Rod Nordland - NYT
S. Sabawoon/EFE
Afegãos esperam para receber mantimentos de inverno distribuídos pelo Alto Comissariado da Organização das Nações Unidas em dezembro de 2012
S. Sabawoon/EFE
Afegãos esperam para receber mantimentos de inverno distribuídos pelo Alto Comissariado da Organização das Nações Unidas em dezembro de 2012
Eles têm poucos direitos, podem ser presos ao serem avistados e
privados de um julgamento, e frequentemente são deportados quatro, cinco
ou mais vezes –e tão logo cruzam a fronteira eles retornam.
Às vezes eles são vítimas da justiça de vigilantes. Rotineiramente, como imigrantes ilegais, trabalho lhes é negado.
Mas apesar de todos esses problemas, até 3 milhões de imigrantes afegãos ainda consideram a vida melhor de modo geral no Irã, com maiores oportunidades de trabalho e educação e mais direitos para as mulheres.
Essa situação frequentemente contraditória é tratada em um novo relatório divulgado pelo Human Rights Watch na quarta-feira. O estudo mostra que os afegãos no Irã são rotineiramente privados de seus direitos como refugiados e submetidos a abusos arbitrários.
Mas eles continuam seguindo para o país, em números que tornaram o Irã o principal destino para os afegãos que deixam seu país: 800 mil afegãos estão registrados como refugiados no Irã e 2 milhões adicionais como imigrantes não documentados. O Paquistão tem 1,5 milhão de refugiados afegãos registrados e entre 500 mil e 1 milhão de afegãos não documentados.
Os afegãos ainda são os refugiados mais numerosos do mundo. O número oficial deles, 2,6 milhões, é mais que o dobro dos dois maiores grupos de refugiados seguintes, somalis e sírios –e quando as estimativas de imigrantes não documentados são incluídas na soma, a vantagem cresce.
A incerteza em torno do futuro do país reverteu anos de declínio de saída de refugiados do país, nos quais os afegãos retornando superava em número aqueles que deixavam o país. Por anos, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados realizou um programa de repatriação voluntária, oferecendo ajuda e assistência para reassentamento aos afegãos que voltavam do Paquistão e do Irã. Em 2012, aproximadamente 94 mil afegãos aderiram aos programa.
Mas até o momento em 2013, apenas 37 mil afegãos retornaram, apenas 8 mil deles do Irã.
Isso significa que o Afeganistão conta de novo com uma saída líquida de pessoas, em números não vistos desde a invasão americana em 2001. Os afegãos que buscam asilo no Ocidente e nos países industrializados chegaram a 36 mil em 2012, segundo a agência de refugiados da ONU, e o Ministério dos Refugiados e Repatriações afegão diz que os números mais recentes mostram que 60 mil afegãos pediram asilo neste ano.
Para aqueles sem meios para fugir para a Europa, Américas ou Austrália, o país de escolha se tornou o Irã, que conta com melhores perspectivas de emprego e educação do que o Paquistão, e onde muitos afegãos falam a língua. (O persa é estreitamente relacionado à língua dari amplamente falada no Afeganistão.)
Mas à medida que o número de afegãos ali cresce, o Irã tornou quase impossível para eles conseguirem o status de refugiados, que lhes daria direitos legais internacionais e acesso a ajuda, atendimento médico e educação.
"O Irã está deportando milhares de afegãos para um país onde o risco é tanto real quanto sério", disse Joe Stork, vice-diretor para Oriente Médio e Norte da África do Human Rights Watch, enquanto o relatório de 124 páginas do grupo era divulgado na quarta-feira. "O Irã tem a obrigação de ouvir os pedidos de status de refugiados dessas pessoas, em vez de detê-las e jogá-las do outro lado da fronteira, para o Afeganistão."
