terça-feira, 2 de maio de 2017

O paradoxo das religiões é que seus templos estão cheios de homens vazios. - Ivan Pessoa
Pacto?
Um verdadeiro pacto para tirar o país da crise deveria envolver, por princípio, pessoas de bem, que seguem as leis e as instituições  
Denis Lerrer Rosenfield - O Globo 
A questão político-partidária, em seu viés policial, está sendo colocada de uma forma assaz enviesada. Discute-se amplamente sobre o caixa 1 e o caixa 2 dos políticos, partidos e campanhas eleitorais, como se tudo se reduzisse à legalidade de uma e à ilegalidade de outra.
Os mais afoitos chegam a sustentar que basta uma declaração formal à Justiça eleitoral de doações aparentemente legais para que tudo esteja resolvido. Burla-se a lei sob a aparência de respeitá-la. De modo diverso, o caixa 2 é defendido como se fosse uma simples escolha de doadores que, por uma razão qualquer de preferência, não gostariam de aparecer.
O problema, porém, não reside nesta distinção, superficial, mas nos crimes que são cometidos seja com o caixa 1, seja com o caixa 2. O volume chega a ser alucinante: corrupção ativa, corrupção passiva, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e assim por diante. Dá vertigem!
É a propina, a corrupção e a formação de quadrilhas tomando de assalto a coisa pública. Agentes públicos e privados saquearam empresas estatais, por exemplo, através de todo um esquema que envolveu tanto um tipo de caixa como de outro. O importante consistia no desvio de recursos públicos que, depois, eram direcionados para os bolsos dos agentes e para partidos e campanhas eleitorais. Vivia-se uma normalidade anormal!
Os grandes responsáveis deste enredo criminoso foram o PT e o seu líder máximo, que terminou se mostrando o chefe de toda uma quadrilha, a maior dentre elas. Tiveram bons coadjuvantes em outros partidos. O “pai dos pobres” revelou-se o “pai das empreiteiras” e o seu partido, em vez de permanecer fiel à sua pregação moral de antanho, resolveu jogar o seu destino na defesa de seu comandante. Nenhum setor do Estado ficou imune a tal atividade criminosa.
O resultado de tal descalabro fez-se sentir, inclusive, no domínio social, com desemprego atingindo 13 milhões de pessoas, recessão brutal e inflação que só agora, com o novo governo, começa a ser domada. Nem as bandeiras sociais resistiram a tão terrível choque de realidade.
Do ponto de vista institucional, a situação não deixa de ser menos aterradora. Todos os Poderes estão corroídos. O Legislativo está desacreditado, com a classe política tendo sido atingida em cheio. O Executivo possui vários ministros envolvidos, chegando a alcançar quase um terço do governo. Já circulam rumores de que as instâncias superiores do Judiciário estariam também envolvidas na Lava-Jato, embora isto não tenha por enquanto aparecido. Salvam-se, neste processo, partes significativas das Primeira e Segunda Instâncias do Judiciário e do Ministério Público e a Instituição Militar, que permanece íntegra.
A democracia brasileira está, pois, a enfrentar um duro teste. Eleições não são critérios seguros para medir a sua existência se as instituições estiverem desmoronando. Não há democracia sem Estado. E o Estado foi corroído de dentro.
O que sim terminamos observando são discursos retóricos, demagógicos, visando ao convencimento dos eleitores, como se a nossa situação fosse de fácil equacionamento, consistente, por exemplo, em barrar a Lava-Jato ou nos discursos de políticos de que seriam todos inocentes à espera de um julgamento “justo”.
Alguns lutam desesperadamente, como o ex-presidente Lula, tentando fazer de seu comparecimento à Justiça um espetáculo midiático, tendo como coadjuvantes parlamentares e militantes de seu partido, muitos enfrentando os mesmos tipos de processos judiciais. Se há espetáculo, é o da comicidade de tal encenação. Acontece que ninguém mais consegue rir!
Neste contexto, torna-se, por assim dizer, frívolo encarar os conflitos partidários atuais como sendo um embate entre esquerda e direita. Tal distinção carece completamente de sentido. Há criminosos em um campo e em outro. Ela foi substituída por uma outra, a que diferencia mafiosos e cidadãos respeitosos das leis e da Constituição.
Logo, a questão consiste em como fazer um pacto para sair da atual crise política, considerando que os partidos perderam a sua legitimidade, esquerda e direita tornaram-se palavras vazias e as propostas de negociações partidárias estão baseadas em critérios mais que duvidosos. Parece que nossos líderes políticos não se deram conta de que o Brasil já mudou e tornou a moralidade pública um princípio da ação e da organização institucional.
Há pouco tempo surgiram notícias de que o instituto de estudos do PSDB estaria estabelecendo uma parceria de reflexão com a instituição congênere do PT. Qual o sentido de tal aproximação? Talvez a afinidade ideológica que tiveram no passado e que não resiste ao tempo e à imoralidade presente.
Além do próprio PSDB estar enrolado na Lava-Jato, o PT, enquanto ator principal da imoralidade pública, procura apresentar-se como um parceiro ideológico, como se nenhum crime tivesse cometido em seus longos anos de governo.
Foi igualmente noticiado que o ex-presidente Lula estaria disposto a negociar com seus adversários, inclusive históricos, como o ex-presidente Fernando Henrique, em nome do futuro do país. Iniciativa reafirmada, aliás, nesta última semana.
Cabe, então, a pergunta: qual tipo de pacto? Pacto entre pessoas e partidos envolvidos na criminalidade? Que tipo de pacto político é esse que torna protagonistas cidadãos que têm contas a ajustar com a Justiça, e contas pesadas?
Um verdadeiro pacto para tirar o país da crise deveria envolver, por princípio, pessoas de bem, que seguem as leis e as instituições. Não pode ser ele a ocasião de salvar a cara dos que cometeram atos criminosos e corroeram as instituições. Não se pode confundir pacto de reconstrução nacional com tábua de salvação para certos líderes e partidos. Deve ser ele a oportunidade de congregar os que procuram salvar essas mesmas instituições, os que não aceitam o atual enfraquecimento do Estado.
Reforme-se o Estado para salvar a democracia.
Soltura de Genu foi enorme derrota para a força-tarefa da Lava Jato

Suamy Beydoun/Agif/Folhapress
Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes (foto) concederam habeas corpus a ex-tesoureiro
Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes (foto) concederam habeas corpus a ex-tesoureiro
Elio Gaspari - FSP
O ministro Gilmar Mendes sabia do que estava falando e o que se articulava no Supremo Tribunal Federal quando disse, em fevereiro, que "temos um encontro marcado com essas alongadas prisões de Curitiba".
O encontro deu-se na última quarta-feira, e a Segunda Turma da corte, aquela que cuida da Lava Jato, soltou o ex-tesoureiro do Partido Popular, doutor João Cláudio Genu, preso preventivamente em Curitiba desde maio de 2016.
Em dezembro, ele havia sido condenado pelo juiz Sergio Moro a oito anos e oito meses por corrupção passiva.
Genu tem uma biografia notável. Antes de chegar a tesoureiro do PP, foi assessor do falecido deputado José Janene, o grão-mestre que ensinou o PT a operar com Alberto Youssef. Freguês no escândalo do mensalão, Genu salvou-se com uma prescrição.
A Segunda Turma julgou um habeas corpus em favor de Genu. Ele foi condenado, mas seu recurso ainda não foi julgado na segunda instância. Estava trancado preventivamente em Curitiba, por decisão de Moro. Era um caso clássico daquilo que Mendes chamaria de "alongada prisão".
O ministro Edson Fachin, relatando o processo, negou o habeas corpus e foi acompanhado por Celso de Mello. Por três votos contra dois, Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes abriram a porta da cela de Genu. Foi uma enorme derrota para a força-tarefa do Ministério Público e da Polícia Federal que ralam na Lava Jato.
Genu veio a ser o primeiro de uma série de presos de Curitiba que serão colocados em liberdade. Eike Batista foi o segundo. É improvável, porém possível, que soltem o comissário José Dirceu. Genu foi solto a partir do entendimento de que Moro e seus similares transformam prisões temporárias em cumprimento antecipado de penas.
Essas "prisões alongadas", durante as quais delinquentes como Marcelo Odebrecht acabaram colaborando com a Viúva, são parte de um quadro complexo, sem resposta fácil. Há coação? Há, mas é aquela que a lei permite. Tudo bem, mas a trinca mandou soltar Genu porque acha que é isso que manda a lei.
Numa pequena amostra, sem as "prisões alongadas" e sem as colaborações, a Odebrecht ainda seria a maior empreiteira do país, Youssef continuaria operando no mercado cambial e Paulo Roberto Costa seria um próspero consultor na área de petróleo.
A Lava Jato tomou um tiro. Até uma criança terá percebido que o Ministério Público identificou malfeitorias no Legislativo e na máquina do Executivo e pegou a mão invisível do mercado avançando na bolsa da Viúva. Faltou o Judiciário.
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Lula não se lembra do que disse em fevereiro
A memória de Lula está falhando. Ele anunciou que gostaria de conversar com Fernando Henrique Cardoso, mas não quer se encontrar com Temer. Nas suas palavras ao repórter Kennedy Alencar: "Eu, sinceramente, não tenho muito interesse de conversar com o Temer, porque a forma como ele chegou no governo não condiz, inclusive, com as conversas que eu tive com ele".
Essa frase de construção acrobática é falsa como uma nota de R$ 3. Em fevereiro, quando Temer foi visitá-lo no hospital Sírio-Libanês, durante a agonia de Marisa Letícia, foi Lula quem falou da conveniência de novos encontros, inclusive com a presença de Fernando Henrique Cardoso.
A proposta ocorreu logo nos primeiros minutos da visita, quando os dois já estavam sentados, e foi testemunhada por cerca de dez pessoas. Temer disse-lhe que aceitava a sugestão e deu-lhe um tapinha na perna.
Se Lula não consegue lembrar de uma conversa ocorrida há menos de três meses, pode-se entender que não lembre quem é o dono do apartamento do edifício Solaris e do sítio de Atibaia.
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Lula preso
Tem muita gente querendo ver Lula na cadeia.
Essa cena parece ser uma solução. A menos que Lula seja trancado para começar a cumprir uma sentença, prendê-lo preventivamente ou por desacato ao juiz Sergio Moro cria um problema novo: soltá-lo.
Assim, prende-se um réu e solta-se um mártir, cuja libertação terá sido pedida em manifestações realizadas no Brasil e no exterior.
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Mato Grosso
Quem ouve os deuses do Pantanal acha que Silval Barbosa, ex-governador de Mato Grosso, que foi preso pela quinta vez em fevereiro passado, está muito perto de uma colaboração com o Ministério Publico.
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O Rio dá certo
Em fevereiro passado seis jovens do colégio Santa Teresinha, de São Gonçalo, estavam à beira de uma frustração. Haviam sido aceitos numa competição da Nasa, a agência espacial americana, para modelos de veículos de transporte em terrenos de outros planetas, mas não tinham os R$ 40 mil necessários para viajar até os Estados Unidos.
Denominando-se Spacetroopers, recorreram a uma vaquinha eletrônica. O dinheiro apareceu, eles embarcaram, participaram do certame com outras cem equipes de oito países e voltaram com dois dos dez prêmios oferecidos aos estudantes do ensino médio. O grupo distinguiu-se pela liderança, criatividade e empenho para resolver problemas.
No século 18, o Rio de Janeiro sobreviveu ao saque do corsário francês Duguay Troin. No 21, com a ajuda de jovens como os Spacetroopers, dará a volta por cima dos saqueadores contemporâneos.
Tempo, tempo, tempo, tempo
O Brasil da Lava-Jato, que se crê em progresso, é o mesmo essencialmente incapaz de romper — um país de falsas rupturas, que, desde o berço esplêndido, optou pelas acomodações
Carlos Andreazza - O Globo 
O leitor pode — e deve — considerar lento o tempo da Justiça no Brasil, mas deve também, ou deveria, não embaralhar (ou condicionar) esse compasso arrastado (mas minimamente impessoal) ao ritmo fulanizado do calendário eleitoral. É essencial que não se confundam um e outro, e que não se pressionem ou intimidem, ou sairemos da República da impunidade para a da impunidade e do justiçamento.
Se os processos judiciais são demoradíssimos neste país, muito pior seria que de súbito se acelerassem apenas para dar respostas a demandas e expectativas eleitorais.
Vejamos o caso de Lula. Concordo que seja o líder de um projeto de poder criminoso-autoritário sem precedentes, trabalho diariamente para que a gravidade do assalto petista ao Estado brasileiro não caia na vala comum dos demais crimes revelados pela Lava-Jato, e creio que o ex-presidente será condenado em primeira instância ainda este ano; mas avalio — escrevi e reescrevo — que, apesar disso tudo, ele será candidato, e competitivo, em 2018. Não é torcida, por óbvio. É análise e projeção.
Essa leitura decorre também de haver simplesmente refletido sobre uma questão objetiva: estamos em maio de 2017, e Lula ainda não foi sequer condenado em primeira instância. Será, reforço; mas ainda não foi. No entanto, para que não possa concorrer no ano que vem, deverá estar condenado, também em segunda instância, até 1º de outubro de 2018, véspera da votação em primeiro turno.
Apertado, né?
Por favor, leitor: pense no relógio biológico brasileiro, no andamento habitual dos processos, nas múltiplas capacidades de recurso e procrastinação, e me responda se — com um ano e meio até lá — não é improvável que o ex-presidente esteja impedido de concorrer.
Fazer o quê?
O tempo da Justiça não pode correr excepcionalmente para punir alguém — mesmo que Lula. Enquanto isso, enquanto vibramos com o que supomos ser sua decomposição pública e o condenamos extrajudicialmente, ele vai se investindo de vítima e fundamentando a própria mitologia de herói.
Esse choque de tempos, entre o ritmo demorado e travado da Justiça e aquele predeterminado pelo calendário eleitoral, resultará provavelmente em que, uma vez iniciada a campanha, deparemo-nos com situações até há pouco imagináveis somente na sátira política.
Pense o leitor, por exemplo, num debate hipotético. Estamos no segundo turno. Então, confrontado pelo mediador com aquilo levantado pela Lava-Jato contra si, alguém duvida da possibilidade de um candidato defender — com convicção — a própria honra e ainda atacar o adversário em termos como os abaixo?
Fala, candidato: “Contra mim há uma simples acusação de caixa 2, um ilícito meramente eleitoral, que reconheci publicamente e pelo qual venho me desculpando ao longo de toda essa jornada. Contra o meu adversário, porém, pesa a grave denúncia de haver recebido propina, um crime de natureza penal, pelo qual ele deveria ser preso.”
Mais ou menos divertidamente, isso acontecerá. Mais ou menos escancaradamente, acontecerá. E por dois motivos. Porque, de fato, há diferenças — de peso e profundidade — entre os crimes investigados pela Lava-Jato (Deixar — como ora está — tudo num balaio cego, que a tudo iguala, é serviço pelo qual os que raptaram e saquearam o Estado eternamente agradecerão). E porque, enquanto a Lava-Jato avança para expor e punir, move-se — com igual intensidade, mas nos subterrâneos — a força contrária, monumental, a do establishment político, repactuando-se para definir novos códigos e permanecer no poder, e com os mesmos poderes.
Sempre foi assim. E assim será. O Brasil da Lava-Jato, que se crê em progresso, é o mesmo Brasil essencialmente incapaz de romper — um país de falsas rupturas, que, desde o berço esplêndido, optou pelas acomodações. De modo que, apesar de tudo o que se revela, chegaremos a 2018 com os partidos de sempre no topo da disputa (mas com a escandalosa novidade do financiamento público de campanha) e com quase todos os figurões, os mais e os menos enrolados, no páreo. É como funciona — o que inclui alguns bois de piranha abandonados ao sacrifício na travessia, para dar a impressão de sangue aos justiceiros.
Você pode sonhar — cada um com seu sonho — com Jair Bolsonaro, João Doria, Luciano Huck, Roberto Justus, Bernardinho, Joaquim Barbosa e até Sergio Moro; mas, afinal, terá de escolher entre Lula e Geraldo Alckmin.
Você, antipetista, que hoje vibra com tudo quanto venha da Justiça Federal de Curitiba, que considera geniais aqueles vídeos em que procuradores da República emparedam o Parlamento e jogam a população histérica contra a atividade política, que não vê problema em prisões preventivas que duram anos, que não tem dúvida de que conteúdo de delação premiada é prova para condenar e que trata como grave traição à pátria qualquer ressalva, ainda que mínima, ao trabalho da força-tarefa da Lava-Jato; você, por favor, lembre-se de que o PT, com tudo de criminoso que se sabe a respeito, pode ganhar a eleição em 2018, que certamente há (e como há) simpatizantes petistas no Ministério Público, que os métodos ora consagrados em Curitiba, portanto, poderão ser aplicados contra você e os seus — e que haverá também quem se extasie ao vê-los em prática e julgue moralmente imprescindível uma licença poética às leis para que todos os bandidos morram na cadeia.
A jurisprudência está criada. Para quem a puder manipular. Para quem chegar (em) primeiro.
Parabéns.
A ocupação evita pensar em bobagem; é do cansaço que nasce o caráter
Luiz Felipe Pondé - FSP
O dia do trabalho é hoje. Mas não vou falar dessas chatices de sindicato, que em muitos casos é coisa de bandido com metafísica social. Sou daqueles que acreditam que, sim, o trabalho molda o caráter, mesmo que seja aquele pequeno trabalho quase invisível do dia a dia.
Uma das razões que considero causa de muita da patifaria que circula entre os jovens e seus pais com mais condição financeira é o fato de não terem de arrumar o quarto.
Estou certo de que uma das razões de a Europa ser tão civilizada é o fato de as pessoas lá não terem acesso a empregada doméstica. O caráter é alguma coisa que brota no silêncio de quem lava louça todo dia. O
caráter não brota numa assembleia de estudantes ou numa manifestação contra a desigualdade social.

