segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Após polêmica com carne de cavalo, investigação conclui que hambúrguer espanhol tem baixa qualidade
Raquel Vidales - El Pais
Shutterstock
Quem sabe de que é feito um hambúrguer? A julgar pelo que as autoridades sanitárias da Irlanda descobriram em suas análises há algumas semanas - uma alta porcentagem de DNA de cavalo em várias marcas supostamente de gado bovino distribuídas nesse país e no Reino Unido -, às vezes nem as próprias redes de supermercados que os vendem sabem.
Ou evitam a questão: nesse caso, a bola foi jogada para a Holanda e a Espanha, como supostos culpados pela adulteração, exagero ao qual, em um primeiro momento, deu crédito o ministro da Agricultura irlandês, e assim o anunciou à imprensa, e que ele mesmo teve de desmentir mais tarde. Agora Dublim indica a Polônia como lugar de origem da matéria-prima.
O aviso da presença de DNA de cavalo naqueles hambúrgueres não foi acompanhado de qualquer alerta sanitário, pois a carne, com exceção de sua procedência, cumpria a legislação vigente e não constituía perigo para a saúde. Mas isso não evitou que se avivasse na opinião pública, mais uma vez, a eterna suspeita de que nem todos os hambúrgueres são o que dizem ser.
E mais: a OCU (Organização de Consumidores e Usuários) publicou um relatório sobre 20 marcas de hambúrgueres frescos embalados e comercializados em supermercados espanhóis que não ajuda a superar essa desconfiança. Só cinco das marcas analisadas passam, e por pouco, no exame da qualidade da carne a que foram submetidas.
De cara, a OCU detecta o mesmo problema denunciado pelas autoridades irlandesas: falta de transparência na rotulagem. Segundo o estudo, seis das 20 marcas de hambúrgueres analisadas descumprem a obrigação de indicar a porcentagem de carne utilizada em sua elaboração, o que também induz a erro o consumidor que acredita estar comprando produto que é 100% carne, quando na realidade contém muitos outros ingredientes: desde proteínas de carne até antioxidantes, corantes ou potencializadores de sabor. Estes últimos, segundo o relatório, "são inócuos mas podem mascarar a baixa qualidade da carne".
O estudo também afirma que 16 das 20 marcas examinadas levam sulfitos, outro aditivo que inibe o crescimento de bactérias e mantém a cor original da carne fresca, mas também ajuda a dissimular uma possível perda de qualidade da matéria-prima.
"Isso não tem importância quando o nível de sulfitos é baixo, mas se for alto demais pode causar vômitos, dores abdominais e, em pessoas alérgicas, dores de cabeça e náusea. O fato é que alguns hambúrgueres analisados contêm 90% da ingesta diária admissível de sulfitos, o que significa que a pessoa que comer esse produto não deveria consumir mais em toda a jornada, nem sequer acrescentar-lhe mostarda ou ketchup", explica a OCU.
"O que basicamente se compreende desse estudo é que as distribuidoras estão apertando tanto os preços que chega um momento em que a qualidade se ressente. Não estamos falando de um problema de segurança alimentar, como também não houve quando se detectou carne de cavalo na Irlanda, mas sim de uma perda de qualidade que, em alguns casos, poderia constituir uma fraude de consumo. É claro que ninguém vende filé mignon a preço de cenoura, e existem muitos aditivos para dissimular essa possível deterioração da qualidade", explica a porta-voz da organização, Ileana Izverniceanu.
Apesar de o relatório da OCU não especificar, é um fato que a maioria dos preparados de carne contém misturas de carne de diferentes espécies. "De fato, é muito raro que um hambúrguer de bovino contenha somente carne bovina. A norma permite que se possam rotular como tais os que têm em torno de 60% dessa carne, por isso a maioria tem misturas de outras espécies, principalmente suínos.
E não só por uma questão de preço, mas também para deixá-las mais saborosas. Isso não constitui fraude se estiver devidamente indicado no rótulo. Inclusive se as quantidades de outras espécies forem mínimas, nem sequer é necessário declarar", explica Joaquín Fuentes-Pila, codiretor do mestrado em gestão de qualidade alimentar da Universidade Politécnica de Madri.
A análise dos hambúrgueres realizada pela OCU lembra outro estudo que essa mesma organização preparou em 2011 sobre a qualidade do leite, e que se tornou polêmico por suas conclusões: o leite que se consome hoje é, em geral, mais pobre que dez anos atrás; às vezes é submetido a tratamentos técnicos muito agressivos que degradam suas propriedades e inclusive em certas ocasiões é velho demais e portanto com poucos nutrientes. A polêmica chegou a tal ponto que a Federação Nacional de Indústrias Lácteas levou o caso aos tribunais, que por enquanto em primeira instância rejeitaram a demanda.
"Tampouco naquele caso estávamos falando de um problema sanitário e nem sequer acusamos alguma marca de fraude de consumo, porque todas as que analisamos cumpriam a legislação vigente. Simplesmente advertimos, como agora, para um problema de qualidade", lembra Izverniceanu.
A perda de qualidade desses produtos tem algo a ver com a crise? "É verdade que a conjuntura atual gerou uma tremenda pressão sobre o preço. As grandes distribuidoras querem vender barato e pressionam os intermediários, e estes, por sua vez, pressionam os produtores. Mas isto não se traduziu em menor segurança alimentar, senão que ocorreu uma adaptação da indústria às novas circunstâncias: menos produtos de luxo e mais alimentos baratos de primeira necessidade", afirma Fuentes-Pila.
Os dados de posse do Instituto Nacional de Consumo confirmam essa opinião. "O grau de cumprimento da legislação é bastante alto. O normal é encontrarmos pequenos problemas de rotulagem: erros nas indicações sobre o peso e omissões de ingredientes. Em todo caso, pode ter havido um aumento dessas práticas, sobretudo em circuitos marginais, que se movem fora dos canais oficiais de comercialização e às vezes escapam aos controles oficiais. Os gigantes do setor, as grandes marcas e as redes de distribuição apostam demais em prestígio e dinheiro para se arriscar a serem indicadas em qualquer problema de segurança ou fraude alimentar", afirma Carlos Arnaiz, subdiretor-geral de qualidade do Instituto Nacional de Consumo.
A Federação Espanhola de Indústrias de Alimentação e Bebidas não quis se pronunciar sobre o estudo sem conhecê-lo antes, mas um porta-voz afirmou que "os padrões de qualidade espanhóis são altíssimos".
A porta-voz da OCU concorda que os controles são exaustivos nos pontos de produção, mas nem tanto na distribuição. "Os principais problemas que costumamos detectar não são nas primeiras fases de produção da cadeia alimentar, mas sim nos pontos de venda", adverte Izverniceanu. E cita como exemplo de novo o relatório do leite: "Não é que as vacas deem pior do leite que dez anos atrás, mas que o produto se degrada no caminho até a loja. Por isso consideramos necessário intensificar as análises nos pontos de venda, depois de terminado o processo de tratamento e distribuição", explica.
Mais controles nas lojas e mais clareza sobre a origem dos alimentos nos rótulos. E a principal demanda das associações de consumidores as autoridades alimentares para reforçar a segurança e evitar as fraudes.
Segundo outro estudo da OCU, a metade dos espanhóis estaria disposta a pagar 5% a mais para conhecer a procedência dos produtos. Por várias razões: "Para saber o percurso que fizeram antes de chegar à loja, para apoiar a agricultura ou a pesca de uma determinada região, por questões éticas ou porque essa informação lhes dá mais confiança no produto", explica o relatório.
Os hambúrgueres e o leite são dois dos alimentos mais vigiados pelas autoridades, porque tradicionalmente estiveram sob suspeita. Mas também o azeite de oliva, o açafrão, as conservas e o mel. Em geral, segundo o Instituto Nacional de Consumo, as principais fraudes são registradas em alimentos cuja origem não é identificável à primeira vista.
