quarta-feira, 1 de abril de 2015

O PT se faz de vítima
OESP
Depois de 12 anos no poder, por força de suas próprias contradições e, sobretudo, da incompetência do governo Dilma Rousseff, o PT está isolado politicamente no Congresso Nacional e restrito, nas ruas, ao tímido apoio das organizações sociais e sindicais que manipula. É a crise mais aguda que enfrenta em 35 anos de existência. Ao longo dessas décadas mudou muito, principalmente em função da conquista do poder. Mas num ponto permanece exatamente o mesmo: nos momentos de aperto, apresenta-se como vítima de algozes impiedosos, os tais “eles”, esses entes abstratos que agora estão armando um esquema de “cerco e aniquilamento” da legenda, movidos, é claro, pelo mais torpe dos motivos: não se conformam com o fato de o PT ter “tirado efetivamente 36 milhões de brasileiros da miséria”.
Esse argumento de esquerda de botequim é risível fora do ambiente libatório em que germina. Torna-se patético quando apresentado por dirigentes partidários com o aval de Lula e do presidente nacional Rui Falcão. Vira sintoma de patologia grave quando aprovado em reunião dos 27 diretórios regionais, com a presença do ex-presidente da República e de membros da Executiva nacional. Foi o que aconteceu na segunda-feira passada na capital paulista.
Lavrado nos termos do populismo maniqueísta de Lula – que divide o País entre “nós” e “eles” e durante o encontro proclamou que “o PT não pode ficar acuado diante dessa agressividade odiosa” – o manifesto petista declara: “Não toleram (“eles”, claro) que, pela quarta vez consecutiva, nosso projeto de País tenha sido vitorioso nas urnas” e os “maus perdedores no jogo democrático tentam agora reverter, sem eleições, o resultado eleitoral”. Em resumo: “Querem fazer do PT bode expiatório da corrupção nacional e das dificuldades passageiras na economia”.
Para começar, se há quem não tenha o direito de condenar “agressividade odiosa”, esse alguém é o próprio Lula, que cresceu na militância sindical estimulando o ódio de classes e como líder político ensinou a companheirada a tratar os adversários como inimigos que devem ser destruídos e não apenas vencidos no voto. Ao longo de sua carreira política apenas uma vez Lula despiu a fantasia de ferrabrás: em 2002, para se eleger presidente, transfigurou-se no “Lulinha paz e amor”.
Em relação à intolerância ao “projeto de País” do PT, é oportuno o testemunho de Frei Betto, histórico colaborador de Lula e do PT, que apesar de decepcionado com ambos ainda acha que os 12 anos de governos petistas, “apesar de todos os pesares – e põe pesares nisso – foram os melhores da nossa história republicana, sobretudo no quesito social”. Em entrevista à coluna de Sonia Racy publicada segunda-feira pelo Estado, Frei Betto qualifica o partido de Lula: “O PT trocou um projeto de Brasil por um projeto de poder. Permanecer no poder se tornou mais importante do que fazer o Brasil deslanchar para uma nação justa, livre, soberana e igualitária”.
Sugere ainda o apelativo manifesto petista que os adversários do governo, “maus perdedores”, se articulam agora para depor a presidente da República por meio de um golpe, que seria o impeachment. Ignora deliberadamente o documento petista que impeachment não é golpe, mas recurso constitucional que já foi usado com o apoio entusiasmado do PT, para depor um presidente, Fernando Collor de Mello. Ignora também que no caso de Dilma Rousseff a proposição do impeachment está longe de ser unanimidade entre os opositores do governo.
O manifesto de vitimização do PT exibe ainda o argumento de que “eles” procuram criminalizar o partido pela corrupção que corre solta e só não é encontrada onde por ela não se procura: “Querem fazer do PT bode expiatório da corrupção nacional”. Rui Falcão, em entrevista após a reunião, teve o despudor de proclamar: “Faço um chamamento a nós sairmos da defensiva, enfrentarmos de cabeça erguida aqueles que nos atacam, porque é impensável que a gente possa ser acusado de corrupção”. O STF, a Procuradoria-Geral da República e a Operação Lava Jato que o digam.
O manifesto menciona ainda a acusação que também se faz ao governo de ser o responsável por “dificuldades passageiras na economia”. Não se pode dizer que seja uma afirmação surpreendente, porque o PT não desce do palanque nem para governar.
A trilha do dinheiro
Merval Pereira - O Globo
Começa a ser desvendado o mistério envolvendo a participação da empreiteira Odebrecht no esquema de corrupção que a Operação Lava Jato está desvelando, para espanto não apenas de brasileiros, pelo volume de dinheiro que envolveu e o estrago que fez na maior empresa brasileira, a estatal Petrobras, com reflexos em toda a economia nacional.
A explicação extra-oficial que corria no mercado financeiro é que seria muito difícil pegar a Odebrecht em algum desvio, por que ela utilizava empresas no exterior para fazer o dinheiro sujo chegar aos políticos e executivos da Petrobras envolvidos no esquema, sem se utilizar de doleiros nacionais.
Pois ontem o doleiro Alberto Yousseff revelou que a Odebrecht e a Brasken – empresa petroquímica que a empreiteira tem em parceria com a Petrobras – utilizaram seus serviços “duas ou três vezes”. Ele denunciou a Construtora Internacional Del Sur, offshore usada para remessas ao exterior pelas duas empresas, como a distribuidora da propina no exterior ou, algumas vezes, para internalizar o dinheiro através de Yousseff.
A citação da Construtora Internacional Del Sur foi o suficiente para fechar o cerco em torno da Odebrecht, pois em outra delação premiada anterior, o ex-gerente Pedro Barusco havia revelado que a offshore panamenha foi usada pela Odebrecht para o repasse de valores para uma conta sua no Credit Corp Bank AS, de Genebra.
Entre maio e setembro de 2009, a Odebrecht teria transferido US$ 916.697,00 para a conta da Constructora Internacional del Sur, e de lá para uma offshore de Barusco também do Panamá. Cruzando-se os depósitos e recebimentos das contas de Barusco com as do ex-diretor da Petrobras Renato Duque, seu superior imediato indicado pelo PT, verifica-se que foram feitos dois depósitos pela Constructora Internacional Del Sur S.A., de US$ 290 mil, no dia 17 de novembro, e outro de US$ 584,7 mil, dez dias depois, na conta de Duque em Mônaco, que hoje está bloqueada pela justiça daquele principado.
A conta da Constructora Internacional Del Sur era no Credicorp Bank, em Genebra, o mesmo em que Barusco tinha conta. É provável que este tenha sido o elo final para circunscrever as relações da empreiteira Odebrecht com o escândalo da Petrobras. A partir daí, é previsível que as relações da empreiteira com o PT, e em especial com o ex-presidente Lula, a quem a Odebrecht levou para várias viagens na África como garoto-propaganda da construtora brasileira, façam parte das investigações da Operação Lava-Jato.
A boa relação da Odebrecht com os governos petistas vem desde o início do primeiro mandato de Lula. Em 2003, quando Dilma era a ministra das Minas e Energia, em dificuldades para pagar dívidas em torno de U$ 2 bilhões, a empreiteira teve a concessão especial de ampliação no prazo, de 90 para, em alguns casos, até 210 dias, para o pagamento de insumos da Petrobras pela Brasken, a empresa petroquímica do grupo.
A atuação da Odebrecht em outras áreas, como a construção de hidrelétricas aqui e em países da América Latina e da África também já estão sendo investigadas a partir de delações premiadas de Dalton Avancini, presidente da Camargo Corrêa, e Eduardo Leite, vice-presidente, que admitiram que a empresa se comprometeu a pagar cerca de R$ 20 milhões em propina na usina de Belo Monte.
No acerto do cartel, as empresas do consórcio teriam que contribuir com a mesma quantia para um fundo comum que financiaria a propina. O próprio juiz Sérgio Moro já demonstrou estar surpreso com a amplitude do esquema, para além da Petrobras.
Segundo comentários de Moro, as investigações não chegaram nem mesmo à metade do caminho, pois a cada dia aparecem mais informações que levam a novas descobertas. Tudo percorrendo a trilha do dinheiro.
Girando em círculos
Manifesto de petistas retoma a antiga arrogância do partido, enquanto surgem propostas para ocultar o desgaste da sigla
FSP
A história, com outros personagens, é bastante conhecida.
Passado seu período de glória --quando sustentava, com servilismo abjeto, o regime militar--, a chamada Aliança Renovadora Nacional, a Arena, viu-se constrangida a mudar de nome. Surgiu o PDS (Partido Democrático Social) e, depois, o PP (Partido Progressista).
Não é outra a crônica da dissidência do arenismo, o PFL (Partido da Frente Liberal). Identificado com os setores oligárquicos que vicejavam à sombra do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), buscou uma espécie de "aggiornamento" de fachada. Tornou-se o DEM (Democratas), que vacila entre a extinção e a insignificância.
É outra, por certo, a mística do PT, bem como sua abrangência no território nacional. Não muda a história, entretanto, no que tange ao desgaste de uma sigla cada vez mais identificada com casos de corrupção e escândalos semelhantes (ou bem maiores) aos que, tempos atrás, denunciava sem descanso.
Vê-se com ironia, mas sem surpresa, a proposta de algumas lideranças do partido para esquivar-se do estigma que o contamina. A cúpula petista cogita criar uma "frente ampla" que congregaria sindicatos, associações, ONGs e outros partidos em torno da agremiação, modelo bem-sucedido no Uruguai.
O presidente do partido, Rui Falcão, nega a intenção de encobrir a legenda sob o manto de outras organizações. Mas afirma ver com simpatia a ideia de que se crie um movimento mais amplo, "no bojo da reforma política".
Num paradoxo, porém, ao fim do mesmo encontro em que se aventava a ideia da frente ampla, afirmações mais enfáticas vieram a público, num manifesto assinado pelos 27 presidentes regionais do PT.
"Condenam-nos não por nossos erros", sustentam os líderes petistas, "que certamente ocorrem numa organização que reúne milhares de filiados." Mensalão, desvios na Petrobras, fisiologismo, inconformidade com a imprensa livre? Nada disso, imaginam os signatários.
"Perseguem-nos pelas nossas virtudes", diz o manifesto --que propõe, entretanto, reatar com setores sociais "inicialmente representados em nossas instâncias e hoje alheios, indiferentes ou, até, hostis em virtude de alguns erros."
Faz-se, então, a mágica. Erros "de alguns filiados" levam ao distanciamento dos movimentos sociais; a reaproximação se faz numa "frente ampla", sem destaque para um PT cujas virtudes, todavia, não só são indiscutíveis como precisam ser relembradas.
O PT se esconde de si mesmo, sem deixar de ser o que é --e gira em círculos, pateticamente.
NÃO É SÓ O PT, NÃO! LULA TAMBÉM ESTÁ MORTO! NOME DO FILME: “ADEUS, LULA!”
Reinaldo Azevedo - VEJA
É uma delícia ser lido por uma esmagadora maioria de sabidos, mas vocês entendem, não é? Blogs ainda não contam com mata-burro. Quando escrevo que o PT está morto, alguns quadrúpedes acham que estou prevendo o fim do partido para amanhã. Não! O que estou dizendo é que o projeto hegemônico da legenda foi por água abaixo. Acabou! Não haverá a ditadura do astro-rei, em torno do qual orbitariam não mais do que satélites. Chegamos a correr, sim, esse risco. Da mesma sorte, quando afirmo que Lula está acabado, não estou antevendo para breve a sua passagem — sim, todos passaremos, não é?, eu também… O chefão do PT vive, mas o demiurgo está morto. Não tem mais como se apresentar como a voz de Deus ou como um seu intermediário. Em quatro meses, o discurso do Babolorixá de Banânia envelheceu 40 anos.
Nesta terça, Lula reuniu sindicalistas e ditos líderes de autoproclamados “movimentos sociais” no Sindicato dos Bancários de São Paulo num ato, quem diria?, em defesa da Petrobras e contra a corrupção. Que coisa! Vejam trecho de seu discurso, que está no Youtube. Volto em seguida.
Como se nota, para o petista, a corrupção na Petrobras é obra de uma pessoa ou outra, o objetivo era só enriquecer alguns larápios, o dinheiro não foi enviado para os partidos políticos, e ele próprio, Lula, é o brasileiro mais indignado com a roubalheira.
O poderoso chefão fez esse discurso no dia em que ficamos sabendo que Alberto Youssef disse ter entregado, pessoalmente, grana para a cunhada de João Vaccari Neto, tesoureiro do PT. Mais: um funcionário seu, afirmou o doleiro, deixou uma mala de dinheiro na sede do PT nacional, em São Paulo.
No evento, José Sérgio Gabrielli, o petista que presidiu a Petrobras durante a lambança, foi saudado como herói. E Lula desafiou qualquer pessoa a provar que o aliado cometeu alguma irregularidade.
É uma pena que seja tão preguiçoso para ler. Já confessou que até Chico Buarque lhe dá sono (não há como censurá-lo por este particular…). Oscar Wilde, então, nem pensar. Não fosse esse preguiça, o ex-presidente deveria se dedicar ao romance “O Retrato de Dorian Gray”, que recomendo vivamente a todos os leitores.
Dorian é um rapaz notavelmente bonito, que tem sua figura estampada num retrato. Por circunstâncias várias, leiam lá, consegue a eterna juventude, e quem envelhece em seu lugar é o retrato. Leva uma vida dissoluta e sem limites, provoca uma série de desastres à sua volta, mas não perde a juventude. A imagem do retrato, no entanto, vai envelhecendo e estampando os horrores de sua alma. Quem leu sabe como termina. Quem não leu deve fazê-lo.
Lula era o Dorian Gray da política — não pelos dotes físicos, claro!, mas, como diria Camões, pelos transes da ventura, da sorte. As barbaridades perpetradas pelo PT e pelos governos petistas nunca haviam vincado a sua imagem. Permanecia, aos olhos de milhões, o líder popular impoluto, em quem nada colava. Escândalo do mensalão? Ele proclamava: “É golpe!” E a farsa prosperava, com a colaboração da máquina maligna do petismo, infiltrada em todas as esferas do estado brasileiro, na imprensa, nas ONGs, nos tais movimentos sociais. Um bando de larápios foi flagrado comprando um dossiê para incriminar adversários? Lula mandava ver: “São aloprados! Nada têm a ver com o PT”. Dorian desfrutava o mundo e destruía pessoas com seu hedonismo irresponsável; Lula, com a sua tagarelice agressiva, compulsiva e rasa.
Mas o retrato do chefão — e o do PT — iam envelhecendo no porão da história. As marcas iam ficando. E finalmente se quebrou o encanto. Não! Essa narrativa não terá, como a outra, um momento de arrependimento e contrição para pôr fim à monstruosidade moral. Não há, no companheiro, resquício de consciência culpada. É a população que, finalmente, colou o retrato de Lula — aquele líder inventado pelas esquerdas universitárias e pela imprensa — ao Lula que realmente existe.
Assistam ao vídeo de Lula na reunião desta terça com os petistas. O líder está velho. Está acabado. Está passado. Não me refiro à decadência física, de que todos somos vítimas. Falo é da decadência moral mesmo, ética, espiritual se quiserem.
Num dado momento, diz o mito decadente: “Porque hoje, se tem um brasileiro indignado sou eu. Indignado com a corrupção”. Que patético! Não! Há muitos milhões de brasileiros muito mais indignados. Há muitos milhões de brasileiros que já não caem mais nessa conversa. Há muitos milhões de brasileiros que enxergam na cara do próprio Lula as marcas dos governos petistas.
O PT está morto.
Lula está morto.
Mas o Brasil vive nas ruas, nas pessoas que trabalham, que estudam, que trabalham e estudam. E Lula e o PT não as representam.
'Fracasso da Dilma é o meu fracasso', diz petista
CATIA SEABRA, GUSTAVO URIBE E MARINA DIAS - FSP
O ex-presidente Lula criticou na segunda (30) a atuação da presidente Dilma Rousseff frente à crise política enfrentada pelo governo.
Em encontro a portas fechadas com dirigentes petistas, na capital paulista, o ex-presidente comparou o momento atual com 2005, ano do escândalo do mensalão.
Segundo relatos de participantes, Lula afirmou que Dilma precisa reagir ao cenário de dificuldades e lembrou que ele, em resposta à crise do mensalão, não ficou "trancado no gabinete".
No início de seu discurso, o petista fez questão de frisar que nada abalará a sua relação com a presidente.
"O sucesso da Dilma é o meu sucesso. O fracasso da Dilma é o meu fracasso", afirmou, segundo presentes.
Na sequência, no entanto, lamentou que a presidente não invista em uma "pauta positiva" com inaugurações de obras e viagens pelo país, como ele fez em 2005.
Para exemplificar a necessidade de o governo federal reagir e não se intimidar diante da crise atual, Lula arrancou gargalhadas ao contar que, na época do mensalão, todo dia se olhava no espelho e dizia: "Eu sou o cara mais bonito que existe".
Em outro paralelo com 2005, lembrou que, mesmo sob críticas, recebeu líderes de movimentos sociais e sindicais, o que também sugeriu agora para a presidente.
Ainda segundo petistas, Lula criticou a política de comunicação do governo e reclamou que sugestões suas não foram levadas em conta pelo ministro Aloizio Mercadante (Casa Civil) e pelo marqueteiro João Santana na elaboração do pronunciamento feito pela presidente no Dia da Mulher, em 8 de março.
A veiculação do discurso da presidente em cadeia nacional pela televisão foi recebida com vaias e panelaços em pelo menos 12 capitais.
"Não sei quem foi o infeliz que convenceu ela a falar", disse o ex-presidente.
O encontro teve a presença de representantes dos diretórios estaduais. Lula conclamou os dirigentes a "ir à luta" para diminuir os danos à imagem do PT.


Come visit Newdies for thousands more images of beautiful women.
Come visit Newdies for thousands more images of beautiful women.
Come visit Newdies for thousands more images of beautiful women.
Come visit Newdies for thousands more images of beautiful women.


Via nwds
happyharry101:The Lake District, England
Via mrrrwv13

DOUG ALDRICH TRIO - SLOW AN' EASY (WHITESNAKE'S COVER)




Via mrrrwv13

bornbythesea:Wild Kat by zachar rise
Via mrrrwv13 
Diplomacia, contenção militar e paciência são as únicas soluções para a Líbia
Jean-Marie Guéhenno e Issandr El Amrani - Le Monde
Mahmud Turkia/APCombatentes da Fajr Libya, aliança de milícias islâmicas, entram em ação durante confrontos com um grupo de oposição em Bir al-Ghanam (a 50 km da capital, Trípoli) Combatentes da Fajr Libya, aliança de milícias islâmicas, entram em ação durante confrontos com um grupo de oposição em Bir al-Ghanam (a 50 km da capital, Trípoli)
O Estado Islâmico (EI) midiatiza com muita habilidade as atrocidades que vem cometendo, levando os países a reagirem de forma emocional. Depois do Iraque e da Síria, agora é a Líbia a ser afetada.
A decapitação de 21 cristãos egípcios levou o Egito a bombardear campos de treinamento na costa líbia e a lançar uma ofensiva diplomática junto ao Conselho de Segurança das ONU (Nações Unidas) para que ele autorize operações militares. Os exemplos bem pouco conclusivos do Iraque e da Síria, sem nem mencionar a campanha da Otan na Líbia de 2011, deveriam, no entanto, fazer pensar: bombardear não pode ser uma estratégia política, ainda mais que na Líbia, país majoritariamente sunita, o EI pode se alimentar das mesmas revindicações sectárias que o ajudam no Iraque e na Síria.
O grupo controla um território restrito, com pouco mais de mil homens distribuídos nas poucas cidades declaradas sob seu controle, tais como Damasco, Sirta ou Nawfiliya. Mais do que objetivos militares e estratégicos concretos, os ataques recentes aos campos petroleiros e os assassinatos e sequestros, assim como as decapitações, são concebidos para semear o pânico e o caos. Então, não se deve cair nos gritos alarmistas daqueles que, tanto em Tobrouk quanto em Trípoli, usam o argumento da ameaça extremista para obter apoios externos.
A verdadeira ameaça estratégica é a fragmentação da Líbia: é ela que, ao criar uma anarquia na qual tráficos de todo gênero prosperam, acaba preparando um terreno propício para os jihadistas, que podem então se apresentar como os guardiães da ordem. Existe o risco de que o EI possa atrair indivíduos em busca de proteção, outros grupos islamitas, criminosos, antigos seguidores de Gaddafi ou membros de tribos que perderam sua influência depois de 2011.
Combatentes estrangeiros se refugiaram em cidades como Derna, onde acampamentos de treinamento jihadistas foram montados. Grupos radicais vindos de países do Sahel foram vistos no sudoeste da Líbia; eles poderão um dia procurar desestabilizar países frágeis tais como Níger e Mali. Mas não é bombardeando que se para essa evolução, muito pelo contrário: o sul líbio ainda não é o santuário jihadista descrito por alguns, e uma operação militar lançada em um país hoje dividido entre dois poderes concorrentes não resolveria, nada e poderia até mesmo ajudar os movimentos extremistas fornecendo-lhes um cômodo adversário.
A prioridade então é dar uma chance à política e à diplomacia. A Líbia hoje está dividida entre um governo que se apresenta como moderado em Tobruk, mas que seus adversários apresentam como gaddafista, e um governo oriundo da revolução em Trípoli, que seus adversários apresentam como perigosamente islamita. Essas duas caricaturas não fazem jus a uma realidade complexa onde ambições pessoais e pertencimentos tribais exercem seu papel. Tanto em Tobruk como em Trípoli, os políticos parecem mais preocupados em garantir seu poder do que em impedir o crescimento do EI. Então é preciso resistir aos pedidos de armas dos dois lados e, pelo contrário, reforçar o embargo hoje em vigor e que é constantemente violado.
Isso só será possível se a comunidade internacional voltar a ter uma verdadeira união na Líbia, em vez de importar para lá seus combates: a luta conduzida pelo Egito contra a Irmandade Muçulmana não poderia justificar o apoio ao general Haftar, que depende da ilusão de uma solução militar que esmagaria os "islamitas". O interesse da França e dos europeus não é se engajar em operações militares e excluir os cernes duros dos dois lados, mas pelo contrário, apoiar o enviado especial da ONU, Bernardino Léon, para que ele os atraia para dentro de uma negociação inclusiva.
Negociações conduzidas sob a supervisão da ONU levam tempo para resultar em algo, mas elas continuam sendo a melhor chance de paz. E, acima de tudo, é preciso a qualquer custo preservar aquilo que resta da unidade da Líbia, um banco central independente e uma gestão autônoma dos recursos petroleiros. A alternativa é desastrosa: uma guerra que terá todos os meios financeiros de durar porque cada lado captará parte da renda.
Os europeus hoje só veem a Líbia sob um aspecto humanitário: novos "boat people" que estão se aproveitando do colapso do Estado líbio para tentar alcançar o paraíso europeu a partir de uma costa que não é tão vigiada. Mas a realidade é um jogo estratégico de primeira importância: se o Estado líbio não for preservado, é um crescente jihadista, do Boko Haram da Nigéria até o Estado Islâmico na Síria, que está se esboçando às portas da Europa. E a solução não é militar,  mas sim política.
Americanos podem receber uma indenização maior em acidente da Germanwings
Jad Mouawad e Nicola Clark - NYT
Christophe Ena/AP
Familiares de vítima lamentam perto da área onde o avião caiu, nos Alpes franceses Familiares de vítima lamentam perto da área onde o avião caiu, nos Alpes franceses
As extraordinárias circunstâncias que levaram à queda do jato da Germanwings na semana passada, quando aparentemente o piloto derrubou o avião, matando todas as pessoas a bordo, significa que as seguradoras da companhia aérea poderão ter de pagar centenas de milhões de dólares para as famílias das vítimas, segundo peritos judiciais.
Mas, apesar de a companhia aérea ser responsável pelos atos de seu piloto, nem todos os parentes terão direito à mesma indenização. As famílias das três vítimas norte-americanas, por exemplo, deverão receber da companhia um pagamento maior do que outros passageiros, porque os tribunais nos Estados Unidos geralmente concedem indenizações maiores que os tribunais europeus.
Sob a Convenção de Montréal de 1999, um tratado internacional que rege a responsabilidade pelos aviões, as companhias aéreas são responsáveis em casos de morte ou ferimento acidental em voos internacionais e devem pagar às famílias até US$ 170 mil por vítima. A definição de um acidente é ampla e inclui qualquer evento incomum e inesperado que cause uma queda mortal.
Mas como o piloto causou a queda intencionalmente, segundo a promotoria francesa, os parentes também poderão pedir uma indenização maior à empresa, segundo advogados especializados em aviação.
"É triste, é trágico, mas extremamente simples", disse Robert Alpert Sr., um veterano advogado de aviação que tratou de casos envolvendo mais de 40 acidentes. "A companhia e sua seguradora devem fazer os pagamentos rapidamente às famílias. Particularmente diante do fato de que eles parecem ter descuidado da monitoração do bem-estar físico e mental desse piloto".
As autoridades disseram que Andreas Lubitz, o copiloto que estava no controle do Airbus A320 que despencou nos Alpes franceses na terça-feira passada (24), tinha uma doença mental, mas manteve o diagnóstico escondido de seu empregador. Ele e as outras 149 pessoas a bordo do avião morreram quando ele se chocou com uma montanha.
James Healy-Pratt, um sócio e diretor do departamento de aviação da firma Stewarts Law, em Londres, calculou que as indenizações totais da companhia aérea às famílias dos passageiros serão de aproximadamente US$ 350 milhões.
"Seria um suicídio comercial para a Germanwings tentar discutir sua responsabilidade para com as famílias", disse Healy-Pratt. "Estou surpreso de que a Lufthansa tenha sido tão defensiva até agora. Espero que o bom senso prevaleça em breve".
Hans Joachim Schöttes, um porta-voz da Germanwings, disse durante o fim de semana que as famílias das vítimas começarão a receber pagamentos iniciais nos próximos dias. A Germanwings, propriedade da Lufthansa, disse que reservou 50 mil euros para cada família, para cobrir despesas imediatas. A Lufthansa disse que vai honrar suas responsabilidades junto às famílias.
Quanto cada família receberá no final deve variar. As dos passageiros com filhos ou dependentes teriam direito a um pagamento maior do que aquelas de passageiros idosos ou que não têm parentes dependentes.
Quanto a onde as famílias podem pedir indenização, existem várias opções: o país da companhia aérea; o país onde o voo deveria pousar; o país em que a passagem foi comprada; o país de destino final; ou o país de residência do passageiro.
Os passageiros a bordo do avião da Germanwings, que voava de Barcelona, na Espanha, para Düsseldorf, na Alemanha, vinham de mais de 16 países, incluindo 71 passageiros da Alemanha e 48 da Espanha.
A Convenção de Montréal não impõe limites à indenização, deixando que os tribunais nacionais decidam quanto dinheiro é adequado pela perda de um parente (a convenção, entretanto, não permite que sejam concedidos danos punitivos).
As abordagens nacionais variam muito. Alguns países não permitem indenização em casos de homicídio doloso. Os tribunais dos EUA, por outro lado, em geral são extremamente favoráveis às famílias.
Uma companhia aérea pode evitar pagar às famílias mais que uma soma mínima se puder provar que de modo algum foi culpada pela queda do avião. Na prática, esse critério é quase impossível de cumprir em um acidente. "Neste caso, é claro, será impossível para a companhia provar que foi totalmente isenta de erro", disse Mike Danko, advogado de um queixoso da Califórnia.
"A companhia deverá pagar uma indenização plena ilimitada porque deixou de fazer tudo para evitar essa tragédia", disse Healy-Pratt.
O principal executivo da Lufthansa disse que Lubitz estava capacitado a voar. Entretanto, as autoridades alemãs descobriram que ele não revelou todo o seu histórico médico, apesar de uma política da empresa que exige a notificação de condições que possam afetar a capacidade de pilotar.
Ele também procurou tratamento para problemas de visão que podem ter ameaçado sua capacidade de continuar trabalhando como piloto, disseram no sábado (28) duas autoridades informadas sobre a investigação.
"Não há uma exigência de que eles deveriam conhecê-lo melhor, mas ele era seu agente, e a companhia aérea é responsável por seus atos", disse Kevin P. Durkin, sócio da Clifford Law Offices em Chicago e ex-presidente da seção de aviação da entidade que representa os advogados dos EUA.
Nos EUA, as famílias podem esperar indenizações de mais de US$ 10 milhões, dependendo das circunstâncias específicas da pessoa, idade, profissão e renda, segundo Danko, que representou as famílias das vítimas da queda do Concorde da Air France em 2000 e do voo 587 da American Airlines que caiu em Nova York em novembro de 2001.
Mas um tribunal federal da Califórnia, depois da queda do voo 447 da Air France, remeteu o caso de duas famílias americanas à França, onde a maioria dos casos foi julgada, disse Danko.
Ainda assim, a maioria dos casos é resolvida fora do tribunal. Por esse motivo, Danko diz que as companhias geralmente examinam onde os passageiros poderiam processá-la e oferecem uma indenização equivalente à que um tribunal desse local poderia conceder.
Isto explica por que os europeus receberiam menos, disse Kenneth R. Feinberg, advogado especialista em indenização de vítimas, já que "a ideia de que você receberá centenas de milhares ou milhões de dólares é estranha ao modo como a Europa indeniza".
Os tribunais da Alemanha, por exemplo, aprovam pagamentos que cobrem o custo do enterro das vítimas ou ajuda psicológica para seus parentes, assim como pensão alimentícia à esposa e aos filhos. Mas os pagamentos totais geralmente são uma fração do que as famílias americanas podem receber.
Healy-Pratt disse que os acordos em desastres aéreos são em média de US$ 4,5 milhões para um caso americano, 1,6 milhão para um caso britânico, 1,4 milhão para um caso espanhol e 1,3 milhão para um caso alemão.
Segundo especialistas, quaisquer que sejam as conclusões sobre a queda da semana passada, a cobertura do seguro deveria facilmente incluir as potenciais indenizações. A Germanwings é segurada por um grupo de seguradoras lideradas pela Allianz.
"Uma das partes mais difíceis do meu trabalho é explicar às famílias britânicas que suas indenizações valem muito menos que as das famílias norte-americanas, e para as famílias alemãs que as delas valem menos que as das espanholas", disse Healy-Pratt. "Afinal, a maioria dos passageiros sofreu experiências semelhantes durante os longos minutos finais do voo 9525". 
Toponímia é antiga obsessão da extrema direita francesa
Frédéric Giraut - Le Monde
Pascal Rossignol/Reuters
Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, partido de extrema direita na França, deixa cabine de votação nas eleições departamentais de março Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, partido de extrema direita na França, deixa cabine de votação nas eleições departamentais de março
A extrema direita xenófoba na França cultiva seu populismo com um discurso simplista sobre o suposto necessário bom senso contra as ideologias. Ela sistematicamente contesta dessa forma toda uma série de iniciativas municipais, departamentais ou regionais por seu caráter internacionalista e intelectual, no domínio cultural e memorial. Sua retórica reacionária muitas vezes se alinha à interpretação proposta pelo economista americano Albert O. Hirschman (1915-2012).
Esse discurso se soma ao da direita promotora da identidade nacional, uma vez que invoca a inutilidade dessas iniciativas culturais. A ele são atribuídos efeitos perversos que contribuiriam para a perda de referências e para o comprometimento de valores essenciais à coesão nacional.
A toponímia, na condição de domínio do simbólico e do ideológico, muitas vezes é remetida, nesse tipo de discurso, à inanidade em relação às verdadeiras questões que seriam aquelas da vida cotidiana local e das necessárias economias a se fazer. Em contextos muito diferentes, muitas vezes foi com esses argumentos que se rejeitaram ou contestaram iniciativas feministas ou internacionalistas que também se revelaram reacionárias nesse domínio.
Em Elne, em Limeil-Brévannes e em Romorantin, nomes femininos homenageando figuras nacionais e internacionais de resistentes ou de feministas, previstos para novas ruas, foram abandonados ou contestados sob diferentes pretextos. Assim, as pessoas preferiram uma rua Canigou a uma rua Rosa Parks ou Olympe de Gouges, em Elne, enquanto que em Limeil-Brévannes, a nova municipalidade voltou em sua decisão em um batismo homenageando essa última figura histórica emblemática para os movimentos feministas, para promover dessa vez outras figuras femininas mais locais; por fim, uma parlamentar da Frente Nacional em Romorantin chamou esse mesmo ícone feminista de "não sognolote" e "espécie de prostituta" para contestar a nomeação de uma avenida com seu nome.
Um espaço perfeito para esse tipo de disputa política reacionária e muito ideológica é o das nomeações com o nome de Nelson Mandela. Estas eram rejeitadas nos anos 1980, pois celebravam um comunista e um terrorista. No Reino Unido, na França e na Holanda, a decisão de rebatizar um lugar como Nelson Mandela conseguiu ser derrubada por novas equipes, bem como em Sartrouville, em 1989.
A extrema direita chegou a intervir espalhafatosamente nesse campo no final dos anos 1990 quando Nelson Mandela, presidente da nova África do Sul e Prêmio Nobel da Paz, já havia adquirido um status de figura internacional de defesa dos direitos humanos e da paz. Assim, a praça Nelson Mandela de Vitrolles se tornou a Place de Provence, enquanto em outro lugar, na cidade governada pelo casal Mégret, uma figura de extrema direita (Jean-Pierre Stirbois) pôde ser homenageada no lugar de uma outra figura pós-colonial como Jean-Marie Tjibaou.
Essas iniciativas reacionárias mexeram os pauzinhos para não poderem ser claramente associadas a motivações racistas ou sexistas, promovendo em contrapartida figuras e símbolos locais e regionais no caso de Vitrolles, e/ou promovendo figuras femininas ou negras no lugar das desbatizadas: Marguerite de Provence no lugar de Dulcie September (a representante assassinada do CNA na França) em Vitrolles; Félix Eboué no lugar de Nelson Mandela em Sartrouville.
A nova onda de parlamentares de extrema direita está sendo levada a se pronunciar sobre as escolhas do nome Nelson Mandela, em um outro contexto que é o de uma homenagem quase universal, inclusive pela direita, de uma figura dos valores democráticos e da defesa dos direitos humanos. Assim, iniciativas nesse sentido dispararam desde o início dos anos 2010 e particularmente a partir do final de 2013, com a morte de Mandela. Às vezes ele é colocado pela direita no mesmo patamar que o co-laureado do prêmio Nobel e ex-dirigente do regime do apartheid Frederik de Klerk, ou pode servir para apagar a memória dos combates de municipalidades comunistas anteriores como em Yerres, onde o nome de Mandela foi dado à ponte de Soweto que homenagearia o mártir dos militantes anti-apartheid na África do Sul, ou em Saint-Cyr, quando o nome de Nelson Mandela foi dado à rua Georges Dimitrov, resistente anti-nazista e primeiro líder do partido comunista búlgaro.
Mas os parlamentares de extrema direita, longe de participarem dessa homenagem que varia de acordo com as circunstâncias ao ícone Mandela, são contrários a ela com uma constância notável. Os argumentos, contudo, variam dependendo de se os parlamentares se alinham com o discurso oficial da direção da Frente Nacional, buscando respeitabilidade, ou se trazem de novo à tona uma natureza muitas vezes presente no local. Assim, desde as eleições municipais de 2014, em Toulon, Lomme, Lyon e Saint-Etienne, os parlamentares da Frente Nacional se recusaram a votar a favor do uso do nome Nelson Mandela para batizar o pátio da nova estação ferroviária, um estabelecimento regional de ensino adaptado (EREA) e duas esplanadas.
Eles usaram como argumento, no primeiro caso, o mau tratamento infligido à memória do general golpista Salan, homenageado em sua época pela prefeitura da Frente Nacional, e nos dois casos seguintes, uma oposição à "internacionalização da cidade", e por fim em Saint-Etienne, eles retomaram a ladainha sobre o caráter comunista e terrorista de Nelson Mandela e sua contribuição somente passiva para o fim do apartheid.
Por fim, em Béziers, o novo prefeito de extrema direita, em um primeiro momento, quis desbatizar a nova escola Nelson Mandela na nova rua Frederik De Klerk, para lhe dar o nome de um poeta occitano que faleceu subitamente, mas depois voltou atrás. Mas longe de abandonar o campo toponímico, a priori tão afastado de seus discursos pragmáticos e anti-ideológicos, ele começou, assim como seus antecessores prefeitos da Frente Nacional dos anos 1990, a apagar a lembrança dos acordos de paz de Evian que selaram a última guerra colonial francesa para homenagear um de seus atores engajados.
Assim, apesar de seu discurso visando deslegitimar a promoção de figuras ideológicas na toponímia, a extrema direita está sempre tentada a impor seu próprio panteão, feito sobretudo de figuras coloniais e singularmente extremistas da Argélia francesa.
Não se deve nunca subestimar a extrema direita, sua natureza e suas referências históricas e ideológicas subjacentes tentam voltar à tona na primeira oportunidade.
Assassinato de Nemtsov mostra que a Rússia se tornou moralmente desequilibrada
Christian Neef - Der Spiegel
Pavel Golovkin/AP
Flores, velas e cartazes são mantidos no local onde Boris Nemtsov, líder da oposição russa e forte crítico ao presidente Vladimir Putin, foi morto a tiros em 27 de fevereiro, perto do Kremlin, em Moscou Flores, velas e cartazes são mantidos no local onde Boris Nemtsov, líder da oposição russa e forte crítico ao presidente Vladimir Putin, foi morto a tiros em 27 de fevereiro, perto do Kremlin, em Moscou
Em um período de quatro semanas, dois eventos ocorreram na Rússia que, à primeira vista, parecem ter pouca ligação um com o outro. Mas à segunda vista, eles parecem estreitamente relacionados. O primeiro foi o assassinato do político de oposição Boris Nemtsov. O segundo foi o encontro do Fórum Conservador Russo há uma semana no domingo, em São Petersburgo. Ambas as ocorrências – o assassinato descarado do lado de fora do Kremlin e a tentativa de criar uma espécie de Internacional nacionalista em solo russo – provam a mesma coisa: a Rússia está política e moralmente à deriva.
O evento em São Petersburgo contou com a presença de 150 membros de partidos de extrema direita, incluindo o extremista de direita NPD da Alemanha, para examinar as "tendências políticas conjuntas" que podem encontrar com a liderança russa.
Políticos que apreciam abertamente Adolf Hitler estavam entre eles. Russos mais liberais – ao menos aqueles que ainda prestam atenção em notícias desse tipo – ficaram estarrecidos. Afinal, o evento contou com neonazistas marchando por uma cidade em cujas ruas centenas de milhares de civis morreram de fome durante o cerco a Leningrado (como a metrópole era chamada na época) na Segunda Guerra Mundial.
Aquelas mortes ocorreram pelas mãos da Alemanha de Hitler, um evento horrível que transformou a cidade em um símbolo da resistência heroica contra os nazistas. Ainda pior é o fato de que o 70º aniversário da vitória da União Soviética sobre Hitler será celebrado com grande pompa em 9 de maio.
O porta-voz do presidente russo Vladimir Putin disse que não podia comentar sobre o evento em São Petersburgo, dizendo que "não estava em nossa agenda". Mas um dos organizadores do evento foi o partido político russo Ródina (Pátria), que foi cofundado por Dmitri Rogozin, o vice-primeiro-ministro e um herdeiro da indústria de armas do país. Ele até mesmo esteve sentado ao lado de Putin durante uma recente reunião do comitê para os preparativos para o 9 de maio no Kremlin. Mas há mais.
Há não muito tempo, a emissora de televisão de oposição "Dozhd" perguntou aos seus telespectadores se não teria sido melhor deixar Leningrado ser tomada pelos nazistas durante a guerra, e assim salvar centenas de milhares de vidas. O Kremlin reagiu imediatamente, mostrando que a história da guerra de São Petersburgo está muito presente em sua "agenda". A emissora quase foi levada à falência.
Resumindo, está claro que o círculo de liderança de Putin não apenas tolerou o recente encontro da extrema direita europeia, como também o fez com grau significativo de benevolência.

Tendências nacionalistas

O incidente demonstra o grau de confusão política que está atualmente presente na Rússia. O jornal moscovita "Nezavisimaya Gazeta" escreveu que a elite política russa abandonou seus instintos fundamentais e não consegue mais avaliar de modo confiável o que é aceitável e o que não é.
A palavra "fascismo", por exemplo, é usada com tanta frequência pelo Kremlin atualmente que poucas pessoas no país ainda sabem o que significa. A "Junta" em Kiev é fascista, diz o Kremlin, assim como o que está ocorrendo na Europa no momento. No leste da Ucrânia, voluntários russos estão igualmente combatendo fascistas.
Nenhuma das pessoas de Putin parece perceber que as tendências nacionalistas liberadas na Rússia pela anexação da Península da Crimeia prepararam o terreno no país para uma forma perigosa de radicalismo. Mas deveria ser óbvio. Algumas dessas pessoas que estão lutando no leste da Ucrânia não se intimidaram em rotular Putin como traidor, por ter aceito um cessar-fogo ucraniano com o Ocidente durante as negociações em Minsk.
A Rússia se tornou uma fortaleza. "Somos nós contra o mundo", é o ponto de vista que se transformou em uma espécie de ideologia nacional. Rússia contra Estados Unidos é a forma russa de se diferenciar da cultura podre do Ocidente; se você não é patriota, você é um traidor. O pensamento na Rússia se tornou limitado por esses ultimatos.
A televisão russa propaga essa visão – popular antes da revolução, mas também durante os tempos soviéticos – de que o povo russo é o povo escolhido por Deus e que a Rússia é o mais brilhante farol da paz existente. A visão utópica de ser a melhor nação do mundo retornou.
É óbvio que aqueles que se isolam desse modo terão dificuldade em encontrar amigos no mundo – e têm pouca escolha a não ser se transformarem em nacionalistas, neonazistas e antissemitas.
Mas não se trata apenas de política. Ainda pior é o que essa dose diária de ódio e fúria faz às mentes da população. Em Moscou e São Petersburgo, ainda existem alguns poucos liberais. Mas em lugares mais distantes? Milhões de russos vivem em cidades e vilarejos carentes, em casas decrépitas sem água encanada e com apenas um fogão a lenha como aquecimento.
Mas até mesmo o casebre mais remoto possui uma antena parabólica, "como uma espécie de ouvido artificial", como já escreveu um jornalista do jornal "Moskovskij Komsomolets". "À noite, os moradores dessas cidades pobres e sujas sentam-se diante de seus televisores. Eles acompanham extasiados os moderadores, que lhes dizem que o mundo inteiro odeia os russos apenas por serem russos." Eles não percebem que estão se distanciando cada vez mais da realidade.

Medo da Rússia

O patriotismo que tomou conta do país dá até mesmo aos russos mais impotentes e oprimidos do interior a sensação de serem superiores àqueles que vivem em países muito mais prósperos e democráticos. Eles amam quando Putin envia bombardeiros de longo alcance ao Atlântico, quando ele encena outra "manobra não planejada" envolvendo dezenas de milhares de soldados, quando as pessoas ficam falando da nova "arma milagrosa" russa. E amam o fato de o Ocidente estar novamente com medo da Rússia.
O problema é que essa sensação de superioridade está cada vez mais casada com ódio. Ódio pelo próximo com uma opinião diferente. Ódio pela Ucrânia. Ódio pelo Ocidente. Esse ódio, somado com as mentiras mais despudoradas, é nutrido pela televisão russa.
"O povo russo sempre foi caracterizado pela gentileza, generosidade e solicitude", diz Andrei Zvyagintsev, diretor do filme "Leviatã", que trata das condições feudais em uma província russa e que foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. "Mas agora, complexos inumanos e demoníacos de vingança, autoafirmação e ódio estão sendo despertados dentro e sendo exibidos –características que estavam dormindo profundamente dentro de nós até um ou dois anos atrás."
Isso explicaria as reações de ódio diante do assassinato de Boris Nemtsov. O vice-reitor da universidade onde o filho de Nemtsov estuda disse sobre o assassinato: isso é o que acontece com "prostitutas". Agora, ele prosseguiu, "há um porco imundo a menos" no país.
O fato de o Parlamento nacional, a Duma, ter se recusado a fazer um minuto de silêncio pelo homem – que já foi vice-primeiro-ministro – não chega a causar surpresa. O sentimento que muitos russos têm de terem sido insultados pelo mundo se tornou uma espécie de mitologia nacional.
Mas essa obstinação intransigente está se infiltrando na psique russa há mais tempo do que Zvyagintsev acredita. Em Moscou, se ouve com frequência pessoas dizerem que a vida humana valia pouco durante os tempos soviéticos e que o país só conseguiu derrotar os nazistas porque Stálin doutrinou a população com a ideia de que a vitória valia qualquer sacrifício, independente de quão grande.
Isso, dizem as pessoas, ajuda a explicar por que as batalhas políticas também se tornaram tão impiedosas. A escritora Svetlana Alexievich fala de uma "síndrome de violência" da qual a Rússia não consegue escapar. Ela diz que o país esteve em guerra quase constantemente ao longo de sua história, um fato que produziu um tipo de pessoa com uma "incapacidade fundamental de viver uma vida civil pacífica". Em vez disso, ela prossegue, os russos veem tudo pelo prisma da vitória ou derrota.

Um estado de guerra permanente

Após o ataque a Boris Nemtsov na ponte que cruza o Rio Moscou, houve um breve momento em que vozes proeminentes tanto da esquerda quanto da direita pediram por um pouco de reflexão. "Nós temos que fazer uma pausa por um momento", disse Anatoli Chubais, o ex-líder da Administração Presidencial e agora presidente de uma empresa estatal, "as pessoas no poder, a oposição, os liberais, comunistas, nacionalistas, conservadores – todos. Nós temos que pensar por pelo menos um minuto sobre para onde estamos conduzindo a Rússia".
Até mesmo um dos incendiários nacionalistas mais conhecidos do país pediu pela reconciliação. Mas o momento passou rapidamente. E a televisão não deu muita atenção aos pedidos e continuou agindo como se o país estivesse em um estado permanente de guerra.
Esse é o solo no qual a atual filosofia política da Rússia está enraizada. O populista de direita Vladimir Zhirinovski formulou desta forma: o conflito na Ucrânia "nos forneceu uma oportunidade de voltarmos ao círculo das grandes potências. É essencial que a Rússia se torne novamente um império como era sob os czares ou durante os tempos soviéticos. Assim que conseguirmos isso, nós poderemos nos concentrar no desenvolvimento de nossa economia. Mas primeiro, temos que nos libertar do Ocidente".
Essa filosofia é absurda e reflete a mentalidade russa. O caminho para a força e atração não leva exatamente à direção oposta? O foco não deveria ser primeiro na prosperidade do próprio país em vez de buscar sonhos geopolíticos? A Rússia ganhou somas imensas com a exportação de matérias-primas – mas ainda não conseguiu construir uma estrada decente entre Moscou e São Petersburgo.
Nas cidades do interior do país, fábricas, hospitais e escolas estão fechando enquanto os homens estão seguindo para o leste da Ucrânia para lutar por um mundo russo imaginário. Eles recebem uma despedida celebrativa quando partem, com a bênção dos poderes constituídos. É uma situação grotesca.
O assassinato de Nemtsov e o encontro em São Petersburgo são uma indicação de que a mania de revanchismo político contagiou a elite política da Rússia. É uma mania que repercute entre todos os russos que estão desinteressados no estabelecimento de uma vida normal dentro das atuais fronteiras do país ou que são incapazes de fazê-lo, escreveu um jornalista do site gazeta.ru de Moscou. Isso, prosseguiu o jornalista, só pode terminar "em uma imensa catástrofe nacional".
Tradutor: George El Khouri Andolfato 
Moscou cede diante da Igreja Ortodoxa e destitui diretor teatral
Pilar Bonet - El País
Alexander Zemlianichenko/AP
Dançarino salta sobre outros durante ensaio de peça no teatro Bolshoi, em Moscou, na Rússia Dançarino salta sobre outros durante ensaio de peça no teatro Bolshoi, em Moscou, na Rússia
O ministro da Cultura da Rússia, Vladimir Medinski, destituiu nesta segunda-feira o diretor do Teatro Estatal de Ópera e Balé de Novossibirsk, Boris Mezdrich, por causa de uma versão da ópera "Tannhäuser", de Richard Wagner, que irritou a hierarquia da Igreja Ortodoxa e os setores mais conservadores dessa comunidade na capital da Sibéria Ocidental.
A ópera romântica, em versão de Timofei Kuliabin, estreou em dezembro passado no teatro pelo qual Mezdrich era responsável. Em 26 de janeiro, o metropolita (arcebispo) Tijon de Novossibirsk denunciou a encenação à promotoria local, por considerar que empregava símbolos religiosos de forma inadequada e ofendia os sentimentos dos fiéis. Um tribunal de primeira instância considerou que não havia objeto de delito e se negou a aceitar o caso, mas o líder religioso recorreu.
Em 2013, foi incorporado ao Código Penal russo um artigo que permite condenar a três anos de prisão os que ofenderem os sentimentos religiosos dos fiéis. Em um comunicado divulgado nesta segunda-feira, o Ministério da Cultura, do qual depende o Teatro Estatal de Ópera e Balé de Novossibirsk, afirma que sua intervenção foi necessária devido à "situação insana" que se criou na cidade.
Em sua versão de "Tannhäuser", Kuliabin moderniza o argumento original e em vez de um trovador o protagonista é um diretor de cinema que apresenta em um concurso um filme sobre um suposto período desconhecido da vida de Jesus Cristo, no qual este teria sido prisioneiro na gruta de Vênus e convivido com a deidade. Nos setores ortodoxos mais conservadores, causou especial mal-estar o cartaz da obra, onde se podia ver uma cruz por entre as pernas de uma figura feminina. O cartaz foi suprimido, mas Mezdrich se negou a retirar a obra e a desculpar-se, como exigia o ministro da Cultura.
Em sua nota explicativa, o ministério acusa Mezdrich de "falta de desejo de considerar em suas atividades os valores que se formaram na sociedade", de "não respeitar a opinião dos cidadãos" e de "não cumprir as recomendações dos patrocinadores".
O departamento de Medinski tentou fazer que o diretor "compreendesse que as atividades que permitia [eram] incorretas" e lhe deu uma "oportunidade de corrigir a situação". Entretanto, o agora ex-diretor, dizem, "não compreendeu que à margem de sua atitude em relação a uma religião, os sentimentos dos fiéis têm direito de ser respeitados".
"Quando [esses sentimentos] são submetidos a uma zombaria demonstrativa, provocam duros confrontos na sociedade que muitas vezes produzem vítimas humanas, como vimos há pouco", salienta o comunicado, em aparente alusão ao atentado contra o semanário satírico francês "Charlie Hebdo".
Um teatro acadêmico federal é, primeiro, "uma instituição educativa" e não "um estabelecimento para escandalizar, provocar e fazer propaganda por conta do Estado", salienta o comunicado.
Em declarações ao jornal "Izvestia", Mezdrich alegou que não podia se desculpar, como exigia o ministro, diante de pessoas que não haviam visto a obra. Ao saber de sua destituição, o diretor se disse satisfeito por não ter cedido às pressões e ter defendido a encenação de Kuliabin. Mezdrich, que recebeu numerosas demonstrações de solidariedade por parte de outros diretores de teatro da Rússia, agradeceu aos concidadãos que não tenham se dobrado diante de um "público agressivo que se escuda na ortodoxia e nos cânones eclesiásticos".
Resta ver se a hierarquia eclesiástica ortodoxa vai retirar a denúncia, tal como o ministério sua nota. Esse departamento também pediu aos dirigentes ortodoxos que compreendam que "o respeito à igreja não se alcança mediante denúncias aos órgãos de ordem pública, senão com a pregação paciente e reflexiva e a explicação de seu sistema de valores". As questões "criativas e artísticas não devem ser discutidas em reuniões de massas nem em julgamentos", apontam.
O vice-chefe da Administração Presidencial em Moscou, Magomedsalam Magomedov, disse que não se pode permitir o insulto aos sentimentos dos fiéis e acrescentou: "No futuro tentaremos que todos os teatros importantes ponham em cena obras dirigidas para unir nossa sociedade, e não dividi-la". Dmitri Peskov, secretário de Imprensa de Vladimir Putin, disse que o Estado tem o "direito a esperar que os coletivos teatrais apresentem encenações que não causem uma reação tão forte por parte da opinião pública".
Como novo diretor do teatro foi nomeado Vladimir Kejman, um dos maiores importadores de frutas da Rússia, que dividirá seu novo cargo com a direção do Teatro Mikhailov de São Petersburgo.
Neste fim de semana, os líderes ortodoxos de Novossibirsk pediram autorização para uma marcha de 3 mil pessoas; somente 1 mil participaram, segundo o serviço Taiga.info.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves 
Embate entre liberdade religiosa e igualdade nem sempre é virtuoso
David Brooks - NYT
Ao longo das últimas décadas, os Estados Unidos se envolveram em uma grande luta para equilibrar os direitos civis com a liberdade religiosa. Por um lado, há um consenso crescente de que heterossexuais e homossexuais merecem plena igualdade. Devemos ser julgados pelo modo como nós amamos e não por quem nós amamos. Se não é errado negar aos gays e lésbicas seus plenos direitos civis e dignidade, então nada é errado. Gays e lésbicas não apenas devem poder casar e viver como quiserem, mas devem ser honrados por isso.
Por outro lado, esta nação foi fundada sobre a tolerância religiosa. Os caminhos do Senhor são misteriosos e são entendidos de forma diferente por diferentes tradições. Na melhor das hipóteses, os norte-americanos sempre acreditaram que as pessoas devem ter a maior autonomia possível para praticar a sua fé como entenderem e até não exercerem qualquer fé. Embora existam muitos fanáticos, há também muitas pessoas sábias e profundamente humanas cujas crenças religiosas profundamente arraigadas envolvem definições heterossexuais de casamento. Essas pessoas são dignas de tolerância, respeito e de uma persuasão gentil.
O movimento pelos direitos dos homossexuais tem promovido sua causa respeitando cuidadosamente a liberdade religiosa e os pilares tradicionais da sociedade norte-americana. A causa tem tido como foco o casamento e o serviço militar e evita um ataque frontal ao exercício da fé.
A Lei de Restauração da Liberdade Religiosa de 1993, que foi defendida pelo senador Ted Kennedy e uma grande legião de progressistas, evitou o argumento teológico abstrato e a polarização. Em vez disso, debruçou-se sobre os fatos concretos de casos específicos. A lei afirma basicamente que o governo, por vezes, tem de violar a liberdade religiosa a fim de buscar a igualdade e outros bens, mas, quando isso ocorre, deve ter uma razão convincente e deve procurar a forma menos intrusiva possível.
Esta estratégia moderada, centrada e gradual produziu resultados surpreendentes. Menos pessoas têm de enfrentar o horror da intolerância, o isolamento, a marginalização e o preconceito.
No entanto, pergunto-me se essa conquista fenomenal está saindo dos trilhos. O Estado de Indiana aprovou uma lei estadual similar à Lei Federal de 1993 e provocou uma incrível tempestade.
Se os adversários da lei argumentassem que o estatuto de Indiana vai além dos padrões federais, talvez fossem convincentes. Mas não é esse o argumento dos seus oponentes.
Em vez disso, o argumento parece ser que a abordagem concreta caso a caso do ato federal está errada. Os adversários parecem estar dizendo que não há uma tensão válida entre o pluralismo religioso e a igualdade. As alegações de liberdade religiosa são uma forma de acobertar o fanatismo anti-gay.
Este desvio parece imprudente, tanto por uma questão de pragmatismo quanto por uma questão de princípio. Em primeiro lugar, se não houver uma tentativa de equilibrar a liberdade religiosa e os direitos civis, a causa dos direitos dos homossexuais será associada à coação, e não à libertação.
Algumas pessoas perderam seus empregos por expressar oposição ao casamento gay. Há muitas histórias como a da padaria do Estado de Oregon ameaçada a pagar uma multa de US$ 150 mil (em torno de R$ 480 mil) porque preferiu não fazer um bolo de casamento para uma cerimônia de pessoas do mesmo sexo. Um movimento que defende a tolerância não quer estar do lado de um governo que obriga um fotógrafo que é cristão evangélico a gravar um casamento homossexual que ele preferia evitar.
Além disso, o movimento evangélico está evoluindo. Muitos jovens evangélicos entendem que sua fé não deve ser definida por esta questão. Se os cristãos ortodoxos forem subitamente excluídos da sociedade educada como os Bull Connors de hoje, isso só iria impedir o progresso, polarizar o debate e levar a uma sangrenta guerra de todos contra todos.
Por uma questão de princípio, a liberdade religiosa é um valor que simplesmente merece o nosso mais profundo respeito, mesmo nos casos em que leva a desentendimentos tão fundamentais como a definição de casamento.
A moralidade é uma cortesia da alma. Ser profundamente educado envolve fazer concessões. Certas verdades básicas são inalienáveis. A discriminação sempre é errada. Em casos de intolerância, o martelo bate. Mas, como vizinhos em uma sociedade pluralista, tentamos transformar confrontos filosóficos (sobre certo e errado) em problemas de vizinhança, nos quais diferentes pessoas têm espaço para conduzir suas vidas por trajetórias diferentes. Nos casos em que pessoas com valores diferentes discordam, buscamos uma solução criativa.
Na comunidade judaica, os judeus conservadores são geralmente respeitosos em relação aos judeus ortodoxos, que não aceitam usar seus talheres. Os homens são geralmente educados com as mulheres ortodoxas, que preferem não dar as mãos em cumprimento. Na comunidade maior, esta polidez respeitosa funciona melhor.
O movimento de direitos dos homossexuais tem hoje uma posição tal que pode se dar ao luxo de oferecer este respeito, pois está em um ponto onde a pressão constante funciona melhor do que a compulsão.
É sempre mais fácil assumir uma posição absolutista. Mas, em um confronto de valores como o que existe entre o pluralismo religioso e a igualdade, esse absolutismo não é pragmático, virtuoso nem verdadeiro.
Tradução: Deborah Weinberg

Via spl

WALSUAN MITERRAN - MEMORIES OF YOU





Via icmrbs

Via mrrrwv13