quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Drones matam mais civis do que reconhece os EUA
Declan Walsh e Ihsanullah Tipu Mehsud - NYT
HO/U.S.Navy/Reuters

Drone disparador de mísseis, chamado de Predator, é um dos exemplos da sofisticação das armas usadas pelos EUA
Drone disparador de mísseis, chamado de Predator, é um dos exemplos da sofisticação das armas usadas pelos EUA
Segundo algumas autoridades norte-americanas, a campanha de ataques aéreos com drones empreendida pela CIA no Paquistão tem sido um sucesso com algumas desvantagens: após mais de 300 ataques com mísseis realizados no país desde 2008, dezenas de líderes da Al-Qaeda e do Talibã foram mortos, e o ritmo dos ataques, que as autoridades geralmente descrevem como "cirúrgicos" e "contidos", caiu drasticamente durante os últimos 12 meses.
Mas do ponto de vista dos habitantes de Miram Shah, cidade fronteiriça do Paquistão que praticamente se transformou em um laboratório de testes para a guerra com drones, a campanha não foi tão cirúrgica e limpa quanto o retrato exibido por Washington. Em entrevistas concedidas durante os últimos 12 meses, os moradores de Miram Shah pintam um retrato terror e tensão prolongados dentro de uma sociedade tribal encurralada entre militantes ferozes e os drones norte-americanos que querem acabar com esses militantes.
"Os drones são como anjos da morte", disse Nazeer Gul, lojista de Miram Shah. "Só eles sabem quando e onde vão atacar".
As reclamações angustiadas dos moradores locais estão sendo apoiadas por uma nova investigação levada a cabo pela Anistia Internacional que descobriu, entre outras coisas, que pelo menos 19 civis que viviam nos arredores do Waziristão do Norte foram mortos em apenas dois dos ataques com drones desde janeiro de 2012 – período em que, segundo o governo Obama, esses ataques passaram a ser cada vez mais precisos e livres de erros.
O estudo – que seria oficialmente divulgado nesta terça-feira (23), juntamente com um relatório independente da Human Rights Watch sobre os ataques com drones realizados no Iêmen pelos EUA – surge num momento em que a questão vem sendo novamente levantada em outros âmbitos. Na próxima quarta-feira, o primeiro-ministro paquistanês Nawaz Sharif, um crítico veemente da campanha norte-americana de ataques com drones, se reunirá com o presidente Barack Obama na Casa Branca. E, na sexta-feira que vem, o debate sobre esse tipo de armamento deverá ocorrerá na Organização das Nações Unidas (ONU), cujas autoridades recentemente divulgaram relatórios atacando a falta de transparência dos EUA em relação aos drones.
Mas em nenhum outro lugar a questão se desenrolou de forma mais direta do que em Miram Shah, no noroeste do Paquistão. Miram Shah tornou-se uma cidade envolvida pelo medo e pela paranoia após ter sofrido pelo menos 13 ataques com drones desde 2008, além de outros 25 bombardeios registrados em distritos adjacentes – mais do que em qualquer outro aglomerado urbano do mundo.
Mesmo nos dias em que não cai uma chuva de mísseis em Miram Shah, pode-se ouvir dia e noite o zumbido dos drones pairando pelo céu e escaneando os becos e mercados com câmeras itinerantes de alta resolução.
Isso ocorre porque as presas potenciais desses equipamentos estão por toda parte em Miram Shah – combatentes islâmicos ostentando cabelos compridos, tênis de basquete e fuzis AK-47, que perambulam pelas ruas, confraternizam em restaurantes e, em alguns casos, até mesmo organizam o tráfego no movimentado bazar central da cidade. Esses homens são originários de vários de grupos militantes que se têm se abrigado no Waziristão e nas proximidades, incluindo a Al-Qaeda, o Talibã do Afeganistão e do Paquistão e outros.
Excepcionalmente ao que ocorre em outras campanhas similares dos EUA, os ataques realizados pelos drones na região ocorrem principalmente em bairros densamente povoados. Os drones já atingiram uma padaria, uma escola de meninas desativada e um mercado de transações de câmbio, segundo os moradores. Um ataque ocorreu em Matches Colony (Colônia dos Fósforos), um bairro batizado em homenagem a uma fábrica de fósforos abandonada e que atualmente é frequentado por militantes uzbeques.
Embora o ritmo dos ataques tenha diminuído drasticamente nos últimos meses, a presença constante dos drones circulando pela região – e a tensão adicional causada pelo desconhecimento dos alvos e do momento dos próximos ataques – é um fardo psicológico esmagador para muitos moradores locais.
As vendas de comprimidos para dormir, antidepressivos e remédios para tratar a ansiedade dispararam, disse Haji Gulab Jan Dawar, farmacêutico do bazar da cidade. As mulheres ficaram particularmente perturbadas, disse ele, mas os homens também tiveram seus problemas.
"Nós vendemos isso para eles", disse Dawar, exibindo um pacote de comprimidos que supostamente servem para tratar disfunção erétil e são comercializados sob a marca "Rocket" ("Foguete").
Apesar de tudo, um arremedo de vida normal tem sido mantido em Miram Shah. Nos dias em que o mercado funciona, os produtores rurais pastoreiam suas cabras e carregam feixes de legumes e verduras provenientes das propriedades do entorno. O movimentado bazar tem lojas de roupas, de alimentos e de armas.
A comunicação, no entanto, é difícil. O exército desativou as redes de telefonia celular. Por isso, os moradores têm que se posicionar em pontos mais elevados para tentar captar algum sinal emitido pelas redes de telefonia afegãs. E os cibercafés foram fechados por ordem do Talibã após denúncias de que jovens estavam assistindo pornografia e filmes picantes na internet.
Logo após os ataques com drones, as coisas pioram. Muitos civis se escondem em suas casas, com medo dos ativistas mascarados do Ittehad-e-Mujahedeen Khorasan, uma unidade de execução militante que caça espiões norte-americanos. O Khorasan montou uma ampla rede, e os suspeitos capturados por eles geralmente são torturados e executados sumariamente.
Os jornalistas enfrentam riscos específicos. Em fevereiro passado, homens armados mataram Malik Mumtaz Khan, presidente do clube de imprensa local. Alguns culpam espiões paquistaneses, enquanto outros dizem que o Talibã foi o responsável pelo assassinato de Khan.
Enquanto isso, os serviços fornecidos pelo estado praticamente entraram em colapso. No hospital local, funcionários corruptos estão revendendo os estoques de medicamentos e combustível no mercado da cidade, dizem os médicos. Na escola de ensino médio mantida pelo governo, os alunos pagam propinas para trapacear nos exames públicos – e ameaçam os professores com represálias do Talibã caso eles se recusem a participar do esquema, disse um professor.
O colapso dos serviços públicos criou oportunidades de negócios para as mulheres casadas com membros do Talibã: a esposa de um comandante é ginecologista, enquanto uma mulher uzbeque trabalha como homeopata, disse o farmacêutico.
Para alguns moradores, a única opção é ir embora. Hajji, um empresário de 50 anos, mudou-se com sua família para a cidade portuária de Karachi em 2011. A família dele ficou com medo dos panfletos distribuídos por militantes que ameaçavam executar espiões norte-americanos, disse Hajji. E os militantes impediram que seus filhos tomassem a vacina contra a poliomielite.
"Eles acham que os responsáveis por aplicar as vacinas são espiões que estão em busca de esconderijos de militantes", disse ele durante entrevista concedida em Karachi, durante a qual ele concordou em ser identificado apenas por parte de seu nome.
Para várias autoridades paquistanesas indignadas, o debate sobre os drones tem se concentrado nos protestos relacionados às mortes de civis, apesar das garantias emitidas pelos EUA de que as fatalidades foram poucas.
Em defesa dos ataques aéreos com drones, que diminuíram drasticamente este ano, as autoridades norte-americanas observaram que as operações já mataram muitos militantes perigosos. Um importante militante morto este ano foi Wali ur Rehman, vice-líder do Talibã paquistanês. Ele foi morto na aldeia de Chashma, localizada nos arredores de Miram Shah, em maio passado.
Ainda assim, em um discurso proferido em maio passado para anunciar as mudanças no programa de drones dos EUA, Obama admitiu que erros foram cometidos. Segundo o presidente norte-americano, as mortes de civis causadas pelos ataques com drones irão assombrar a ele e a outras pessoas da cadeia de comando dos EUA "enquanto vivermos".
E ele acrescentou: "É necessário haver quase que 100% de certeza de que nenhum civil será morto ou ferido".
Mas o novo relatório da Anistia Internacional, que analisou os 45 ataques conhecidos realizados no Waziristão do Norte entre janeiro de 2012 e agosto de 2013, afirma que, em vários casos, os drones mataram civis indiscriminadamente.
Tradutor: Cláudia Gonçalves

Nenhum comentário: