quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Para os venezuelanos, o herdeiro de Chávez é uma cópia barata
William Neuman - NYT   
Divulgação
Nicolás Maduro tem se mostrado propenso a cometer gafes publicamente
Nicolás Maduro tem se mostrado propenso a cometer gafes publicamente
O início da temporada para duas das mais importantes equipes de beisebol da Venezuela, onde o esporte é muito popular, foi posto em dúvida depois que ladrões levaram grandes quantidades de fios de cobre das instalações de iluminação do principal estádio de Caracas.
Aqui na Venezuela também está tão difícil encontrar produtos básicos nos supermercados que, após um motorista de caminhão ter caído morto ao volante, depois de um acidente rodoviário na semana passada, vários saqueadores se aproximaram de moto do caminhão e roubaram a carga: toneladas de carne vermelha.
Os preços estão subindo, o país tem sido assolado por apagões elétricos, alguns bairros passam vários dias sem água e protestos dificultam ainda mais o já sufocante tráfego das cidades. E, além de tudo isso, a cerveja barata que costumava ajudar as pessoas a relaxarem em várias festas de final de semana também começou a faltar de repente.
Cerca de sete meses após a morte de Hugo Chávez, figura paterna e presidente de esquerda que permaneceu muitos anos no poder na Venezuela, há um sentimento crescente de que as coisas estão caindo aos pedaços no país.
E o novo presidente, Nicolás Maduro, reavivou um antigo bode expiatório para os problemas do país: Maduro tem acusado Washington de conspirar com outros inimigos do governo venezuelano e de empreender uma "guerra econômica", que tem submetido a população local a apagões, escassez crônica de produtos e outros males.
Tomando emprestado o roteiro de Chávez, na segunda-feira passada Maduro expulsou a principal diplomata dos Estados Unidos lotada na Venezuela, além de dois outros funcionários da embaixada norte-americana, alegando que eles estavam conspirando para desestabilizar o país.
Mas, enquanto Chávez retratava habilmente os norte-americanos como valentões imperialistas e se colocava no papel de herói oprimido, muitos simpatizantes do ex-presidente estão achando pouco convincentes as tentativas de Maduro de imitar seu mentor.
"Esse foi o maior erro que Chávez já cometeu", disse Axel Ortiz, 20, estudante, referindo-se à escolha de Maduro como sucessor de Chávez. Ortiz ainda se define como chavista – um leal partidário do ex-presidente –, mas ele questiona a capacidade de Maduro em resolver os problemas do país. "Chávez era a única pessoa qualificada, o único que conseguia manter as coisas sob controle por aqui".
Os problemas econômicos do país tornaram-se graves. A taxa de inflação nos primeiros oito meses deste ano mais do que triplicou em relação à registrada no mesmo período do ano passado. Quando medida nos 12 meses encerrados em agosto passado, a inflação ultrapassou o patamar de 45%. Um indicador do governo que mede a escassez de produtos básicos está perto de seu nível mais alto do último período de mais de cinco anos.
Muitas lojas só permitem que os clientes comprem uma quantidade limitada dos produtos que estão em falta, como farinha de milho e óleo de cozinha. As pessoas reclamam de ter que ficar em filas durante horas, muitas vezes em vão. Muitas pessoas estão perdendo a paciência com a explicação do governo, segundo a qual conspiradores repugnantes são os culpados pelos problemas do país.
"O governo está recorrendo cada vez mais a ações e declarações revoltantes e extravagantes para controlar sua agenda", disse Andrés Cañizalez, professor de comunicação da Universidade Católica Andrés Bello.
Tudo isso já seria muito para qualquer presidente neófito controlar, mas, propenso a cometer gafes, Maduro tem sofrido críticas desmoralizantes por tropeçar com frequência em suas palavras, o que tem gerado lisonjas servis por parte de seus simpatizantes e vaias por parte de seus adversários. Recentemente, quando Maduro caiu da bicicleta ao vivo na TV, o incidente ameaçou se transformar em uma metáfora para as dificuldades que estão sendo enfrentadas por seu governo.
"As pessoas riem dele", disse María López, 32, mãe de duas crianças em uma manhã recente na favela Terrazas del Alba, localizada no centro de Caracas. Ela votou em Maduro e disse que ainda o apoia. Mas María teve que segurar o riso quando perguntada sobre o acidente de bicicleta de Maduro, que ocorreu durante uma viagem para promover o movimento jovem de seu partido. "Nós não queremos que nosso presidente seja uma piada", disse ela.
Na terça-feira passada, Maduro utilizou um pronunciamento especial, divulgado em rede nacional pela TV, para apresentar o que, segundo ele, era uma evidência de que os diplomatas norte-americanos estavam conspirando com a extrema-direita da Venezuela para desestabilizar o país.
Ele exibiu um vídeo, acompanhado por uma melodia sinistra, e afirmou que a principal diplomata da embaixada dos EUA na Venezuela, Kelly Keiderling, e os outros dois diplomatas expulsos tinham se encontrado nas últimas semanas com autoridades venezuelanas eleitas – incluindo um governador e um prefeito – que pertencem à oposição do país. O vídeo também mostrou os diplomatas saindo de uma reunião realizada no escritório de um grupo pró-democracia.
"Esses funcionários estão realizando reuniões de uma forma descarada, e falando sobre greves, sabotagens, falando sobre assuntos internos da Venezuela, oferecendo dinheiro", disse Maduro.
Tais acusações ressoaram negativamente por aqui devido ao histórico de intervenção dos Estados Unidos na América Latina, incluindo seu apoio tácito ao golpe de 2002, que derrubou Chávez por um breve período.
Uma funcionária do Departamento de Estado dos EUA disse que as acusações são absurdas.
"Nossos diplomatas estavam fazendo o que eles fazem em todo o mundo", disse a funcionária, Roberta S. Jacobson, secretária-adjunta de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental. "Eles estavam visitando algumas regiões do país e conversando com diversas pessoas. Eles não estavam fazendo nada secreto ou fora do comum para diplomatas".
Ela disse que, em resposta, os Estados Unidos expulsariam o principal diplomata da Venezuela em Washington e outros dois funcionários da embaixada venezuelana. Os Estados Unidos e a Venezuela não mantêm embaixadores em suas respectivas capitais.
Com a disputa diplomática como pano de fundo, as autoridades da Venezuela disseram que o estádio assaltado – que é a casa do Caracas Lions e do La Guaira Sharks, times que, no beisebol venezuelano, seriam equivalentes ao New York Yankees e ao New York Mets – ficará pronto para o início da temporada, no próximo dia 10 de outubro.
As autoridades disseram também que os operários tinham finalmente terminado os reparos no sistema de iluminação após ladrões terem roubado grande parte da fiação, num exemplo bastante público do crime, da corrupção e da desordem que reina no país.
Tradutor: Cláudia Gonçalves

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