Philippe Wojazer/Efe
O secretário de Estado americano, John Kerry (à esquerda), cumprimenta o ministro das Relações Exteriores da França, Laurent Fabius: contas a acertar
Jean-Jacques Urvoas, presidente socialista da comissão de leis na Assembleia Nacional, é autor de um relatório sobre a jurisprudência aplicável aos serviços de inteligência na França. Em uma entrevista ao "Le Monde", ele critica a atitude dos Estados Unidos em relação a seus aliados.
Le Monde: Como o senhor recebeu as revelações do "Le Monde" sobre a vigilância em grande escala da Agência Nacional de Segurança americana (NSA) sobre as comunicações dos franceses?
Jean-Jacques Urvoas: Sejamos francos, não foi nenhuma surpresa descobrir que a NSA espionava a França. Além disso, ela não é a única agência americana a agir dessa forma. Em compensação, a verdadeira descoberta nesse caso foi a extensão e a sistematicidade dessas escutas. Essas práticas são totalmente desmesuradas e inadmissíveis. Elas mancham consideravelmente a imagem dessa grande nação democrática e desafiam sua concepção de mundo e das liberdades fundamentais.
O ministro das Relações Exteriores, Laurent Fabius, convocou o embaixador americano. É necessária uma reação forte do Executivo para exigir explicações a Barack Obama?
É necessária uma resposta extremamente firme, a exemplo da posição defendida pelo primeiro-ministro e pelo ministro das Relações Exteriores. Mas a situação não é fácil, pois a reação pode ser unicamente diplomática e política. De fato, ela não pode ser jurídica, pois no domínio da inteligência, o direito sempre será menos rápido que a técnica, e o direito internacional se revela incompleto.
No entanto, é muito importante lembrar aos Estados Unidos de que somos seus aliados, e isso desde que eles surgiram. Só que eles não podem se comportar em relação a aliados da mesma forma que com adversários, ou até inimigos. Tal relação implica confiança e reciprocidade. Os americanos precisam entender que eles não podem nos tratar como o Irã ou a Síria!
No final, esse novo episódio revela que os Estados Unidos não têm aliados, só alvos e vassalos. A França não é nem um, nem outro. Nós tínhamos a impressão de que nossas relações eram equilibradas, mas evidentemente não é o caso. Então é preciso um reajuste e um esclarecimento sem concessões.
Esse monitoramento vai além de um combate ao terrorismo...
De fato, isso contribui para a comoção. Percebemos que parte da espionagem diz respeito ao domínio econômico, nossas posições concorrenciais… Isso representa provavelmente o maior volume desses dados. É mais um exemplo de que os Estados Unidos são uma superpotência e que eles se comportam como tal: eles acreditam que só têm direitos e nenhum dever.
A França tem meios para se defender?
O exagero das escutas que os Estados Unidos fazem é proporcional aos recursos que eles dedicam a elas. A comunidade da inteligência americana recebe um orçamento que se aproxima de US$ 75 bilhões (R$ 162 bilhões) por ano; ela é composta de 16 serviços – tudo indica que na realidade são 17; ela emprega quase 110 mil pessoas e recorre a inúmeros terceirizados. Portanto, é um rolo compressor.
Na França, o orçamento anual da inteligência gira em torno de 10 bilhões de euros para 6 serviços. Um combate tecnológico seria inútil. A União Soviética, em sua época, se deparou com considerações similares.
É necessária uma resposta por parte da União Europeia?
A inteligência é domínio de soberania nacional. A defesa dos interesses vitais da nação não se divide. Portanto, não é em nível europeu que isso acontece. É preciso que a França tenha uma reação coordenada e convergente. Uma discussão muito firme deve então ser feita com o governo americano, mas também com seus serviços. Cada um deve falar com seu alter ego. O presidente da Direção Geral da Segurança Externa deve falar sobre isso com o presidente da NSA, o coordenador nacional da inteligência na França deve falar sobre isso com a DNI (Diretoria Nacional de Inteligência) americana, o ministro das Relações Exteriores deve falar sobre isso com o secretário de Estado... No mundo da inteligência, as relações são essenciais e se dão em uma base de confiança recíproca. Esse mecanismo me parece hoje prejudicado. Portanto, é preciso melhorar as condições da cooperação.
Mas que ninguém se iluda. Os Estados Unidos continuarão nos espionando. É uma doce utopia imaginar que eles possam parar, mas não é razão para ser uma vítima condescendente.
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