Edgard Garrido/Reuters
Parentes de um dos 12 desaparecidos protestam em monumento no centro da Cidade do México
De um dos telefones do pátio de uma prisão em Sonora, no norte do México, o prisioneiro Jorge Ortiz Reyes contou no sábado à tarde como se encontra depois que lhe disseram que provavelmente os restos de seu filho pequeno estejam em uma vala clandestina. "Criando coragem. É preciso ser forte, porque temos mais família", dizia.Tinha a voz tranquila. É o pai de Jerzy Ortiz, 16 anos, um dos jovens sequestrados em maio em uma discoteca na Cidade do México chamada Heavens. Jorge Ortiz, conhecido como "El Tanque", está preso há dez anos por extorsão e crime organizado.
Agora, espera que confirmem se seu filho estava em uma vala comum que a promotoria encontrou esta semana. Se for assim, gostaria de despedir-se pessoalmente. "Espero que pelo menos me deixem tocar o caixão." Sua esposa, Leticia Ponce, pediu que as autoridades o transfiram para uma penitenciária do Distrito Federal para que isso seja possível.
O chamado caso Heavens começou em 26 de maio, quando um grupo de amigos foi raptado em uma discoteca com esse nome no agitado centro da capital mexicana, e começou a terminar na última quarta-feira (21), quando uma escavadeira abriu a terra em um bosque situado perto da capital. O destino dos desaparecidos foi um enigma que dominou a tensão do México durante três meses, até que nesta sexta-feira a promotoria disse que havia encontrado 13 corpos em uma vala comum clandestina. Mas o enigma continua: quem fez isso e por quê?
A urgência dessas duas perguntas é grande porque questionam as condições de segurança da capital. No México foram registrados 27 mil desaparecimentos sem motivo conhecido entre 2006 e 2012, mas nenhum teve essa repercussão na capital.
O Distrito Federal sempre foi considerado a salvo do crime organizado, e o rapto desses jovens, por volta das 8 da manhã de um domingo, em plena luz do dia e em uma avenida que logo seria fechada ao tráfego para que passassem por ali famílias de bicicleta, representou um fato sem precedentes no centro nevrálgico da cidade.
Até o momento, as autoridades detiveram dois proprietários do Heavens (outro foi encontrado queimado); um dos 17 indivíduos que levaram os jovens em carros; duas pessoas que se encontravam no local da vala comum e que a promotoria do DF, que conduz o caso junto com a promotoria federal, definiu como "moradores".
A hipótese oficial é que se trate de uma vingança entre bandos de distribuição de drogas na capital que disputam o controle da venda nos locais de lazer noturno do centro.
Enquanto tiveram esperança de recuperar seus filhos, as famílias não fizeram muita questão de que fossem encontrados os responsáveis, mas agora, depois de descoberta a vala, o exigem terminantemente.
Na sexta-feira reuniram-se pela enésima vez com o promotor do DF e com o chefe da polícia judicial. Uma das familiares, Eugenia Ponce, espetou: "Seja quem for. Por isso, seja você Rodolfo, ou você Raúl [Peralta, o comandante]. Caia quem cair". E eles ficaram calados, segundo relatou neste sábado a senhora Ponce na loja de sua família no bairro popular de Tepito, de onde são quase todos os sequestrados.
Sua irmã Leticia, mulher de Ortiz, lidera o grupo de familiares. Antes pedia seu filho vivo, agora pede justiça. "Isto não terminou. Apenas começou", dizia no sábado com severidade.
Os parentes também se reuniram com funcionários da promotoria federal. Julieta González, mãe da desaparecida Jennifer Robles, de 23 anos, interveio de maneira contundente. O pessoal da promotoria tentou apaziguá-los e a senhora González, uma mulher de caráter forte como um furacão, lhes disse que não os tomassem por "idiotas".
As famílias, depois de passar por um processo de investigação lento e errático, estão muito desconfiadas, não acreditam que a vala tenha sido localizada por acaso em uma operação de busca de armas, como explicou a promotoria federal, e também não confiam na perícia.
As famílias revelaram no domingo, depois de se reunir com a promotoria, que já foram identificados dez cadáveres. Oficialmente, um deles mediante testes de DNA. Há indícios sólidos da identidade de outros quatro deles, baseados em sinais como tatuagens e próteses cirúrgicas.
Este último detalhe também provocou confusão entre os familiares, pois na quinta-feira, um dia antes que fossem mencionados, o promotor do DF havia afirmado que os corpos estavam tão deteriorados que só poderiam ser reconhecidos com testes genéticos. Ana María Vargas, mãe de Guadalupe Karen Morales, de 25 anos, comentou à reportagem que as autoridades lhe disseram que sua filha pôde ser identificada, mesmo sem o teste de DNA, pela tatuagem de dois golfinhos entrelaçados que tinha no quadril. A mãe não consegue explicar como um desenho assim pode continuar visível em um cadáver decomposto.
O início do fim do caso Heavens leva o mesmo selo de tantos outros casos de desaparecimento no México: a falta de confiança nas autoridades e a aparente impunidade dos responsáveis.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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