sexta-feira, 4 de julho de 2014

Oligarquias locais e eleições presidenciais 
Partidos põem poder dos antigos "mandões" em xeque
VITOR PEIXOTO - VE 
Nas eleições de 1989, houve quem contasse os apoios dos prefeitos aos candidatos às eleições presidenciais como forma de mensurar o poder de cada qual. Os municípios brasileiros, principalmente os menores, mais pobres e localizados no Norte e Nordeste, eram ainda interpretados como locais de fragilidade do sistema partidário e propício à reprodução dos desmandos dos "coronéis", tais quais eternizados por Victor Nunes Leal na obra "Coronelismo, Enxada e Voto". O interior brasileiro foi tomado pelos analistas políticos como terras férteis para os "mandões" exercerem seus desígnios sem limites na ausência completa de competição e dominarem os votos advindos destas localidades, normalmente denominada por "grotões eleitorais". 
O país está prestes a comemorar três décadas do processo democrático legislativo que culminou na Constituição de 1988. Podemos pensar que este poder ainda existe? Qual seria a influência dos prefeitos nas eleições presidenciais? Na perspectiva histórica, 30 anos podem parecer um período relativamente curto. Entretanto, intensas transformações marcaram profundamente as estruturas sociais, políticas e econômicas brasileiras. A descentralização político-administrativa, sem sombra de dúvidas, é uma das principais marcas desse período. O incremento da autonomia das unidades locais foi seguido de uma intensa e abrupta criação de unidades administrativas municipais. Entre 1988 e 2001, foram criados nada menos do que 1.439 novos municípios - ou aproximadamente duas unidades a cada semana! 
Se por um lado, a criação de municípios causa preocupação dadas as dificuldades de sustentabilidade econômico-fiscal, por outro, é inegável que aumentou a representatividade do sistema político no nível local. Este último ponto pode parecer um tanto duvidoso. No entanto, caso se leve em conta que o aumento do número de vereadores tornou cidadãos de longínquas localidades mais próximos de seus representantes, salta aos olhos o argumento tão propalado pela literatura que defende esta proximidade como uma forma de incrementar os sistemas de controle (accountability). 
Outro aspecto positivo diz respeito exatamente à "desoligarquização" dos sistemas políticos locais, posto que a competição eleitoral aumenta gradativamente por todo o território brasileiro. A perda do monopólio do poder municipal é sentida em todas as regiões do país, assim como em municípios de todos os tamanhos. Ainda que se possa afirmar que a simples multiplicação de partidos não significa necessariamente a diversos grupos competindo, dado que um ou poucos grupos podem dominar as diferentes legendas (e isto realmente ocorre com certa frequência), não se pode negligenciar que a existência de instituições partidárias formais influenciam sobremaneira na estabilidade dos acordos entre as lideranças. Dito de outra forma, é fato que um político local pode controlar vários partidos, mas o seu domínio estará muito mais suscetível a defecções em sistemas que haja saídas institucionais para os que não cooperarem. Portanto, a simples existência de partidos organizados localmente colocam o poder dos antigos "mandões" em xeque. 
Há diversas formas de se mensurar a competitividade dos sistemas políticos, dos mais simples aos mais complexos indicadores, e em todos eles os sistemas políticos locais apresentam maior competitividade. Destarte, há uma enorme proliferação de partidos políticos no nível municipal nas últimas duas décadas, cresce em todas as regiões e em todos os tamanhos de municípios. Há, portanto, uma enorme competitividade institucional partidária nos municípios brasileiros. Ainda que estes partidos possam ser considerados "legendas de aluguel" pelos mais pessimistas, representam importante avanço na quebra do monopólio oligárquico no Brasil, o que possibilita que novos grupos políticos possam surgir e se institucionalizar em sistemas muito fechados até bem recentemente. 
Em resumo, podemos afirmar que do início da década de 1990 até hoje a política municipal sofreu grandes alterações: 
1) Aumentou significativamente o número de competidores nos municípios pela nacionalização do sistema partidário, principalmente, nas eleições proporcionais (para vereadores);
2) O fator institucional (sistema eleitoral majoritário) é o maior limitador da competição eleitoral para prefeitos, no que concerne ao número de competidores, muito maior do que fatores socioeconômicos dos municípios, esta conclusão baseia-se na comparação entre as variações da competitividade dos sistemas eleitorais - majoritário e proporcional, muito maior neste último em todos os municípios.
3) Nas eleições proporcionais, a competição, menos restringida pela variável institucional, está associada a fatores econômicos tais como industrialização, taxa de analfabetismo, PIB, profissionalização da administração municipal e estrutura de comunicação.
4) Diante de pulverização da competição, o domínio dos prefeitos sobre os eleitores vê-se diminuído dado os riscos de concentrar recursos nas eleições nacionais e perder o apoio ao próprio grupo nas eleições seguintes.
Destarte, ainda que haja diversas formas de se mensurar a competitividade dos sistemas políticos, dos mais simples aos mais complexos indicadores, em todos eles os sistemas políticos locais apresentam maior competitividade hoje do que há 25 anos. E uma evidência cabal desse processo é o fato que, nas eleições de 2006 e 2010, os candidatos do PT e PSDB tiveram em média menos (ou igual) votos nos municípios em que administravam a prefeitura do que nas administradas por seus adversários. Compreender o Brasil de hoje é uma tarefa impossível sem analisar a política local, ainda que seja para afirmar que ela pouco trará influência nas eleições presidenciais. 
Magros resultados da distribuição da riqueza 
Concentração de renda no Brasil é a mesma de 1960 
CLAUDIA SAFATLE - VE
Há algo de muito errado no gasto público do país. Com uma carga tributária de 36% do PIB, o índice de Gini, que mede o grau de concentração da renda, é hoje de 0,53, o mesmo o nível de desigualdade que havia no Brasil em 1960, quando a carga tributária era de apenas 17% do PIB.
Ao abordar os dois lados da equação fiscal, a tributação e o gasto público desde 2003, a economista Rozane Bezerra de Siqueira, da Universidade Federal de Pernambuco, mostra quão fraco é o desempenho do Estado brasileiro na redução da desigualdade de renda. A comparação com os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) deixa isso evidente.
No estudo "Notas sobre os Impactos Distributivos dos Tributos e Transferências Públicas no Brasil", ela constata que a magreza de resultados vem da má focalização do gasto e não de uma baixa mobilização de recursos.
As transferências públicas monetárias para as famílias reduzem a desigualdade de renda, medida pelo índice Gini (de zero a um), em seis pontos percentuais. Elas incluem o Bolsa Família, salário-família, abono, seguro-desemprego, benefícios para idosos, aposentadorias e pensões.
Os tributos diretos (imposto de renda da pessoa física e contribuição previdenciária dos empregados) levam a uma queda adicional na desigualdade de dois pontos. Já a tributação indireta (sobre o consumo) aumenta a desigualdade da renda em três pontos percentuais, mais do que anulando o impacto dos impostos diretos.
O efeito líquido dos tributos e transferências é uma redução de cinco pontos percentuais no índice de Gini, padrão muito aquém do registrado nos países da OCDE, onde a redução do Gini, nesse caso, é de 14 pontos, em média. Nos 17 países da União Europeia a queda é, em média, de 20 pontos percentuais.
Com carga tributária menor que a do Brasil, o Reino Unido, por exemplo, tem um desempenho redistributivo bem melhor. Lá as transferências reduzem o coeficiente de Gini em 15 pontos percentuais. Aqui a redução é de apenas seis pontos.
"Parece claro que o que explica o desempenho medíocre do Estado brasileiro na redução da desigualdade de renda é a má focalização das transferências monetárias, e não o sistema tributário", constata Rozane, que vê uma piora nos indicadores de 2012 para cá.
O Estado gasta muito, mas pouco chega aos 20% mais pobres. As transferências correspondem a cerca de 15% do PIB. Desses, 13% são destinados às aposentadorias e pensões - de longe a despesa mais pesada - e apenas 0,6% do PIB é gasto direto com o programa Bolsa Família, o mais eficiente instrumento de diminuição da desigualdade. Na comparação com os gastos da seguridade social, que não chegam aos mais pobres, os valores do Bolsa Família são irrisórios.
De 2003 a 2012, dois terços da redução da desigualdade no país decorreu do aumento da renda privada, produzida pelo mercado de trabalho, pela valorização do salário mínimo, dentre outras razões, e não das transferências públicas.
Os 20% mais ricos se apropriam de 49% das transferências, de 56% da renda bruta e pagam 55% dos tributos. Os 40% mais pobres ficam com 15% das transferências, 12% da renda bruta (renda privada mais transferências) e respondem por 15% dos tributos. Só a fração intermediária da população (o quintil do meio) não é contribuinte líquida do Fisco e isso se deve à forte presença, nesse grupo, de aposentados e pensionistas. "Há um substancial efeito deletério dos impostos indiretos sobre a pobreza", diz.
No Brasil, também é muito elevado o grau de "tax-welfare churn", processo em que o governo tributa, mas retorna os recursos para os mesmos indivíduos tributados na forma de transferências ou serviços. "Menos de um terço do Estado de bem-estar brasileiro redistribui dos relativamente ricos para os relativamente pobres. O restante é mero "churn": o governo dá com uma mão e tira com a outra", disse a economista. Há uma forte progressividade das transferências do Bolsa Família e forte concentração do gasto público com aposentadorias e pensões nas famílias de renda mais alta.
Rozane chega a importantes conclusões que deveriam ser objeto de profunda reflexão e revisão das políticas distributivas. Uma é que a redução da pobreza e a distribuição de renda poderiam ser alcançados com gasto público e carga tributária menores, como proporção do PIB, se o gasto fosse mais focado nos verdadeiramente pobres. Outra é que sem uma reforma da Previdência será difícil avançar mais e melhor na redução das desigualdades.
"O Estado brasileiro cresceu além de sua legitimidade, e a obscuridade do sistema tributário viabiliza seu financiamento. As reformas tributária e do gasto público devem ter como objetivo resgatar a legitimidade que permitirá ao Estado se financiar de forma transparente e eficiente", conclui.
O que se fez até agora, além de discursos, foi muito pouco. Há um mundo por fazer.
Não tem mais bobo no futebol
'Globalização' técnica e econômica dá cabo de times ingênuos e de certa graça das diferenças
VINICIUS TORRES FREIRE - FSP
A FRASE QUE está no título desta coluna tornou-se lugar comum faz tempo, como sabe qualquer um que acompanha futebol ao menos durante Copas.
Quando e por que começou a extinção dos "bobos", os seleções nacionais entre ingênuas e fracas?
Difícil saber quando se difundiu a percepção de que os jogos entre "potências" tradicionais e tradicionais azarões se tornaram regularmente mais difíceis --zebras sempre existiram. Observando as estatísticas de campeonatos internacionais de seleções, parece que os "bobos" começaram a desaparecer na primeira metade dos anos 1990.
Talvez não por acaso, foi também quando a dúzia de times europeus que ora comanda ou lidera o futebol mundial tornou-se negócio grande, de interesse de TVs, depois de conglomerados de mídia, muitas vezes. Grupos de mídia são donos de vários times, de contratos de transmissão, de estádios rentáveis etc. O caso notório de Silvio Berlusconi, sua Mediaset e seu Milan não é extravagância, apesar das aberrações políticas, econômicas, futebolísticas e policiais desse contubérnio.
Na virada dos anos 1980 para os 1990, os times europeus maiores, que já vinham tentando se transformar em "big business", passaram a assinar contratos de transmissão de jogos com valores estratosféricos, dezenas de vezes superiores àqueles típicos até os anos 80.
Difundiam-se então os serviços de TV por assinatura, "TV paga", por cabo ou satélite.
Ou seja, o início do consumo de massa de uma tecnologia de comunicação ampliou as oportunidades de negócio do futebol. Além do mais, o preço de ingressos passou a correr acima da inflação. O licenciamento em massa de produtos relacionados a clubes e jogadores, o marketing organizado, maciço, de dinheiro grosso, também explodiu por essa época.
Assim, aumentou muito o poder econômico dos clubes europeus, na verdade do consórcio clubes-mídia. Jogadores do resto do mundo passaram a ser importados em massa, o que foi ainda facilitado depois de 1995 por decisões judiciais a respeito do livre trânsito de jogadores (que são enfim trabalhadores) na União Europeia.
Atletas das seleções "bobas" passaram a ser treinados nos melhores campeonatos, com as melhores técnicas. Foram, de certo modo, aculturados, perderam alguns traços do modo de jogar "nacional", enquanto passavam a ser treinados de acordo com métodos científicos. As melhorias econômicas nos países "subdesenvolvidos" ajudam a dar cabo do modo tradicional, malabarista e fantasista, de jogar bola.
É verdade que a "globalização" do futebol corria também por outras pistas. A tecnologia permitiu o acompanhamento de campeonatos do outro lado do planeta --não haveria mais surpresas como a Holanda de 1974. Treinadores passaram a circular mais pelo mundo. Técnicos esportivos passaram a se formar em massa em cursos universitários e em outros centros de formação.
Assim, a tecnologia do esporte tornava-se disponível para o mundo inteiro, tanto nos seus aspectos puramente atléticos como nas táticas de jogo e na formação da mentalidade do profissional do esporte.
A "globalização" vai extinguindo os "bobos". E certa graça das diferenças.
Desperdício em grande escala  
Como o projeto da Refinaria Abreu e Lima foi imposto à Petrobras?
ROGÉRIO FURQUIM WERNECK - O Globo
Será lamentável se as irregularidades que vêm pautando a construção da Refinaria Abreu e Lima forem relegadas às páginas policiais. É importante que sejam também discutidas nas páginas de economia e de política. Há lições fundamentais a extrair, que vão muito além da questão da corrupção. O projeto propicia precioso estudo de caso sobre o enorme desperdício que vem marcando o parco esforço de investimento que o país tem sido capaz de manter.
É crucial ter clareza sobre as proporções do projeto. Inicialmente orçada em US$ 2,4 bilhões, a refinaria pode vir a custar US$ 20 bilhões. Mais de R$ 44 bilhões. Quase 1% do PIB. O suficiente para reforma e construção de 66 estádios similares aos que estão sendo utilizados na Copa. Ou o bastante para instalação de mais de 12.400 escolas.
Na opinião da Agência Internacional de Energia (AIE), o custo da refinaria será de duas a três vezes maior do que o padrão aceitável para unidades com capacidade de refino similar. “Se eu fosse dono da Petrobras, acho que não a faria, com esse custo”, foi a avaliação que fez o próprio José Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, em depoimento no Congresso na semana passada (O GLOBO, 26 de junho).
A decisão de construir a refinaria, em sociedade com a estatal venezuelana PDVSA, foi tomada no primeiro governo Lula, num encontro do presidente com Hugo Chávez. A homenagem a José Inácio de Abreu e Lima — militar pernambucano que, há dois séculos, lutou ao lado de Simon Bolívar pela libertação da Venezuela — foi ideia de Chávez. Não obstante todo o entusiasmo inicial, os venezuelanos jamais puseram um centavo na refinaria. E os custos do projeto acabaram recaindo integralmente sobre a Petrobras.
Sabe-se agora que, bem antes de contar com um estudo de viabilidade econômico-financeira, a refinaria já havia sido contemplada com um financiamento de R$ 10 bilhões do BNDES. Confrontado com esse fato constrangedor, o banco saiu-se com a alegação esfarrapada de que a classificação de risco e o “porte” da Petrobras haviam sido suficientes para a liberação do financiamento (“Valor”, 16 de maio).
A concessão de um financiamento prematuro de tal magnitude, nessas bases, bem evidencia quão mobilizada estava a cúpula do governo com o avanço do projeto. Já em 2009, contudo, o corpo técnico da Petrobras vinha alertando a diretoria da empresa que o projeto da refinaria não era economicamente viável. Mas a vontade política continuou prevalecendo. O estudo de viabilidade econômico-financeira foi convenientemente alterado, com adoção de hipóteses irrealistas, para que seus resultados passassem a justificar a realização do projeto (O GLOBO, 23 de junho).
O que ainda falta saber com mais detalhe é como a decisão política de ir em frente com o projeto da refinaria foi imposta à Petrobras e ao seu corpo técnico, apesar das evidências de que isso seria lesivo aos interesses da empresa. Por força dos cargos que exercia na época, a presidente Dilma é a figura chave para esclarecer essa questão. É preciso ter em mente que, no segundo mandato do presidente Lula, a então ministra Dilma Rousseff ocupava posição central em cada um dos dois elos cruciais da cadeia de comando com que o Planalto controlava os investimentos da Petrobras.
De um lado, como ministra-chefe da Casa Civil da Presidência, estava incumbida de estabelecer prioridades e gerenciar o vasto leque de projetos que, por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), compunha o esforço de investimento federal, tanto no âmbito do governo como das estatais. De outro, como presidente do Conselho de Administração da Petrobras, vinha comandando, desde 2003, a representação do acionista controlador na gestão da empresa.
Em entrevista recente, perguntaram à presidente Dilma por que o país não cresce. Entre as várias razões que poderia ter mencionado, a presidente deveria ter esclarecido que, não bastasse o esforço de investimento ser muito baixo, parte substancial desse esforço vem sendo lamentavelmente desperdiçada.
O recuo da produção da indústria é estrutural
O Estado de S.Paulo
Caíram, em maio, o emprego industrial, a massa real de salários, o rendimento médio real e as horas trabalhadas na produção, além da utilização de capacidade, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Não há exagero nas declarações do gerente de Pesquisa e Competitividade da CNI, Renato Fonseca, de que "o quadro é desolador". A indústria não cresce desde 2010. O cenário é similar ao descrito na véspera pela Pesquisa Industrial Mensal (PIM) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), feita com critérios diferentes dos da CNI.
Um indicador positivo - a alta dessazonalizada de 0,3% do faturamento real entre abril e maio - perde impacto quando se nota que, comparativamente a maio de 2013, as vendas caíram 1,9%, em termos reais. A queda das horas trabalhadas, de 2,4% em relação a maio do ano passado, explica por que a indústria tem reduzido o quadro de pessoal, segundo levantamentos do IBGE e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Para a CNI, o emprego cresceu 0,6% em relação a maio de 2013. O indicador do nível de atividade (INA) da Fiesp registrou queda de 0,9% entre abril e maio e de 7% em relação a maio do ano passado.
A utilização de capacidade, pelos indicadores dessazonalizados da CNI, diminuiu 0,2 ponto porcentual em relação a abril e 1,8 ponto em relação a maio de 2013. No setor de veículos automotores, houve diminuição de 5,4%, em 12 meses, do uso da capacidade. A perda de produtividade e de competitividade da indústria é crescente, como se constatou nos resultados da balança comercial de junho, em que os produtos primários responderam por mais de metade da exportações do semestre.
Há, portanto, um amplo e desfavorável conjunto de dados industriais que indicam limitação a qualquer reação mais forte neste ano, mantidas a taxa cambial - "apreciada", segundo o economista Márcio Garcia, da PUC-Rio - e as dificuldades para exportar.
As medidas restritas de estímulo à produção e ao emprego, tais como a prorrogação da isenção de IPI para veículos e móveis, além da desoneração da folha de pagamento, mostram-se incapazes de promover a recuperação da indústria, cuja atividade é muito afetada pelo custo Brasil, a começar da infraestrutura precária e da tributação elevada.
Não há, de fato, uma política para a indústria, cuja queda ajuda a arrastar para baixo o investimento.
Crise na indústria se agrava
O Estado de S.Paulo
A indústria vai mal, o investimento recua e 2014 deve ser marcado por um novo fiasco na economia, apesar da retórica triunfal da presidente Dilma Rousseff e de seu ministro da Fazenda, Guido Mantega. A crise industrial já se reflete no setor de serviços, prejudica o emprego em geral e, cada vez mais, o crescimento econômico, assim como a exportação, depende da agropecuária. A produção industrial caiu 0,6% de abril para maio, recuando em 15 dos 24 ramos cobertos pela pesquisa mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O setor produziu em maio 3,2% menos que um ano antes. De janeiro a maio, o resultado foi 1,6% inferior ao de um ano antes. O crescimento acumulado em 12 meses ficou em apenas 0,2%, mas nem esse dado ligeiramente positivo pode justificar algum otimismo. A média móvel trimestral caiu 0,5% no período até maio. Nos três meses terminados em abril a queda havia chegado a 0,3%.
Mas os números mais preocupantes são os da fabricação de bens de capital, isto é, de máquinas e equipamentos, porque confirmam a estagnação da capacidade produtiva. O ministro da Fazenda prometeu várias vezes, nos últimos anos, um novo padrão de crescimento econômico. A expansão do Produto Interno Bruto (PIB) seria puxada principalmente pelo investimento produtivo. Mas essas palavras nunca se traduziram em fatos. Aos empresários urbanos têm faltado confiança e segurança para investir. Ao governo tem faltado competência para converter em obras, com a rapidez necessária, seus programas de ampliação e fortalecimento da infraestrutura. Os balanços do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) têm sido sempre vitaminados pela contabilização do dinheiro aplicado em moradias.
Pelos novos números do IBGE, em maio a produção de bens de capital ficou 2,6% abaixo da de abril e foi 9,7% inferior à de um ano antes. De janeiro a maio o total produzido foi 5,8% menor que o de igual período de 2013. Em 12 meses ainda se acumulou uma expansão de 4,1%, mas esse dado fica bem menos impressionante quando se examinam os números do passado recente. A produção de bens de capital cresceu 5% em 2011 e permaneceu praticamente estagnada nos dois anos seguintes, com queda de 11,2% em 2012 e aumento de 11,6% em 2013.
A expansão de 4,1% nos 12 meses terminados em maio parte, portanto, de uma base achatada e muito próxima do nível de 2011. Em outras palavras, o setor derrapou durante a maior parte do governo da presidente Dilma Rousseff. O resultado de janeiro a maio deste ano, 5,8% inferior ao dos mesmos meses do ano passado, mostra a continuidade da crise no setor e confirma a baixa disposição de investir do empresariado.
As cifras do comércio exterior complementam esse quadro. De janeiro a junho, foram gastos US$ 21,14 bilhões com a importação de bens de capital, 5,1% menos que no primeiro semestre do ano passado.
O cenário de produção em queda também se completa com a redução da despesa com matérias-primas e bens intermediários importados. O valor gasto, US$ 50,36 bilhões, foi 1% inferior a de um ano antes. Internamente, a produção de bens intermediários entre janeiro e maio foi 1,8% menor que a dos mesmos meses de 2013. Em maio, ficou 2,2% abaixo da estimada no ano anterior.
A crise da produção industrial e a redução das importações confirmam o esgotamento da política baseada no estímulo ao consumo. Analistas haviam apontado há bom tempo o fracasso inevitável dessa política.
A disposição de compra dos consumidores pode animar a produção durante algum tempo, mas é preciso mais que isso para manter a indústria em atividade e - mais importante - para expandir sua capacidade produtiva e seu poder de competição internacional.
O governo errou no diagnóstico e na estratégia. Além disso, criou insegurança entre os empresários com intervenções inábeis e medidas improvisadas. Também as medidas protecionistas, aplaudidas por alguns setores, tiveram efeito negativo, porque desestimularam a busca de eficiência. O balanço é claro e está sintetizado nas séries de números do IBGE.
Maconha para tratamento será distribuída para moradores de rua em Berkeley
Cidade da Califórnia aprovou projeto que reserva 2% dos dispensários para os beneficiados
O Globo
Moradores de rua e pessoas com baixo rendimento que utilizam maconha como tratamento medicinal terão acesso gratuito à erva na cidade de Berkeley, na Califórnia. O conselho municipal aprovou por unanimidade uma proposta para que os dispensários de maconha distribuam 2% do montante total para aqueles que não podem pagar.
A proposta prevê que os dispensários não façam discriminação e deem o mesmo tipo de maconha para os clientes pagantes e os novos beneficiados. Alguns dispensários já distribuíam a erva, mesmo sem ser obrigatório, como forma de ajuda. Sean Luse, porta-voz de um dos locais de distribuição, afirma que a ação é uma maneira de auxiliar as pessoas em um momento difícil.
- Uma das duras realidades é quando você fica doente ou tem uma doença grave, muitas vezes é difícil manter um emprego ou manter o seu rendimento alto — justifica Sean em entrevista para a CBS.
O abuso da maioria
O Estado de S.Paulo
Incomodado, o Planalto usa de todos os meios para tentar conter a repercussão das denúncias envolvendo a Petrobrás e abusa de sua maioria no Congresso para barrar qualquer investigação mais séria sobre a estatal nas duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) - a do Senado e a mista -, cujo desenrolar é um contínuo atropelo da transparência, como se viu nas sessões de quarta-feira.
A Constituição estabelece que, para a instauração de uma CPI, basta que a proposta tenha o apoio de um terço de uma Casa legislativa. É um mecanismo para evitar que a maioria bloqueie investigações de interesse público. Foi com base nesse dispositivo que, em abril, o Supremo Tribunal Federal (STF), por meio de decisão liminar, determinou que o campo de investigação da CPI da Petrobrás fosse "apenas" as denúncias relativas à estatal de 2005 a 2014, conforme proposta de senadores da oposição.
A decisão do STF parecia pôr fim a uma batalha política, na qual o Planalto tentava de todas as formas bloquear uma investigação mais profunda sobre as denúncias envolvendo a Petrobrás durante os governos Lula e Dilma. Sob o argumento de que a oposição tinha apenas intenções políticas com a CPI, o Planalto pretendia fazer o mesmo, incluindo no campo de investigação da CPI outros casos, sem nenhuma conexão com as denúncias contra a Petrobrás, mas que envolvessem governos da oposição. Aplicava a máxima de que a melhor defesa é o ataque.
No entanto, o STF decidiu que a tentativa de inflar a CPI, com assuntos estranhos à proposta original, feria o direito previsto na Constituição de uma minoria instalar uma CPI, desde que respeite as regras para esse caso. Com a decisão, a CPI teria como objeto principal três denúncias contra a Petrobrás: suspeitas de superfaturamento e evasão de divisas na compra da Refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos; indícios de superfaturamento na construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco; e indícios de pagamento de propina pela companhia holandesa SBM Offshore a funcionários da estatal.
O Planalto, entretanto, não se deu por vencido. Com maioria para dominar as duas CPIs criadas, esvaziou-as completamente. Ao invés de âmbitos de investigação, transformou-as em sessões de amigáveis (e intermináveis) entrevistas, de modo que nenhum dano lhe fosse causado. Já passaram pelas CPIs Paulo Roberto Costa - que um dia após um depoimento absolutamente morno (e satisfatório aos governistas) voltou a ser preso pela Polícia Federal -, Nestor Cerveró - que vem fazendo uma ginástica hercúlea para não se indispor com Dilma e ao mesmo tempo salvar a sua pele - e Graça Foster. A esta o relator Marco Maia (PT-RS) fez nada menos do que 70 "perguntas", impedindo que fosse ouvida qualquer novidade.
O episódio mais recente foi a omissão de qualquer referência à compra da refinaria em Pasadena durante a sessão de perguntas à diretora-geral da Agência Nacional do Petróleo, Magda Chambriard, na quarta-feira, na CPI do Senado. E não se pode dizer que o assunto estava esquecido: no mesmo dia, o Estado havia revelado pareceres do Tribunal de Contas da União (TCU) que apontam os equívocos da compra da refinaria americana e mostram ser insustentável a tese governista de que foi um "bom negócio".
Por essa razão, os aliados do Planalto estão tramando, conforme revelou reportagem do Estado, incluir mais um tema na CPI: a operação entre a Petrobrás e a empresa ibero-argentina Repsol YPF, realizada em 2001, no governo FHC, quando José Jorge, atualmente ministro do TCU e relator do caso Pasadena, era ministro de Minas e Energia e presidente do Conselho de Administração da Petrobrás. Encontraram um caso para tentar diminuir o impacto das denúncias de irregularidades ao longo dos governos Lula e Dilma. No entanto, o negócio entre Petrobrás e Repsol YPF já está na Justiça, e os réus foram absolvidos em maio de 2005, havendo atualmente apenas um recurso no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
O Planalto abusa da sua maioria no Congresso, impondo o que deseja, ainda que à revelia de legítimas decisões da Justiça. Acha-se no direito de fazer o que bem entende no Legislativo. Não poderá reclamar se, nas urnas, o eleitor também fizer o que bem entender.

