quinta-feira, 3 de outubro de 2013

ONU: instrumento das potências para racionalizar relações
M. Á. Bastenier - El Pais
Stan Honda/AFP
Ban Ki-moon contrasta com o seu antecessor, Kofi Annam, no quesito hiperatividade
Ban Ki-moon contrasta com o seu antecessor, Kofi Annam, no quesito hiperatividade
Se há um bode expiatório mundial é a ONU; um pimpampum que serve a todos os propósitos e explica todas as carências. A organização internacional permite pôr a culpa em uma entidade comodamente anônima por boa parte dos males do planeta. Mas não é justo criticar alguém por não fazer aquilo que não é sua função.
A ONU não é um governo mundial, nem um distribuidor de prêmios e de castigos, senão um instrumento das grandes potências para racionalizar suas relações; um fórum sumamente útil quando há acordo entre os grandes e uma grande caixa de ressonância quando não, e por isso as segundas potências, sobretudo as emergentes, podem expor ali seus agravos. A Assembleia Geral realizada na semana passada em Nova York conheceu ambas as representações.
O acordo sobre a destruição do armamento químico de Damasco é um exemplo do primeiro êxito apreciável, independentemente de ser finalmente executado, porque a organização é o selo lacrado do acordo russo-americano, e não a garantia de seu cumprimento. E, de passagem, um favor apreciável a seu secretário-geral, Ban Ki-moon, ao qual se acusava de ter demorado demais para denunciar a chacina a partir de uma visível passividade congênita.
O funcionário sul-coreano, que fala trabalhosamente inglês e sempre com notas, foi eleito, entretanto, como a própria ONU, em contraste com a hiperatividade de seu antecessor, o ganense Kofi Annan, que acabou irritando o presidente Clinton, ao qual criticava por se importar menos com os mortos africanos do que com os balcânicos.
O melhor exemplo de agravo de potência emergente foi a presidente brasileira, que pôs em cena um dos ataques mais duros já registrados contra os EUA, embora sempre dentro do que se considera próprio de um aliado. Dilma Rousseff parecia se dirigir ao próprio presidente Obama, que esperava nas coxias para falar na continuação, quando, pelo caso da espionagem americana ao governo de Brasília, pediu "explicações, desculpas e garantias de que a grave intromissão não se repetiria no futuro".
A jornalista da "Folha de S.Paulo" Vanessa Barbara contou ao "New York Times" que em seu círculo havia se transformado em piada privativa despedir-se nos e-mails com uma saudação a quem os lesse por conta da Agência Nacional de Vigilância (NSA), órgão de Washington encarregado da ciberespionagem internacional.
Sentiu-se muita falta do falecido Hugo Chávez, o criador de expressões como "Mr. Danger" ou "aqui cheira a enxofre" com que apostrofava histrionicamente o anterior presidente americano, George W. Bush. O líder venezuelano, sempre dentro da categoria de imprecações não homologáveis, teve como aspirante a substituto o presidente boliviano, Evo Morales, que pedia a constituição de um tribunal popular internacional que julgasse Barack Obama por "crimes contra a humanidade".
O mandatário equatoriano, Rafael Correa, que também se postula como sucessor do líder chavista, jamais construiria, entretanto, uma alegação de semelhante dureza. E entre os apocalípticos, mas com uma mensagem da qual ninguém poderia se declarar em desacordo, o presidente uruguaio, José Mujica, nas funções de moderna Cassandra, pôs os EUA como exemplo da autodestruição a que o mundo se encaminha porque "se a humanidade consumisse como um americano médio, seriam necessários três planetas". E se todos fizessem como o representante da República Oriental, que circula por Montevidéu em um carro velho e vive em um rancho muito modesto, bastaria a metade de um.
A altíssima reunião também serviria de cenário para a solene inauguração de uma associação internacional, a Aliança do Pacífico, formada por México, Colômbia, Peru e Chile, esta sim formalmente amável com Washington, mas inclusive neste caso abundando em um acento diferente com seu olhar cúmplice para a China, inevitável concorrente econômico dos EUA.
E igualmente diversos oradores, entre eles o presidente Sebastián Piñera do Chile, defenderam a reforma da organização com o objetivo de diminuir o poder negativo (de veto) dos membros do Conselho de Segurança e tornar o órgão mais democrático. Nem que isso seja assim parece claro, nem a possibilidade de que os cinco aceitem.
A Assembleia Geral serviu, portanto, como mostruário dos diferentes olhares de uma América Latina mais internacionalmente ativa que nunca, ao mesmo tempo em que mais dividida, assim como de um amplificador universal do primeiro grande acordo em política externa entre as que continuam sendo as duas maiores potências do planeta. Para tudo isso serve a ONU, o que não é pouco.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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