a ser viável.
Para conseguir financiamento, porém, os concessionários precisam de baixo risco regulatório. Para isso, surgiram as agências reguladoras, entre 1997 e 2001.
A privatização aumentou o investimento, especialmente em setores como telecomunicações e ferrovias, mas no agregado o impacto não foi tão grande, especialmente em projetos novos.
Parte da explicação vem do enfraquecimento das agências reguladoras no governo Lula, que resolveu apostar no investimento público. Isso não lhe impediu de também privatizar, mas desde então o risco político/regulatório se mantém alto.
Em 2012, Dilma deu um novo salto na privatização, prometendo privatizar aeroportos --uma novidade--, rodovias, ferrovias e portos. Esse é, talvez, o maior plano de privatizações hoje no mundo.
Apesar de ambicioso, o programa anda devagar, muito atrás do cronograma, e o investimento em infraestrutura segue baixo. Sobram riscos, falta convicção política.
Passados quase 40 anos, a privatização segue polêmica no Brasil, apesar dos benefícios gerados. Já ficou claro que o setor público não removerá os gargalos de infraestrutura. Sem reduzir o risco político, o investimento privado também não aumentará.
É hora de despolitizar o tema e explicar ao usuário por que ele deve bancar parte da conta dos investimentos. E é preciso buscar novos modelos de privatização, como parcerias público-privadas, por causa da baixa atratividade comercial de alguns projetos.
A resposta não é microgerenciamento estatal ou subsídios do BNDES, mas em deixar o setor privado investir, com regras claras e estáveis.

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