Momento bom 
Merval Pereira - O Globo
O momento captado pela pesquisa Datafolha divulgada ontem é bom para a presidente Dilma, que subiu quatro pontos percentuais e manteve a liderança na corrida presidencial. Mas a situação prospectiva é ruim: há um mês, Dilma tinha 34% contra 32% de todos os seus rivais somados. Agora, há um empate: 38% a 38%.
Se o primeiro resultado já previa a realização de um segundo turno, este mais recente confirma a tendência, com a anulação da diferença a favor de Dilma.
A pesquisa, além disso, mostra que, a longo prazo, essa diferença vai se reduzindo também num cada vez mais provável segundo turno contra o candidato do PSDB, Aécio Neves: ela, que já foi de 19 pontos percentuais, hoje é de apenas sete pontos, o que, na realidade, quer dizer 3,5 pontos para haver um empate, já que o segundo turno se trata de um autêntico mata-mata, um candidato contra o outro.
Também a diferença num segundo turno contra o candidato do PSB, Eduardo Campos, caiu de 15 pontos percentuais para 13. Os tucanos puseram uma lente nos resultados de São Paulo, que consideram decisivos, e tiraram boas notícias para seu candidato.
Nada menos que 39% dos eleitores paulistas consideram que o governo atual é ruim ou péssimo, enquanto o índice nacional é bem mais baixo, de 26%.
No segundo turno, o tucano Aécio Neves já derrota a presidente Dilma no maior colégio eleitoral do país por 46% a 34%, embora no momento apareçam empatados no primeiro turno.
Não é à toa, portanto, que o governismo e seus agentes na mídia, especialmente nos blogs chapa-branca, não fizeram tanto estardalhaço com a pesquisa do Datafolha, que colocou a presidente onde ela já estava há 15 dias, de acordo com uma pesquisa do Ibope.
Há analistas que dizem mesmo que a pesquisa de um mês atrás do Datafolha, que derrubou os índices de Dilma e também de Eduardo Campos, teria sido um ponto fora da curva, em momento de maior tensão social, corrigida agora devido ao ambiente tranquilo, mesmo festivo, no país devido ao sucesso da Copa do Mundo de futebol.
Mas a realidade é que o alívio provocado pela festa do futebol não impediu, por exemplo, que Dilma continue sendo a mais rejeitada pelos eleitores, com 32%.
Da mesma maneira, o índice de bom e ótimo de seu governo continua “no limbo”, de acordo com pesquisas realizadas pelo Instituto Análise, do cientista político Alberto Carlos Almeida.
Transpondo o resultado de uma pesquisa histórica com governadores em busca da reeleição, ele chegou à conclusão de que os candidatos com índice igual ou menor que 34% dificilmente se reelegem.
Não há esse histórico para presidentes, mas, na correlação dos resultados, a presidente Dilma, com um índice de 35% de ótimo e bom, está no limite entre o céu e o inferno, podendo se reeleger ou não de acordo com o que aconteça na campanha.
A situação de estabilidade, é verdade, favorece quem está na frente da corrida, e um sinal de que os eleitores ainda não acharam o que procuram é que os demais candidatos cresceram três pontos neste último mês, reduzindo, assim, o nível dos indecisos. Desses, o Pastor Everaldo, do PSC, continua com 4% das intenções de voto.
A presidente Dilma lidera em todas as regiões do país, mas o Nordeste continua sendo seu grande reduto eleitoral, dando a ela 55% dos votos. Lá e no Norte, onde a presidente tem no momento 44% dos votos, Dilma obteve na eleição de 2010 uma diferença de 12 milhões de votos sobre José Serra.
No resto do país, a então candidata do PT venceu por apenas 0,5% dos votos, o que não terá desta vez, com a situação favorável ao PSDB no chamado “triângulo das Bermudas”, os três maiores colégios eleitorais do país: São Paulo, Minas e Rio de Janeiro.
Não é por acaso, portanto, que a campanha do PSDB vai dedicar atenção especial ao Norte e ao Nordeste do país, para tentar reduzir a margem de vitória da petista. As situações políticas em estados como Maranhão, Bahia, Ceará e Pernambuco (pela presença de Eduardo Campos), hoje, são mais favoráveis às oposições do que em 2010.

DÓRICAS

Alívio imediato
Dora Kramer - OESP
Em matéria de organização está dando tudo certo, o País vive um momento de alto astral com a Copa do Mundo. Portanto, nada mais natural que esse clima se reflita nas pesquisas de opinião e que o governo, na pessoa da presidente Dilma Rousseff, seja o maior beneficiário.
O instituto Datafolha faz a ligação direta entre a melhora das intenções de votos (de 34% para 38%) e da avaliação positiva do governo Dilma (de 33% para 35%) e a "mudança de humor geral dos brasileiros". De fato não há como se atribuir a qualquer outra razão, porque nada aconteceu entre a última e a penúltima pesquisa a não ser a Copa.
Da mesma maneira como o governo teria sido responsabilizado se aquelas expectativas negativas a respeito do Mundial fora do campo tivessem se concretizado, muito justo que receba o reconhecimento pelo bom funcionamento daquilo que dependeu do poder público.
Fez a obrigação, mas de todo modo é mérito. E se as pesquisas não retratassem isso, aí é que seria de o governo se achar num beco sem saída. Fora aqueles pontos porcentuais a mais citados no início, o restante da pesquisa não leva boas notícias ao Planalto.
A saber: o aumento não foi proporcional à euforia que toma conta do País, os oponentes oscilaram para cima (ou seja, o astral favoreceu todo mundo), a rejeição da presidente é o dobro do segundo colocado que se aproxima dela na simulação de segundo turno e desapareceu a dianteira de Dilma frente aos adversários.
Até a pesquisa anterior ela dispunha de 34% das intenções de votos enquanto os adversários somavam 32%. Hoje há empate: 38% a 38%. Reflexo do alívio (temporário?) também é a redução daqueles que se diziam sem candidato. Eram 30% e agora são 24%.
A questão é: isso significa um repentino ganho de confiança da população na tão desprestigiada atividade política ou apenas quer dizer que a tendência geral é responder positivamente quando estão motivadas por estímulos igualmente positivos embora de natureza distinta?
Aqui não há como fugir do lugar comum: a resposta fica ao encargo do tempo. Depois de a vida voltar ao normal e a campanha começar é que poderemos conferir se o efeito é passageiro ou duradouro.
Nada a ver com a missão dos jogadores da seleção brasileira, nunca é demais repetir. Até para que sosseguem o facho aqueles que acham que o caminho da vitória da oposição está na derrota dentro de campo.
Bobagem abissal, exaustivamente desmentida pelos fatos nos últimos 20 anos em que a regra foi a desconexão entre o desempenho do Brasil nas Copas e o resultado das eleições.
Coincidência só em 1994. O Brasil ganhou a Copa e o governo a eleição. Só que o vencedor nas urnas não foi o futebol, mas o Plano Real.
Dilma não ganhará ou perderá a eleição porque o time foi mal ou bem na Copa. Se perdermos, ela não pode ser responsabilizada pelo que acontece dentro do campo.
Se ganharmos, nem por isso o eleitorado brasileiro vai votar no dia 5 de outubro fantasiado de Fuleco ainda sob os eflúvios do resultado de um jogo realizado há exatos 84 dias passados.
Não há emoção que tanto dure nem razão que uma hora não se imponha. De onde a direção dos votos acompanha a percepção do povo - que não é bobo - sobre qual dos candidatos considera com mais capacidade de enfrentar e resolver os problemas da vida como ela é.
Formiga. É consenso que Aécio Neves teve atuação pífia no Senado sob a ótica da expectativa de que assumiria o lugar de líder da oposição com ataques permanentes e contundentes ao governo.
Não fez nada disso e, para o público externo, foi uma decepção. Agora, quando surgem os acordos regionais do PSDB com vários partidos governistas é que surge a explicação: o tucano estava ocupado com a conquista do público interno, construindo pontes com os colegas senadores por intermédio dos quais iniciou o caminho rumo às alianças.
As preocupantes declarações de Joaquim Barbosa
O ex-presidente do STF contribui para a defesa de indicações sérias de novos ministros ao denunciar a interferência de interesses privados no tribunal
O Globo
Bem ao seu estilo, o ministro Joaquim Barbosa se despediu do Supremo Tribunal Federal sem cumprir o protocolo. Para não ouvir os discursos de praxe de colegas e evitar qualquer pronunciamento formal, Barbosa saiu antes de encerrada a sessão de terça-feira, a sua última no STF. Agora, espera a publicação da aposentadoria no Diário Oficial.
Mas já aproveitou os primeiros momentos fora da Corte para, em entrevista, dar opiniões fortes sobre a atuação de ministros. No julgamento do mensalão, de que foi relator, já fizera acusações a alguns de seus pares de atuar com o objetivo de ajudar condenados.
Terça, sem a toga, foi mais explícito: “Aqui (STF) não é lugar para pessoas que chegam com vínculos a determinados grupos. Não é lugar para privilegiar determinadas orientações". E mais adiante: “(...) aquilo que falei da constante queda de braço, da tentativa de utilização da jurisdição para fins partidários, de fortalecimento de grupos, de certas corporações, isso é extremamente nocivo, em primeiro lugar, à credibilidade do tribunal, e também à institucionalidade do nosso país”.
Joaquim Barbosa tem razão, e precisa, à primeira oportunidade, aprofundar este tema do uso do Supremo para fins privados.
Quem acompanhou sessões do julgamento percebeu em algumas manobras a defesa de interesses dos mensaleiros. Por exemplo, na lentidão forçada dos trabalhos na primeira fase das sessões, para que os ministros Cezar Peluso e Ayres Britto se aposentassem votando o mínimo possível, por serem favoráveis à condenação dos acusados. Deu certo, infelizmente.
A visão crítica de Joaquim Barbosa não reduz a importância histórica do julgamento, nem seu êxito. Pode ter havido frustrações, mas deve-se relembrar que nunca no Brasil políticos de partidos no poder — ou mesmo fora dele — foram condenados e presos por corrupção. Neste sentido, importa menos o rigor das penas, mas o ineditismo da punição, essencial para o consolidação das instituições da democracia representativa.
O mesmo aconteceu no impeachment de Collor: o fato de ele não ter sido condenado pelo Supremo não reduziu a contribuição do Congresso à estabilidade institucional.
Esta primeira entrevista de Joaquim Barbosa fora do Pleno do STF tem a ver com os critérios de indicação de candidatos a ministros ao Senado, prerrogativa da Presidência da República. A própria escolha de seu sucessor será um teste para a presidente Dilma Rousseff, caso ela decida fazê-la antes de apuradas as urnas de outubro.
Será muito ruim para as instituições se Dilma, permeável a pressões de alas petistas radicais em função do quadro eleitoral, fizer uma indicação inadequada ao Supremo, a última linha de defesa do estado democrático de direito. Agravará as distorções mencionadas por Barbosa.
O seu voto é uma arma.
Em outubro, atire para matar.
breadandolives:

Hvar, Croatia - Photo by Petra Veikkola via Beth Kirby on Pinterest
Hvar, Croatia, by Petra Veikkola 
fairy-wren:

(via 500px / I surprised him. by David Daniel)
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uncladperception:

Shall we coffee?

~smile~
Visto como 'ditador justo' na Líbia, Hifter pode minar credibilidade dos EUA 
Apoiar um homem forte como o general Hifter pode minar ainda mais a credibilidade já desgastada dos EUA na região.
Ibrahim Sharqieh - NYT
Anja Niedringhaus/AP
O general líbio Khalifa Hifter ganha força no país com uma campanha contra muçulmanos e promessa de estabilidade O general líbio Khalifa Hifter ganha força no país com uma campanha contra muçulmanos e promessa de estabilidade
"Nós provavelmente precisamos de um ditador justo", meu amigo me disse durante uma visita à Líbia em janeiro de 2013. Ele estava se referindo à sensação geral de falta de esperança que havia começado a crescer entre a população da Líbia. A situação de segurança havia se deteriorado e os líbios estavam buscando um salvador.
No meio dessa situação desanimadora, um general líbio, Khalifa Hifter, surgiu e se intitulou como o salvador de um país profundamente dividido. Embora ele pareça responder ao anseio do meu amigo e de muitos líbios por um "ditador justo" para liderar o país durante seu problemático período de transição, o general Hifter também invoca o fantasma do infame golpe do coronel Muammar Gaddafi em 1969 e da agonia coletiva que se seguiu. Muitos líbios estão se perguntando, portanto, se o general Hifter é o salvador almejado ou apenas mais um ditador.
De qualquer forma, Washington deve agir com cautela. Acomodar abertamente ou apoiar indiretamente um novo homem forte tão pouco tempo depois que a Líbia derrubou seu ditador de longa data não só prejudicará a transição democrática como também exacerbará o deficit de credibilidade dos EUA no Oriente Médio.
Se o general Hifter não existisse, o povo líbio o teria criado. O fato de ele ter emergido não deve surpreender, dada a desordem do país. Se algo surpreende, é o fato de que ele, ou alguém como ele, não tenha aparecido muito antes.
Desde o colapso do regime de Gaddafi em outubro de 2011, os líbios têm sofrido de uma insegurança e incerteza excessivas sobre a direção de seu país. A Líbia pós-Gaddafi é na verdade dois estados funcionando paralelamente – o Estado oficial, que não têm poder na prática, e o Estado das milícias, que dita os fatos na prática. O exemplo mais notório desta falta de controle de um Estado central foi quando as milícias sequestraram o primeiro-ministro Ali Zeidan em outubro de 2013. A Líbia não é apenas um Estado fracassado, mas também um estado à beira de uma guerra civil.
Uma situação na qual generais poderosos emergem em meio ao caos de uma guerra civil não é única à Líbia. Ali Abdullah Saleh, do Iêmen, chegou ao poder em 1978 depois da experiência do país com a guerra civil. A guerra civil do Líbano abriu caminho para o general Michel Aoun liderar um governo militar que tomou o poder em 1988. Mais recentemente, a conturbada transição no Egito culminou com a ascensão do ex-chefe do exército, Abdel Fattah al-Sisi, ao poder. De fato, muitos especulam que o general Hifter será o "Sisi da Líbia".
