quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Maduro aumenta pressão sobre imprensa na Venezuela
Presidente pede punição de meios que noticiem escassez de produtos
Elisa Martins - O Globo

Manifestantes durante protesto contra desabastecimento no país
Foto: Terceiro / OMAR VELIZ/EL NACIONAL
Manifestantes durante protesto contra desabastecimento no país - Terceiro / OMAR VELIZ/EL NACIONAL
RIO - Conhecido por não economizar nas críticas a opositores políticos e ao governo dos Estados Unidos, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, intensificou sua artilharia contra os jornalistas. Num discurso transmitido na TV, ele definiu como “um crime” a divulgação de notícias sobre a escassez de produtos, um problema grave e recorrente no país. E pediu que a Justiça venezuelana aplique sanções drásticas aos meios de comunicação que insistam nessa cobertura.
A resposta não demorou: o canal Globovisión, que divulgou uma reportagem sobre o tema, está sob investigação e pode ter de pagar uma multa pela transmissão. Associações venezuelanas de imprensa, enquanto isso, denunciam que a censura à mídia tornou-se uma política de Estado.
Desde a venda, em março, da Globovisión - até então um dos raros canais independentes no país - e do conglomerado de comunicação Cadena Capriles, acertada em junho, quase não restam meios críticos ao governo chavista. Recentemente, o jornal “El Impulso”, de Barquisimeto, publicou um editorial no qual explicou que reduziria o número de páginas e o uso de cor na publicação pela falta de matéria-prima para sua produção. O diário denunciou que não conseguiu autorização do governo para ter acesso a divisas que seriam usadas para comprar papel, tinta e outros materiais necessários para sua impressão. “Tem sido um verdeiro calvário” obter as permissões de importação, lamenta o texto.
- É um modo habilidoso e pouco criativo de calar as vozes independentes e críticas no país. E uma conveniente moral dúbia do governo do presidente Nicolás Maduro, uma espécie de ‘escassez programada’ - criticou o presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), Claudio Paolillo.
Sem papel, jornais fecham
O desabastecimento de itens variados no país - de carros a alimentos e até papel higiênico - tem sido frequente. O governo, por sua vez, repassa a responsabilidade a uma suposta especulação de empresários do setor privado. Vários jornais venezuelanos já deixaram de circular pela escassez de materiais, entre eles “Los Llanos” e “El Espacio”, do estado de Barinas; “El Sol de Maturín”, de Monagas; “Antorcha”, de Anzoátegui e “El Caribazo”, “La Hora” e “El Caribe”, de Nueva Esparta.
- Globovisión. Ou porque não têm matéria-prima para funcionar, caso de muitos meios impressos - disse ao GLOBO Johan Perozo, secretário de Relações do Colégio Nacional de Jornalistas da Venezuela.
Ele diz que a pressão às emissoras de rádio também cresceu:
- Elas são obrigadas a mudar sua linha editorial e aplicar uma autocensura para não perder suas concessões.
Na segunda-feira, o Conselho Nacional de Telecomunicações (Conatel) anunciou a abertura de um processo administrativo contra a Globovisión. Caso seja comprovado “o crime de gerar agitação na sociedade”, como acusa o governo, o canal terá que pagar uma multa de 10% de sua receita bruta anual.
Em março, então como presidente interino, Maduro já intimidara os meios de comunicação que publicassem notícias sobre a violência no país, acusando-os de serem “sádicos do jornalismo”. O governo chegou a impor uma multa ao jornal “El Nacional” - de 1% de sua receita bruta - por publicar uma foto do necrotério de Caracas com pilhas de corpos de vítimas da insegurança na capital.
- É uma censura direta, uma forma de impedir que os meios informem sobre um tema tão grave. E de criminalizar a profissão. Isso também é consequência do processo de polarização política no país. O governo decidiu que quem não pensa como ele deve ser liquidado - disse Perozo.
Ele faz uma ressalva no caso da Globovisión:
- A multa é uma forma de o governo dar a impressão de que o canal continua independente, o que não é verdade desde que foi vendido a empresários ligados ao chavismo.
EUA defendem diplomatas
Maduro deu um prazo até outubro para o fim da suposta “propaganda de guerra elétrica e econômica” liderada, segundo ele, pela imprensa. Caso contrário, disse, incentivará os venezuelanos a irem às ruas e “tomar o poder em cada avenida, cada estrada”, remetendo a um discurso característico de seu antecessor e mentor, Hugo Chávez.
Em outra frente, Maduro voltou a acusar o governo dos EUA de conspirar contra o comando chavista. Depois de expulsar três diplomatas da embaixada americana em Caracas, o governo divulgou fotos e vídeos de encontros desses funcionários com políticos opositores do estado de Bolívar, o que seriam “provas de um complô”, segundo o chavista.
A Embaixada dos EUA rebateu: “Mantemos contatos frequentes em todo o espectro político venezuelano. É isso que os diplomatas fazem”, afirmou num comunicado. 
(Com agências internacionais)

Nenhum comentário: