quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Bachelet caminha para conciliação caso continue no comando chileno 
M. Á. Bastenier - El Pais 
Luis Hidalgo/AP
A candidata à Presidência do Chile Michele Bachelet é acompanhada pelos novos membros eleitos do congresso: negociação 
A candidata à Presidência do Chile Michele Bachelet é acompanhada pelos novos membros eleitos do congresso: negociação 
O povo chileno votou para presidente com maior consciência de êxito do que em qualquer momento anterior de sua história contemporânea; ou era o que se parecia vislumbrar recentemente nos telejornais, em que se comentava o índice de desemprego espanhol com certa comiseração não isenta de ambiguidade. E, contando com que em 15 de dezembro a socialista Michelle Bachelet ratifique em segundo turno sua ampla vitória sobre a candidata da direita, Evelyn Matthei, a incógnita para aliados e simpatizantes é em que medida a nova presidente manterá o eficiente modelo econômico chileno de liberalismo atenuado.
Os últimos quatro anos de governo da centro-direita foram a quadratura de um círculo virtuoso. Índice de crescimento anual de 5,5%; inflação que não passa de 3%; 833 mil empregos criados; e um investimento privado de 27% do PIB em 2013. As reformas que a líder esquerdista anuncia podem atentar contra um modelo tão orgulhoso de si mesmo? É legítimo que se perguntem isso seus parceiros da Aliança do Pacífico - México, Colômbia e Peru -, seduzidos por uma abertura para a China, na qual acreditam como nos Reis Magos.
Bachelet desenha um triângulo de reformas: educativa, cujo objetivo é ir em direção à gratuidade dos estudos superiores; tributária, com elevação aos que têm mais, em parte para custear a reforma anterior; e emendas à Constituição para apagar o que sobrevive da ditadura militar (1973-1989), como é o caso do sistema de eleição binominal que dilui as diferenças entre primeiro e segundo classificados. Mas essa herança resiste a morrer porque nas legislativas realizadas junto com as presidenciais a Nova Maioria da líder socialista - antes Concertação - não conseguiu os dois terços de assentos necessários para retoques constitucionais.
A sombra de Augusto Pinochet pairou sobre as eleições porque caía em plena campanha o 40º aniversário do golpe militar com que o general derrubou e provocou a morte do presidente legítimo, o também socialista, mas não social-democrata, Salvador Allende. O presidente Piñera, que aspira a recompor a direita, também depurando pinochetismos, prejudicou gravemente, não está claro se de forma involuntária, sua própria candidata quando falou em "cúmplices passivos" da ditadura, e a criticou por negar-se a pedir perdão por um regime em que seu pai foi membro de uma das juntas militares de governo.
Matthei, eleita já fora de conta pelos dois grandes partidos de direita, UDI e RN, só pôde se defender esquivando-se: "O Chile é o único país com um governo não democrático [não disse ditatorial] que pôs fim a seu mandato com uma eleição e entregou o poder de forma decente". A eleição foi um referendo sobre a continuidade do regime - apenas sucintamente asseado - que os militares perderam e que deu início a uma verdadeira democratização, com o primeiro governo da Concertação em 1990.
Diante das expectativas sobre o modelo e as intenções de Bachelet de dar uma virada à esquerda, o ex-presidente Ricardo Lagos, igualmente socialista mas social-democrata de profissão, quis definir prudentemente o futuro situando o Chile da presidente do lado de cá da brasileira Dilma Rousseff: "Se nos anos 1990 caiu toda a estante do socialismo real, em 2008 foi a do neoliberalismo extremo. Não vamos para uma esquerdização, senão para um novo ciclo político e econômico".
A grande expansão econômica chilena, entre 1990 e 2010 sob os governos da Concertação, e desde março desse último ano com a centro-direita, apresenta, entretanto, graves sintomas de desafeto popular. No domingo se realizaram as primeiras eleições com sufrágio não obrigatório, e menos de 50% do censo se incomodou em votar.
Mas embora isso seja ruim em termos históricos não o é tanto para Bachelet, porque seus votos, a expressão de uma militância achegada, são de sua exclusiva propriedade. Terá que negociar a reforma, mas não prestar contas aos líderes de sua Nova Maioria, que inclui DC, PS, PPD, mais o acréscimo de um partido comunista, que pode acabar como desculpa esquerdizante para uma política cautelosa.
O Chile está às portas do clube de países desenvolvidos. Tem uma renda per capita em valor real de cerca de US$ 20 mil, quando em 1990 era de 5 mil. Mas, como diz Lagos, dos 18 milhões de chilenos 80% estão abaixo desse limite confortável. O modelo chileno de Bachelet não terá facilidade para remediar tão grave disparidade.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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