Mas a história de militares fortes tomando o poder e depois empurrando seu país para um caos ainda maior deve oferecer aos norte-americanos um motivo para hesitar.
O general Hifter já tem uma história controversa na Líbia. Ele fez parte da equipe que realizou o golpe de 1969 e, mais tarde, liderou uma guerra controversa contra o Chade de 1978 a 1987. Depois da derrota da Líbia na guerra, o general Hifter fugiu para os Estados Unidos, onde se tornou cidadão norte-americano e se dedicou a derrubar o regime de Gaddafi.
Quando a revolta de 2011 começou, o general Hifter voltou para a Líbia e lutou lado a lado com os islamistas que atualmente condena. Quando ele se apresenta como o unificador da Líbia, alguns veem seu movimento como uma reação à controversa proibição de que todos os membros do alto-escalão do governo do coronel Gaddafi ocupem cargos públicos, inclusive o general Hifter.
Independentemente dos motivos do general Hifter, a Líbia precisa de um diálogo nacional inclusivo, e não da formação de mais uma milícia ou de um golpe.
O fato de o general Hifter se alinhar com as milícias provavelmente desencadeará a formação de novas alianças entre os 250 mil militantes da Líbia e aprofundará as divisões no país, possivelmente até mesmo empurrando o país para uma guerra civil declarada. Cerca de apenas 30 mil combatentes lutaram contra o exército do coronel Gaddafi; o resto pegou em armas mais tarde.
Durante os últimos dois anos, muitos deles lucraram com –e desenvolveram um interesse em manter– o caos que engole o país. Generais, grupos islamistas e outros revolucionários comprometidos que lutaram verdadeiramente contra o governo Gaddafi não se renderão ao movimento do general Hifter – e isso representa uma grave ameaça às perspectivas de estabilidade na Líbia.
A tolerância de Washington ao movimento do general Hifter tornou as coisas bem piores. Deborah Jones, embaixadora dos EUA na Líbia, foi citada dizendo: "não virei a público para condenar o que ele fez", porque, acrescentou ela, as forças do general Hifter estavam perseguindo grupos que estão na lista de terroristas de Washington.
Motivada pelo objetivo a curto prazo de lutar contra o terrorismo, a política externa norte-americana está se revertendo para a tradição ignóbil de tolerar ditaduras e priorizar soluções de segurança. Como resultado, os EUA estão permitindo que a Líbia escorregue para uma guerra civil em vez de ajudar o país em uma transição para a paz, a democracia e o pluralismo. Os Estados Unidos deveriam, em vez disso, colocar pressão sobre o general Hifter e usar seu poder para apoiar um diálogo nacional inclusivo que possa eventualmente forjar um novo contrato social e colocar a Líbia em um caminho para a paz e a reconciliação.
Quer seja justo ou opressor, um ditador é sempre um ditador. A Líbia finalmente escapou da autocracia, e não deveria retornar a ela. 
Tradutor: Eloise De Vylder
Radicais 'decidem' quem é sunita ou xiita no Iraque com questionário e até toque de celular
Alissa J. Rubin - NYT
Atualmente, ser um muçulmano xiita ou sunita no Iraque pode ser uma questão de vida ou morte.
À medida que o grupo militante do Estado Islâmico do Iraque e do Levante, ou EIIL, tomou vastos territórios no oeste e no norte do Iraque, tem havido relatos frequentes de combatentes que capturam grupos de pessoas e soltam apenas os sunitas, enquanto os xiitas são separados para serem mortos.
O EIIL acredita que os xiitas são infiéis e devem morrer para que seja criada uma forma pura do Islã. Os dois principais ramos do Islã divergem em suas crenças sobre qual é o verdadeiro herdeiro do profeta Maomé. Os xiitas acreditam que o Islã foi transmitido através da família do profeta Maomé. Os sunitas acreditam que ele se disseminou através de seguidores do profeta que, segundo eles, são o povo escolhido por Maomé.
Mas, como o EIIL pode saber se uma pessoa é sunita ou xiita?
A partir de relatos de pessoas que sobreviveram a encontros com os militantes, parece que eles costumam fazer uma lista de perguntas. Eis algumas delas:
Pergunta: Qual é o seu nome?
Uma olhada rápida no passaporte ou na carteira de identidade iraquiana pode ser um sinal. Os xiitas acreditam que a liderança do Islã foi passada através do genro do profeta Maomé, Ali, e seus filhos Hussain (ou Hussein), Hassan e Abbas, entre outros. Embora alguns sunitas e membros de outros grupos islâmicos também possam ter esses nomes, o EIIL muito provavelmente os associa aos xiitas.
Pergunta: Onde você mora?
Em cada cidade e província, até as de maioria sunita, há enclaves que são conhecidos por serem xiitas. Pessoas que dizem que vêm de um desses bairros muito provavelmente serão assassinadas.
Pergunta: Como você reza?
Xiitas e sunitas fazem orações de forma ligeiramente diferente, sendo que os sunitas geralmente juntam as mãos ou cruzam os braços na frente do corpo, e os xiitas os deixam estendidos, com as palmas sobre as coxas.
Em um vídeo aterrorizante que parece ter sido feito há mais de um ano na província de Anbar, no Iraque, combatentes do EIIL param três motoristas de caminhão no deserto e perguntam se eles são sunitas ou xiitas. Todos os três disseram ser sunitas. Então, as perguntas ficaram mais difíceis. Eles foram questionados sobre como faziam cada uma das orações, de manhã, ao meio dia e à noite. Os caminhoneiros discordaram quanto aos métodos e foram assassinados.
Pergunta: Que tipo de música você ouve?
Gravações de músicas religiosas também podem ser uma dica. Da mesma forma, até o toque de celular de alguém pode ser uma pista porque pode revelar uma música religiosa sunita ou xiita.
Há outras pistas, mas nenhuma totalmente confiável. Por exemplo, muitos xiitas usam anéis grandes, com frequência com pedras semipreciosas. Mas alguns sunitas e outros também os utilizam.
Geralmente, os xiitas e sunitas iraquianos são indistinguíveis em aparência. Isso é ainda mais evidente em muitas famílias e tribos que casam entre si há gerações.
Dado que as ideias rígidas do EIIL são bastante conhecidas, talvez seja natural se perguntar por que os reféns simplesmente não mentem sobre suas origens. Parece que muitos o fazem, mas em encontros muito tensos e perigosos é fácil fracassar. Às vezes uma pessoa em um grupo pode entregar a outra inadvertidamente. Outros ainda se recusam a mentir sobre sua fé.
Tradutor: Eloise De Vylder
Califado trará mais divisão que apoios, diz especialista em Oriente Médio
Cecilia Ballesteros - El País
Considerado um dos mais jovens e brilhantes especialistas em Oriente Médio, colaborador, entre outros, da Fundação Carnegie para a Paz Internacional, em Washington (EUA), jornalista e autor de livros como "O sonho de Damasco", Aron Lund (nascido na Suécia em 1980) acredita que a proclamação do califado por parte do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL, agora simplesmente Estado Islâmico), o grupo jihadista sunita que controla amplas áreas do Iraque e da Síria, aprofundará a resistência nesses dois países e significa uma "piada" para os muçulmanos, já que equivale, na prática, a declarar-se herdeiro de Maomé.