O relatório expressou preocupação em particular com as condições das crianças afegãs, muitas das quais entram sozinhas no Irã à procura de trabalho para suas famílias em casa. Em muitos casos, as crianças afegãs encontradas nas ruas são presas pelas autoridades iranianas e sumariamente deportadas, as separando de famílias que podem estar no país há anos.
Como outros deportados, espera-se que essas crianças paguem por seu transporte até a fronteira e pelo alimento enquanto estão detidas na detenção e nos centros de trânsito. Aquelas que não podem frequentemente são agredidas e passam fome, segundo entrevistas citadas no relatório.
"As crianças imigrantes afegãs no Irã podem ser presas virtualmente a qualquer momento, com pouco ou nenhum acesso ao processo legal devido ou às proteções garantidas às crianças segundo a lei internacional", disse o relatório.
No geral, disse o Human Rights Watch, até 1.500 pessoas por dia são deportadas pelas duas travessias oficiais de fronteira do Irã com o Afeganistão –particularmente pela travessia de Islam Qala, uma cidade arenosa na principal estrada até a cidade de Herat, no oeste do Afeganistão.
Em uma escala menor, a mesma coisa está acontecendo no Paquistão.
"Esses países na verdade têm sido extremamente pacientes e flexíveis ao lidarem com milhões de pessoas, e em grande parte tiveram que arcar sozinhos com o impacto desses números", disse Bo Schack, o representante da agência de refugiados da ONU no Afeganistão, na quarta-feira.
O Irã, em particular, não recebe o tipo de ajuda internacional e de caridade para os refugiados que o Paquistão recebe, em parte devido às sanções do Ocidente.
Ao mesmo tempo, notou o Human Rights Watch, o Irã adotou um plano para expulsar 1,6 milhão de residentes ilegais até 2015, além de também pressionar os refugiados legais a partirem. Até o momento, ele teve pouco sucesso.
"O Irã tem arcado com o fardo de receber uma das maiores populações de refugiados por mais de três décadas, mas precisa atender os padrões internacionais no tratamento dado a eles", disse Stork, o representante do Human Rights Watch. "O Afeganistão pode estar ainda mais perigoso agora do que quando muitos desses refugiados partiram. Agora não é hora do Irã mandá-los de volta para casa."
Azam Ahmed, em Islam Qala (Afeganistão), contribuiu com reportagem.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
Às vezes eles são vítimas da justiça de vigilantes. Rotineiramente, como imigrantes ilegais, trabalho lhes é negado.
Mas apesar de todos esses problemas, até 3 milhões de imigrantes afegãos ainda consideram a vida melhor de modo geral no Irã, com maiores oportunidades de trabalho e educação e mais direitos para as mulheres.
Essa situação frequentemente contraditória é tratada em um novo relatório divulgado pelo Human Rights Watch na quarta-feira. O estudo mostra que os afegãos no Irã são rotineiramente privados de seus direitos como refugiados e submetidos a abusos arbitrários.
Mas eles continuam seguindo para o país, em números que tornaram o Irã o principal destino para os afegãos que deixam seu país: 800 mil afegãos estão registrados como refugiados no Irã e 2 milhões adicionais como imigrantes não documentados. O Paquistão tem 1,5 milhão de refugiados afegãos registrados e entre 500 mil e 1 milhão de afegãos não documentados.
Os afegãos ainda são os refugiados mais numerosos do mundo. O número oficial deles, 2,6 milhões, é mais que o dobro dos dois maiores grupos de refugiados seguintes, somalis e sírios –e quando as estimativas de imigrantes não documentados são incluídas na soma, a vantagem cresce.
A incerteza em torno do futuro do país reverteu anos de declínio de saída de refugiados do país, nos quais os afegãos retornando superava em número aqueles que deixavam o país. Por anos, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados realizou um programa de repatriação voluntária, oferecendo ajuda e assistência para reassentamento aos afegãos que voltavam do Paquistão e do Irã. Em 2012, aproximadamente 94 mil afegãos aderiram aos programa.
Mas até o momento em 2013, apenas 37 mil afegãos retornaram, apenas 8 mil deles do Irã.
Isso significa que o Afeganistão conta de novo com uma saída líquida de pessoas, em números não vistos desde a invasão americana em 2001. Os afegãos que buscam asilo no Ocidente e nos países industrializados chegaram a 36 mil em 2012, segundo a agência de refugiados da ONU, e o Ministério dos Refugiados e Repatriações afegão diz que os números mais recentes mostram que 60 mil afegãos pediram asilo neste ano.
Para aqueles sem meios para fugir para a Europa, Américas ou Austrália, o país de escolha se tornou o Irã, que conta com melhores perspectivas de emprego e educação do que o Paquistão, e onde muitos afegãos falam a língua. (O persa é estreitamente relacionado à língua dari amplamente falada no Afeganistão.)
Mas à medida que o número de afegãos ali cresce, o Irã tornou quase impossível para eles conseguirem o status de refugiados, que lhes daria direitos legais internacionais e acesso a ajuda, atendimento médico e educação.
"O Irã está deportando milhares de afegãos para um país onde o risco é tanto real quanto sério", disse Joe Stork, vice-diretor para Oriente Médio e Norte da África do Human Rights Watch, enquanto o relatório de 124 páginas do grupo era divulgado na quarta-feira. "O Irã tem a obrigação de ouvir os pedidos de status de refugiados dessas pessoas, em vez de detê-las e jogá-las do outro lado da fronteira, para o Afeganistão."
O relatório expressou preocupação em particular com as condições das crianças afegãs, muitas das quais entram sozinhas no Irã à procura de trabalho para suas famílias em casa. Em muitos casos, as crianças afegãs encontradas nas ruas são presas pelas autoridades iranianas e sumariamente deportadas, as separando de famílias que podem estar no país há anos.
Como outros deportados, espera-se que essas crianças paguem por seu transporte até a fronteira e pelo alimento enquanto estão detidas na detenção e nos centros de trânsito. Aquelas que não podem frequentemente são agredidas e passam fome, segundo entrevistas citadas no relatório.
"As crianças imigrantes afegãs no Irã podem ser presas virtualmente a qualquer momento, com pouco ou nenhum acesso ao processo legal devido ou às proteções garantidas às crianças segundo a lei internacional", disse o relatório.
No geral, disse o Human Rights Watch, até 1.500 pessoas por dia são deportadas pelas duas travessias oficiais de fronteira do Irã com o Afeganistão –particularmente pela travessia de Islam Qala, uma cidade arenosa na principal estrada até a cidade de Herat, no oeste do Afeganistão.
Em uma escala menor, a mesma coisa está acontecendo no Paquistão.
"Esses países na verdade têm sido extremamente pacientes e flexíveis ao lidarem com milhões de pessoas, e em grande parte tiveram que arcar sozinhos com o impacto desses números", disse Bo Schack, o representante da agência de refugiados da ONU no Afeganistão, na quarta-feira.
O Irã, em particular, não recebe o tipo de ajuda internacional e de caridade para os refugiados que o Paquistão recebe, em parte devido às sanções do Ocidente.
Ao mesmo tempo, notou o Human Rights Watch, o Irã adotou um plano para expulsar 1,6 milhão de residentes ilegais até 2015, além de também pressionar os refugiados legais a partirem. Até o momento, ele teve pouco sucesso.
"O Irã tem arcado com o fardo de receber uma das maiores populações de refugiados por mais de três décadas, mas precisa atender os padrões internacionais no tratamento dado a eles", disse Stork, o representante do Human Rights Watch. "O Afeganistão pode estar ainda mais perigoso agora do que quando muitos desses refugiados partiram. Agora não é hora do Irã mandá-los de volta para casa."
Azam Ahmed, em Islam Qala (Afeganistão), contribuiu com reportagem.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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