quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

ALFRED DE MUSSET (1810/1857)

TRISTESSE (fragments) J'ai perdu ma force et ma vie, Et mes amis et ma gaité; J'ai perdu jusqu'à la fierté Qui faisait croire à mon génie. TRISTEZA (fragmentos) Perdi a força e minha vida, Os meus amigos e a alegria; Perdi até a parceria Que com meu gênio é dividida.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

FEDERICO GARCIA LORCA

Eu a vi passar por meus jardins quando a aminha alma era luz da luz. Eu a vi mirar o berço onde a Luxúria morde as crinas. Eu a vi rezar na penumbra no altar dos sacros martírios, azul e pálida como os lírio, com a luz de meu peito que a ilumina. Nunca mais a vereis, pois minha alma já entrou no reino do prazer sombrio, jardim sem lua, sem paixão, sem flores. Murchou a flor; e acalmou-se minha ilusão. Já longínquo o vozerio, o coração penetrou nas dores.

EMILY DICKINSON

Para se ter uma campina é preciso um trevo e uma abelha. Um trevo, uma abelha e fantasia. Mas, em se faltando abelhas, basta a fantasia.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

LORD BYRON, SEMPRE.

ESTÂNCIAS PARA A MÚSICA Alegria não há que o mundo dê, como a que tira. quando, do pensamento de antes, a paixão expira Na triste decadência do sentir; Não é na jovem face apenas o rubor Que esmaia rápido, porém do pensamento a flor Vai-se ante do que a própria juventude possa ir. alguns cuja bóia no naufrágio da ventura Aos escolhos da culpa ou mar do excesso são levados; O imã da rota foi-se, ou só e em vão aponta a obscura Praia que nunca atingirão os panos lacerados. Então, o frio mortal da alma, como a noite desce; Não sente a dor de outrem, nem a sua ousa sonhar; Toda a fonte do pranto, o frio a veio enregelar; Brilham ainda os olhos: é o gelo que aparece. Dos lábios flutua o espírito, e a alegria o peito invada, Na meia-noite já sem esperança de repouso: É como a hera em torno de uma torre já arruinada, Verde por fora, e fresca, mas por baixo cinza anoso. Pudesse eu me sentir ou ser como em horas passadas, Ou como outrora sobre cenas idas chorar tanto; Parecem doces no deserto as fontes, se salgadas: No ermo da vida assim seria para mim o pranto.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Na solidão o meu desespero inconsolado explode. Remexendo nos meus arquivos encontrei os recadinhos que tu me enviaste. Deus! como tenho saudade tua! Quantas palavras amorosas chego a pensar que, um dia chegaste realmente a me amar. Hoje, agonizo tal como as raízes secas do poema de Eliot. Acredito que a causa dessa terrível agonia é ter amado, quanto amar se pode sem ter amado quanto amar devia.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

ALPHONSUS DE GUIMARAENS

"Como se moço e não bem velho eu fosse Uma nova ilusão veio animar-me: Na minh'alma floriu um novo carme, O meu ser para o céu alcandorou-se. Ouvi gritos em mim como um alarme, E o meu olhar, outrora suave e doce, Nas ânsias de escalar o azul, tornou-se Todo em raios que vinham desolar-me. Vi-me no cimo eterno da montanha, Tentando unir ao peito a luz dos círios Que brilhavam na paz da noite estranha. Acordei do áureo sonho em sobressalto: Do céu tombei ao caos dos meus martírios, Sem saber para que subi tão alto..." Qualquer semelhança é mera coincidência...

NELSON RODRIGUES

"Quando o sujeito é uma besta e não é capaz de fazer nada, faz filhos." C R U E L !
"E aos astros de tal modo o Poeta ascende em calma, Que o céu fica menor do que o azul da sua alma, E nem cabe no céu a luz do seu olhar..." A.G.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

FERREIRA GULLAR

O AÇÚCAR O branco açúcar que adoçará meu café nesta manhã de Ipanema não foi produzido por mim nem surgiu dentro do açucareiro por milagre. Vejo-o puro e afável ao paladar como beijo de moça, água na pele, flor que se dissolve na boca. Mas este açúcar não foi feito por mim. Este açúcar veio da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia. Este açúcar veio de uma usina de açúcar em Pernambuco ou no Estado do Rio e tampouco o fez o dono da usina. Este açúcar era cana e veio de canaviais extensos que não nascem por acaso no regaço do vale. Em lugares distantes, onde não há hospital nem escola homens que não sabem ler e morrem aos vinte e sete anos plantam e colhem a cana que viraria açúcar. Em usinas escuras homens de vida amarga e dura produziram este açúcar branco e puro com que adoço meu café esta manhã em Ipanema. Este poema é uma das pérolas do mar de pérolas compostas por esse autor.

domingo, 18 de janeiro de 2009

e. e. cummings

possa meu peito sempre abrir-se aos pássaros pequenos segredos da vida a cada passo cantem lá o que for é melhor que saber e quem não os ouve já se pôs a envelhecer possa minha mente vagar com fome e sem medo e sedenta e conforme e mesmo domingo que eu possa esmorecer pois quem tudo acerta jovem já deixou de ser e possa eu mesmo fazer nada utilmente e amar-te a ti tão mais que veramente pois tal tolo nunca houve que incapaz disto: pôr todo o céu nas costas com um só riso

e. e. cummings

Se você não pode comer você tem que fumar e a gente não não tem nada que fumar: deixa disso rapaz melhor dormir se você não pode fumar você tem que Cantar e a gente não tem nada que cantar;deixa disso rapaz melhor dormir se você não pode cantar você tem que morrer e a gente não tem Nada que morrer;deixa disso rapaz melhor dormir se você não pode morrer você tem que sonhar e a gente não tem nada que sonhar(deixa disso rapaz Melhor dormir) Não, o Paulo não ficou louco e errou na pontuação. O poeta escrevia assim. Vivendo e aprendendo, pois.

BRUNO TOLENTINO

O amor maldito é a interrupção do perecível, puros parênteses no curso natural, seara fora dos limites do real, tudo segundo o interminável, o impossível. Se o amor é o eco no mistério do invisível, o amor sem fruto, o amor de estátua, é musical como o acorde perdido nas folhagens de um mal: o mal de amor no bosque branco indefinível... Os teus dois colibris de nácar, esculpidos como a dor faz a pérola, no fundo de um abismo, caíram presos pela luz entre os sentidos, e em tuas teias musicais de ilusionismo foram ficando assim, Alexandria, unidos como as estátuas ao seu belo imobilismo.

CECÍLIA MEIRELES

SEREIA Linda é a mulher e o seu canto, ambos guardados no luar. Seus olhos doces de pranto - quem os pudera enxugar devagarinho com a boca, ai! com a boca, devagarinho... Na sua voz transparente giram sonhos de cristal. Nem ar nem onda corrente possuem suspiro igual, nem os búzios nem as violas, ai! nem as violas e os búzios... Tudo pudesse a beleza, e, de encoberto país, viria alguém, com certeza, para fazê-la feliz, contemplando-lhe alma e corpo, ai! alma e corpo contemplando-lhe... Mas o mundo está dormindo em travesseiros de luar. A mulher do canto lindo ajuda o mundo a sonhar, com o canto que a vai matando, ai! E morrerá de cantar.

sábado, 17 de janeiro de 2009

CECÍLIA MEIRELES

EPIGRAMA Nº5 Gosto da gota d'água que se equilibra na folha rasa, tremendo ao vento. Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra: e ela resiste ao isolamento. Seu cristal simples reprime a forma, no instante incerto: pronto a cair, pronto a ficar - límpido e exato. E a folha é um pequeno deserto para a imensidade do ato.

CECÍLIA MEIRELES

EPIGRAMA Nº 4 O choro vem perto dos olhos para que a dor transborde e caia. O choro vem quase chorando como a onda que toca na praia. Descem dos céus ordens augustas e o mar chama a onda para o centro. O choro foge sem vestígios, mas levando NÁUFRAGOS dentro.

AS SEM RAZÕES DO AMOR

Eu te amo porque te amo. Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo. Eu te amo porque te amo. Amor é um estado de graça e com amor não se paga. O amor é dado de graça, é semeado ao vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários. Eu te amo porque não amo bastante ou demais a mim. Porque amor não se troca, não se conjuga nem se ama. Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo. Amor é primo da morte e da morte vencedor, por mais que o matem (e matam) a cada instante o amor. Na minha modesta opinião, este é um dos mais belos poemas de Carlos Drummond de Andrade, feito já na época da sua maturidade. O livro Corpo é de 1984.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

MANUEL BANDEIRA

TU QUE ME DESTE O O TEU CUIDADO... Tu que me deste o teu carinho e que me deste o teu cuidado, Acolhe ao peito, como o ninho Acolhe o pássaro cansado, O meu desejo incontentado. Há longos anos ele arqueja Em aflitiva escuridão. Sê compreensiva e benfazeja. Dá-lhe o melhor que ele deseja: - Teu grave e meigo coração. Sê compassiva. Se algum dia Te vier do pobre agravo e mágoa, Atende à sua dor sombria: Perdoa o mau que desvairia E traz os olhos rasos de água. Não te retires ofendida. Pensa que nesse grito vem O mal de toda a minha vida: Ternura inquieta e malferida Que, antes, não dei nunca a ninguém. E foi melhor nunca ter dado: Em te pungindo algum espinho, Cinge-a ao teu seio angustiado. E sentirás o meu carinho. E sentirás o meu cuidado.

CESAR VALLEJO - fragmento

Lua! à força de voar e sempre em vão, em opalas dispersas te holocaustas: tu és talvez meu coração cigano que vaga pelo azul chorando versos.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

DIDO & ENÉAS

DEPOIS QUE A EXTRAORDINÁRIA DIDO FUNDOU CARTAGO SE UTILIZANDO DE TIRAS DE COURO DE BOI; ENFRENTADO INIMIGOS; TER HOSPEDADO ENÉAS (QUE FUGIA DA DESTRUIÇÃO DE TRÓIA); TER UM TÓRRIDO ROMANCE COM ELE; E ELE TÊ-LA ABANDONADO (ATÉ O SEU GRANDE AMOR, PARA FUNDAR ROMA); RESTAVA A ESSA MARAVILHOSA RAINHA A SOLIDÃO/NUM CASAMENTO FORÇADO OU ENTÃO MANDAR CONSTRUIR UMA PIRA E COMETER SUICÍDIO. PREFERIU O SUICÍDIO.

LEMINSKI

ALGO EM MIM SE ESVAI COISA QUE ESCOA SERIA A ÁGUA DA VIDA SERIA OUTRA COISA BOA TÃO BOA QUE NÃO TEM VIDA EM QUE ESTA VIDA NÃO DOA.... HORA QUE A VOZ DO AMOR COMO A VOZ DO AMOR NÃO ECOA...