terça-feira, 22 de outubro de 2013

Na Síria, o dilema dos médicos em torno das armas químicas
Sheryl Gay Stolberg e Anne Barnard - NYT                                          
11.out.2013 - Khaled al-Hariri/Reuters
Carro da ONU em frente a hotel em Damasco onde especialistas da Opac (Organização para a Proibição de Armas Químicas) estão hospedados para investigação no país. A entidade ganhou o Nobel da Paz no dia 11
Carro da ONU em frente a hotel em Damasco onde especialistas da Opac (Organização para a Proibição de Armas Químicas) estão hospedados para investigação no país. A entidade ganhou o Nobel da Paz no dia 11
Meses antes de um ataque com armas químicas matar centenas de sírios e provocar ameaças de um ataque militar americano, um anestesiologista chamado Majid ouviu uma explosão perto de sua casa, em um subúrbio de Damasco. Ele correu até o hospital improvisado onde trabalha e encontrou pacientes com irritação na pele, olhos ardendo e falta de ar.
Majid, que disse apenas seu primeiro nome para proteger sua segurança, coletou amostras de cabelo e urina, roupas, folhas de árvores, solo e até mesmo um pássaro morto. Ele as compartilhou com a Sociedade Médica Sírio-Americana, um grupo humanitário que fornece essas amostras às autoridades de inteligência americanas, como prova de possíveis ataques químicos.
"Nós continuamos em comunicação com o Departamento de Estado a respeito do que acontecerá --eles nos disseram que tratam-se de ataques limitados", disse o presidente da sociedade, o dr. Zaher Sahloul, acrescentando que falou com Robert S. Ford, o embaixador americano na Síria, e com Samantha Power, na época assessora na Casa Branca e atualmente embaixadora americana na ONU. "Era muito importante para nós transmitir essa informação, mas demorou para que ganhasse tração e para o mundo reagir."
Agora o mundo reagiu. Inspetores da ONU deram os primeiros passos para destruir o arsenal químico da Síria. Mas enquanto o governo americano reivindica o crédito por pressionar o presidente Bashar Assad a entregar seu arsenal, alguns especialistas dizem que o verdadeiro crédito é dos médicos que colocaram suas vidas em risco --enfrentando questões espinhosas de ética médica-- para expor o uso de armas químicas.
A guerra civil da Síria tem sido especialmente perigosa para os profissionais de saúde. Um relatório da ONU, divulgado no mês passado, descreveu a transformação deliberada de "hospitais, pessoal médico e transportes em alvos" como sendo uma das "características mais alarmantes do conflito sírio". Segundo estimativas que variam muito, mais de 100 médicos foram mortos e até 600 foram presos.
O sistema de saúde antes funcional do país está em pedaços. Mais da metade de seus hospitais públicos foram danificados nos dois anos de guerra civil e 37% estão totalmente fora de operação, segundo um recente relatório da Organização Mundial de Saúde. Muitos médicos sírios fugiram; aqueles que permaneceram descrevem as péssimas condições, onde nem mesmo o atendimento mais básico está disponível.
As mães estão desesperadas para que seus filhos sejam vacinados; pacientes com problemas crônicos como doenças cardíacas e diabete têm dificuldade para encontrar medicamentos; e há uma "ansiedade imensa entre a população", disse o dr. Adi Nadimpalli, um pediatra e clínico geral de 38 anos de Nova Orleans, que dirige dois hospitais no norte da Síria para o grupo humanitário Médicos Sem Fronteiras.
Trabalhar em meio a facções rebeldes rivais provou ser uma tarefa delicada. Nadimpalli fechou um acordo com os combatentes: "Eles deixam suas armas na entrada".
A guerra química --que parece ter começado com ataques de pequena escala neste ano e culminou com o ataque com gás sarin em agosto, que matou centenas de sírios-- tornou essa situação difícil ainda mais complexa, levantando questões éticas sobre se e como se manifestar.
A Médicos Sem Fronteiras (MSF) conta com seis hospitais improvisados no norte controlado pelos rebeldes, sem permissão do governo Assad. Em janeiro, ela também começou a fornecer secretamente orientação técnica, equipamento médico e drogas --incluindo atropina, um antídoto para agentes nervosos-- aos hospitais e clínicas nas regiões controladas pelo governo.
Em 21 de agosto, o grupo tomou conhecimento por meio de seus hospitais "parceiros silenciosos" de uma enxurrada de pacientes com "sintomas neurotóxicos" --aproximadamente 3.600 em um período de três horas, incluindo os 355 que morreram. Em questão de dias, seus líderes realizaram uma teleconferência para debater como lidar com a informação sensível, disse Sophie Delaunay, a diretora das operações americanas da Médicos Sem Fronteiras.
Qualquer declaração pública, ela e seus colegas sabiam, poderia colocar os médicos do grupo e seus parceiros sírios em risco, os expondo a acusações de estarem do lado dos rebeldes e os deixando vulneráveis a retaliação pelas forças do governo. E eles temiam que os governos ocidentais, incluindo o governo Obama, poderiam usar suas palavras como base para um ataque militar.
Mesmo assim, o grupo fez uma declaração pública. A informação, disse Delaunay, era "grande demais" e "crível demais" para ser retida. O boletim redigido cuidadosamente pedia por uma investigação independente, dizendo que a Médicos Sem Fronteiras não podia "confirmar cientificamente a causa desses sintomas e nem estabelecer quem foi responsável pelo ataque".
Logo, entretanto, o secretário de Estado americano, John Kerry, e Jay Carney, o secretário de imprensa da Casa Branca, começaram a citar as constatações da Médicos Sem Fronteiras como justificativa para uma intervenção militar, assim como o grupo temia. Ela então emitiu uma segunda declaração, alertando de novo que sua informação "não podia ser usada como evidência" para atribuir culpa.
Um funcionário do Departamento de Estado, falando anonimamente para discutir a tomada de decisão interna, disse que as autoridades americanas estavam reunindo inteligência sobre armas químicas, e que o trabalho dos médicos e grupos humanitários fornecia "apenas outro indicador".
Mas J. Stephen Morrison, um especialista em saúde global do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington, disse que Delaunay e seus colegas "merecem um crédito imenso" por forçar a entrada da questão na agenda internacional. "Eles moveram a discussão global adiante", ele disse. "Foi uma decisão difícil e muito arriscada, e as coisas poderiam ter ficado muito feias para eles."
Tradutor: George El Khouri Andolfato

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