Pelo contrário, atividades assim mais deturpam o caráter do que o moldam, porque são atividades em que você só demanda e não dá nada em troca.
Ter direitos não molda o caráter, cumprir deveres, sim. Um dos estragos do mundo contemporâneo é essa histeria por direitos em toda parte.
Todo mundo que vive ou viveu na Europa sabe do que estou falando. E não quero dizer que a Europa seja uma perfeição. Não faço parte do clube de pessoas que entram em orgasmo com a Escandinávia e sua monotonia civilizada. Sinto-me melhor em Portugal e na Espanha e seu caos latino.
Um dia a dia europeu. Você acorda. Se você não deu um jeito na casa na noite anterior, sala, quarto, banheiro e cozinha estarão um lixo. Se tiver um filho pequeno, terá que vesti-lo e alimentá-lo antes da escola. No frio, as camadas de roupa são muitas. Mamadeira pode ser uma constante. Doenças infantis podem criar um problema. Caso tenha marido ou mulher, claro, vocês dividirão esse imprevisto. Quem falta hoje no trabalho? Caso seja um "single parent", não terá escolha, faltará no trabalho.
Claro, você terá de comer, ou o fará num café próximo, mas custa mais caro, e todo dia essa brincadeira poderá sair bem caro. Levar a criança à escola. Buscar ao final do dia. Chegar em casa, dar banho no filho (se forem dois filhos...), preparar comida, colocá-lo para dormir.
Você também tem de tomar banho, preparar a comida, arrumar a casa, limpar a cozinha. Durante o dia, providenciar comida, mantimentos, produtos de limpeza. Roupa a ser lavada. Jogar o lixo fora. Finais de semana?
Lazer, comer, beber. Se quebrar algo na casa, resolver esse problema. Caso compre algo, se quiser que a coisa saia baratinha, terá de levar no metrô sozinho ou sozinha. Carregar, montar. Caso tenha filhos, fazer isso tudo enquanto toma conta do filho.
Não é de se estranhar que os europeus optem cada vez mais por ter menos filhos ou nenhum.
Um traço da vida europeia é que tudo o que você precisar fazer ao longo do dia para manter sua vida funcionando você terá de fazê-lo sozinho, não terá ninguém pra ajudá-lo.
Claro que a existência do Estado de bem-estar social e de razoáveis serviços públicos tornam essa carga cotidiana menos terrível.
Mas nada garante que, com a provável derrocada do Estado de bem-estar social na Europa, apareçam empregadas domésticas de um dia para o outro.
Talvez sírias desesperadas por uma vida melhor comecem a trabalhar com serviços domésticos, ainda assim, as leis trabalhistas europeias tornam o emprego muito caro e proibitivo para um mortal médio.
De qualquer forma, esse cotidiano molda o caráter, sem dúvida.
Sei que está fora de moda dizer isso. Na moda está é ser ressentido, mimado e cobrar direitos de todo mundo.
A ideia de que o trabalho é essencial na formação mínima do caráter é antiga. Na filosofia mais moderna, o inglês John Locke (1632-1704) é um dos primeiros a identificar o trabalho (nesse caso, o trabalho também mediado pelo ganho de dinheiro) como instância moral.
Entre os monges de todas as religiões conhecidas, o trabalho físico sempre foi visto como forma de equilibrar o espírito e a vida moral.
A ocupação e o cansaço evitam que você pense em bobagem e sonhe com o impossível. É nesse silêncio do cansaço que nasce o caráter. No embate com o inevitável.
Tratar dos pobres é impedir que os pobres tratem de nós
João Pereira Coutinho - FSP
Tive bons professores. Um deles foi John Kekes. O nome talvez não seja conhecido como deveria. E o fato de ser conservador não ajuda, embora o seu conservadorismo seja assaz heterodoxo.
Sei apenas que Kekes ajudou a mim: os seus melhores livros, como "The Morality of Pluralism" ou "A Case for Conservatism", tiveram enorme influência no meu trabalho.
Na passada semana, quando ele regressou a Lisboa para dar aulas no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, também eu regressei à condição de estudante para ouvi-lo.

Angelo Abu/Folhapress
Ilustração João Pereira Coutinho de 2.mai.2017
Primeiras impressões: passaram 16 anos, e o filósofo, aos 81, continua na mesma. Curioso: li em tempos que a pintura era a arte que melhor promovia a longevidade. Os grandes mestres, regra geral, atingiram idades respeitáveis. Pintar, sobretudo em pé, ajuda à manutenção da forma física.
Se isso é verdade, os filósofos também não têm razões de queixa. Em dois dias de aulas, foi impressionante ver um homem de 81 anos com uma clareza e intensidade de pensamento que nem sempre encontramos em gente de 30 ou 40.
O seminário, intitulado "The Art of Politics", pretendeu apontar três erros maiores do liberalismo, entendendo-se por liberalismo a sua versão moderna, progressista, igualitária.
O primeiro desses erros é a crença de que o liberalismo é compatível com o pluralismo. Não é, argumenta Kekes. Se o liberalismo tem como missão fundamental alargar a autonomia do indivíduo, isso significa que o valor da autonomia tem sempre prioridade em relação aos restantes valores.
O pluralismo defende que os valores são múltiplos, incompatíveis, incomensuráveis. O liberalismo, ao conceder prioridade ao valor da autonomia, é uma forma de monismo, não de pluralismo.
O segundo erro é a incapacidade do liberalismo para lidar com o mal. Pior: se o liberalismo está comprometido com o alargamento da autonomia individual, então também estará comprometido com a possibilidade de aumentar a ocorrência desse mal.
O terceiro erro é que a concepção liberal de justiça é uma forma de injustiça (John Rawls foi o alvo). Se a redistribuição de recursos tem em conta aquilo que as pessoas precisam, e não o que elas merecem, a justiça liberal é cega para questões de caráter –e de mérito.
São três argumentos poderosos que convidaram ao debate vivo –e a discórdias várias. No caso, minhas.
Concordo com a primeira premissa: se o liberalismo tem a autonomia individual como valor supremo, isso significa que não é possível aceitar, ao mesmo tempo, a noção de que os valores podem ser incompatíveis e incomensuráveis. Não é possível conservar o bolo e comê-lo.
Porém não subscrevo a ideia contrária de que não é possível garantir a prioridade incondicional de certos valores –valores básicos que protegem a dignidade da natureza humana– em relação aos outros. Sem uma sociedade decente, não há pluralismo para ninguém.
Sobre o mal, o raciocínio de Kekes é de uma lógica exemplar: se a natureza humana é ambígua e se o mal também é cometido por seres autônomos, então o alargamento da autonomia pode significar um acréscimo de mal.
O problema, penso eu, é que uma limitação excessiva da autonomia individual impedirá também o florescimento do bem. E a única forma de limitar o mal –pela lei, obviamente– implica uma sociedade que foi capaz de gerar e proteger os seus bens fundamentais.
Finalmente, a justiça. Concordo com Kekes que o liberalismo, ao redistribuir recursos sem fazer perguntas de ordem moral, é uma caricatura da noção clássica de justiça. Ajudar alguém que sofreu o infortúnio da doença é diferente de ajudar um preguiçoso profissional.
Mas, ironicamente, a minha posição é mais conservadora do que a de Kekes: ajudar quem não merece também pode ser o preço a pagar por uma paz social que a pobreza extrema ameaça. Para repetir o célebre adágio, tratar dos pobres é uma boa forma de impedir que os pobres tratem de nós.
Passaram 16 anos. No final das aulas, cumprimentei o meu velho professor com a sensação melancólica de que talvez não voltaremos a nos ver.
Ele, com um sorriso, disse-me: "Gostei das suas observações".
Obrigado, professor. Mas elas não existiriam se as suas não tivessem existido primeiro.
A responsabilidade dos que ficam
Nós nos tornamos uma nação de credores que vive de reclamar direitos sem assumir os nossos deveres; que vive de cobrar do outro o que nos recusamos a fazer
 
A fuga de brasileiros para outros países não é novidade. Volta e meia lemos algo a respeito. Dessa vez foi a “Folha de S. Paulo” a noticiar que “uma leva de classe média alta e ricos, nos últimos três anos, encontraram” em Portugal “um Eldorado para fugir da insegurança, do desencanto com a política e da crise econômica no Brasil”. Entendo as razões. E não é só rico que foge. Os pobres também fogem para viver num lugar onde possam trabalhar e prosperar sem correr o risco de morrer ao sair ou voltar para casa.
O que me deixa incomodado com a fuga, sim, a fuga dos brasileiros ricos, é que não parecem minimamente preocupados com o presente do Brasil. Negam a responsabilidade que cada um de nós temos de agir para melhorar. Quem tem dinheiro acha que ao produzir riqueza, pagar tributos ou doar para instituições de caridade (quando o fazem), já deu a sua contribuição. Colaboração esta que uma parte deles neutraliza ao financiar ideias equivocadas e políticos que ajudam a piorar o país — ou quando participa de atos criminosos.
Quem financia ou endossa campanha de políticos ou partidos como os citados na Lava-Jato é cúmplice de bandido. Quem dá dinheiro para político que defende ideias equivocadas, ideias que arruínam o Brasil culturalmente, economicamente e politicamente, é igualmente comparsa. E quem se omite de financiar pessoas e instituições que defendem uma agenda cultural, política e econômica virtuosa é corresponsável pela degradação em curso.
Somente os ricos têm esse compromisso? Não. Mas são os que têm meios para colaborar de forma mais efetiva e de inspirar outras pessoas a fazê-lo. Sua omissão é duplamente prejudicial porque é compartilhada pelos que ficam, independente da classe social à qual pertencem.
Há três elementos que devem orientar a vida de cada um de nós que aqui vivemos e queremos que o país seja fonte de orgulho, não de lamento. O primeiro é o sentido de dever em relação ao outro e ao que acontece à nossa volta, o que inclui ajudar os virtuosos, valorizar a verdade e combater a mentira. O segundo é o senso de responsabilidade em relação ao país para agir ou reagir com o propósito de melhorar, reforçando o sentido de dever. O terceiro é o vínculo com a nação e com a pátria fundamentado nos altos padrões de referências contidos nos exemplos e nas ideias dos grandes homens que o Brasil já teve, nomeadamente durante o Império Brasileiro.
Desgraçadamente, os elementos que forjam uma nação virtuosa não fazem mais parte da nossa imaginação moral nem do nosso senso comum. Nos tornamos uma nação de credores que vive de reclamar direitos sem assumir os nossos deveres; que vive de cobrar do outro o que nos recusamos a fazer.
Quando brasileiros ricos fogem do país, por mais compreensíveis que sejam as suas razões, o ato não mostra apenas que desistiram da terra natal, mas que não possuem o sentido de dever, o senso de responsabilidade e o vínculo com a nação e com a pátria. Eles não estão fugindo apenas da violência, da crise econômica, da instabilidade política; fogem, antes de tudo, da responsabilidade que não querem assumir.
Governadores articulam carta pública de apoio à candidatura de Lula a presidente em 2018
Painel - FSP
Onda pré-fabricada Inflamado pelo crescimento de Lula no último Datafolha, um grupo de governadores articula lançar carta pública em apoio à candidatura do petista à Presidência. A ideia, ainda em gestação, é fazer um apelo para que o ex-presidente saia em caravana pelos Estados para debater o que seria apresentado como um programa de governo. A proposta nasceu entre nomes do Nordeste, como Flávio Dino (PC do B-MA), mas já tem o apoio de Tião Viana (PT-AC) e de Fernando Pimentel (PT-MG).
Hora certa Os governadores que tratam do assunto dizem que o ideal é lançar o documento após Lula prestar depoimento ao juiz Sergio Moro, no dia 10 de maio. O encontro entre o político e o magistrado é alvo de forte expectativa, especialmente entre os apoiadores do petista.
Real objetivo
Senado barra projeto para conter a Lava-Jato, mas projeto de Renan continua a tramitar 
O Globo
Em todo o debate, que prossegue, sobre o projeto de lei aprovado no Senado sobre “abuso de autoridade", o menos importante é o abuso de autoridade. Ninguém discute que se trata de um assunto relevante em qualquer democracia conter o poder do agente público, ainda mais numa sociedade de longa tradição de esmagamento da sociedade pelo Estado e seus representantes. Mas o que está em questão nesta proposta de lei é a Lava-Jato, o real motivo da tramitação da proposta.
Importante é não deixar de registrar para os arquivos da História que não é por acaso que quem assina este projeto é o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), um dos principais políticos atingidos pela Lava-Jato e réu em pelo menos um processo no Supremo, embora este sem relação com a maior devassa anticorrupção em curso no mundo. Citado nas delações da Odebrecht, porém, Renan ainda poderá ser incluído no rol de réus devido à operação.
Também não é coincidência que o relator do projeto na Comissão de Constituição e Justiça do Senado tenha sido o também peemedebista Roberto Requião (PR), aliado do PT, defensor de Dilma no processo de impeachment, e da tropa de apoio a Lula. Por sinal, Renan, à medida que os ventos passaram a soprar contra ele no plano jurídico, foi-se afastando do governo Temer, enquanto acenava para Lula. Como forma de melhorar os maus prognósticos eleitorais dele e do filho, governador de Alagoas, estado em que o lulopetismo ainda conta.
Estavam claras a inoportunidade e a inadequação de um investigado pela Lava-Jato, autor de críticas públicas a procuradores e juízes, e presidente do Senado — cargo que desocupou em janeiro —, envolver-se em um projeto de lei que, na versão original, era evidente e inconstitucional obstáculo à Justiça, ao Ministério Público e a outros organismos do Estado em ações contra a corrupção patrocinada por políticos de alta graduação. Seria a negação da República, em que todos têm de ser iguais perante a lei. Com o projeto de Renan/Requião, não seriam.
A intenção de criar o crime de hermenêutico, o dolo na interpretação da lei por juízes, procuradores, e, por extensão, os demais agentes públicos, é algo que remete a ditaduras que se disfarçam de “democracias”.
Tentar esta manobra quando, só das delações da Odebrecht resultaram mais de 70 inquéritos para investigar políticos com mandato, inclusive Renan, foi, no mínimo, uma inconveniência. E ainda virão as delações de outras empreiteiras.
No Senado, evitou-se a aprovação do atropelamento da independência do juiz e do procurador, passíveis de denúncia criminal se contrariassem réus e suspeitos. Emendas aceitas por Requião, depois de intensa negociação, mascararam o objetivo dos políticos da Lava-Jato. Um deles, inviabilizar o instrumento da delação premiada. A força-tarefa de Curitiba continua em campo, e o projeto irá para a Câmara. As escaramuças continuarão.
Dores da democracia 
FSP
São mais do que compreensíveis a insatisfação e a desconfiança dos brasileiros, captadas em pesquisa Datafolha, quanto às reformas previdenciária e trabalhista ora em tramitação no Congresso.
Nenhuma das principais forças políticas do país, afinal, aproveitou as recentes campanhas eleitorais para esclarecer a população sobre o imperativo de tais medidas —muitas, sem dúvida, amargas.
Pelo contrário, o padrão tem sido seduzir os votantes com promessas de novas e generosas políticas públicas, ainda que o tom varie conforme as afinidades ideológicas dos candidatos.
Da mesma forma, partidos das mais variadas tendências costumam bater-se por leis que ampliam despesas e direitos, sem nunca informar com clareza a dimensão dos custos impostos à sociedade.
Especialmente deseducativa foi a retórica vitoriosa no pleito presidencial de 2014, quando Dilma Rousseff (PT), contra todas as evidências, satanizou quem se atrevesse a apontar a premência de ajustes nas contas do governo.
Pior, as más notícias são agora transmitidas por uma classe dirigente desmoralizada por assombrosos escândalos de corrupção, e na esteira de um dos ciclos recessivos mais traumáticos da história econômica do país.
Tudo considerado, resta o fato inescapável de que, desde a restauração da democracia, todos os que conheceram de perto a realidade da gestão pública acabaram convencidos da necessidade de reformas, em particular a da Previdência Social —hoje rejeitada por 71% dos brasileiros.
Nesse rol estão governos tão diferentes quanto os de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), cuja proposta caiu por apenas um voto em 1998, e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que em 2003 dedicou o início de mandato a redesenhar a aposentadoria dos servidores.
Até Dilma, depois de reeleita, tentou elaborar o seu projeto, na tentativa de salvar o Orçamento federal e sua administração.
A pergunta que se pode fazer, em todos os casos, é se um governo deve contrariar os desejos da maioria da população —e a resposta talvez ajude a entender parte do fastio, que tem escala mundial, com a atividade política.
O aprofundamento da democracia desperta, ao longo da história, aspirações populares potencialmente infinitas e, não raro, contraditórias entre si. O progresso sob o regime, indiscutível, não se dá sem tensões e frustrações.
Não por acaso, mesmo países mais desenvolvidos se viram obrigados a instituir freios legais para evitar que governantes, no afã de atender aos eleitores, comprometam a solvência do Estado.
No caso do Brasil, a tarefa é equacionar o financiamento do aparato de seguridade social, alicerce da redemocratização, e a necessidade de reerguer a economia. Ao menos neste segundo objetivo, o Datafolha já mostra menos pessimismo entre os entrevistados.

NICK CAVE & THE BAD SEEDS - HENRY LEE



Andrei Belichenko (1974 - ) - A Summer Dream
Hélène Béland (1949 - )
Thomas PaineThe real man smiles in trouble, gathers strength from distress, and grows brave by reflection. - Thomas Paine

NICK CAVE & THE BAD SEEDS - INTO MY ARMS


 
Andrei Belichenko (1974 - ) - Reflections Of Beauty
Hélène Béland (1949 - )
Thomas Paine rev1.jpgReputation is what men and women think of us; character is what God and angels know of us. - Thomas Paine
Un caf? croissant, et ca repart.Buongiorno a tutti voi amici!

segunda-feira, 1 de maio de 2017