terça-feira, 15 de outubro de 2013

Populismo se consolida como refúgio da crise na Europa
Lucía Abellán e Claudi Pérez - El Pais            
Bertrand Langlois/AFP
A líder de extrema-dieita Marine Le Pen lidera pesquisas na França para o Parlamento europeu
A líder de extrema-dieita Marine Le Pen lidera pesquisas na França para o Parlamento europeu
Quanto mais complexa a mensagem, maior a tentação de simplificá-la. Os partidos extremistas parecem entender bem a preocupação dos cidadãos diante de fenômenos multifacetados e a capitalizam com habilidade. No meio de uma crise para a qual já não existem receitas claras, as formações mais populistas ganham terreno na Europa - e não só na Europa - com mensagem simples: volta ao orgulho nacional, ódio ao estrangeiro, em guarda contra a construção europeia. O recrudescimento dessa maré em um país tão representativo dos valores da UE como a França fez disparar os alarmes esta semana.
O populismo vem se aninhando há tempo no Velho Continente, mas a pesquisa divulgada na última quarta-feira (9) sobre as intenções de votos dos franceses amplia a dimensão do problema. Se as eleições europeias previstas para maio se realizassem hoje, a candidata mais votada seria Marine Le Pen, da Frente Nacional. A pesquisa, da revista "Le Nouvel Observateur", concede pela primeira vez à líder de extrema-direita 24% dos votos, acima do tradicional partido de centro-direita UMP e muito distante do Partido Socialista de Hollande, que cai para 19% depois de um ano e meio no poder.
O refúgio do eleitorado em partidos que defendem soluções extremas corresponde a uma mistura de fatores. O que mais aglutina é sem dúvida o receio da imigração. "É o elemento principal: os extremismos estão crescendo há anos e obedecem a mudanças estruturais na sociedade, que teme não poder integrar o diferente", analisa Jamie Bartlett, responsável pelo programa de violência e extremismo na Demos, uma renomada casa de pensadores em Londres. A Demos publicou há pouco um extenso trabalho sobre o retrocesso democrático na UE, entre outros motivos devido à intolerância para com as minorias.
A hipótese francesa se soma à vitória de outros partidos radicais em diferentes países membros. Na Grécia, o neonazista Aurora Dourada entrou no Parlamento em 2012 com 7% dos votos. No Reino Unido, o Ukip marca há tempo a agenda do governo Cameron, que endureceu as políticas relativas à imigração. Com intenções de voto próximas de um em cada cinco eleitores, segundo uma pesquisa de maio, essa formação ultranacionalista cresceu ao calor do carisma de seu líder, Nigel Farage, e de seus receios do estrangeiro.
Na prática, esse seguidismo da agenda extremista prejudica os grandes partidos. Tanto no Reino Unido como na França, as grandes formações tentaram responder ao descontentamento da cidadania com medidas mais duras contra a imigração. O resultado é que os que sobem como espuma são os promotores desse ideário: a extrema-direita. "Há um risco de que nas eleições para o Parlamento Europeu os partidos pró-europeus percam força: a ascensão dos extremismos combinada com essa fragilidade dos europeístas é muito preocupante", explicou em Bruxelas o ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González. Os líderes da UE expressaram várias vezes sua preocupação a respeito nos últimos meses.
"A principal causa da crescente força dos partidos extremistas é o declínio econômico, que tornou os eleitores aborrecidos com os partidos majoritários. Mas outras causas também ajudam, como a imigração e a globalização, que tendem a incentivar o nacionalismo e a reação à mudança", explica Charles Kupchan, do grupo de pensadores Conselho sobre Relações Exteriores. Embora seja inevitável ligar a ascensão dessas opções políticas à crise econômica, não há uma relação de causalidade exata. Os movimentos populistas vêm de longe, e a crise, corolário da globalização dos últimos 30 anos, atua como um ácido corrosivo que facilita seu caminho.
A prova desse vínculo não totalmente claro com as estreitezas econômicas é o papel que desempenha a extrema-direita em territórios prósperos como a Áustria ou os países nórdicos. Na Áustria, país que não deixou de crescer apesar do retrocesso generalizado do continente, o ultranacionalista Partido Liberal obteve há poucos dias 21% dos votos nas eleições gerais. Essa formação levou ao poder o falecido Jörg Haider, ainda presente na memória europeia como o primeiro líder da UE com um discurso abertamente de ultradireita.
No plano escandinavo, o Partido do Progresso norueguês obteve 16% dos votos nas eleições do mês passado. Embora com relação às votações anteriores tenha perdido um quarto dos apoios, mantém uma importante cota de fidelidade, apesar de seus discursos radicais e de que a essa formação tenha pertencido Anders Breivik, o jovem que assassinou 77 pessoas em 2011. Uma porcentagem semelhante à dos radicais noruegueses foi obtida pelo Partido do Povo dinamarquês. Os Democratas suecos também duplicaram sua presença nas eleições (10%) e os Autênticos Finlandeses estão em segundo lugar nas pesquisas, com 19% das intenções de votos.
Todas essas formações enfrentarão um exame chave em maio, nas eleições europeias. Mais ainda que os Parlamentos nacionais, a Eurocâmara corre o risco de se encher de deputados antieuropeus. "Os cidadãos percebem o voto nas europeias como uma opção menos arriscada de protestar e de castigar os partidos majoritários", adverte Bartlett, da Demos. "O risco é transformar a Eurocâmara, senão em uma instituição ingovernável, em uma espécie de circo antieuropeísta que não faria nenhum bem à Europa", conclui José Ignacio Torreblanca, do ECFR.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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