terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Até petistas pedem saída de Ideli de ministério
VEJA
A nova ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, durante o discurso de posse
A ministra Ideli Salvatti: nem petistas querem sua permanência no cargo (Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr/VEJA)
O setorial de Direitos Humanos do Partido dos Trabalhadores divulgou na tarde desta terça-feira uma nota na qual pede a substituição da atual ministra da Secretaria de Direitos Humanos, Ideli Salvatti (PT-SC), no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. De acordo com o documento veiculado na página oficial do setorial no Facebook, é "fundamental" uma "sinalização à esquerda" e a indicação de "um quadro da área na SDH". "O governo Dilma está sendo atacado por colocar ministros completamente estranhos às suas pastas, manter a atual ministra na pasta de Direitos Humanos seria corroborar com isso", afirma o texto. "Ficando a SDH com o Partido dos Trabalhadores, há um entendimento que a Ministra deu a sua contribuição, mas é necessária para qualificação da SDH a nomeação de algum petista ligado à área dos Diretos Humanos", conclui o documento.
Por que a regulamentação econômica pode ser muito ruim para a sociedade? 
Og Leme - IL
Água deve voltar gradualmente hoje após rompimento de adutoraRegulação ou regulamentação significa imposição de regras, normas ou leis. Ela se dá, então, por via legislativa ou administrativa. Desregulmanetação corresponde à redução ou eliminação das normas existentes. No caso brasileiro, propor uma redução das regras vigentes equivale a reconhecer que elas superabundam entre nós, aumentando desnecessariamente os custos de transação, engessando os mercados, deformando a estrutura de estímulos e desestímulos para produzir, desalentando a iniciativa privada, comprometendo a eficiência média da economia e, consequentemente, o bem-estar material dos brasileiros.
É sabido que não há possibilidade de vida grupal ou social sem um conjunto de regras de conduta, sejam elas formais ou informais. Trata-se de um fato de validade universal, independente da história, geografia, etnia, cultura e do nível de renda. Ele se impõe entre virtuosos e pecadores, valem tanto para o Exército da Salvação como para qualquer “máfia” ou grupo de detentos.
É igualmente sabido que qualquer tipo de ordem concebida como conjunto de normas de conduta é melhor do que a anomia, isto é, a ausência de normas. Mas é forçoso reconhecer que alguns tipos de ordem social podem ser melhores que outros, especialmente se o critério de avaliação se baseia não apenas na sobrevivência do grupo ou país, mas também na sua capacidade de oferecer a seus membros melhores condições de vida e maior longevidade. Critério de avaliação equivalente é o da capacidade que tem essa ordem social de ensejar aos membros da comunidade “a busca individual, em segurança, da felicidade”. É equivalente porque são exatamente as sociedades propiciadoras dessa condição as que caminham no rumo da prosperidade. Não se trata de hipótese ou ato de fé, mas de realidade histórica fundamentada em evidência empírica.
Conforme se disse antes, não há possibilidade de vida grupal num vácuo normativo (estado de anomia). Mas tampouco há sobrevivência social satisfatória com excesso de regulação. Da mesma forma que a vida individual necessida de de água para sobreviver, mas também pode acabar por excesso dela, a sobrevivência social se torna precária com excessos regulatórios que entorpecem e degradam a ação humana.
Deve haver, então, um grau ótimo de ordenamento que, além de assegurar a sobrevivência social, possa oferecer às pessoas as melhores condições possíveis de vida. A história nos tem ensinado que esse ponto ideal é encontrado quando o governo e sua contrapartida, o processo político de decisões coletivas, se limitam a fazer aquilo que o mercado e sua contrapartida, o processo de decisões individuais, não são capazes de fazer a custos sociais suportáveis.
Num país onde os problemas econômicos são em sua grande maioria solucionados pelo mercado, caberia ao governo apenas algumas importantíssimas tarefas: administrar a lei, manter a ordem pública, zelar pela segurança, desempenhar funções diplomáticas e cuidar dos problemas envolvendo externalidades e bens públicos. Nos casos de externalidades e bens públicos, há diferenças entre custos e benefícios sociais e individuais, de maneira que, deixados a cargo do mercado, há a possibilidade de haver menos oferta de certas coisas do que o desejável (por exemplo, saúde pública e segurança) e mais de outras (por exemplo, poluição).

Num país onde os problemas econômicos são em sua grande maioria solucionados pelo mercado, caberia ao governo apenas algumas importantíssimas tarefas: administrar a lei, manter a ordem pública, zelar pela segurança, desempenhar funções diplomáticas e cuidar dos problemas envolvendo externalidades e bens públicos

Essa divisão de atribuições entre o mercado e o setor público pode ainda ser ampliada a favor do segundo, quando os direitos de propriedade não são bem definidos ou eficazes e quando são elevados os custos de transação. Em tais casos pode haver razão para a regulação pública, desde que exercida com sensatez e sabedoria, porque ela é uma agressão aos direitos de propriedade e onera os custos de transação. É preciso muito cuidado, portanto, para que o remédio não se transforme em veneno.
Os custos de transação são o valor que excede o preço do bem ou serviço comprado, representado pelo que se gasta na obtenção de informações sobre a coisa transacioniada, dos recursos consumidos na negociação entre as partes envolvidas na transação e, finalmente, no custo de tornar os contratos efetivos.
Isso é o que diz a teoria econômica fundamentada na razão e nos fatos. Mas nem sempre os seres humanos agem de acordo com as boas lições da economia. Se em boa parte do século XIX a economia mundial se aproximou do bom receituário de Adam Smith, fundamentado pela responsável liberdade dos agentes econômicos e no livre intercâmbio das nações, a maior parte do século XX sucumbiu ao estatismo, ao intervencionismo governamental, à substituição do mercado pelo arbítrio dos detentores dos poderes coercitivos do Estado. Mas antes que o século e o milênio terminassem, ruíram várias das desastrosas experiências no campo da engenharia social (o construtivismo de Hayek) com o frcasso do nazismo, do fascismo e do comunismo.
Não obstante, continua de pé a advertência do Prêmio Nobel James Buchanan: “o socialismo morreu, mas o espírito do Leviatã continua vivo”. Isso significa não mais a substituição completa do mercado pelo planejamento central, não mais a substituição da propriedade privada e da economia de mercado, mas as duas instituições passam a ser “orientadas” ou “conduzidas” pelo governo, por meio de vários tipos de instrumentos, entre os quais os da regulação econômica. A regulação econômica é uma das formas mais sub-reptícias e insidiosas de agressão à propriedade privada: finge-se manter a propriedade privada, mas os titulares desses direitos são obrigados por força da lei ou de decreto a usar seus ativos de acordo com a vontade das autoridades.

A regulação econômica é uma das formas mais sub-reptícias e insidiosas de agressão à propriedade privada: finge-se manter a propriedade privada, mas os titulares desses direitos são obrigados por força da lei ou de decreto a usar seus ativos de acordo com a vontade das autoridades.

A justificativa para esse tipo de violência não varia muito: a correção de “falhas de mercado” (como se o governo não as tivesse e em grau maior), proteção ao meio ambiente e às espécies em extinção, proteção aos menos possuídos (empregados e mulheres), redistribuição de rendas, incentivo ao crescimento econômico etc. Parte dessa onda intervencionista é baseada em boas intenções, parte é apenas demagogia.
É oportuno citar um exemplo de uma boa intenção desastrada. No final da década de 1980, os ativistas do ambientalismo estavam procurando convencer as autoridades responsáveis pelo suprimento de água do risco de carcinomas produzidos pelo uso do cloro. Na época, as autoridades peruanas, que se viam às voltas com uma crise orçamentária, aproveitaram-se da ideia de acortar a despesa com o uso do cloro na água para evitar o mal maior do câncer e, assim, contornar uma crise financeira. A desastrada decisão contribuiu para a disseminação acelerada da cólera na América Latina nos anos 1991-1996, causando a contaminação de 1,3 milhão de pessoas e a morte de 11 mil. O relato dessa custosa ocorrência está num artigo de H.I. Miller e G. Cronko, “The Perils of Prevention”.
Provavelmente estão cheias de boas intenções as pessoas que defendem o salário mínimo e procuram “proteger” o trabalho feminino. Isso não basta, porém, para evitar que o salário mínimo prejudique o trabalhador menos qualificado (exatamente o mais carente) nos tempos de crise; ou para impedir a discriminação contra a mão de obra feminina que resulta do seu encarecimento que a suposta “proteção” produz.

Provavelmente estão cheias de boas intenções as pessoas que defendem o salário mínimo e procuram “proteger” o trabalho feminino. Isso não basta, porém, para evitar que o salário mínimo prejudique o trabalhador menos qualificado (exatamente o mais carente) nos tempos de crise; ou para impedir a discriminação contra a mão de obra feminina que resulta do seu encarecimento que a suposta “proteção” produz.

As bem intencionadas tentativas nos Estados Unidos de melhorar a segurança dos motoristas com regulamentos que obrigavam as montadoras a adotar uma série de inovações acabaram encarecendo os automóveis. Com preços mais altos, os usuários passaram a estender o prazo de renovação de seus carros, com o consequente envelhecimento da frota. Carros mais velhos equivalem a mais poluição atmosférica, que foi a triste consequência de mais uma boa intenção.
As experiências com regulamentação para impedir a extinção de espécies animais têm sito mal-sucedidas, especialmente quando esses animais são de propriedade comum. Os países africanos que admitem a propriedade privada de elefantes e dão eficácia a esse direito têm visto seu estoque de elefantes crescer. Os países em que a propriedade de elefantes é comum não têm conseguido frear a queda do estoque desses animais na base da regulação.
A existência de direito eficaz de propriedade é fundamental no caso de externalidades, de preservçaão ambiental e de manutenção de espécies animais. Nos Estados Unidos, houve praticamente extinção dos búfalos, que eram propriedade comum; houve, por outro lado, generosa expansão do rebanho bovino, que é de propriedade privada. Estão universalmente ameaçadas de extinção as baleias e as tartarugas, de propriedade comum; continuam, crescendo os estoques de galinhas e perus, de propriedade privada.

Os países africanos que admitem a propriedade privada de elefantes e dão eficácia a esse direito têm visto seu estoque de elefantes crescer. Os países em que a propriedade de elefantes é comum não têm conseguido frear a queda do estoque desses animais na base da regulação.

Mas há regulamentos gerados por boas intenções e que eventualmente dão certo, por assim dizer. Mesmo quando a regulação parece haver atingido seus objetivos, seu custo social pode ser altíssimo se resultar em excesso burocrático e elevação dos cursos de transação. O economista peruano Hernando de Soto publicou um livro (El Otro Sendero) há alguns anos que se tornou mundialmente famoso pela percuciente análise que faz da economia informal no Peru. O autor mostra, por exemplo, que para a obtenção de um alvará para o funcionamento de uma fabriqueta de roupas de “fundo de quintal” são necessários quase 300 dias naquele país. Esse alvará pode ser obtido em 3 dias em, por exemplo, Tampa, na Flórida (EUA).
O sistema tributário brasileiro já foi chamado de “manicômio tributário” pelo falecido jurista Alfredo Augusto Becker. Desde a sua morte, a situação piorou: hoje, temos mais de 60 tributos regulamentados por uns 6 mil diplomas legais, conforme estudo recente do jurista Cândido Prunes, a ser publicado na revista Think Tank.
Talvez o setor da economia brasileira mais seriamente afetado por uma regulação exorbitante e insensata seja o do mercado de trabalho, poluído por pseudodireitos, mutilado na sua flexibilidade e tornado artificial e desnecessariamente dispendioso, a ponto de onerar em mais de 100% as folhas de pagamentos com benefícios trabalhistas. Um dos resultados é a perda da competitividade dos produtos brasileiros no mercado mundial.

Talvez o setor da economia brasileira mais seriamente afetado por uma regulação exorbitante e insensata seja o do mercado de trabalho, poluído por pseudodireitos, mutilado na sua flexibilidade e tornado artificial e desnecessariamente dispendioso

O espaço disponível não comporta mais exemplo, mas os citados bastam para ilustrar os problemas criados por uma regulamentação exagerada:
1 – Engessamento ou perda de competitividade dos mercados;
2 – Deformação do sistema de preços e da cadeia de estímulos e desestímulos, com a consequente perda de eficiência econômica;
3 – Entorpecimento da iniciativa empresarial;
4 – Estímulo à corrupção devido ao aumento dos poderes da burocracia e do próprio processo político;
5 – Expansão da economia informal;
6 – Aumento dos custos de transação (o chamado ‘custo Brasil’);
7 – Comprometimento da capacidade de competir no mercado mundial;
8 – Agressões continuadas a direitos de propriedade;
9 – Degradação da ética (dos ‘bons costumes’) pela prática do “jeitinho” e da corrupção decorrentes das necessidades de driblar as dificuldades criadas pelos regulamentos;
10 – Institucionalização do cinismo, juntamente com a degradação das instituições.
Essa relação que envolve custos econômicos morais e institucionais não esgota provavelmente a capacidade deletéria da regulação exacerbada, mas certamente é suficiente para convidar-nos, a nós brasileiros, a pensar seriamente na revisão saneadora dos regulamentos vigentes. Leva-nos a considerar seriamente a urgente necessidade de desregulamentar a nossa vida social e econômica. Desregulmaentar não significa obviamente a pura e simples eliminação dos regulamentos atuais, mas a sua adequação a um processo econômico do mercado que dependa do setor público apenas para as tarefas em que as decisões privadas individuais se mostram inapropriadas.
Não é que a vaca tossiu?
Laryssa Borges - VEJA
Movimento 'Nem Que a Vaca Tussa' Movimento 'Nem Que a Vaca Tussa'  (MudaMais/Reprodução)  
Durante o vale-tudo para tentar conter o então "furacão Marina Silva", em proa de subida nas pesquisas eleitorais de setembro, a presidente-candidata Dilma Rousseff sugeriu que a adversária pretendia acabar com direitos trabalhistas em vigor e disparou uma frase cunhada pela sua equipe de marketing para chacoalhar a militância petista nas redes sociais: "Nem que a vaca tussa", esbravejou. A expressão foi usada à exaustão pela campanha, numa ofensiva pela desconstrução da imagem de Marina – cuja candidatura minguou vertiginosamente na sequência. Na reta final do primeiro turno, uma vaquinha malhada chegou a ser mote de sindicalistas alinhados à então presidente-candidata para uma “mobilização nacional” em defesa dos trabalhadores. Nesta segunda-feira, Dilma deu sequência à linha de fazer tudo ao contrário pós-urnas e determinou que seus ministros anunciassem o endurecimento de regras para a concessão de benefícios como o seguro-desemprego e a pensão por morte. O pacote impopular do governo, oficializado a três dias do início do novo mandato, é uma tentativa de começar a colocar a economia nos eixos. Marina Silva reagiu hoje e afirmou em sua conta no Twitter que a economia em frangalhos mostra que “a realidade desmantelou o marketing eleitoral de Dilma”
Lista traz os dez principais avanços científicos do ano
Manuel Ansede - El País 
A caça de um cometa encabeça as façanhas da ciência em 2014, segundo a revista "Science"
Agência Espacial Europeia
A primeira missão a aterrissar uma nave sobre um cometa foi completada com sucesso em 12 de novembro A primeira missão a aterrissar uma nave sobre um cometa foi completada com sucesso em 12 de novembro
Como em todo dezembro, a revista "Science", um dos templos da ciência no mundo, selecionou os dez avanços científicos do ano. A missão Rosetta, que culminou com a aterrissagem de uma sonda na superfície de um cometa, é o momento mais destacado de 2014 segundo a revista, editada pela Associação Americana para o Progresso da Ciência.
1. Encontro às cegas com um cometa
A missão Rosetta é o grande avanço científico do ano. A nave foi lançada em 2004 e em dez anos percorreu 6 bilhões de quilômetros até chegar ao cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, um objeto pequeno, de apenas 4 quilômetros de comprimento, que viaja pelo espaço a 135 mil quilômetros por hora. Em 12 de novembro, a nave, voando junto com o cometa, soltou sua sonda de aterrissagem Philae, que conseguiu pousar de maneira acidentada no 67P. O projeto, de 1,4 bilhão de euros e coordenado pela Agência Espacial Europeia, conseguiu que um artefato humano pousasse pela primeira vez sobre um cometa. Mas a aterrissagem, como destaca a "Science", é o mais espetacular, e não o mais relevante; 80% dos resultados científicos da missão chegarão pela nave Rosetta, que continua voando junto com o cometa. 
2. Reescrever as lembranças
Todo mundo sabe que a memória é volúvel e manipulável. Em um conhecido experimento de 2008, a psicóloga americana Elisabeth Loftus conseguiu convencer 30% de cem estudantes de que quando eram crianças, em uma visita à Disneyland, uma pessoa disfarçada de cachorro Pluto e completamente drogada havia lambido suas orelhas. Este ano a ciência foi muito além. Uma equipe liderada pelo médico Susumu Tonegawa, do Instituto Tecnológico de Massachusetts (EUA), conseguiu reescrever as recordações de vários ratos, transformando seus traumas em memórias bonitas, mediante a optogenética. Essa técnica revolucionária introduz genes de algas sensíveis à luz nos grupos de neurônios que armazenam as recordações, e é capaz de acender e apagar à vontade as células cerebrais mediante uma luz laser.
3. Fim do monopólio europeu na arte das cavernas
A Europa tinha até este ano o monopólio da arte simbólica paleolítica, com espetaculares mãos, bisontes, rinocerontes, leões e ursos pintados em cavernas como a francesa de Chauvet, há cerca de 39 mil anos. Para muitos arqueólogos, essas cavernas demonstravam que algo havia decolado naquela época no cérebro do Homo sapiens europeu, que teria se adiantado aos demais seres humanos do planeta. Mas não.
Em outubro, uma equipe liderada pelo arqueólogo Maxime Aubert, da Universidade Griffith da Austrália, anunciou que pinturas presentes nas cavernas de Maros, na ilha indonésia de Sulawesi, têm entre 39 mil e 35.400 anos. São uma dúzia de impressões de mãos e dois desenhos de porcos, tão antigos ou mais que as primeiras representações animais na Europa. Ou os indonésios inventaram a arte simbólica por sua conta, ou os humanos modernos já eram refinados artistas quando começaram a colonizar o mundo a partir da África, há cerca de 60 mil anos.
4. O alfabeto da vida ganha duas letras artificiais
O alfabeto da vida, o DNA, é relativamente tedioso. Todos os livros de instruções microscópicas que figuram em todas as células de todos os seres vivos são escritos com as mesmas quatro letras: G, C, T e A, iniciais dos quatro compostos orgânicos que formam o DNA. Mas este ano o alfabeto da vida se animou em um laboratório do Instituto de Pesquisas Scripps (EUA), onde um grupo de cientistas criou duas novas letras artificiais, batizadas de X e Y, e as inseriu no DNA de um ser vivo, a bactéria Escherichia coli. A possibilidade de acrescentar novas letras ao DNA abre a porta para a criação de bactérias artificiais capazes de sintetizar medicamentos ou de fabricar combustíveis, entre outras aplicações, algumas hoje inimagináveis.
5. O ano dos nanossatélites
O ano de 2014 bateu o recorde de nanossatélites lançados ao espaço. Esses aparelhos, denominados CubeSats, são cubos de 10 cm de lado e menos de um quilo de peso com tecnologia para monitorar com resolução suficiente o desflorestamento, o desenvolvimento urbano e as mudanças nos cursos dos rios, entre outras aplicações. Os mais de 75 nanossatélites lançados este ano estão democratizando o espaço. Graças a seu baixo custo – centenas de milhares de euros, em vez de centenas de milhões como os satélites clássicos –, empresas, universidades e outros centros de pesquisa podem ter acesso a dados até agora inacessíveis.
6. Robôs que levantam pirâmides sem plano nem chefe
A revista "Science" destaca a enxurrada de projetos científicos que conseguem que grupos de robôs trabalhem em equipe sem supervisão humana. Um deles, da Universidade Harvard (EUA), inspirou-se nos cupins para conseguir que robôs levantassem estruturas estáveis, como pirâmides, torres e castelos, a partir de instruções muito básicas. Os robôs, denominado Termes, trabalham como os cupins para construir seus cupinzeiros, reagindo a mudanças em suas imediações e sem precisar de um chefe nem de um plano de obra.
7. O sangue jovem rejuvenesce?
O sangue, ou algum componente sanguíneo, de um rato jovem pode rejuvenescer os músculos e o cérebro de ratos velhos, segundo dois estudos do Centro de Terapias com Células Tronco e Medicina Regenerativa de Harvard (EUA), dirigido pelo pesquisador Douglas Melton. Os trabalhos, publicados em maio, observaram que uma proteína isolada do sangue de ratos jovem, a GDF11, melhorava o olfato e outras capacidades de roedores velhos depois de ser injetada em sua corrente sanguínea. A Universidade de Stanford (EUA) prova agora se essa estratégia também funciona em humanos, mediante um teste com 18 pacientes de Alzheimer que estão recebendo plasma sanguíneo de jovens doadores.
8. Os dinossauros encolheram para dar lugar às aves
Os dinossauros que não se extinguiram evoluíram e deram lugar às aves. A investigação dessa transição é outro dos avanços científicos do ano, segundo a "Science". Um estudo com pesquisadores da Universidade de Oxford (Reino Unido) calculou a massa corporal de 426 espécies de dinossauros a partir da espessura dos ossos de suas patas.
O leque de tamanhos vai desde as 90 toneladas do Argentinosaurus aos 15 gramas da Qiliania graffini, uma ave ancestral batizada em honra ao paleontólogo Greg Graffin, cantor do grupo punk Bad Religion e professor na Universidade Cornell (EUA). O estudo mostrou que os dinossauros que deram lugar às aves encolheram para se adaptar a um novo entorno gerado por grandes erupções vulcânicas, longas ondas de frio e, como golpe de misericórdia, a queda de um asteróide na Terra há 66 milhões de anos.
9. Células para curar diabetes
Este ano foram dados dois grandes passos para o tratamento da diabetes, uma doença crônica que faz que uma pessoa não consiga regular a quantidade de açúcar em seu sangue. O transtorno ocorre por falta de insulina, um hormônio produzido pelas células beta do pâncreas que transporta a glicose ingerida nos alimentos do sangue para os músculos, a gordura e o fígado.
Sem insulina, o processo se desmonta. Em abril, pesquisadores da Fundação Células Tronco de Nova York conseguiram gerar células produtoras de insulina a partir de células da pele de uma mulher de 32 anos com diabetes tipo 1, graças a uma técnica conhecida como clonagem terapêutica. Em outubro, outra equipe dirigida por Douglas Melton, da Universidade Harvard, conseguiu transformar células embrionárias humanas em células produtoras de insulina.
10. Chips que imitam o cérebro humano
Em agosto, a multinacional americana IBM apresentou seu chip TrueNorth, um engenho do tamanho de um selo que tenta imitar o funcionamento de um cérebro humano, com sua rede de 86 bilhões de neurônios e bilhões de conexões entre eles. Por enquanto, o chip fica muito distante das capacidades de 1,5 quilo de matéria cinzenta de cada pessoa. Só apresenta 256 milhões de conexões entre seus transistores, mas a revista "Science" acredita que no futuro a empresa fará computadores baseados nessa tecnologia, que poderão realizar tarefas com grande número de dados, como a análise de imagens, com maior eficácia que as máquinas atuais.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Partidos radicais de esquerda preocupam Bruxelas
Claire Gatinois - Le  Monde
Pantelis Saitas/EFE
Na Grécia, o partido Syriza promete cancelar o programa de austeridade no país Na Grécia, o partido Syriza promete cancelar o programa de austeridade no país
A Europa está suando frio. A perspectiva de eleições legislativas antecipadas se aproxima na Grécia, e o partido da esquerda radical Syriza, que promete cancelar o programa de austeridade e apagar a dívida, está muito próximo do poder. A alguns milhares de quilômetros de Atenas, na Espanha, o partido de extrema esquerda eurocrítico Podemos está se armando para as legislativas de 2015, com chances de vitória. No final de novembro, as pesquisas de intenção de voto davam a liderança ao partido de Pablo Iglesias, à frente do Partido Popular (de direita), do primeiro-ministro Mariano Rajoy, e do Partido Socialista. Em Portugal, no Chipre e na Irlanda, os movimentos de extrema esquerda também têm atraído eleitores cansados do rigor imposto "de cima" por Bruxelas, e nostálgicos de um Estado-providência generoso.
Seria o início de uma revolução? Mais uma reação de fúria, encarnada em "uma crítica radical do sistema ao qual está associada a Europa e que faz parte dessa ascensão populista que vem tomando conta do Velho Continente", diz Dominique Reynié, diretor da Fundação para a Inovação Política.
Esse populismo assume formas diversas. Enquanto a crítica às "elites de Bruxelas" se traduz nos países do Norte (Suécia, Dinamarca, Finlândia…) em um populismo de extrema direita, ela se manifesta no Sul através dessa esquerda radical que parecia estar enterrada. "Existem duas reações para a crise", analisa Yves Bertoncini, diretor do instituto Notre Europe. "Um voto 'anti-solidariedade' sobre o tema 'Não vamos pagar por esses inúteis do Sul' e um voto 'anti-austeridade' nos países ajudados pela troika, constituída pelo Banco Central Europeu, FMI (Fundo Monetário Internacional) e pela Comissão de Bruxelas."
Um quarto de século após o colapso do bloco comunista, a ascensão desses partidos de extrema esquerda pode parecer anacrônico. Mas muitos desses movimentos como o Podemos se formaram recentemente, deixando de lado os temas mais obsoletos para se focar na "opressão exercida pela Europa e pelo FMI" contra o Estado-providência e pelo bem-estar dos trabalhadores.

"Luta de classes"

"A crise lembrou que uma forma de luta de classes não morreu", acredita Jean-Yves Camus, pesquisador especializado em radicalidades políticas. Ele diz que está havendo uma volta dos explorados contra os exploradores, os que lucram contra os que são negligenciados pela globalização, os banqueiros contra os trabalhadores... Na Espanha, o Podemos se alimenta de uma oposição à uma Alemanha superpotente que estaria tentada a "colonizar" Madri. "Dizemos a Merkel que temos nossa dignidade e que não vamos nos dobrar", repete o líder do partido Pablo Iglesias.
Esses partidos têm prosperado seguindo uma retórica abandonada pela esquerda moderada, para grande consternação de alguns eleitores. "Não há mais utopia. Para os socialdemocratas, não existe mais um projeto de emancipação econômica coletiva, mas somente individual. Na melhor das hipóteses ela propõe uma utopia social, com projetos como o casamento gay. A esquerda radical é contra e está tentando fazer com que os eleitores entendam que o programa atual pode ser outra coisa além de uma simples adaptação ao mundo", explica Camus.
Em muitos países também paira o sentimento de que os socialistas se venderam. E fracassaram. Para enfrentar os desafios daquilo que os especialistas chamaram de "pior crise desde 1929", os partidos de esquerda constituíram uma espécie de união sagrada com os de direita para aprovar medidas impopulares cuja eficácia ainda não foi comprovada. Na Grécia e em Portugal, foram os primeiros-ministros socialistas que, em nome do pragmatismo, assinaram os acordos com a "troika". Além disso, houve os escândalos de corrupção que, ao mancharem os partidos do governo, incitaram os eleitores desgostosos a votar em movimentos "anti-sistema".
"O futuro da esquerda europeia somos nós!", proclama Anne Sabourin, representante do Partido Comunista da França no GUE (sigla em francês para Partido da Esquerda Europeia), que forma um grupo de extrema esquerda no Parlamento Europeu.
Essa escalada está estremecendo Bruxelas. O presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, manifestou seus temores, afirmando que ele "não gostaria que forças extremas chegassem ao poder" em Atenas e que ele "prefere rever rostos familiares em janeiro". Foi uma gafe, uma vez que a Europa não deve se intrometer em processos eleitorais. "Ele poderia ter se abstido", observa Bertoncini. "A expressão da preferência da comissão pode ser contraproducente."
De acordo com especialistas, essa esquerda radical não é tão assustadora como se imagina. Apesar de um discurso virulento contra Bruxelas, esses partidos não prometem, ao contrário da extrema direita, "destruir a Europa". A ideia deles é transformá-la. Em uma nota intitulada "Euroceticismo ou eurofobia: protestar ou sair?" o Notre Europe observa que, das 42 cadeiras ocupadas por partidos eurocéticos de extrema esquerda, "nenhuma é contra nem a UE, nem a integração europeia, mas eles querem mudar sua natureza. O grupo em geral se descreve como antiliberal e pró-social."
"Não somos contra a Europa, mas, sim, a favor de uma Europa diferente", afirma Sabourin, irritada com o terrorismo veiculado em torno da esquerda radical. "O Syriza não é um partido perigoso, ele não quer sair da zona do euro. Os mercados ficarão descontentes, é verdade. Mas a Europa não está aí para satisfazer os mercados, aos quais ela deu poder demais. É preciso retomar o controle sobre o desenvolvimento dos países, dentro de uma cooperação europeia!"
A raiz histórica da esquerda radical a impede de manter um discurso nacionalista ou xenófobo. "O DNA desses partidos é o internacionalismo", diz Camus. Será que essa posição privaria a esquerda radical de parte dos eleitores, atraídos pelos posicionamentos mais duros da extrema direita? "Ela vive no mito da mudança da Europa", lamenta Aurélien Bernier, autor de "La Gauche radicale et ses tabous: pourquoi le Front de gauche échoue face au Front National" ["A esquerda radical e seus tabus: por que a Frente de Esquerda fracassa diante da Frente Nacional", Ed. Seuil, 2014], que gostaria que o movimento se posicionasse mais radicalmente contra a UE e sua moeda.

"A direita populista tem mais aceitação"

De fato, o caso "LuxLeaks", que revelou que o atual presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, havia orquestrado um amplo esquema de evasão fiscal em Luxemburgo quando ele era primeiro-ministro do país, pode ter revoltado os deputados da GUE, mas somente os eurófobicos de direita (uma centena de parlamentares) conseguiram reunir votos o suficiente para entrar com uma moção de censura contra ele.
Em escala europeia, "a direita populista tem mais aceitação", constata Sabourin, "pois seu discurso é mais simples, ou até simplista. Estamos conduzindo batalhas mais complicadas. Mas não vamos fazer populismo só porque é mais eficaz junto às mídias!"
Segundo analistas políticos, essa atitude poderia condenar a esquerda da esquerda a só ter um sucesso efêmero. "Com a atenuação da crise e da austeridade, o movimento retrocederá. A direita radical tem uma raiz mais estrutural associada à crise de identidade", prevê Bertoncini.
Há quem imagine que, para sobreviver, os partidos da esquerda radical em breve poderão, cedo ou tarde, ficar tentados a flertar com as ideias nacionalistas. A Frente Nacional de Marine Le Pen não se aproximou da extrema esquerda nos assuntos econômicos? Reynié teme esse cenário, lembrando a seguinte frase de Léon Blum: "Um socialista sem internacionalismo só pode acabar mal."
Apesar de gasolina mais barata, cresce uso do transporte público em cidades dos EUA
Jon Hurdle - NYT
Kena Betancur/Getty Images/AFP
 2,7 bilhões de viagens foram feitas nos transportes públicos no terceiro trimestre de 2014 2,7 bilhões de viagens foram feitas nos transportes públicos no terceiro trimestre de 2014
David Needham achou que precisaria comprar um carro quando se mudou de San Francisco para Minneapolis-St. Paul em fevereiro de 2013, mas teve uma surpresa agradável quando descobriu que a cidade que adotou tem um sistema de transporte coletivo que atende a todas as suas necessidades sociais e de trabalho, permitindo que ele e sua família fiquem livres do carro. Needham, 29, um desenvolvedor de sites para organizações sem fins lucrativos e pequenas empresas, mora a cinco minutos à pé de um novo sistema de veículos leves sobre trilhos  --o chamado VLT--, que passam a cada dez minutos e o levam para o centro de Minneapolis em cerca de 30 minutos por uma tarifa de cerca de US$ 2.
"Quando me mudei aqui para St. Paul, percebemos que morávamos na rota de um novo sistema de VLT e de um grande corredor de ônibus, e não precisávamos mesmo de um veículo", disse Needham. Ele, sua mulher Alyscia, e sua filha de 18 meses já estão sem carro há cerca de um ano.
Needham usa a Linha Verde, de 17 quilômetros, que desde que foi inaugurada, em junho, já atraiu 36 mil passageiros em um dia típico de semana, um número que já está se aproximando dos 41 mil projetados para a linha até 2030, disse Drew Kerr, assessor de imprensa da Metro Transit, a agência de transportes da cidade. A linha custou US$ 957 milhões para ser construída, metade dos quais foram financiados pelo governo federal, disse Kerr.
Passageiros como Needham têm uma boa relação custo-benefício com o transporte público, assim como moradores de muitas outras cidades onde o investimento no transporte está levando a números recordes de passageiros e persuadindo mais pessoas a deixarem os carros em casa, apesar da queda recente nos preços da gasolina.
A Associação Norte-Americana de Transporte Público disse que cerca de 2,7 bilhões de viagens foram feitas nos transportes públicos no terceiro trimestre de 2014 - um aumento de 1,8%, ou cerca de 48 milhões de viagens, em relação ao mesmo período no ano passado --o maior número do terceiro trimestre desde que os registros do grupo começaram em 1974.

Aumento

Entre as cidades que tiveram aumento no número de passageiros estão San Francisco, Chicago e Nova York. Todas reportaram aumentos anuais no número de passageiros tanto no trimestre passado quanto nos primeiros nove meses de 2014.
O aumento nacional, que vem depois da maior alta em 57 anos no número de passageiros durante todo ano de 2013, reflete a melhoria na abrangência, na frequência das viagens e na qualidade do transporte público, e enfraquece a ligação tradicional entre os preços da gasolina e o uso dos transportes, disse Michael Melaniphy, presidente da associação.
Enquanto no passado o crescimento do uso de transportes públicos resultava do aumento nos preços da gasolina, e as pessoas normalmente voltavam a usar carros quando o preço da gasolina recuava novamente, a relação está se desfazendo à medida que os serviços públicos de transporte melhoram, diz Melaniphy.
A prova mais recente da quebra dessa relação é o aumento do número de passageiros numa época em que os preços da gasolina caíram ao nível mais baixo em mais de quatro anos, disse ele. "As pessoas estão dizendo: 'comecei a usar por causa dos preços dos combustíveis; mas continuei por causa da experiência'", disse ele.
Uma vez que 60% das viagens são feitas por pessoas a caminho do trabalho, o aumento do número de passageiros também foi alimentado pelo fortalecimento da recuperação econômica, que gera mais empregos, e pelas melhorias como horários mais frequentes e disponibilidade de aplicativos que oferecem aos usuários atualizações em tempo real sobre os serviços de transporte.
Na Filadélfia, a passageira Kara Sarvey pega o trem para ir de casa, no subúrbio de Conshohocken, até o trabalho, no centro, a 24 quilômetros, e disse que nunca considerou dirigir para o trabalho, embora ela tenha carro.
Sarvey, 26, profissional de marketing de uma editora de livros didáticos médicos disse que pegar o trem operado pela Southeastern Pennsylvania Transportation Authority economiza tanto dinheiro quanto tempo para ela, em comparação a dirigir sozinha em uma rodovia notoriamente congestionada. "Nunca nem pensei em ir de carro para o trabalho", disse ela. "Eu simplesmente não quero ficar no trânsito congestionado todo dia."

Recorde

Em Boston, onde o número de passageiros aumentou para um recorde de 37,2 milhões em outubro, apesar de um aumento de 5% nas passagens três meses antes, o uso de ônibus, trens e metrôs reflete em parte melhorias no sistema existente, em vez de acréscimos, diz Beverly Scott, diretora-executiva da Massachusetts Bay Transportation Authority.
As melhorias, no valor de US$ 1 bilhão ao longo dos últimos dois anos, incluíram a inauguração, em março, do funcionamento durante a madrugada --nas sextas-feiras e sábados--, a reabilitação de algumas estações de trem, e a disponibilidade de passagens móveis que podem ser ativadas através dos celulares dos passageiros, diz Scott.
O uso do transporte está chegando a uma média recorde de 1,4 milhões de viagens por dia, diz ela. O aumento do uso de transporte público também reflete um estilo de vida cada vez mais urbano por parte dos moradores mais jovens que demandam comunidades mais voltadas para os pedestres, bicicletas e transportes públicos, diz Scott.
O aumento do uso dos transportes públicos é um sinal de uma mudança em relação ao estilo de vida dos subúrbios, que caracterizou a geração anterior mas pode não ser compatível com os mais jovens, disse Scott. "Não é sustentável, e as pessoas sabem disso agora", disse ela. "É um retrato do que os EUA eram há 30, 40 anos. Estamos pintando um novo retrato em termos de para onde vamos, e é muito coerente com fornecer um transporte público de qualidade."  
Tradutor: Eloise de Vylder

Via djf224

DUST BOLT - TOXIC ATTACK


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Ao menos 6 governadores eleitos são alvo de pedidos de cassação
Luis Philipe Souza, Carlos Mendes e Carmen Pompeu - OESP
Ao menos seis governadores eleitos em outubro são alvo do Ministério Público Eleitoral em pedidos de cassação de seus mandatos por suspeitas de terem cometido irregularidades. As ações dos procuradores apresentadas à Justiça envolvem Fernando Pimentel (PT), em Minas Gerais; Camilo Santana (PT), no Ceará; Wellington Dias (PT), no Piauí; Simão Jatene (PSDB), no Pará; Ricardo Coutinho (PSB), na Paraíba, e Waldez Góes (PDT), no Amapá.
Todos os pedidos atingem ainda os vice-governadores eleitos.
Em Minas Gerais, o procurador regional eleitoral Patrick Salgado acusa a campanha encabeçada por Pimentel de ter sido "ilicitamente impulsionada por inaceitável abuso de poder econômico". Salgado baseou-se em decisão do próprio Tribunal Regional Eleitoral do Estado, que reprovou as contas de Pimentel e seu vice, Antônio Andrade (PMDB), por considerar que os gastos com a campanha extrapolaram R$ 10,1 milhões o limite de despesas de R$ 42 milhões previsto inicialmente.
Na ação dos promotores cearenses, Camilo Santana (PT) é acusado de utilizar irregularmente recursos públicos do Fundo de Combate à Pobreza para a construção de banheiros quando era secretário no segundo governo de Cid Gomes (PROS). O procurador Rômulo Conrado questiona também recursos de convênios estaduais repassados a municípios.
No Pará, o governador reeleito Simão Jatene (PSDB) e seu vice, Zequinha Marinho (PSC), têm três pedidos de cassação de mandato. Eles respondem por gastos excessivos com a Secretaria de Comunicação da atual gestão, por demissões no Hospital Ophir Loyola em período vedado por lei e por irregularidades no Cheque Moradia. A ação da Procuradoria Regional Eleitoral afirma que os candidatos exerceram influência nas eleições com entrega do benefício em troca de votos.
O Ministério Público Eleitoral do Piauí entrou com 10 ações, dentre elas a que pede a cassação do mandato do governador eleito, Wellington Dias (PT), e da vice, Margarete Coelho (PP). De acordo com o procurador regional eleitoral Kelston Lages, a ação descreve abuso de poder econômico e compra de votos. Em setembro deste ano, Polícia Rodoviária Federal em Barreiras, na Bahia, apreendeu R$ 180 mil em espécie sob os cuidados de um dos assessores de Dias.
Na Paraíba, o governador reeleito Ricardo Coutinho (PSB) foi notificado por nove ações de investigação judicial eleitoral na Justiça Eleitoral. Em uma delas, o procurador Rodolfo Alves, que também pediu a cassação da vice Lígia Feliciano (PDT), propõe que a servidora Francisca de Lucena Henriques teria "conclamado prestadores de serviços a apoiarem a reeleição para garantir manutenção de empregos", além de citar irregularidades em distribuição de kit escolar no Estado.
No Amapá , uma das ações movidas pela Procuradoria Regional Eleitoral contra o governador eleito Waldez Góes (PDT) é por uso indevido dos meios de comunicação durante a campanha eleitoral. O grupo Beija-Flor de rádio e televisão, pertencente à família do ex-senador Gilvan Borges (PMDB), teria direcionado, segundo o texto, a programação de suas 16 emissoras de rádio e duas de televisão a favor do candidato com manifestações explícitas de apoio.
As ações de investigação judicial eleitoral podem resultar na cassação do registro ou diploma e na inelegibilidade dos candidatos eleitos. 
(Colaboraram Janaína Araújo, Luciano Coelho, Marcelo Portela). 
Medindo forças 
Merval Pereira - O Globo
 Ninguém pode classificar o anunciado futuro ministro da Fazenda Joaquim Levy de ingênuo ou inexperiente na área pública. Antes de ser secretário da Fazenda do Estado do Rio já fora Secretário do Tesouro do primeiro governo Lula e, portanto, sabe perfeitamente a que estará sujeito no exercício de sua nova função.
A entrevista que concedeu a Claudia Safatle, do jornal Valor Econômico, onde defende medidas polêmicas para os petistas como o fim da dualidade entre juros do setor público e do privado, e a terceirização de mão de obra, portanto, não pode ser atribuída a um descuido. Tanto que antes mesmo de assumir já conseguiu que a TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo) que remunera os empréstimos do BNDES fosse aumentada.
Também as críticas que recebeu imediatamente de setores petistas, os mesmos que o perseguiram quando trabalhava na equipe do ministro Antonio Palocci, não devem ter sido surpresa para ele. O que estamos vendo é, mesmo antes de tomar posse, a disputa de posições entre o futuro ministro da Fazenda e setores do governo que não aceitam as medidas de controle de gastos e reequilíbrio fiscal anunciadas, ou presumidas pelo estilo fiscalista bastante conhecido do escolhido pela presidente Dilma para conduzir o “cavalo de pau” que terá que ser dado para que a economia recupere sua capacidade de crescimento.
O mais provável é que Levy tenha dado a entrevista justamente para testar as reações e balizar sua atuação. Ele deu um recado claro quando falou sobre a necessidade de firmeza do governo com a nova política econômica: “Acredito que os fatos devem mostrar a disciplina. Há bastante harmonia entre o que a equipe econômica vem falando. A própria presidente acenou com a abertura de capital da Caixa, o que tende a mudar a dinâmica de governança da instituição e, provavelmente, até alguns aspectos do seu posicionamento estratégico”.
Ontem mesmo mais um passo na direção do enxugamento dos gastos foi dado com o anúncio de mudanças em questões sensíveis aos sindicalistas. A presidente Dilma Rousseff encaminhará ao Congresso uma Medida Provisória (MP), que entra em vigor imediatamente, com ajustes nas despesas do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e da Previdência Social. O aumento do controle atinge o abono salarial, o seguro desemprego, o seguro desemprego dos pescadores artesanais, a pensão por morte e o auxilio doença.
O governo estima uma economia de R$ 18 bilhões ao ano a partir de 2015. Exemplos das mudanças são os aumentos de carência para o recebimento do abono salarial e do seguro desemprego, que quase dobrou seu custo apesar do quadro de pleno emprego. Decisões que, se tomadas por um presidente eleito pela oposição, já estariam colocando nas ruas milhares de sindicalistas.
Joaquim Levy falou, por exemplo, na legislação sobre a terceirização de mão de obra que está no Congresso sem mesmo ter sido perguntado, ressaltando que, se aprovada, ela ajudará a fortalecer o mercado de trabalho que, para ele, teve formalização crescente graças à abertura econômica dos últimos 15 anos, com facilidades de investimento externo.
É justamente o inverso do que pensam os sindicalistas. O secretário sindical nacional sobre o tema. do PT, Angelo D’Agostini reagiu imediatamente, chamando de “equivocada” sua posição. Na entrevista a Claudia Safatle, o futuro ministro Joaquim Levy não poupou críticas à atual política econômica, afirmando, por exemplo, que a contenção do custo da energia obrigou o Tesouro a assumir “responsabilidades totalmente desproporcionais à sua capacidade”, provocando, em consequência, “deterioração das contas públicas”.
As posições estão tomadas. Resta saber agora o quanto de respaldo político Joaquim Levy terá para levar adiante seu programa econômico, que não pode ser seu e sim do governo. Todas as críticas petistas até o momento ressaltam justamente isso: o programa não é pessoal, mas coletivo do governo, e nele a palavra final não pode ser de Levy.
Sem novidades
A nova safra de ministros anunciada ontem pelo Palácio do Planalto não traz novidades, mas confirma a decisão da presidente Dilma de montar uma equipe a seu gosto, fortalecendo a ala da Democracia Socialista em detrimento da majoritária Construindo um Novo Brasil, de Lula e José Dirceu.
Com a indecisão dos partidos aliados sobre o ministério da Previdência, Dilma pôde nomear um nome técnico que a agrada, inclusive no plano pessoal: é na garupa de Carlos Gabas que a presidente dá seus passeios de motocicleta pelas noites brasilienses.

O tamanho do desastre fiscal
O Estado de S.Paulo
As contas públicas registraram em novembro um recorde que simboliza a política fiscal do primeiro governo de Dilma Rousseff, e da qual não há motivos para se orgulhar. O Tesouro Nacional teve déficit primário de R$ 6,7 bilhões, o pior resultado para o mês de novembro, e, no acumulado dos 11 primeiros meses de 2014, de R$ 18,3 bilhões. O resultado do período janeiro-novembro é R$ 80,8 bilhões pior do que o período correspondente de 2013. Esse valor dá a dimensão financeira da deterioração da política de gestão do dinheiro público no ano em que a presidente Dilma Rousseff, como havia anunciado antecipadamente, poderia "fazer o diabo" para assegurar sua reeleição. Não há dúvidas de que, na área fiscal, fez.
Como consequência do péssimo desempenho financeiro do governo federal, as contas de todo o setor público consolidado - que incluem os resultados dos Estados, dos municípios e das estatais e são calculadas pelo Banco Central por metodologia diferente da utilizada pelo Tesouro - igualmente registraram o pior desempenho para novembro desde o início da série histórica, em dezembro de 2001.
No resultado consolidado, o setor público registrou em novembro déficit primário de R$ 8,1 bilhões, dos quais o governo central foi responsável por 83%. Nos 11 primeiros meses do ano, o setor público acumulou déficit primário de R$ 19,6 bilhões. Nesse caso, a deterioração entre 2013 e 2014 é de R$ 100,5 bilhões, pois nos primeiros 11 meses do terceiro ano da gestão de Dilma o setor público acumulou superávit primário de R$ 80,9 bilhões.
O governo Dilma conseguiu destroçar o conceito de superávit primário, transformando-o numa ficção contábil. Esse superávit dimensiona o esforço financeiro das autoridades para honrar os compromissos gerados pela dívida pública. Para dar credibilidade à política fiscal e transmitir aos agentes econômicos a confiança necessária para fazer planejamento de longo prazo, o governo federal vinha se comprometendo a alcançar determinado superávit.
Desde 2012, no entanto, as metas prometidas pelo governo federal antes do início de cada exercício não vêm sendo cumpridas. Em 2014, o desrespeito foi completo. A meta era de um superávit primário de R$ 99 bilhões, ou 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB).
Já há algum tempo o governo Dilma tem utilizado brechas legais para não cumprir a meta - descontando das contas, entre outros gastos, parte dos investimentos no Programa de Aceleração de Crescimento (PAC). Valeu-se também, e com grande constância, de manobras contábeis que, embora não ilegais, distorceram os demonstrativos financeiros, como a antecipação de receitas não tributárias (dividendos de estatais, pagamento de concessões) e adiamento do registro de determinadas despesas.
Nem assim, porém, conseguiu melhorar suas demonstrações financeiras. Os resultados acumulados até novembro, tanto no relatório do Tesouro como nas contas do Banco Central, mostram que só com um superávit muito grande em dezembro o resultado primário de 2014 será positivo - ainda assim, muito inferior ao prometido. Não haverá nenhuma punição, pois o governo conseguiu aprovar no Congresso, depois de muita pressão, mudanças na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) que, na prática, extinguem a exigência de cumprimento de metas fiscais.
O conceito de resultado primário ganhou importância no Brasil porque, tradicionalmente, o setor público registra um déficit nominal elevado. O que o governo Dilma conseguiu, porém, foi tornar ainda pior um resultado já ruim. Nos 11 primeiros meses de 2014, o setor público acumulou um déficit nominal de R$ 283,8 bilhões (97% maior do que o do período janeiro-novembro de 2013) e, nos 12 meses até novembro, de R$% 297,4 bilhões, o que corresponde a 5,82% do PIB.
O governo até pode alegar que é resultado comparável ao previsto para os Estados Unidos, mas o déficit americano vem sendo reduzido de maneira sistemática há anos. Além disso, o déficit brasileiro é mais do dobro do previsto para os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de 2,5%.
Já vi esse filme. No fim, o bandido ganha 
RICARDO NOBLAT -O GLOBO 
A campanha da presidente Dilma, ela mesma, Lula e boa parte do PT debocharam do que disse a candidata Marina Silva (PSB) sobre como montaria seu governo caso se elegesse.
Marina afirmou que simplesmente governaria com os melhores elementos de cada partido sem discriminar nenhum partido.
É uma boba, garantiram alguns. Uma sonhadora, acusaram outros. Governar com os melhores é impossível, apenas isso.
Ou Marina dominava uma receita que só ela conhecia ou então se pautaria pelo bom senso. E o bom senso lhe aconselhava a procurar gente decente, comprometida com a ética e talentosa para ocupar cargos do primeiro e do segundo escalão da República.
E se essa gente fosse incapaz de lhe garantir a maioria dos votos no Congresso? E se por causa disso o governo capengasse?
Marina confiava que não passaria sufoco porque, em primeiro lugar, governaria apenas por quatro anos. Descartara a reeleição.
O que a seu ver seria o bastante para apaziguar os ânimos no Congresso e refrear as ambições, por suposto.
Segundo porque governaria com transparência, prestando contas aos eleitores de todos os seus passos e discutindo com eles suas dificuldades.
Fernando Collor se elegeu presidente em 1989 sem maioria no Congresso. Quis cooptar o PSDB e não conseguiu.
Chamou de “único tiro” contra a inflação o plano econômico que garfou a poupança dos brasileiros.
Por mais estúpido que tenha sido o plano, o Congresso não se negou a aprová-lo. Caso desse certo, o Congresso ficaria bem na foto. Se desse errado, o presidente é que ficaria mal.
Não foi por falta de apoio do Congresso que Collor acabou deposto. Foi por falta de apoio popular.
O Congresso é sensível ao sentimento das ruas. E todo presidente, a princípio, se beneficia de um período de lua de mel com a opinião pública.
Até que o período se esgote, ele pode se comportar com um grau de liberdade que mais tarde se estreitará. A não ser que o sucesso bata à sua porta.
Ninguém mais do que Lula reuniu condições para governar sem ser obrigado a fazer concessões que por fim o apequenassem, e ao seu partido.
Foi o primeiro nordestino ex-pau de arara, ex-líder sindical, ex-preso político a subir a rampa do Palácio do Planalto.
Ocupou o principal gabinete do terceiro andar com crédito para gastar por muito tempo. Encrencou-se porque piscou primeiro.
Sob pressão para lotear o governo como seus antecessores haviam feito por hábito ou necessidade, Lula subestimou o apoio das ruas.
Preferiu apostar no apoio do Congresso. Logo ele, que no final dos anos 80 do século passado, enxergara ali pelo menos 300 picaretas.
Foi atrás dos picaretas. Beijou a cruz – e de quebra a mão de Jáder Barbalho. O mensalão quase o derrubou.
Dilma atravessou a metade do seu primeiro governo resistindo à ideia de ceder ao “pragmatismo político”.
Em conversa, certo dia, com um amigo, ouviu dele: “Tirando três ou quatro, só tem desonesto no Congresso”. Ela respondeu: “E eu não sei?”
Para se reeleger, cedeu ao apetite dos desonestos. Beijou a cruz. E de quebra a mão de Helder Barbalho, filho de Jáder, seu futuro ministro da Pesca.
Foi medíocre o primeiro ministério de Dilma O governo que resultou disso foi naturalmente medíocre.
Pois bem: ela está perto de cometer o prodígio de montar outro ministério igual ou talvez pior.
O que a diferenciava dos políticos a quem tanto desprezava é, hoje, o que a torna cada vez mais parecida com eles.
Feliz Ano Novo para todos!
A poética da corrupção
Arnaldo Jabor - OESP
Com a corrupção a carne apodrece, a fruta definha e o alimento se espedaça em nossas mãos.
A corrupção enfeia nossos corpos e apaga a luz que brilharia em nossas almas, com a corrupção ninguém faz uma casa de boas pedras, com a corrupção ninguém pinta um paraíso no muro de uma igreja, nenhuma pintura será feita para durar nem para brilhar diante de nossos olhos, com a corrupção seu pão cada vez mais será de farrapos dormidos, seu pão será seco como papel sem trigo da montanha e sem nutritiva farinha, com a corrupção ninguém encontra um bom sítio para fazer sua casa, os tecelões são afastados de seus teares, a corrupção embota a agulha nas mãos das donzelas e desbota a graça dos tecidos, Dante não nasceu da corrupção, nem Piero della Francesca, nem Giotto, a corrupção enferruja o cinzel do escultor e as estatuas não se erguem, o azul vira um câncer na corrupção e não se bordam de ouro as vestes púrpuras, a corrupção apunhala a criança no ventre e a esmeralda não será lapidada e mata o prazer dos jovens amantes deitando entre seus corpos paralisados na cama, cadáveres sentarão na mesa dos banquetes sob as ordens da corrupção, a corrupção é obesa, a corrupção cria esposas desprezadas se consumindo e amantes cobertas de pérolas e juras de amor, a corrupção cria súbita dignidade em tribunais, cria ladrões de olhos em brasa, dedos espetados, uivos de falsas virtudes, negando os contratos de gaveta, os recibos falsos, os laranjas desdentados nas portas de empresas inexistentes. A corrupção provoca brados de honradez, socos nas mesas, babas indignadas nas negações em tribunais, hipócritas lágrimas de esguicho, punhos batidos no peito e clamores a Deus. A corrupção se sente superior à ridícula moralidade de classe media. A corrupção tem uma única vontade: vingar-se de inimigos, cobrar lealdade dos seguidores, exigir pagamentos de propina em dia.
A corrupção cria firmas sem dono, sem obras, vagando num deserto jurídico e contábil que leva ao caos proposital, a corrupção aumenta a amizade entre as famílias de safados, cria os cálidos abraços, os sussurros de segredo nos cantos das varandas, o piscar de olhos matreiros, as cotoveladas cúmplices, os charutos comemorativos, vastos jantares repletos de moquecas e gargalhadas, piadas, dichotes, sacanagens jucundas.
A corrupção valoriza a norma castiça da língua, palavras que dormem em estado de dicionário. A corrupção traz de volta interjeições e adjetivos raros: "ilibado", "despautério", "infâmias", "aleivosias"... A corrupção é o paraíso dos advogados, com ternos brilhantes, sisudos semblantes, liminares na cinta, serenidade cafajeste, 'chicanas' decoradas, diplomas comprados.
Com a corrupção, malas pretas voam em todas as direções, os dólares flutuam nos céus estrelados, as luas são sempre minguantes, os rostos nunca mostram o que pensam, as gargalhadas soam como latidos, as bocas salivam, os punhais saem das bainhas, os carros atropelam, as finas cordas apertam os pescoços, os assassinos se fartam, os olhos do povo olham impotentes. A corrupção confunde, é um labirinto, uma grande aranha em sua teia, a corrupção cria firmas em sanfona, uma dentro da outra, subsidiárias sem obras, vagando num labirinto jurídico e contábil que leva a um caos indecifrável, pois o emaranhado de roubalheiras dificulta apurações. No imaginário brasileiro, a corrupção tem uma aura heroica. São heranças da colônia, quando era belo roubar a Coroa. A corrupção é a mola mestra do atraso. A corrupção mostra que os lírios que apodrecem fedem mais que as ervas daninhas (Shakespeare). A corrupção desenha as caras deformadas de políticos, as barrigas, a gomalina dos cabelos, a boçalidade dos discursos, tudo compondo um estafermo fabricado com detritos de vergonhas passadas, cérebros encolhidos, olhos baços, irresponsabilidades fiscais, municípios apodrecidos, decapitações, ônibus em fogo. A corrupção escolhe seus peões entre os mais espertos dentre os mais rombudos e boçais. A corrupção transforma a estupidez em uma estranha forma de inteligência, uma rara esperteza para golpes sujos e sacos-puxados. A corrupção é fabricada entre angus e feijoadas do interior, em favores de prefeituras, em pequenos furtos municipais, em conluios perdidos nos grandes sertões. A corrupção é a torta escultura feita de palha e barro, de gorjetas, de sobras de campanha, de canjica de aniversários e água benta de batismos. A corrupção explica o País, pois tem raízes e tradição: avô ladrão, bisavô negreiro e tataravô degredado. A corrupção durante quatro séculos criou capitanias, igrejas, congressos, golpes e tomadas de poder. A corrupção tem um vago sentimento de poesia brasileira. A corrupção para muitos se julga revolucionária, roubando para um futuro imaginário e mentiroso, para enganar otários cheios de esperança. A corrupção é um rabo de lagarto que sempre se recompõe, renasce quando cortado.
A corrupção cria, esculpe, organiza as imposturas, as perfídias, os sepulcros caiados, os beijos de Judas, os abraços de tamanduá, as lágrimas de crocodilo.
(*) Com gratidão a Ezra Pound por seu Canto XLV - A Usura.

Um ministério à feição de mensalões e petrolões
Escândalos que arranham o lulopetismo desde 2005 não impedem Dilma de fazer escolhas com base no fisiologismo, raiz de casos de corrupção
O Globo 
Talvez a peculiaridade das eleições de 2014 que mais chame a atenção seja o fato de o candidato derrotado, o tucano Aécio Neves, ter saído das urnas revigorado, enquanto Dilma Rousseff, reeleita, amargue uma série de dissabores.
Parte deles tem a ver com a estratégia de campanha da petista, assentada num discurso de negação de qualquer dificuldade na economia e de crítica cerrada a mudanças que, encerrado o pleito, ela teria de admitir. Mesmo dentro do seu partido há quem se sinta vítima de estelionato eleitoral.
Uma outra peculiaridade ainda está em curso. Trata-se da montagem do ministério para o segundo mandato, em que velhos erros são cometidos, num temerário repeteco das fórmulas fisiológicas do toma lá dá cá, origem dos escândalos que arranham o lulopetismo desde 2005, quando o mensalão foi descoberto. O loteamento de cargos na diretoria da Petrobras, com fins político-eleitorais, é que produziu o maior escândalo da histórias do país, ainda em investigação.
A barganha da cessão de orçamentos ministeriais em troca de votos no Congresso, sabem todos, é a antessala de deslizes éticos e/ou ineficiência administrativa. Planta-se hoje a CPI e o escândalo de amanhã.
É preocupante, por exemplo, escalar um dos Gomes do Ceará, Cid (PROS), para o MEC, sem que se conheça qualquer especialização do governador na área crítica da Educação, bem como o deputado pelo PRB e pastor da Universal George Hilton para o Ministério dos Esportes, enquanto se entra na fase final dos preparativos das Olimpíadas no Rio. Além de o futebol se encontrar em meio a importante debate sobre a renegociação do passivo tributário dos clubes, em troca da sua modernização gerencial.
Como o objetivo prioritário é manter no cabresto apoios no Legislativo, transfere-se Aldo Rebelo (PCdoB) dos Esportes para Ciência e Tecnologia. Nos Esportes, o ministro tratou do futebol com a devida prioridade e desativou a usina de malfeitorias de camaradas tripulantes de ONGs fajutas ou quase. Com a nova área, Rebelo não demonstra afinidades. Quando não defende teses equivocadas: em 1994, propôs projeto de lei para impedir a adoção, pelos órgãos públicos, de tecnologias que poupem mão de obra. Fez lembrar a inglória luta de operários ingleses contra as máquinas, na Revolução Industrial.
Se o objetivo fosse montar uma equipe à altura da agenda de problemas, não faria também sentido empregar derrotados de 2014: Helder Barbalho (PMDB do Pará, filho do cacique ficha suja Jader) e Eduardo Braga ( PMDB-AM), próximos ministros da Pesca e de Minas e Energia. Num ministério de 39 Pastas, a possibilidade de se cometer erros é imensa. E eles estão sendo cometidos.
A presidente Dilma fez autocrítica na condução da economia. Faltou admitir equívocos na gestão política e administrativa do restante do seu primeiro mandato.