Miguel González - El Pais
8.mar.2013 - Boris Vergara/EFE
O príncipe das Astúrias, Felipe de Borbón, herdeiro da coroa espanhola
Na quinta-feira (17), no Panamá, no fórum que reúne mais de uma centena de empresários das duas margens do Atlântico, só se escutaram palavras de incentivo e felicitação pelas reformas aplicadas na Espanha, mas também algumas vozes que alertaram sobre a freada das economias latino-americanas.
Naturalmente, os 2,7% de crescimento que o FMI (Fundo Monetário Internacional) atribui este ano à América Latina são vistos com inveja da Espanha, ainda em índice negativo, mas é o pior dado da última década e se afasta da média mundial. "O vento de popa está nos faltando", advertiu o secretário-geral ibero-americano, Enrique Iglesias, ao constatar que se acabaram os anos das vacas gordas, cevadas pelo alto preço das matérias-primas e a chegada maciça de capitais estrangeiros.
O encarregado de vender a boa nova da incipiente recuperação espanhola foi o príncipe Felipe. Fazendo seu o otimismo do governo, afirmou que "embora persistam as dificuldades, as perspectivas são positivas". "Para o final deste ano se espera que voltemos ao caminho do crescimento e que essa tendência se consolide em 2014", afirmou. Apesar de reconhecer que a praga do desemprego não cede, dom Felipe insistiu em que "a Espanha recuperou a competitividade, a produtividade aumentou sensivelmente e tem um setor financeiro mais solvente e eficaz", o que se traduziu na recuperação da confiança internacional. Resumindo: "Resta muito caminho a percorrer, mas a economia espanhola está encontrando seu caminho".
O príncipe, que chegou na quarta-feira à noite ao Panamá acompanhado do ministro das Relações Exteriores, José Manuel García-Margallo, e antecedendo em algumas horas o primeiro-ministro Mariano Rajoy, não se limitou a ler o discurso oficial e ficou entre o público para acompanhar os debates do fórum organizado pelo Conselho Empresarial da América Latina (Ceal) e a Secretaria-Geral Ibero-Americana (Segib). Já no primeiro deles aflorou a preocupação pelo esfriamento das economias latino-americanas e por cumprir as condições necessárias para garantir um "crescimento sustentável", nas palavras do presidente-executivo do Grupo Prisa e presidente de "El País", Juan Luis Cebrián, que atuou como moderador.
A insegurança jurídica, e antes dela inclusive a física, continuam sendo os grandes obstáculos para investir na região, segundo reconheceu o presidente da construtora espanhola OHL, Juan Miguel Villar Mir, apesar de ter destacado os avanços experimentados nos últimos anos e salientado que os países que não cumprem esses parâmetros (que não quis citar expressamente) são "exceções que empanam a imagem geral".
Antonio Brufau, presidente da companhia de petróleo espanhola Repsol, deu o exemplo de sua própria companhia para salientar que, exceto no caso da Argentina e da desapropriação da filial YPF, sempre havia conseguido chegar a um acordo sobre o pagamento de preço justo em caso de nacionalização. Mas Carlos Raúl Yepes, presidente do Bancolombia, replicou que a segurança jurídica não pode ser o fruto de conversas bilaterais entre um governo e uma determinada empresa, "e sim de normas iguais para todos". Este último pôs o dedo na ferida ao denunciar as extorsões a que são submetidas as empresas na América Latina para financiar campanhas eleitorais e a ingerência de alguns países ao apoiar os candidatos de outros. É que a corrupção é a expressão máxima da insegurança jurídica.
Como disse Iglesias, é possível que a mudança de ciclo econômico apanhe os países ibero-americanos mais fortes que em outras etapas e que seus líderes tenham aprendido com erros anteriores, mas não estão mais unidos. Os diferentes processos de integração não confluíram entre si, e sim conduziram a uma progressiva fragmentação regional. De um lado, a Aliança do Pacífico, uma área de livre comércio aberta ao mercado asiático; e do outro o Mercosul, paralisado entre o protecionismo argentino e o estatismo venezuelano. México e Brasil, que deveriam ser os motores da integração ibero-americana, estão há anos dando-se as costas, advertiu Cebrián. "A metade da Ibero-América olha para o Pacífico e a outra metade para o Atlântico, mas ninguém se olha entre si", resumiu Brufau.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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