El País: O que o senhor pensa e qual é sua interpretação desta declaração por parte do EIIL?
Aron Lund: Sinceramente, é ridícula. O califado foi uma instituição sagrada para o islã sunita, um poder mundial de influência extraordinária. O Estado Islâmico (EI), agora é assim que se denominam e portanto seria preciso abandonar a terminologia que vinham empregando, é um bando de loucos cujas principais habilidades são disparar contra tudo o que se move e produzir vídeos sanguinolentos. Em alguns aspectos, entretanto, essa declaração representa a saída lógica da ideologia que patrocina. Também está ligada a sua rivalidade com a Al Qaeda. Depois de romper todos os laços com a rede, o EI declara agora que se expandirá além do Iraque e da Síria, a todo o mundo muçulmano, e considera o planeta seu campo de jogo. Instaurar um califado é uma maneira de ir mais alto que a Al Qaeda, ideologicamente falando. Ayman al Zawahiri [sucessor de Osama bin Laden como líder da Al Qaeda] é um mero dirigente, enquanto seu chefe, Abubaker al Bagdadi, ou califa Ibrahim, como o chamam agora, reivindica o título mais poderoso e mitológico da história sunita.
El País: Quais são os efeitos reais desse anúncio? É um sinal de poder verdadeiro, de liderança? Ou mera propaganda?
Lund: É um sinal de extraordinária ambição e de delírios de grandeza. Também tem implicações teológicas para os que professam essa ideologia radical salafista-jihadista, e pode servir para sua propaganda política, mas creio que provocará mais resistência do que apoios no mundo muçulmano.
El País: Esse anúncio muda a estratégia da Al Qaeda, que aparentemente se apresentava como um grupo mais fragmentado em diversas cabeças...
Lund: A Al Qaeda nunca anunciou um califado. Não tem nada a ver com que fosse um movimento mais fragmentado, porque ideologicamente estavam muito unidos, simplesmente tinham uma visão diferente do que significa declarar um califado. Mas a Al Qaeda sempre lutou pelo restabelecimento de um califado em longo prazo, mas como um objetivo distante que só poderia ser alcançado quando tivesse um governo estável sobre um território administrável e apoio público para fazer uma declaração semelhante. Esse ponto de vista está muito mais perto da população sunita, que idealmente também pensa que deveria haver um califado e que é algo pelo qual os muçulmanos deveriam combater. Mas muito poucos considerarão o Estado Islâmico como um verdadeiro califado, sobretudo o verão como uma piada cruel e um insulto a sua religião.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Perder a mesma guerra duas vezes
Jorge Ramos - NYT
É o momento da vingança no Iraque. Raouf Abdul Rahman, o juiz que condenou à morte o ex-ditador Saddam Hussein em 2006, foi detido e executado por rebeldes sunitas quando fugia de Bagdá, disfarçado, supostamente, de bailarino. É impossível confirmar, mas foi relatado por fontes confiáveis.
Saddam, um sunita, é considerado um mártir pelo grupo Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), que tenta derrubar o governo do xiita Nouri Hasan al-Maliki. Esse é o Iraque que nos deixou o ex-presidente americano George W. Bush.
A única maneira de manter unidos sunitas, xiitas e curdos no Iraque foi pela força. Assim o fez o Império Otomano, depois os britânicos no início do século 20 e posteriormente Saddam Hussein, como ditador, de 1979 até a invasão americana em 2003. Bush literalmente não sabia em que estava se metendo.
Diante do temor de outro ataque terrorista como o de 11 de setembro de 2001, Bush inventou a guerra no Iraque. A desculpa era que Saddam tinha armas de destruição em massa e poderia utilizá-las contra os EUA. Eram mentiras. O então secretário de Estado, Colin Powell, queimou toda a sua credibilidade em um famoso discurso na ONU antes do ataque ao Iraque em março de 2003. Vendeu fumaça e espelhos. O resultado é a tragédia que estamos vivendo agora.
Entrei no Iraque pela fronteira com o Kuwait durante os primeiros dias da guerra. Longe de sermos recebidos como libertadores, pude ver os rostos ressentidos dos iraquianos diante das tropas americanas. O resultado da guerra que Bush inventou está claro: morreram mais de 126 mil civis iraquianos (IraqBodyCount.org) e quase 4.500 soldados americanos.
Assim os EUA perderam a guerra pela primeira vez. Todas essas mortes foram em vão e por uma razão equivocada.
O letreiro "Missão cumprida" que apareceu atrás do discurso do então presidente Bush em maio de 2003, no porta-aviões USS Abraham Lincoln – e sua teatral e desnecessária aterrissagem em um avião de combate –, é uma das coisas mais ridículas feitas por um presidente americano durante uma guerra. A maior parte das baixas na guerra do Iraque ocorreu depois desse discurso.
Barack Obama prometeu e depois cumpriu a retirada das tropas americanas do Iraque em dezembro de 2011. Nesse momento disse que deixava um Iraque "soberano, estável e autossuficiente". Não foi assim. O conflito interno na Síria desestabilizou ainda mais a região, e hoje rebeldes sunitas, com o apoio de combatentes sírios, puseram a nação iraquiana à beira do colapso. O Iraque poderia perfeitamente dividir-se em três territórios independentes. Essas fortes tendências sectárias e religiosas – xiitas, sunitas e curdas – ameaçam o fim da ideia ilusória de um só Iraque.
Diante de um Iraque que se autodestrói, o presidente Obama decidiu sabiamente não se meter. Mas esta é a segunda vez que os EUA perdem a mesma guerra. O ex-vice-presidente Dick Cheney disse em uma entrevista que a invasão do Iraque em 2003 foi "a decisão correta na época, e creio que ainda o é". O que mais vai dizer, se a ideia foi dele? Mas não é correto que milhares de americanos e civis iraquianos tenham morrido por armas de destruição em massa que nunca existiram. Não é correto inventar guerras preventivas. Não é correto mandar outros morrerem sem ter certeza de uma ameaça iminente.
Obama não quer voltar a se meter no Iraque. Mas Cheney acredita que o presidente está cometendo um enorme erro. Cheney disse a um comentarista de rádio que "vai haver outro ataque" terrorista nos EUA na próxima década e que será "mais mortífero" que o de 2001. Foi assim, vendendo o medo, que os EUA se meteram desnecessariamente na guerra no Iraque há 11 anos.
Os EUA nunca souberam claramente qual era seu objetivo ao atacar o Iraque. Matar Saddam? Evitar um possível ataque terrorista? Por isso perderam a guerra duas vezes: primeiro com a morte injustificada de milhares de seus soldados e agora vendo desmoronar o governo que deixou encarregado do país.
Os insurgentes sunitas do EIIL estão hoje à frente de cidades que custaram muitos anos e muitos mortos para os EUA controlarem. Executaram Saddam, um sunita, mas outros sunitas estão agora no controle de um terço do Iraque. Tudo foi inútil.
Não há guerra boa.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves