Pra onde correr
Eliane Cantanhêde - FSP
CINGAPURA - Em tradução livre, a explicação de Lula e Dilma para os
protestos de junho foi que, quanto mais o povo tem, mais quer.
Faz sentido e é justamente uma das grandes preocupações em Cingapura, que tem
tanto dinheiro que o desperdiça em extravagâncias.
Tão pequenino, o país nem tem voos domésticos, mas exibe um aeroporto com
capacidade para 66 milhões de passageiros/ano. Os habitantes são só 5,4
milhões...
Os três terminais, acarpetados, têm shopping center, supermercado, piscina,
tobogã, chuveiros e cinemas grátis para passageiros em conexão. Os jardins são
imensos e há até um viveiro de borboletas!
Com dinheiro aos borbotões e alta qualidade de vida, como será o futuro? A
economia tem bases sólidas, mas a pressão migratória é forte e há indagações de
ordem política.
Uma delas é o que vai acontecer quando saírem de cena o grande líder Lee Kuan
Yew, 90, e seu filho mais velho, Lee Hsien Loong, 61, atual primeiro-ministro. O
regime, muito particular, funciona com eles. E sem eles? Para os governistas, a
palavra-chave é planejamento e todas as estratégias para 10, 20 e até 40 anos já
estão traçadas e em execução. Ninguém teria como interrompê-las. Mas nunca se
sabe.
Há também a tensão de um país rico, com indústria forte, tecnologia e
ambição, mas enclausurado no seu próprio território, sem ter para onde correr,
ou crescer. De aterro em aterro, já ganhou uns 10% de área, mas esse recurso
artificial tem limite.
Se Cingapura tem dinheiro, e não terra, é cercado de países com terra, mas
sem dinheiro. Aventuras bélicas estão fora de cogitação, apesar de cerca de 7%
do PIB ir para a defesa, do serviço militar obrigatório de dois anos e da frota
de jatos americanos. Mas as formas modernas de cooptação e ocupação silenciosa
são outras, via bondades, programas e investimentos.
O "soft power" de Cingapura na Ásia ainda é sutil, mas tende a crescer.
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