terça-feira, 15 de outubro de 2013

ÍNDIA: ATRAÇÃO PELA CORRUPÇÃO. E O BRASIL?

Política limpa? Na Índia, os corruptos ganham votos
Ellen Barry - NYT                                         
Manpreet Romana/The New York Times
Kameshwar Baitha conversa com partidários durante campanha em Daltenganj, na Índia
Kameshwar Baitha conversa com partidários durante campanha em Daltenganj, na Índia
Quando decidiu concorrer a um assento no Parlamento como representante desta região empobrecida e de baixa casta, no nordeste da Índia, Kameshwar Baitha não fez esforço algum para disfarçar sua ficha criminal.
Obedientemente, ele catalogou as graves acusações pendentes contra ele, que, segundo ele, são todas falsas. Havia 17 por homicídio, 22 por tentativa de homicídio, seis por agressão com arma perigosa, cinco por roubo, duas por extorsão, e assim por diante, um legado da carreira de Baitha como líder da insurgência maoísta local. Além disso, havia o fato de que ele estava na cadeia.
Isso, contudo, não prejudica suas chances com os eleitores, observou seu filho, Babban Kumar, que espera seguir o pai na política. Para as pessoas nesta região, que veem os líderes eleitos como verdadeiras figuras de Robin Hood, o histórico de Baitha pode ter ajudado.
"Você tem que lutar contra alguma coisa, de que outra forma você pode entrar na política?", Disse Kumar. "Sem ir para a cadeia, você não pode ser um grande político".
Novas correntes, porém, estão cruzando a política indiana neste ano, na medida em que uma classe média urbanizada crescente exige que centenas de políticos corruptos sejam expulsos do sistema.
Em Déli, multidões impulsionadas por campanhas na internet se uniram em torno de uma plataforma de combate à corrupção, segurando vassouras para simbolizar a operação de limpeza. O Supremo Tribunal Federal, sentindo o humor do público, determinou em julho que era ilegal políticos condenados por crimes manterem seus cargos simplesmente entrando com um recurso contra as sentenças. A decisão desqualificaria aqueles condenados a mais de dois anos de prisão por um tribunal de primeira instância. Esta mudança, que poderia extirpar notáveis forças políticas, foi endossada neste mês pela coalizão governista do príncipe herdeiro, Rahul Gandhi.
O esforço enfrentará seu maior desafio em outra Índia –a antiga, onde a eleição ainda é em grande parte impulsionada pelas castas. Na região tribal que Baitha representa, a grande maioria das autoridades eleitas tem acusações criminais, a maioria relacionada à corrupção, mas muitas por crimes violentos. Os eleitores, em geral, descartam tais acusações como falsas –ou seja, como mais uma tentativa das elites de esmagar os defensores dos pobres.
Estas são algumas das coisas que permitiram que Baitha discutisse o assunto confortavelmente na sala de estar de veludo vermelho de uma casa de hóspedes do governo, enquanto um ventilador de teto rodava lentamente. Ele pediu que seu convidado imaginasse se todos os condenados por crimes fossem banidos da política.
"O Parlamento inteiro ia ficar vazio", disse ele. "Seria uma piada".
Um grande teste do efeito das novas medidas virá no caso de Lalu Prasad, o líder de longa data do Estado vizinho de Bihar, que foi proibido do exercício de funções e de concorrer nas eleições deste mês depois de ter sido condenado por corrupção. O caso contra ele havia progredido a passo de tartaruga por 17 anos, enquanto Prasad se metia com os promotores.
Um mestre em carisma populista que veio de uma casta de pastores de vaca, ele transformou suas aparições no tribunal em teatro político. Ele chegou para uma sessão na traseira de um riquixá de bicicleta, cercado por uma multidão de partidários, e uma vez deixou a prisão nas costas de um pequeno elefante.
A dança parecia ter terminado com a sua sentença. Mas na semana passada, sentado dentro da prisão de Birsa Munda em Ranchi, ele parecia perfeitamente capaz de gerir o seu ainda vultuoso império político. Dezenas de assessores e simpatizantes estavam reunidos diante do portão de ferro da prisão, levando coco e cartas escritas à mão. Os carcereiros permitiam a entrada e a saída dos visitantes, em intervalos regulares, como se estivessem operando um centro de acolhimento. "The Telegraph", o principal jornal em inglês de Ranchi, divulgou que ele havia convocado um alfaiate para sua cela.
Quando um ativista no combate à corrupção local apresentou uma queixa, alegando que as visitas foram uma grande violação dos regulamentos prisionais, Prasad decidiu ser mais discreto, recebendo os visitantes só depois das 15 horas, informou o jornal. Todos os seus visitantes disseram que as acusações eram falsas.
"As pessoas em Nova Deli não querem que os pobres subam", disse um deles, Kumar Lakshman, 28. "Lalu está fazendo com que os pobres se ergam".
Em todo o país, o número de políticos indianos eleitos que enfrentam acusações criminais é extraordinário: 30% dos vencedores nas eleições nacionais e regionais desde 2008, segundo a Associação por Reformas Democráticas, um grupo de pesquisa com sede em Nova Déli. As razões são variadas: na evolução do sistema democrático da Índia, os candidatos dependiam muito de "capangas" brutais e, mais tarde, dos "homens com dinheiro" para influenciar os eleitores e serem eleitos. A corrupção é generalizada.
Também é verdade, contudo, que os limites de gastos são tão baixos que praticamente qualquer candidato inclinado a vencer teria que estar disposto a desrespeitar a lei. A pena por apresentar falsas acusações é insignificante. E o movimento de independência da Índia foi fundado na desobediência civil, de forma que o desrespeito à lei está enraizado na cultura política.
Ainda não está claro se isso vai mudar agora, disse Neerja Chowdhury, jornalista e comentarista política. Os principais partidos podem afastar-se dos candidatos que enfrentam acusações criminais, com medo de perderem o assento em caso de desclassificação. Mas eles também podem pensar nas manifestações de apoio popular a Prasad ou a Jaganmohan Reddy, outro líder regional acusado de corrupção.
"É um estranho paradoxo, há enorme simpatia por ele e, segundo todas as pesquisas, ele está ganhando terreno", disse Chowdhury sobre Reddy. A corrupção, ela acrescentou, "é mais uma questão da classe média urbana do que dos grupos que estão em ascensão".
De sua parte, Baitha admitiu alguma ansiedade com as mudanças na política indiana, que ele admite que podem impedi-lo de concorrer. O novo rigor sobre as condenações penais dos candidatos, segundo ele, conferiu uma arma poderosa para a oposição política e colocou em questão a opinião dos eleitores, que segundo ele, têm perfeita consciência de quem estão elegendo.
"Eu tenho essa preocupação, que a minha carreira política termine por causa dessas acusações", disse ele, mas depois se recompôs.
"Tenho plena fé que não vai acontecer comigo", disse ele. "Tenho fé no sistema judicial".
Tradução: Deborah Weinberg

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