"Entre eles, os produtos de carne processada: embutidos, patês, peças que contêm misturas de espécies não declaradas (pato que na realidade é frango) ou com vestígios de outros e, é claro, hambúrgueres", explica Arnaiz. "Os lácteos e as conservas de peixe são outros focos de fraude. Queijos puros de ovelha que contêm leite de vaca, atum em lata que não é só atum, etc.", acrescenta.
Em 2009, um simples trabalho universitário sobre técnicas de análise de DNA realizado por dois estudantes de Nova York, Brenda Tan e Matt Cost, revelou um alto nível de fraudes nas lojas de Manhattan. Dos 66 produtos que analisaram, 11 não continham o que seus rótulos indicavam: queijos com misturas de espécies não declaradas, um suposto caviar de esturjão que na realidade procedia de um peixe do rio Mississippi, um manjar chamado "tubarão seco" feito com carpa africana ou alimentos para cachorros que deveriam conter veado mas que na realidade tinham carne de boi.
Outro recente relatório da OCU revelou que nove marcas de azeite de oliva enganam o consumidor, vendendo azeite rotulado sob a variedade "extra" quando sua categoria real é simplesmente "virgem", o que significa que está sendo comercializado um produto a um preço superior do que lhe corresponde.
A organização denunciou a fraude às autoridades de consumo das comunidades autônomas em outubro passado, mas poucas responderam. "Somente Andaluzia, País Basco e Catalunha acusaram o recebimento, e só Catalunha iniciou uma investigação", revela a porta-voz.
Como todos esses produtos fraudulentos conseguem superar os controles de produção e rotulagem até chegar às lojas? Onde está o furo? "Quanto mais longa for a cadeia de produção e distribuição, mais infrações são registradas. Isto é, quanto mais intermediários houver, maior a possibilidade de desvios ou de que os sistemas de controle não funcionem corretamente em algum ponto do processo", comenta Arnaiz.
Isso explica por quê, segundo Joaquín Fuentes-Pila, as principais irregularidades são detectadas sobretudo em alimentos importados, especialmente de fora da UE. "A legislação comunitária é exaustiva e é difícil que ocorram problemas graves com os controles realizados dentro dos países membros. Mas, quando os alimentos procedem de outros países com regulamentos menos rígidos, é mais provável que ocorram deslizes na cadeia de vigilância. Talvez fosse conveniente reforçar os controles nas fronteiras europeias", afirma.
São as consequências de viver em um mercado globalizado: o que começa como uma pequena fraude em um país pode acabar se transformando em um problema de saúde de consequências mortais em outro ponto do planeta. Na maioria das vezes esse alongamento da cadeia é culpado por certas crises alimentares, como afirmam os especialistas, mas em outras ocasiões é simplesmente uma desculpa para se esquivar das responsabilidades rapidamente, como ocorreu com a carne de cavalo na Irlanda.
"É preciso entender que, por razões culturais, tanto para os irlandeses como para os britânicos comer carne de cavalo é quase um sacrilégio. Por isso o ministro se precipitou em busca de culpados. Felizmente, o assunto foi esclarecido depressa e não causou consequências para a indústria espanhola", comenta Fuentes-Pila.
Não foi o que ocorreu com a chamada crise do pepino na primavera de 2011, que deixou mais de 50 mortos na França e na Alemanha por causa de uma infecção cuja origem foi atribuída em princípio a pepinos espanhóis e acabou sendo culpa de brotos de soja cultivados na Alemanha.
O que é melhor nesses casos: lançar alertas preventivos que possam causar grandes perdas econômicas a quem não tem culpa, ou esperar para confirmar a origem da epidemia, com risco de que nesse ínterim ela se expanda? "Não há uma receita única para isto. Cada situação é diferente, e é difícil alcançar um equilíbrio. Às vezes os justos têm de pagar pelos pecadores", admite Fuentes-Pila.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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