Mergulhador na ilha de Sipadan, na Malásia
Um momento histórico para a vida dos oceanos está próximo à medida que o Comitê de Pesca do Parlamento Europeu debate um projeto de lei para eliminar gradativamente o uso de redes de arrasto no fundo do mar e outros equipamentos destrutivos de pesca no Atlântico Norte. E mesmo assim esta lei crucial pode ser exterminada nos próximos dias, porque alguns dos 25 membros do comitê representam distritos com poderosos interesses na pesca de arrasto de fundo.Enquanto eles discutem os méritos da lei, muitos dos membros do painel estão predispostos a repetir as verdades parciais fornecidas por lobistas sobre a sustentabilidade das populações de peixes de águas profundas e a ideia de que não há muito dano à vida dos peixes no fundo do oceano. Se essas vozes prevalecerem na votação que acontecerá ainda este mês, o comitê terá conseguido manter a medida estancada e longe de consideração por todo o Parlamento.
A biodiversidade do fundo do mar só é igualada pela das florestas tropicais e há muito se sabe que a destruição dessas florestas foi responsável por afetar a biodiversidade e o clima global. Da mesma forma, o fundo do mar é lar de inúmeras espécies, incluindo a espécie viva mais antiga conhecida e formas de vida que não são encontradas em nenhuma outra parte. Cerca de 90% do oceano tem profundidade inferior a 200 metros, mas não se sabe muito sobre a vida no fundo do mar; amostragens caras para pesquisa foram feitas em cerca de 1% desta área vasta.
Ao longo dos anos, à medida que a pesca em águas rasas ficou mais difícil, a indústria pesqueira começou a olhar para o fundo em busca de novas espécies a explorar. A maioria dos peixes do fundo do oceano tem carne impalatável, mas foram encontrados alguns que poderiam ser comercializados para consumo humano, se transformados em filés e chamados com outros nomes para se tornarem mais atraentes, ou processados em ração para aves. Essas populações de peixes foram prontamente atacadas com redes de arrasto grandes e pesadas o bastante para alcançar profundidades de até 2.000 metros, e levou apenas de dez a 15 anos para reduzir a biomassa de peixes em cerca de 80%.
As redes de arrasto de fundo não são seletivas; só no nordeste do Atlântico elas capturam quantidades incalculáveis de mais de 100 espécies de peixes. As comunidades de águas profundas abrigam espécies que podem ser grandes, mas são delicadas e frágeis, como corais e esponjas. Os corais do fundo do mar não são iguais aos que estamos acostumados a ver em águas tropicais, e com algumas exceções, eles não constroem estruturas de recifes maciços. Em vez disso, muitos são mais parecidos com árvores, às vezes com mais de três metros de altura, e às vezes muito antigos, frequentemente chegando a mais de 100 anos e, ocasionalmente, a mais de 4.000 anos. Eles são esmagados pelas redes de arrasto. Imagens de áreas de águas profundas depois da pesca de arrasto, e de dois montes submarinos que visitei num mergulho profundo num submarino, mostram que nada fica em pé depois da passagem desse tipo de equipamento de pesca.
O fundo do oceano é caracterizado por sua estabilidade a longo prazo. Os animais que ali vivem não experienciam qualquer mudança nas condições ao longo de toda sua vida. Como resultado, até mesmo as espécies que vivem no fundo lodoso não têm a reprodução massiva e rápida como parte de sua estratégia de vida. Ou seja, há poucas espécies "daninhas", que se espalham rápido, no fundo do mar.
No nordeste do Atlântico, a área do fundo do mar alcançável pelas redes de arrasto profundas chega a ter o tamanho da Inglaterra. Esta extensão pode ser totalmente varrida pelas redes a cada duas décadas. Grandes distúrbios como os causados pelas redes de arrasto não têm uma recuperação rápida como nas águas rasas. Em vez disso, as comunidades de águas profundas permanecem alteradas por décadas ou séculos, e podem até nunca se recuperar por conta de outras mudanças que ocorrem no oceano.
Eliminar o uso de redes de arrasto nas profundezas do nordeste do Atlântico poderia parecer algo indiscutível. Mas a proposta se transformou numa luta prolongada na Comissão de Pesca promovida pelos legisladores que têm o apoio irrestrito da indústria da pesca e, na França, um instituto de pesquisa financiado pelo governo. Além disso, esta é uma batalha sobre uma área pequena que produz um número cada vez menor de peixes para um punhado de empresas que, apesar dos subsídios maciços tanto da UE quanto de seus próprios Estados, não são sequer rentáveis – enquanto destroem incontáveis organismos que representam a biblioteca viva da Terra.
Não há dúvida de que os animais de águas profundas são muito diferentes daqueles que vivem em águas rasas, de que eles crescem e se reproduzem muito lentamente, e de que vivem durante períodos muito longos em condições que raramente são perturbadas. Como a maioria dos animais de águas profundas são frágeis e delicados, mesmo que grandes em tamanho, eles nunca suportarão o nível de perturbações causado pela pesca de arrasto. E não há dúvida por parte de mais de 300 cientistas de todo o mundo que assinaram a declaração de que esta forma de pesca deve ser eliminada em grandes profundidades. Quaisquer que sejam suas razões, as empresas de pesca da Europa e os parlamentares aliados a elas – os "mercadores da dúvida" – estão mantendo sua posição mesmo diante do consenso científico. Mas desta vez os céticos podem ter ficado sem argumentos viáveis.
(Les Watling é professor de biologia na Universidade do Havaí em Manoa e coeditor de "Morfologia Funcional e Diversidade (História Natural dos Crustáceos)". Gilles Boeuf é presidente do Museu Nacional de História Natural em Paris, e coautor de "A região mediterrânea: Biodiversidade no Espaço e no Tempo.")
Tradutor: Eloise De Vylder
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