quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Governo de Kirchner manipula sorriso, saúde e inflação 
Francisco Peregil - El Pais 
Reuters
A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, posa para foto com seu cachorro na residência oficial de Olivos 
A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, posa para foto com seu cachorro na residência oficial de Olivos 
Uma mandatária de sorriso largo e mão firme. Essa é a Cristina Kirchner que retomou a presidência da Argentina na segunda-feira, depois de seis semanas de convalescença. Sorriso para explicar-se sobre questões banais em um vídeo de quase 7 minutos, depois de ter decapitado quatro altos membros de seu governo.
Sorriso para fingir espontaneidade em sua mensagem gravada - "Agora?", perguntou a sua filha Florencia, que filmava. "É esta a câmera que tenho que olhar, ou a sua?" E sorriso para não mencionar os maus resultados das eleições legislativas de 27 de outubro, a decisão da Suprema Corte que declarou constitucional a Lei de Mídia ou a reforma de gabinete que acabava de assinar. Nem sequer informou sobre como ocorreu o golpe na cabeça que lhe causou um hematoma no crânio. Mas Kirchner soube demonstrar firmeza ao ordenar algumas mudanças que serão decisivas nos dois anos que lhe restam de governo.
Com as nomeações, Kirchner contenta por um lado seus seguidores mais jovens, organizados na associação La Cámpora, liderada por seu filho, Máximo Kirchner. E por outro satisfaz o peronismo tradicional, representado pelos governadores das províncias onde governa o oficialismo. A estes concede a nomeação de um dos seus, o governador da província setentrional do Chaco, Jorge Capitanich, 48 anos, como chefe de Gabinete. E aos mais jovens faz um gesto com a nomeação de Axel Kicillof, 42, como ministro da Economia.
Kicillof é o professor de economia que promoveu em abril de 2012 a desapropriação da Repsol de 51% de suas ações na YPF. Seu cargo oficial era desde 2011 até a última segunda-feira o de secretário de Estado de Economia. E seu chefe imediato era o ministro Hernán Lorenzino, o mesmo que em abril respondeu que queria sair quando uma jornalista grega lhe perguntou qual era a cifra exata da inflação. Cristina Kirchner concedeu a Lorenzino um retiro dourado como embaixador diante da União Europeia, embora o mantenha à frente de uma equipe para renegociar a dívida argentina.
Foi-se Lorenzino, mas a inflação continua aí. A oficial - à qual ninguém dá a menor credibilidade - situa-se em 10% e as calculadas por consultorias privadas em 25%. Será Kicillof quem deverá enfrentá-la. E também deverá abordar a sangria de dólares que todo mês escapa do Banco Central. Foi essa escassez de dólares que levou a equipe econômica em maio passado a aprovar uma anistia fiscal para os evasores de divisas. A operação foi um completo fracasso.
O governo pretendia atrair US$ 4 bilhões do exterior e só conseguiu 379 milhões. Falhou a confiança no governo. E a nomeação de Kicillof não parece provocar euforia nos mercados. A Bolsa de Buenos Aires recuou na terça-feira 5%, assim como diminuiu o valor dos títulos da dívida pública. Enquanto isso, o dólar no mercado paralelo era valorizado.
Kicillof, por fim, poderá exercer as funções de ministro que já vinha exercendo. Há quase dois anos, durante as negociações com os diretores da Repsol, era ele quem sobressaía. Uma testemunha daquelas conversas lembrou: "Os ministros falavam pensando no que ele contaria depois à presidente. Diferentemente de outros, ele sim tinha acesso direto a ela. Parecia que tivesse escapado de uma assembleia universitária. Suas opiniões sobre a empresa privada eram muito dogmáticas. Mas era o único que parecia acreditar no que dizia".
E no que Kicillof acreditava então é no que continua acreditando hoje: que o Estado é o grande meio para intervir na economia em defesa dos menos favorecidos. O que não quer dizer que o novo ministro da Economia não saiba adaptar-se às circunstâncias quando as circunstâncias deixam poucas escapatórias. Da mesma maneira que Cristina Fernández de Kirchner demorou 48 horas para se reconciliar com Jorge Bergoglio quando foi eleito papa, da mesma forma que deu marcha a ré em algumas de suas políticas mais emblemáticas quando viu chegar o descalabro eleitoral de 27 de outubro, Kicillof também tem mais cintura do que aparenta.
Antes de chegar ao governo, quando era um professor na Universidade de Buenos Aires alheio ao uso de gravatas, combatia a falsificação da inflação por parte do governo Kirchner e chegou a escrever em um relatório de 2008: "Como é de conhecimento público, a partir da intervenção política do Instituto Nacional de Estatística e Censo (Indec) em janeiro de 2007, as estatísticas oficiais perderam toda a credibilidade". No ano seguinte Kicillof foi incorporado ao governo, continuou sem usar gravatas, mas jamais voltou a criticar em público a manipulação das cifras.
A outra grande nomeação de Cristina Kirchner também apresenta uma cintura política à prova de mudanças vertiginosas. O governador do Chaco, Jorge Capitanich, que sucede a Juan Manuel Abal Medina como chefe de Gabinete, é um peronista de 48 anos à moda antiga. Soube ser menemista com Carlos Menem, duhaldista com Eduardo Duhalde (2002-2003), com o qual já foi chefe de Gabinete. E agora passa como um dos políticos mais leais a Cristina Kirchner. Além disso, foi elogiado por boa parte da oposição, que o considera um político sério e de formação econômica sólida. Dentro do peronismo é visto como um homem de centro-esquerda, espírito dialogante e êxito eleitoral comprovado. Ou seja: uma das opções mais consistentes para suceder a Cristina dentro do governismo.
Os resultados das legislativas de 27 de outubro afastaram Kirchner do baile para as presidenciais de 2015. Ficou claro que não poderia mais contar com a maioria de dois terços necessária para aspirar a um terceiro mandato. Capitanich é um possível herdeiro e conta agora com uma vitrine ideal para se dar a conhecer ao país.
Fora as principais designações, Kirchner nomeou para a frente do Banco Central Juan Carlos Fábrega, um funcionário muito leal sem estudos universitários; e como responsável pelo Banco Nación, o maior banco público, Juan Ignacio Forlón, advogado nascido em 1976 e cujo principal trunfo conhecido é ser amigo íntimo de Máximo Kirchner.
O fim do gestor da economia kirchnerista
Guillermo Moreno, o homem que definiu o rumo da economia da Argentina nos últimos anos, se demitiu na terça-feira. Seu cargo - como costuma ocorrer no governo de Cristina Fernández de Kirchner - não correspondia a seu verdadeiro poder. Na teoria era um mero secretário de Estado de Comércio.
Na prática, foi o homem que promoveu desde 2007 a falsificação dos índices de crescimento e inflação com a manipulação do Indec, o instituto de estatísticas argentino. Na origem dessa decisão, uma dúzia de consultorias publicaram estudos em que evidenciavam a falsidade das cifras oficiais e Moreno as multou. Finalmente, este ano, um juiz incriminou Moreno por suposto abuso de autoridade.
Através de suas medidas, e sempre com o apoio da presidente Kirchner, Moreno conseguiu que a simples menção da palavra "inflação" fosse um tabu na Argentina. E também conseguiu que o FMI emitisse pela primeira vez em sua história uma declaração de censura contra um país por manipular estatísticas.
Moreno também foi o homem que promoveu em fevereiro o congelamento temporário de preços nos supermercados como método bastante particular de combater o aumento de preços. Fê-lo a sua maneira: reunindo os principais executivos das firmas e dizendo-lhes que não tinham alternativa senão aceitar sua proposta.
A inflação seguiu seu ritmo e Moreno prorrogou a medida por dois meses. O aumento de preços continuou, mas o secretário de Estado conseguiu de passagem que muitas grandes empresas deixassem de anunciar nos jornais. Estes alegavam que Moreno "apertava" os empresários para que não anunciassem. Nenhum empresário o admitiu publicamente.
Tinha inimigos por toda parte: entre a classe empresarial, nos meios de comunicação e também dentro do próprio governo. Mas Moreno sempre contou com o apoio incondicional de Néstor e depois de Cristina Kirchner. Até que na terça-feira apresentou sua renúncia. Cristina a aceitou e premiou seus serviços prestados com o cargo de adido econômico na Embaixada da Argentina em Roma.
"O prêmio para os inúteis e os fascistas são as representações argentinas no exterior, de preferência na Europa", declarou a deputada de oposição Elisa Carrió. Moreno deixará o cargo em 2 de dezembro e a partir de então o comando da economia ficará concentrado nas mãos do novo ministro, Axel Kicillof.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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