terça-feira, 31 de março de 2015

Cresce o descontentamento com Abbas entre os palestinos
Diaa Hadid - NYT
Majdi Mohammed/AP
O presidente palestino, Mahmoud Abbas 
O presidente palestino, Mahmoud Abbas
Os moradores de gueto de blocos de concreto, a poucos quilômetros do quartel-general do presidente Mahmoud Abbas da Autoridade Palestina, removeram recentemente o retrato dele da entrada do campo.
Então, eles buscaram embaraçar Abbas ao rejeitarem veementemente a candidatura do filho dele para liderar um clube esportivo local. E caso a mensagem não tenha ficado suficientemente clara, após a votação, os homens desfilaram pelas ruas cantando, "Diga ao seu pai que o campo Amari não gosta de você!"
Grande parte da atenção se concentrou recentemente na aparente rejeição da solução de dois Estados pelo líder israelense Benjamin Netanyahu, e o relacionamento estremecido entre o primeiro-ministro israelense e o governo Obama.
Mas talvez de igual importância seja o crescente descontentamento nas fileiras palestinas, grande parte concentrado em Abbas. Apesar dos Estados Unidos e da Europa parecerem mais dispostos a pressionar Israel para encerrar sua ocupação da Cisjordânia, alguns palestinos estão questionando se o líder deles, que celebrou seu 80º aniversário na semana passada, será capaz de aproveitar a oportunidade.
"Os pré-requisitos para a independência – alguns deles relacionados a Israel – são de que Israel precisa aceitar abrir mão do controle sobre os territórios palestinos ocupados", disse Ghassan Khatib, vice-presidente da Universidade Birzeit, perto de Ramallah, na Cisjordânia.
Antes disso, entretanto, os palestinos precisam resolver seus próprios problemas, começando pelo racha entre a Autoridade Palestina, liderada pela facção Fatah de Abbas, e o Hamas em Gaza, ele disse.
"É preciso que os palestinos estejam unidos e tenham um sistema que lhes permita se tornarem um Estado palestino", prosseguiu Khatib. "Assim, os problemas internos – como o racha e o sistema político paralisado, assim como a falta de eleições – são impedimentos para obtenção do objetivo da independência e do Estado."
Os palestinos notam a expansão dos assentamentos judeus na Cisjordânia ocupada. Jerusalém Oriental, que esperavam ser a capital do futuro Estado, está além de seu alcance, e que estão atados a Israel para sua prosperidade. Anos de negociações com Israel visando a criação do Estado não deram em nada.
Agora, os palestinos estão em uma profunda crise econômica, porque Israel está retendo as receitas de impostos de quase três meses, como punição pelos palestinos terem pedido para se juntarem ao Tribunal Penal Internacional (eles presumem que a afiliação plena ocorrerá em abril). Israel anunciou na sexta-feira (27) que liberará os fundos retidos, aparentemente em um esforço para apaziguar o governo Obama após semanas de tensões, apesar de que continuará retendo a receita tributária depois disso.
"Não há mudança, mas os assentamentos continuam crescendo e as pessoas estão ficando cansadas. Se tiverem uma chance de mudar, elas o farão", disse Hassan, 27, em uma banca de falafel com duas cadeiras em meio ao amontoado de casas no campo de refugiados de Amari.
"As pessoas estão sendo enterradas com fome e desemprego", disse Hassan, que pediu para que seu sobrenome não fosse usado, por temer represália dos serviços de segurança. Ele ajuda a sustentar seus sete irmãos e irmãs com os US$ 12 por dia que ganha como diarista.
Para um crescente número de palestinos, Abbas está inseparavelmente emaranhado aos seus problemas. Um líder sem brilho no 10º ano de um mandato que deveria ter sido de cinco –porque a liderança palestina não realiza uma eleição presidencial desde 2005– ele fracassou em preparar um sucessor e eliminou sistematicamente qualquer contestação ao seu governo. Ele também não soube explorar um pacto de reconciliação assinado há quase um ano com o Hamas, ou em se encarregar pela reconstrução da Faixa de Gaza depois da guerra devastadora do ano passado com Israel.
"As críticas a Abbas estão aumentando dia a dia, porque o povo palestino se pergunta –o que Mahmoud Abbas conseguiu até agora?" disse um professor aposentado de 59 anos no campo Amari, que disse que seu apelido era Abu Mohammed, por temer represálias das forças de segurança.
Mas os problemas vão além da liderança amplamente criticada de Abbas, em especial a divisão esmagadora entre o Fatah, que controla a Autoridade Palestina e governa as comunidades palestinas na Cisjordânia, e o Hamas, o grupo militante islâmico que governa Gaza.
O ressentimento contra Abbas é grande em Gaza, um território que ele não visita desde que o Hamas expulsou o Fatah em 2007, em uma guerra civil sangrenta que ocorreu após um fracassado governo de unidade depois da vitória do Hamas nas eleições legislativas palestinas de 2006.
Com ressentimentos profundos em ambos os lados, eles são incapazes de negociar um acordo que permita a Abbas assumir o controle das travessias de fronteira de Gaza, o que relaxaria o bloqueio pelos vizinhos Egito e Israel. Mais frustrante para muitos palestinos é que há apoio internacional para essa medida, fazendo parecer, mais do que nunca, que seus líderes não se importam com o bem-estar deles.
Na Cisjordânia, Abbas já foi elogiado por estabelecer a segurança, reprimindo os homens armados que aterrorizavam as comunidades palestinas devastadas por anos de violência e bloqueios israelenses. Ele também esmagou o Hamas na Cisjordânia, ajudado pela coordenação da segurança com Israel.
Os palestinos dizem que Abbas tem pouco a mostrar por seus esforços, e ele está tentando assegurar que nenhum outro líder possa surgir em seu lugar.
Um pequeno incidente em 20 de março em Amari, que fica a poucos quilômetros de Ramallah, o centro político da Cisjordânia, ressaltou a fúria crescente contra Abbas e o sistema que ele comanda.
O filho do presidente, Tareq, concorreu à liderança do Centro Juvenil de Amari, um conjunto decrépito de prédios que abrigam com um cinema, um salão de tênis de mesa, uma quadra de basquete/estacionamento e alojamento para o time de futebol do campo. Mas com o crescente ressentimento contra o presidente, ele perdeu para um líder popular do campo, Jihad Tumaileh.
Após a vitória de Tumaileh, homens tomaram as ruas cantando e as mulheres ululavam das sacadas.
"Foi uma derrota de Mahmoud Abbas", disse Abu Mohammed.
Apesar de muitos palestinos reconhecerem que seu sistema está quebrado, eles temem que isso esteja sendo usado como desculpa por Israel e pela comunidade internacional para permitir que as esperanças de criação de um Estado murchem.
"Sempre é exigido que os palestinos deem uma garantia de que podem ter um Estado", disse Sabri Saydam, um ex-conselheiro de Abbas. "Independente do que fizermos, sempre haverá pretextos."
Tradutor: George El Khouri Andolfato 
Feriado nacional mostra relação de 'amor e ódio' entre Rússia e Ocidente
Maxim Trudolyubov - TINYT
AFP
Putin discursa durante aniversário de um ano da anexação da Crimeia Putin discursa durante aniversário de um ano da anexação da Crimeia
O "Dia da Vitória" da Rússia, comemorado em 9 de maio, tem sido há décadas o acontecimento mais unificador do ano, no plano doméstico, e seu feriado menos polêmico no plano internacional. Mas por causa das peculiaridades da política histórica do Kremlin, da anexação da Crimeia pelo governo russo e da atual disputa pela Ucrânia, até a comemoração do 70º aniversário do fim da Grande Guerra Patriótica tornou-se fator de divisão.
Chefes de Estado do mundo inteiro foram convidados para o desfile militar em Moscou para marcar a derrota da Alemanha de Hitler. Segundo o ministro das Relações Exteriores russo, Serguei Lavrov, líderes da China, Israel, República Tcheca, Sérvia, Coreia do Norte e da maioria das ex-repúblicas soviéticas pretendem participar. Mas os dos países ocidentais que foram os mais próximos aliados da Rússia na Segunda Guerra Mundial declinaram.
A Rússia sempre teve uma relação de amor e ódio com o Ocidente. Escritores de Turguenev a Brodsky trabalharam para construir pontes, enquanto outros, de Dostoievsky a Soljenitsyn, advertiram que a moral, as culturas e os costumes dos ocidentais são de certa forma corruptores.
O presidente Vladimir Putin e seus apoiadores optaram por adotar a opinião de que o Ocidente sempre tentou corromper e trapacear o povo russo, para conter o desenvolvimento do país e impedir a Rússia de assumir seu lugar de direito no mundo. Há muito tempo eles insistem que os Estados Unidos e seus aliados foram injustos com a Rússia no final da Guerra Fria, apesar de Moscou ter abandonado voluntariamente seus interesses na Europa Central e Oriental. E eles criticam seus conterrâneos que buscaram e ainda buscam reforçar os laços com o Ocidente.
"Os maiores criminosos de nossa história foram os fracotes que atiraram ao chão o poder russo -- Nicolau 2º e Mikhail Gorbatchev --, os que permitiram que o poder fosse tomado pelos histéricos e os loucos", Putin teria dito em particular a seus assessores, segundo o jornalista Ben Judah.
Esses temas também se tornaram centrais no discurso público do presidente russo. "Está na hora de parar de tomar nota só das coisas ruins em nossa história e de nos criticarmos mais do que nossos adversários fariam", declarou ele na reunião anual de especialistas internacionais da Rússia conhecida como Clube de Discussão Valdai, em 2013. "Devemos nos orgulhar de nossa história".
Putin reforçou sua posição interna ao distorcer a história para justificar sua missão autoproclamada de recuperar a glória perdida da Rússia. Em um documentário lançado na TV nacional para coincidir com o aniversário da anexação da Crimeia, que se tornou oficialmente parte da Rússia em 21 de março de 2014, Putin assumiu a responsabilidade pessoal pela medida, chamando a perda da península e do histórico porto naval russo de Sebastopol, quando a União Soviética desmoronou, de "injustiça histórica" que tinha de ser corrigida.
Esta é certamente uma premissa seletiva. Vejam o caso do Perm-36, um museu da repressão soviética criado em 1992 no local de uma antiga colônia penal a cerca de mil quilômetros a leste de Moscou. O museu de propriedade privada, que leva o nome da designação soviética do campo de prisioneiros, foi dedicado às vítimas do stalinismo. Mas o governo local, sentindo a necessidade de demonstrar lealdade ao Kremlin, expulsou a organização. O Perm-36 reabrirá em breve como um museu do Estado dedicado à história retocada do sistema penal russo.
Essa abordagem distorcida do passado, que salienta as vitórias russas enquanto minimiza os crimes do país, continua nas atuais relações do Kremlin com Washington e as capitais da Europa ocidental. Em nenhum lugar isto fica mais evidente do que no relacionamento da Rússia com a Alemanha, país que construiu sua identidade depois da Segunda Guerra Mundial com uma posição de abertura e penitência sobre o lado escuro de sua história. Em uma recente visita ao Japão, a chanceler Angela Merkel disse que a Alemanha, apesar da brutalidade e do horror da era Hitler, hoje é aceita pela comunidade internacional não somente por causa da generosidade de seus vizinhos, mas também pela "prontidão da Alemanha a enfrentar nossa história de maneira aberta e franca".
Hoje, Merkel preside a maior e mais bem-sucedida economia europeia. Gradualmente e com relutância, a Alemanha está assumindo um papel de líder nas questões de política externa europeias. A crise da Ucrânia -- e a posição discreta que o governo Obama assumiu para enfrentá-la -- obrigaram Merkel a tomar a iniciativa.
Depois do colapso da URSS, foi ao mesmo tempo simbólico e justificável que a Alemanha, o inimigo mais ferrenho da Rússia na guerra mais feia e assassina da Europa, se tornasse o país que levou mais a sério seu relacionamento estratégico com a Rússia.
"Os políticos alemães realmente pensaram que eles, e somente eles, poderiam levar a Rússia para o Ocidente", diz Constanze Stelzenmüller, membro sênior do Instituto Brookings. "A Alemanha foi a cabeça de ponte da Rússia na Europa. Vladimir Putin destruiu essa ponte rapidamente".
Os líderes ocidentais insistem que não querem outra Guerra Fria com a Rússia. No entanto, o clima com Moscou está tão frio e a irritação pelas agressões de Putin é tão pronunciada, que nem o presidente norte-americano, Barack Obama, nem os líderes da Grã-Bretanha, Polônia, países bálticos e da maioria dos outros países da União Europeia pretendem estar em Moscou para o desfile do "Dia da Vitória". Tampouco a chanceler alemã. Mas embora Angela Merkel, sempre pacificadora, não esteja na comemoração principal, ela pretende depositar uma coroa de flores no muro do Kremlin diante da tumba do soldado desconhecido.
(Maxim Trudolyubov é editor de opinião do jornal de economia "Vedomosti", membro do Wilson Center em Washington e autor de um livro inédito sobre poder e propriedade na Rússia.)
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Investigação da morte de Litvinenko, um crítico de Putin, se aproxima da conclusão
Alan Cowell - NYT
AFP
O presidente russo, Vladimir Putin 
O presidente russo, Vladimir Putin
Após 28 dias de audiências, depoimentos por várias testemunhas e a apresentação de pilhas de evidências, o inquérito da morte de Alexander V. Litvinenko, um ex-agente da KGB envenenado com polônio 210 radioativo, se aproximou do fim nesta segunda-feira (30).
Ao longo de todo o inquérito, que teve início formal em 27 de janeiro, após anos de resistência britânica e russa, o Kremlin permaneceu indiferente. Ele retirou sua participação antes do início do inquérito e se recusou a extraditar dois cidadãos russos que negam as acusações britânicas de homicídio: Andrei K. Lugovoi e Dmitri V. Kovtun.
Litvinenko, 43, um denunciador e oponente do presidente Vladimir Putin, morreu em novembro de 2006 após a ingestão de chá envenenado com polônio durante um encontro com Lugovoi e Kovtun no luxuoso Millennium Hotel, na Grosvenor Square, em frente à embaixada americana no centro de Londres.
A morte dele ocorreu seis anos após ter fugido da Rússia e poucas semanas depois de ele e sua família terem recebido cidadania britânica. No início do inquérito, Lugovoi, um ex-guarda-costas da KGB e empreendedor próspero, que de lá para cá se tornou legislador na Rússia, negou a acusação de assassinato.
Neste mês, Kovtun, um ex-oficial do Exército Vermelho, disse que queria voltar atrás em sua resistência a depor no inquérito. Mas não há indício até o momento sobre se Robert Owen, o juiz britânico que conduz o inquérito, permitirá que ele o faça por link de vídeo.
"Eu estou pronto para responder tudo", disse Kovtun à "BBC". "Eu não tenho nada a ver com o assassinato."
Kovtun e Lugovoi podem ser presos caso viajem ao Reino Unido. A Rússia disse que sua Constituição proíbe a extradição de seus próprios cidadãos.
Segundo o site do inquérito, Owen deveria ouvir na segunda-feira o depoimento de Craig Mascall, o inspetor-detetive que liderou a investigação do homicídio, e então considerará as apresentações legais finais. As audiências podem se prolongar até o dia seguinte, segundo o site do inquérito, mas Owen disse que deseja que as audiências públicas terminem até terça-feira.
Ele também disse que evidências importantes relacionadas ao envolvimento da inteligência e agências de segurança britânicas será mantido em segredo até a apresentação do relatório final, que é esperado para este ano. Os investigadores russos abandonaram o inquérito em protesto pelo sigilo de alguns procedimentos.
A retirada de Moscou deixou o inquérito sem uma voz russa oficial oferecendo a visão dos eventos pelo Kremlin ou para articular sua negação de responsabilidade.
Até o momento nos depoimentos, cientistas britânicos disseram que a radiação que matou Litvinenko só poderia ter vindo da Rússia, que produz grande parte do polônio comercial do mundo, um isótopo raro antes usado como gatilho em armas nucleares.
"O assassinato foi um ato de barbarismo indizível, que infligiu a Alexander Litvinenko a morte mais dolorosa e prolongada imaginável", disse no início do inquérito Ben Emmerson, um advogado trabalhando para Marina Litvinenko, a viúva da vítima. "Também foi um ato de terrorismo nuclear nas ruas de uma grande cidade, que colocou as vidas de várias outras pessoas do público em risco."
Litvinenko "precisava ser eliminado – não por ser um inimigo do Estado russo ou um inimigo do povo russo, mas por ter se tornado inimigo do grupo fechado de criminosos que cerca Vladimir Putin e mantém seu regime corrupto no poder", disse Emmerson, referindo-se ao presidente russo e citando as investigações de Litvinenko das gangues do crime organizado na Rússia e na Espanha.
Tradutor: George El Khouri Andolfato 
Queda de avião da Germanwings deixa cidade natal do copiloto aturdida
Jack Ewing - NYT
Reprodução/Facebook
O alemão Andreas Lubitz, 28, era o copiloto do voo 4U9525, da Germanwings, que caiu nos Alpes Franceses, matando 150 pessoas O alemão Andreas Lubitz, 28, era o copiloto do voo 4U9525, da Germanwings, que caiu nos Alpes Franceses, matando 150 pessoas
Quando funcionários de um Burger King nesta cidade entre Frankfurt e Colônia souberam que um ex-colega de trabalho estava a bordo do voo da Germanwings que caiu nos Alpes franceses na semana passada, eles prepararam um cartão de condolências para a família.
Mas então os funcionários souberam que Andreas Lubitz, o copiloto do avião, que já tinha trabalhado meio expediente como cozinheiro no restaurante, teria conduzido deliberadamente as outras 149 pessoas a bordo do Airbus A320 à morte.
Detlef Adolf, o gerente do restaurante, decidiu que era melhor não enviar o cartão.
O dilema enfrentado pelos funcionários do Burger King foi um pequeno indício das emoções conflitantes que tomaram conta desta cidade de cerca de 15 mil habitantes desde que soube que um morador da cidade, que conheciam como reservado e educado – se é que o conheciam – pode ter sido um assassino em massa.
Enquanto outras comunidades, incluindo algumas próximas, lamentam os parentes e vizinhos que faleceram, Montabaur está experimentando uma mistura desconcertante de pesar, vergonha e fúria com sua notoriedade repentina e indesejada.
Há compaixão pelos pais de Lubitz, que vivem em um sobrado arrumado com jardim cuidadosamente cuidado em um bairro próspero. Há ressentimento diante do que muitos aqui dizem ser uma pressa em julgar Lubitz antes de todos os fatos serem conhecidos.
E há revolta com a investida da mídia que, por vários dias, torna quase impossível caminhar pelas ruas do velho bairro pitoresco da cidade sem ser assediado por uma equipe de filmagem buscando a reação local.
O pastor Michael Dietrich de uma igreja luterana às margens da cidade, onde a mãe de Lubitz às vezes toca órgão, tentou tratar do dilema espiritual durante seu sermão regular na manhã de domingo (29).
"Para onde devemos ir?" ele disse. "Para onde devemos ir?"
A questão serve para as famílias das vítimas, disse Dietrich, "e também para a família do copiloto Lubitz, que muitos de nós conheciam pessoalmente".
Notando que já tinha sido cercado por jornalistas nos últimos dias, à procura de informação sobre as famílias, Dietrich disse não sabia o que dizer a eles. "Há muitas perguntas sem resposta", ele disse. "Acima de tudo, por quê?"
Em outras partes da cidade, a irritação com a invasão de repórteres e equipes de filmagem, muitas das quais partiram no domingo, às vezes se transformou em fúria.
No sábado (28), enquanto uma equipe gravava um vídeo no campo de aviação onde Lubitz aprendeu a voar em planadores na adolescência, um homem em uma perua freou em uma rua adjacente e gritou, "Sumam!" O clube de aviação recebeu ameaças de morte por ter ensinado Lubitz a voar, disse o presidente do clube, Klaus Radke, no sábado.
A culpa é sempre uma questão carregada na Alemanha, onde memoriais aos crimes nazistas estão presentes em toda parte. Em frente à prefeitura de Montabaur, há um pequeno memorial aos judeus locais que morreram no Holocausto. À beira da cidade há um pequeno cemitério para os mortos na guerra. Em vez de lápides, os túmulos estão marcados por pedras quadradas afundadas no solo, com os nomes dos mortos ou simplesmente a inscrição, "Um Soldado Alemão".
Muitas pessoas em Montabaur se ressentem da implicação de que de alguma forma compartilham a culpa pelo acidente, e de que a cidade daqui em diante será conhecida como local de nascimento de Andreas Lubitz.
Alguns aqui culpam a Lufthansa, a dona da Germanwings, ou as autoridades de segurança aérea, que não contariam com salvaguardas suficientes para impedir alguém aparentemente sofrendo de depressão de pilotar um avião de passageiros. Um auditor fiscal aposentado que deu apenas seu primeiro nome, Alfred, disse que teria sido afastado da escola contábil caso tivesse os problemas que Lubitz supostamente tinha.
"Se eu estivesse doente durante meu treinamento, a repartição fiscal não teria me contratado", ele disse na manhã de sábado, em um mercado em Montabaur.
As emoções são intensificadas pelo fato de três das vítimas da queda serem da área próxima.
Duas delas, identificadas apenas como Christopher e Sebastian, eram do vilarejo de Rothenbach, a 19 quilômetros seguindo a estrada. Outra passageira, identificada como Larissa, era de Westerburg, a 21 quilômetros. Todos tinham na faixa de 20 anos e visitariam Barcelona, Espanha, segundo os relatos da imprensa local.
Na noite de sexta-feira, as pessoas lotaram uma igreja católica em Rothenbach para uma missa em memória das vítimas. As pessoas vazavam pela entrada e lotavam a calçada por várias centenas de metros, de modo que a igreja montou alto-falantes para que as pessoas do lado de fora ouvissem. Além dos hinos e orações, era possível ouvir o choro dos familiares.
O serviço fúnebre em Montabaur no domingo contou com público mais modesto. A igreja luterana, uma estrutura simples de concreto, não conta com bancos permanentes, apenas fileiras de cadeiras de madeira que estavam parcialmente ocupadas.
Diferente da correspondência de ódio recebida pelo clube de aviação de Montabaur, Dietrich disse que recebeu centenas de expressões de compaixão e ofertas de ajuda de todo o mundo.
A igreja pela qual é responsável, conhecida como Evangelisch em alemão, alterna cultos dominicais com uma igreja mais velha próxima do centro da cidade. Dietriche e o pastor Johannes Seemann da igreja irmã, disseram estar tentando chegar a uma resposta apropriada ao desastre e ao papel de Montabaur nele.
Seemann disse que planeja erguer uma espécie de muro da lamentação em sua igreja, com os nomes de todas as vítimas inscritos nele.
"Encontrar o equilíbrio é muito difícil", ele disse.
Ele disse que conversou brevemente com os pais de Lubitz após a notícia da queda do avião, mas não mais depois. Eles não estiveram presentes no culto dominical e aparentemente não voltaram para a casa deles em Montabaur. Seeman disse que não conhecia Lubitz.
Na outra igreja, Dietrich pregou uma cruz de madeira simples na parte de baixo da torre do sino e convidou as pessoas a pregarem bilhetes de papel com seus pensamentos.
"Família L., não há palavras", dizia um bilhete na manhã de domingo.
Tradutor: George El Khouri Andolfato 
Posição da França pode comprometer negociações do acordo nuclear com Irã
Yves-Michel Riols - Le Monde
Remy de la Mauviniere/AP
Laurent Fabius, ministro das Relações Exteriores da França 
Laurent Fabius, ministro das Relações Exteriores da França
O roteiro já é conhecido. Desde que Laurent Fabius apareceu nas negociações sobre a questão nuclear iraniana, a cena tem sido a mesma. Em Genebra, em novembro de 2013, ou senão em Viena, em julho de 2014, e agora em Lausanne, o chefe da diplomacia francesa fez com o rosto grave um breve discurso, de algumas dezenas de segundos, antes de ir embora sem responder a nenhuma pergunta. O objetivo é sempre o mesmo: mostrar a peculiaridade da França quando se aproxima um prazo crucial nas sinuosas negociações nas quais os franceses sempre reivindicaram um papel particular.
A história se repetiu novamente no sábado (28), quando Fabius chegou ao hotel Beau Rivage em Lausanne, um palácio cravado nas margens do lago Genebra. Às vésperas da data-limite de 31 de março estabelecida para se chegar a um acordo político sobre os principais parâmetros do programa nuclear iraniano, o tom da fala de Fabius, que é visto como "rígido" nessas negociações, era esperado com curiosidade redobrada.
Como sempre, sua declaração foi cuidadosamente calibrada: "Vim aqui com o desejo de avançar na direção de um acordo robusto", ele declarou, antes de insistir na necessidade de se encontrarem mecanismos para garantir a "transparência" e o "controle" de qualquer futuro acordo para ter certeza de que "os compromissos assumidos serão respeitados". Em outras palavras, a França está enviando um sinal de firmeza, ao mesmo tempo em que dá a entender que está disposta a fazer concessões, sob determinadas condições.

Insuficientemente "exigente"

Enquanto as negociações, consideradas "difíceis" por Fabius, devem continuar no domingo, na Suíça, entre o Irã e representantes do "P5+1", que incluem os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha, a atitude da França era analisada de perto, de tão temidos que são seus posicionamentos. Nos últimos dois anos, antes de cada encontro importante, os franceses sempre mantiveram um discurso singular.
Isso ficou bastante óbvio no dia 9 de novembro de 2013, em Genebra, quando Fabius provocou comoção ao romper a coesão do "P5+1" ao se recusar a endossar um texto apresentado pelos Estados Unidos e pelo Irã, considerado insuficientemente "exigente" em relação a Teerã. Duas semanas mais tarde, após "umas 20 emendas", segundo um diplomata, as grandes potências fecharam, no dia 24 de novembro, um acordo interino com o Irã que abriu o caminho para o congelamento do programa nuclear e para uma retirada parcial das sanções internacionais impostas contra a República Islâmica desde 2006.
Essa estratégia, que consiste em ameaçar um bloqueio na última fase da negociação, antes de se retratar devido a "avanços" conquistados, parece estar se repetindo em Lausanne. Durante a sessão anterior de conversas na Suíça, entre 18 e 20 de março, os franceses provocaram a ira dos americanos ao deixarem claro que eles exigiam mais concessões do Irã. Oito dias depois, após essa advertência, Laurent Fabius adotou um tom menos ofensivo quando chegou a Lausanne no sábado. Será que a França chegará ao ponto de se opor a um acordo que teria o consentimento dos outros membros do "P5+1"? A hipótese parece "pouco provável", segundo um diplomata ocidental. "Se o acordo não é digerível para os franceses, há poucas chances de que ele o seja para os outros", acredita essa fonte bem informada.

A paternidade da questão

Para além da postura, a linha "robusta" defendida por Laurent Fabius segue uma continuidade. A França foi responsável pelas primeiras negociações com o Irã, 12 anos trás. Desde então, os franceses se veem como "os guardiães do templo" da questão nuclear iraniana e reivindicam a paternidade dessa questão que forjou "a cultura estratégica francesa", observa um diplomata.
O papel pioneiro da França teve início em 2003. Após a invasão americana no Iraque, a qual Paris foi contra, Dominique de Villepin, então ministro das Relações Exteriores, apostou no diálogo com Teerã e obteve autorização do presidente Jacques Chirac para construir uma coalizão internacional. O objetivo era demonstrar que era possível tratar o problema das armas de destruição em massa, pretexto para a intervenção no Iraque, por outros meios que não a guerra. A "troika" formada pela França junto com a Alemanha e o Reino Unido foi inicialmente bem recebida pelo Irã, que temia a imposição de sanções da ONU exigidas pelos Estados Unidos.
Mas ao final de dois anos as negociações começaram a empacar, com um culpando o outro pelo fracasso. A eleição de Nicolas Sarkzy, em maio de 2007, marcou uma nítida mudança de orientação. "De uma posição mediana, a França passou a ter uma posição muitas vezes mais dura que a dos Estados Unidos", observa François Nicoullaud, ex-embaixador da França em Teerã.

"Uma forte pressão de cronograma"

Diante do impasse das negociações e da descoberta da instalação militar subterrânea de Fordo, a França tomou a iniciativa de ampliar as sanções em 2011, para atingir com tudo a economia iraniana, valendo-se de um embargo sobre as exportações de petróleo e de um congelamento dos bens do banco central no exterior. A França acredita que sua firmeza compensou, uma vez que o efeito das sanções levou o regime de Teerã a retomar as negociações.
Mas hoje a França não é mais a mesma força motriz de antes. Desde o acordo interino de 2013, que já foi prorrogado por duas vezes, são sobretudo os Estados Unidos e o Irã que têm estado à frente das negociações. Ao contrário de Paris, Teerã e Washington têm uma "forte pressão de cronograma", constata um diplomata.
Sem grandes progressos até o final de março, o Congresso americano ameaça adotar novas retaliações contra o Irã. E a credibilidade do presidente iraniano, Hassan Rohani, depende em grande parte de sua capacidade de obter uma retirada das sanções que têm asfixiado a economia do país. Nesse contexto, a França tem procurado influenciar em um processo que foi iniciado por ela, mas que ela não conduz mais.
Hollande vai perdendo tudo que conquistou, eleição atrás de eleição]
David Revault d'Allonnes - Le Monde
Thibault Camus/AP
O socialista François Hollande, presidente da França, em foto de arquivo O socialista François Hollande, presidente da França, em foto de arquivo
Como primeiro secretário, ele ganhava tudo. Como presidente, está perdendo tudo. Após eleições municipais devastadoras, que tiraram da esquerda cerca de 150 cidades com mais de 9.000 habitantes em março de 2014, o segundo turno das eleições departamentais, com 28 departamentos perdidos no domingo (29), agravou a sangria, anunciando uma eleição regional na mesma linha. Em dezembro, François Hollande pode ter liquidado a maior parte das posições de poder mantidas pela esquerda nas coletividades territoriais. Foi sobre a conquistas destas que ele construíra ao longo de 11 anos, quando liderava o Partido Socialista, a rampa de lançamento de suas ambições presidenciais.
"Eleições intermediárias nunca são favoráveis ao governo central"
"Desde François Mitterrand, as eleições intermediárias nunca são favoráveis ao governo central, e François Hollande não é uma exceção. Nicolas Sarkozy havia perdido as municipais, as cantonais por duas vezes e as regionais", alega o Palácio do Eliseu. A grande diferença em relação a seus antecessores, no entanto, se deve exatamente ao fato de que o próprio Hollande, quando liderava o Partido Socialista, havia vencido todas elas, ou quase. E pelo fato de que nenhum candidato havia, até então, construído na oposição aquilo que ele havia fabricado, antes de destruir, uma vez no poder.
"Já é uma tradição", dizia Hollande a um aliado, após o primeiro turno, "o Chirac presidente havia perdido tudo, porque eu havia ganho tudo". Então, agora é sua vez. Mas o seu caso vai além da lei implacável das alternâncias locais e das eleições intermediárias. Sob sua liderança, a esquerda havia conquistado 20 das 22 regiões em 2004. Ela havia mantido seus bastiões e até registrado um notável progresso nas municipais de 2008. E ela havia consolidado seu avanço, com 58 departamentos contra 42 da direita, nas cantonais de 2008 (Mayotte ainda não era um departamento). Era um "grand slam" eleitoral que havia permitido que o primeiro-secretário do Partido Socialista frutificasse seu capital político em um partido de representantes eleitos e colaboradores, para quem somente a vitória vale.
Enquanto líder do partido, François Hollande participou de conferências do Partido Socialista, formou suas redes nas federações, cuidou dos caciques, cujos mandatos locais ele considerava importante preservar, mais do que a conquista de um poder nacional que, inevitavelmente, lhes custaria os seus. Ele havia conquistado o apoio do aparato, a ponto de ganhá-lo na noite das primárias, em outubro de 2011.
"Uma longa caminhada"
Com ele como presidente, muitos dos principais redutos departamentais do PS se perderam: o Norte de Martine Aubry, o Seine-Maritime de Laurent Fabius, o Essonne de Manuel Valls, o Bouches-du-Rhône, todas federações históricas. Até a perda mais simbólica de Corrèzes, cuja conquista de 2008 e a manutenção em 2011 haviam contribuído para a construção da legitimidade do candidato Hollande.
Embora o presidente, por natureza, não seja homem de meditar demais sobre os fenômenos de grandiosidade e de decadência, preferindo justificar esta última pelas vicissitudes automáticas do exercício do poder nacional, ele não deixou de constatar, como especialista em mapa eleitoral, o sumiço da esquerda, especialmente em Var, Alpes-Maritimes, Haute-Savoie e Alsácia.
"O PS se construiu sobre uma base nacional. Ele precisa necessariamente voltar a se estabelecer nesses departamentos. É uma longa caminhada", contou ele a um visitante. Ele provavelmente estava pensando na caminhada que o levara à liderança do PS, em uma época em que este vencia.
‘Esqueça o Brasil’, recomenda canal de economia dos EUA
Daniel Buarque - UOL
Reportagem do canal americano CNBC recomenda que o Brasil seja esquecido
Reportagem do canal americano CNBC recomenda que o Brasil seja esquecido
Em meio à instabilidade econômica e à frustração gerada pelo anúncio de que o PIB do Brasil cresceu apenas 0,1% no último ano, uma reportagem do canal norte-americano de economia CNBC (da rede NBC) recomendou que os investidores internacionais deixassem de lado qualquer ideia de tentar ganhar dinheiro no Brasil.
“Esqueça o Brasil'', diz o título da reportagem.
“O Brasil, um mercado emergente queridinho apenas dois anos atrás, está se desfazendo em um estagnação econômica e turbilhão político'', diz.
Para a CNBC, a Aliança do Pacífico, bloco econômico formado por México, Peru, Colômbia, Chile e Costa Rica, é uma opção de investimento que ofusca os atrativos que o Brasil ainda possa ter.
“Um dos pontos que os economistas levantam contra o Brasil é que o país não aproveitou a oportunidade de passar reformas econômicas enquanto os preços das commodities estavam em alta recorde na década passada'', diz a CNBC.

segunda-feira, 30 de março de 2015

JOE WALSH - TURN THE STONE

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Via nwds
Com ações da Petrobras, BNDES registra perdas de R$ 2,6 bilhões
PEDRO SOARES - FSP
A crise da Petrobras e queda de valor de mercado da companhia contaminou o balanço do BNDES, que detém 17% do capital total da petroleira também estatal. O banco teve uma perda de R$ 2,6 bilhões, ao reavaliar o valor de sua participação na companhia em razão "do declínio prolongado e significativo no valor de mercado das ações" da empresa.
O BNDES estimou esse valor com uma perda "passível de não recuperação", seguindo recomendações do Banco Central. Dessa cifra, R$ 1 bilhão foi lançada no balanço do ano passado e reconhecida como perda. O restante –que o banco ainda espera recuperar– permanece no patrimônio do banco, como um ajuste de avaliação patrimonial.
Segundo o BNDES, o tamanho da perda de valor da participação na Petrobras levou em conta uma nova em avaliação econômico-financeira da companhia –que sofre com a depreciação de seus ativos diante da queda do petróleo e das perdas com corrupção. O banco diz que a empresa não gerou baixas decorrentes de inadimplência em empréstimos.
Ao assumir essa baixa em suas contas (principal fator negativo em seu balanço), o BNDES viu seu lucro limitado em 2014 a R$ 8,594 bilhões. O desempenho, porém, supera em 5,4% os R$ 8,150 bilhões obtidos em 2013.
De acordo com o BNDES, o desempenho foi influenciado positivamente pelo retorno de financiamentos concedidos, que passou de R$ 11,7 bilhões em 2013 para R$ 13,4 bilhões em 2014.
Apesar da perda com a Petrobras, o banco ressalta que "outro importante fator que contribuiu para o lucro de 2014 foi o resultado com participações societárias", cujo resultado avançou de R$ 2,5 bilhões em 2013 para R$ 2,9 bilhões em 2014. "Cabe destacar que tal crescimento foi realizado num cenário de intensa volatilidade no mercado de capitais."
O ambiente de maior incerteza fez o banco fazer provisões maiores (reservas de recursos) para eventuais perdas em investimentos -o número saltou de de R$ 2 bilhões em 2013 para R$ 2,8 bilhões em 2014.
COM RESSALVAS
O balanço do BNDES foi aprovado com ressalvas do auditor independente, a KPMG. A empresa de auditoria ressalvou que desvalorização correspondente à diferença entre o valor de mercado baseado em cotação em bolsa de valores e o custo de aquisição das ações da carteira da BNDESPar (braço de participações do banco) é de aproximadamente R$ 5,2 bilhões –cifra a ser descontada do balanço da empresa de participações; considerado o banco como um todo a baixa é diluída para R$ 2,6 bilhões.
A administração do BNDES, porém, concluiu que essa desvalorização não deveria ser registrada como perda em 2014, pois "não foram atingidos os parâmetros de declínio prolongado ou significativo" estabelecidos nas suas políticas contábeis e porque a estatal não apresentou ainda o balanço auditado de 2014.
Para a KPMG, o BNDES deveria lançar já em seu balanço os R$ 2,6 bilhões –e não os R$ 1 bilhão assumidos agora. O banco argumenta que uma resolução do Conselho Monetário Nacional que ações de estatais aportadas pelo Tesouro para capitalizar o banco não "tem horizonte de venda", segundo Carlos Frederico de Carvalho Silva, chefe do departamento de Contabilidade da instituição. Ou seja, só haveria perda a ser lançada em caso de venda dessas ações. "Mas são ativos que estão há décadas na carteira do banco e tem um papel estratégico. A BNDESpar tem essa característica, diferentemente de outras empresas de participações."
O técnico ressaltou ainda que o banco usou a mesma metodologia para avaliar as ações da estatal nos trimestres anteriores e não constatou perdas –que só ocorreram no último trimestre de 2014.
Para Silva, o maior problema é do auditor independente não ter como confrontar as informações e avaliações do banco, pois a Petrobras não apresentou seu balanço auditado.
PATRIMÔNIO
Apesar de limitar a R$ 1 bilhão a perda registrada no balanço, os outros R$ 1,6 bilhões pesaram negativamente no patrimônio do banco estatal e piorou seu indicador que serve de referência para conceder empréstimos –o chamado índice de Basiléia caiu de 18,7% para 15,9%, acima do limite do Banco Central de 11%. O patrimônio líquido do BNDES somou R$ 66,3 bilhões ao final de 2014.
O grande culpado
OESP
A grave crise política e econômica na qual o País está mergulhado coloca Dilma Rousseff na berlinda. E não poderia ser diferente. Afinal, ela é a presidente da República e tem demonstrado uma inacreditável inépcia no exercício das funções de primeira mandatária. Mas uma análise conjuntural que amplie o foco de observação da cena política para além dos episódios do dia a dia e se projete sobre os 12 últimos anos expõe à luz o protagonista oculto, o ardiloso responsável maior pela tentativa de reinventar o Brasil – aventura que hoje custa caríssimo para cada um dos brasileiros: Luiz Inácio Lula da Silva.
Uma das conhecidas habilidades políticas de Lula é desaparecer de cena, procurar as sombras, fingir-se de morto para o grande público quando o perigo ronda. Exatamente como está fazendo no momento. Outra é só dizer o que sabe que as pessoas querem ouvir. Faz isso desde os tempos em que frequentava o palanque sindical da Vila Euclides, no ABC. Outra ainda é ser um mestre em salvar aparências, mantendo, além de uma linguagem convenientemente popular, a pose de “homem do povo” que mora num modesto apartamento em São Bernardo, quando passa a maior parte do tempo voando de primeira classe ou em jatos executivos e hospedando-se em hotéis cinco-estrelas ou em mansões de amigos milionários.
Ao longo de mais de 20 anos na oposição “a tudo o que está aí”, Lula conduziu o PT na tentativa de impedir a aprovação, entre outras, de iniciativas de importância histórica como a Constituição de 1988, o Plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal, o programa de desestatização da telefonia que permitiu que praticamente todos os brasileiros disponham hoje de um telefone celular. E, depois de perder três eleições presidenciais consecutivas, chegou à conclusão de que precisava abandonar as velhas bandeiras para conquistar o poder, chegando ao Palácio do Planalto em 2003 graças à profissão de fé liberal contida na oportunista Carta aos Brasileiros.
Na presidência, com Antonio Palocci na Fazenda, garantindo a observância dos fundamentos econômico-financeiros lançados no governo FHC e uma competente retórica populista, Lula navegou nas ondas da conjuntura internacional favorável e desenvolveu programas nas áreas econômica e social, cuja repercussão o levou à imodesta convicção de que se havia transformado em grande estadista.
Na segunda metade do primeiro mandato Lula enfrentou um primeiro grande desafio: o escândalo do mensalão, assalto aos cofres públicos urdido e chefiado pelo então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, com o objetivo de consolidar o “presidencialismo de coalizão”, com a compra do apoio de parlamentares, e o levantamento de recursos para financiar as atividades do PT. De início, dizendo-se ignorante da trama armada sob suas barbas, Lula mostrou-se indignado e declarou que o PT deveria se desculpar com os brasileiros. Seu projeto de reeleição em 2006 ficou seriamente ameaçado. Mas, com a ajuda da popularidade em alta, oposição tíbia, indicadores econômicos positivos e projetos sociais relevantes e devidamente propagandeados, Lula foi reconduzido ao Planalto.
Com a bola cheia, passou a negar a existência do mensalão e continuou solidarizando-se com a companheirada envolvida no escândalo. Enquanto isso, já corria solto o esquema sucessor do mensalão, o do propinoduto da Petrobrás. Era apenas uma das facetas, talvez a mais sórdida, da privatização do Estado por meio da colocação do governo a serviço do projeto de poder do PT. E, mais uma vez, é impossível de acreditar que o presidente da República ignorasse o que se passava.
Diante da impossibilidade de um terceiro mandato, Lula tratou de selecionar a dedo seu sucessor. Dilma, a “gerentona”, a “mãe do PAC”, parecia a escolha perfeita. Mas já no primeiro ano de governo ela teve um assomo de autossuficiência ao promover uma “faxina” no Ministério que em boa parte herdara de seu mentor. Desde então Lula vem tendo dificuldades cada vez maiores para controlar a pupila. Foram quatro anos de dilapidação, não só da economia nacional, mas principalmente da moral e dos bons costumes na Administração Pública e na política. Essa razzia se deve à ação e omissão de Dilma. Mas quem armou o projeto de poder baseado na imoralidade e escalou a sucessora foi Lula. Cabe-lhe, portanto, prioritariamente, a culpa por “tudo o que está aí”.
O poste é inseparável do fabricante: Dilma será para Lula o que Pitta foi para Maluf
Augusto Nunes - VEJA
Como um punguista de antigamente depois de afanada a carteira da vítima, Lula tenta afastar-se de Dilma Rousseff com cara de paisagem, assoviando um sambinha enquanto caminha nem tão depressa que pareça medo nem tão devagar que pareça provocação. A malandragem deu certo no escândalo do mensalão. O chefão caiu fora da cena do crime e a patente de comandante do bando acabou enfeitando os ombros do subchefe José Dirceu.
Mas não se terceiriza o pessoal e intransferível. A segunda-dama Rose Noronha, o prefeito Fernando Haddad e a instalação de uma usina de maracutaias nas catacumbas da Petrobras, por exemplo, são coisa de Lula. Dilma Rousseff também. Lula logo aprenderá que um poste é inseparável de quem o inventou — e um produto de péssima qualidade pode levar seu fabricante à falência política. Dilma Rousseff será para Lula o que Celso Pitta foi para Paulo Maluf.
Ambos deslumbrados com os altos índices de aprovação reiterados pelas usinas de pesquisas, o prefeito Maluf em 1995 e o presidente Lula em 2007 resolveram mostrar que conseguiriam transformar qualquer nulidade em ocupante provisório do trono. Para que os escolhidos cumprissem sem resmungos a missão de guardar o lugar até que o chefe voltasse, constatou um post de 2010, o marajá de São Paulo e o reizinho do Brasil decidiram-se, sem consultar ninguém, por figuras sem autonomia de voo nem luz própria.
O primeiro pinçou na Secretaria de Finanças do município um negro economista. O segundo pinçou na Casa Civil uma mulher economista. Ao apresentar o sucessor, o prefeito repetiu que foi Maluf quem fez São Paulo.Mas quem arranjou o dinheiro, revelou, foi aquele gênio da raça chamado Celso Pitta. Ao apresentar a sucessora, o presidente reterou que foi Lula o parteiro do Brasil Maravilha. Mas quem amamentou o colosso, ressalvou, foi aquela sumidade político-administrativa por ele promovida a Mãe do PAC.
Obediente a Maluf e monitorado pelo marqueteiro Duda Mendonça, Pitta atravessou a campanha driblando debates e entrevistas, declamando obviedades e louvando o criador de meia em meia hora. Como herdaria uma cidade sem problemas, sua missão seria torná-la mais que perfeita com espantos de matar de inveja a rainha da Inglaterra. Grávido de orgulho, o padrinho ordenou aos eleitores que nunca mais votassem em Paulo Maluf se o afilhado fracassasse.
Obediente a Lula e tutelada pelo marqueteiro João Santana,  Dilma percorreu o atallho para o Planalto desconversando em debates e entrevistas, gaguejando platitudes e bajulando o criador a cada 15 minutos. Como lhe cairia no colo um país pronto, caberia à herdeira tocar em frente o pouco que faltava para torná-lo uma espécie de Noruega com praia, mulher bonita e carnaval. Grávido de confiança, o padrinho comunicou ao eleitorado que ele e ela eram a mesma coisa. Votar em Dilma seria a mesma coisa que votar no maior dos governantes desde o Descobrimento.
São Paulo demorou três anos para entender que estava nas mãos do pior prefeito de todos os tempos. Descoberta a tapeação, milhões de iludidos escorraçaram Pitta do emprego e atenderam à vontade do seu inventor: nunca mais Paulo Maluf foi eleito para qualquer cargo executivo. O Brasil demorou quatro anos para compreender que, ao conferir um segundo mandato a Dilma Rousseff, ratificara a mais desastrosa opção presidencial de todos os tempos.
Pena que as multidões não tenham acordado algumas semanas mais cedo. Mas enfim despertaram — e despertaram de vez, berram as manifestações de rua e o sumiço do único “líder de massas” do mundo que só discursa para plateias amestradas. Antes do fiasco de Alexandre Padilha nas urnas de outubro, Lula caprichou na ironia presunçosa: “De poste em poste estou iluminando o Brasil”, repetia.
O terceiro poste afundou a muitas léguas do Palácio dos Bandeirantes. O segundo, Fernando Haddad, pedala no mundaréu de ciclovias para fugir do naufrágio inevitável. O poste inaugural vai sendo tragada pelo mar de corrupção e incompetência. Dilma Rousseff debate-se furiosamente milímetros acima da superfície. Lula quer que afunde sozinha. Mas não escapará do abraço de afogado.
DISSECANDO A VIGARICE INTELECTUAL DE UM ESQUERDISTA SENSÍVEL. OU: RENATO JANINE RIBEIRO
Reinaldo Azevedo - VEJA

O ministério de Dilma Rousseff é ruim, com exceções que já destaquei aqui. Acho que Katia Abreu (Agricultura), Armando Monteiro (Desenvolvimento, Indústria e Comércio) e Joaquim Levy (Fazenda — sim, ele…) têm condições de fazer um bom trabalho dentro do que é possível fazer. Para a Educação, Dilma tinha nomeado um político chegado a algumas artes circenses: Cid Gomes! Deu no que deu. Agora, ela atingiu o fundo do poço: Renato Janine Ribeiro, o petista que não ousa dizer o nome do seu partido, assume a pasta.
Janine quer-se apenas um pensador da ética. Já está na Internet o vídeo de um recente colóquio de que participou — há menos de um mês — em que diz que Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, não pertence ao mundo civilizado; em que canta as glórias de Gramsci e exalta o fato de o PT querer se constituir como força hegemônica e em que faz uma apreciação cretina e covarde do pensamento de Olavo de Carvalho. É cretina porque ligeira, bucéfala. É covarde porque Carvalho já o chamou para o debate, e ele fugiu. Prefere o conforto dos pequenos convescotes, na companhia de outros, suponho, mais ignorantes do que ele próprio.
O ministério de Dilma era composto de uma maioria de pessoas incompetentes. Mas faltava alguém muito incompetente. Agora já tem: Renato Janine Ribeiro. Trata-se de um mistificador. Exercita a pior forma de petismo, que é o da brasa encoberta, que se disfarça de tolerante. No pé deste post, vocês encontram o longo e chato vídeo em que o homem expõe seu pensamento. Quem tiver paciência para assistir ao troço perceberá os vários momentos em que Janine, o ético, flerta com a censura. Prestem especial atenção ao momento em que ele fala da “classe média”. No fundo, ele também tem nojo dessa fatia da sociedade, mas acha que o PT precisa tratá-la de forma diferente, precisa aprender a… fingir que a respeita.
Reproduzo abaixo um texto publicado neste blog no dia 25 de janeiro de 2010. Ele disseca a alma deste patriota, que tanto tem contribuído para transformar as universidades públicas brasileiras em centros da incompetência doutrinária. Divirtam-se. As circunstâncias em que o escrevi ficam claras. Evidencio, assim, o que penso desse tal Janine, o covardão que fugiu do pau com Olavo de Carvalho porque prefere atirar pelas costas. Clicando aqui, você tem acesso a tudo o que já escrevi sobre este senhor.
*
Escreverei um texto sobre um artigo escrito pelo esquerdista Renato Janine Ribeiro no Estadão neste domingo. Ficou longo, meus caros, muito longo. E alguns leitores podem dizer: “Pô, Reinaldo, esse cara é irrelevante!”. Em si, é mesmo! Acontece que eu quero dissecar um método. Antes, leitores podiam, às vezes, ser acusados de patrulhar o articulista. Estamos, como vocês verão, diante de um fato inédito: o articulista resolveu patrulhar os leitores. Vamos ver.
Janine é uma versão sensível, com alguns fricotes pós-modernos, de Marilena Chaui. As coisas que ela pretende nos dizer privatizando Spinoza, ele nos diz analisando a novela das oito… Mas não se deve subestimá-lo por isso. Afinal, foi um capa-preta da poderosa Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), onde não deixou saudade. Pensa como petista, escreve como petista, fala como petista. Até aí… Só que ele gosta de dizer que não é petista. Aí não dá. Trata-se do petismo que não ousa dizer seu nome, né? Que prefere ficar no armário.
Achava já ter visto de tudo em matéria de trapaça intelectual. Engano! Não é que, neste domingo, Janine resolveu dar uma bronca em leitores do Estadão e em alguns comentadores do jornal na Internet? É! Vocês entenderam direito! Feito aquela tia do colégio que investigava se você estava com o uniforme e portava a carteirinha de acesso ao prédio, ele resolveu distribuir pitos em leitores que, a seu juízo, andam a dizer inconveniências. Professor de Ética e Filosofia da USP, agora ele se dispõe a ensinar a sobrinhos do jornal que julga malcriados o que é o “verdadeiro Estadão”. E, para fazê-lo, Janine, como se verá, não abre mão da mentira.
Antes que eu disseque, com aquela paixão com que um entomologista fatia um escarabeídeo coprófago, as bobagens que ele escreveu, cumpre notar que há algo de realmente espetacular no fato de ele escrever no Estadão e querer patrulhar os comentários dos leitores. Janine é uma flor olorosa (lá para eles) da esquerda universitária brasileira. É verdade que ele se ocupa pouco de economia — não deve saber a diferença entre Taxa Selic e uma fatia de mortadela — e da política mais propriamente partidária. Ele é da turma que faz a guerra de valores; que tenta nos convencer de que atravessou os umbrais do novo homem — homem, mulher, bicho ou coisa — e vislumbrou o futuro. Com fala mansa, costuma fazer digressões sobre os sentimentos com a seriedade de uma cartomante e a frivolidade de um acadêmico.
Nos jornais da grande imprensa — aquela coitada que costuma ser malhada nas universidades —, “intelectuais” como ele estão presentes em nome da diversidade, da pluralidade, do debate… E esses, atenção!, são os nossos valores, os da sociedade liberal, que gente como Janine tanto despreza. Vocês sabem: o liberalismo é muito estreito para as ambigüidades do “novo homem”… Já nos veículos deles — sejam os da esquerda ideológica, os da esquerda venal ou os dos sindicatos —, não há espaço para divergência, não!!! Entenderam? Em nome dos nossos valores, aceitamos que eles venham nos esculhambar; em nome dos deles, a divergência jamais seria publicada. Eles têm a licença que jamais concederiam a quem lhes dá a… licença!!! Agora ao artigo, que tem o sugestivo e arrogante título de ”Para quem não conhece o ‘Estado’”. Espero que o Departamento de Marketing do jornal não o contrate. 
Tenho lido, nas cartas de leitores a O Estado de S. Paulo e sobretudo nos comentários de internautas em sua página na web, observações de pessoas sem muita noção do que é este jornal. Usam expressões preconceituosas, carregadas de ódio pela esquerda (que chegam a chamar de “subversiva”) e até de simpatia pela ditadura militar.
Como se nota, pessoas de quem Janine discorda “não têm noção”. Na URSS, por exemplo, eram consideradas, muitas vezes, loucas. Posso, por exemplo, dizer o que for de quem tem “ódio pela direita”, menos que seja uma questão de preconceito. Prefiro considerar que é uma questão de escolha. Na imprensa dos amiguinhos de Janine, há expressões carregadas de “ódio pela direita”, e ele não vai lá posar de bedel da ideologia. Quanto a chamar a esquerda de “subversiva”, qual é o problema? Quando o MST invade uma propriedade, ao arrepio da Constituição e das leis, e destrói um laboratório de pesquisa — e o faz com financiamento público e sob a tutela de um órgão do governo —, estamos, sem dúvida, diante de um crime, mas também de um ato de subversão da ordem. A menos que Janine ignore o sentido que as palavras têm. Quando a canalha do mensalão comprou partidos de porteira fechada, fraudando as regras do Poder Legislativo, estávamos, sem dúvida, diante de um ato subversivo: subvertia a democracia.
Quanto à simpatia pela ditadura militar, dizer o quê? Não padeço desse mal, como todos sabem. Lutei contra ela e sofri algumas conseqüências não muito agradáveis por isso, embora fosse quase um moleque. Mas nunca vi Janine dar pito na canalha esquerdista que tem simpatia pelo comunismo ou, sei lá, por Hugo Chávez.
É preciso lembrar, a esses leitores e a todos os mais jovens, o papel do Estado durante a ditadura. Não é segredo que o jornal apoiou a deposição do presidente João Goulart. Não é segredo que, na sua oposição ao getulismo, projeto político que comandou a política brasileira de 1930 a 1964, o Estado acreditou na necessidade de um regime de exceção breve e eficaz.
Trata-se de um dos parágrafos mais vigaristas da imprensa brasileira em muitos anos. E QUE OFENDE A LUTA DO ESTADÃO CONTRA AS DITADURAS. O Getúlio de 1930 era aquele que rompia o status da chamada República Velha. Em 1932, já estava claro o seu projeto ditatorial, a que se opuseram o estado São Paulo e o jornal O Estado de S. Paulo.
Acontece que o marxismo bocó que toma conta da USP ainda hoje — em Pequim, eles morreriam de rir se soubessem que há uma universidade em que as ciências sociais ainda são dominadas por marxistas — firmou a doxa de que a Revolução Paulista de 1932 foi reacionária, entenderam? Mera reação dos barões que não se conformavam com o surgimento de um Brasil moderno… ISSO É UMA EVIDÊNCIA DO ÓDIO QUE ESSA CANALHA SEMPRE TEVE À DEMOCRACIA E AO ESTADO DE DIREITO. Para eles, progressista, em 30, era um governo que tocava o país com leis de exceção, sem Constituição.
Em 1937, o getulismo se torna uma ditadura escancarada, arreganhada. A ditadura de Getúlio matou, torturou, trucidou, censurou, colou-se ao fascismo de modo evidente. Mas a esquerda o elegeu o grande mártir contra as elites. Para tanto, uma alma de tirano como a de Luiz Carlos Prestes colaborou bastante. Foram o Partido Comunista e seus historiadores que inventaram um “Getúlio Progressista”. Mas entendo: afinal, ele era um estatista, e essa gente tem ódio ao capital privado, ódio à liberdade, ódio ao capitalismo. O Getúlio que veio depois, que acabou se matando, já era outro. E o João Goulart, que se apresentou como seu herdeiro, decidira levar a subversão — Janine deve ficar com os pêlos todos arrepiados diante da palavra — para dentro do governo.
Afirmar que o Estadão se opôs ao getulismo de 1930 a 1964 faz tábula rasa de 34 anos de história, colocando o jornal na contramão, então, do que seria um projeto popular, democrático quem sabe. Ocorre que, de 1930 a 1945, tivemos pelo menos 10 anos de ditadura. É que Janine pertence àquela turma que se opõe apenas a certas ditaduras.
Contudo, mesmo quem discorda dessa opção deve reconhecer que o Estado acreditava nela. Foi uma escolha de valores. Não foi uma adesão oportunista, como, por exemplo, a do governador de São Paulo em 1964. Por isso mesmo, tão logo o regime militar começou a adotar medidas das quais o jornal discordava, ele criticou-o. A história do Estado é a de um jornal que viveu na oposição mais tempo do que na situação.
Ele mordeu no parágrao anterior; aqui, ele decide dar uma assopradinha. E deixa claro que discorda da opção do jornal — suponho que, para ele, o Estadão deveria ter apoiado o golpe do Estado Novo e suas brutalidades. Exagerando na linguagem melosa, afirma que o jornal fez uma “escolha de valores”. DE QUAIS VALORES, MEU SENHOR? É preciso dizer. Quem disse “não” a João Goulart disse “não” a quais valores?
Mais que isso. No fatídico 13 de dezembro de 1968 – quando já se esperava o anúncio da medida mais liberticida da História do Brasil, o Ato Institucional número 5 -, a edição do Estado foi apreendida por ordem do governo. Dela constava um editorial que ficaria célebre, Instituições em frangalhos, hoje disponível no site, que responsabilizava o marechal Costa e Silva, ditador da época, pela crise em que vivíamos. Tratava-o com respeito – “sua excelência” do começo ao fim -, mas não hesitava em chamar o regime de ditadura militar.
Atenção, leitores! Houve um período no Brasil, com efeito, em que:
- foram fechados o Congresso Nacional, as Assembléias Legislativas e as Câmaras Municipais;
- houve intervenção federal dos Estados;
- houve intervenção federal em jornais;
- estabeleceu-se censura prévia à imprensa;
- proibiu-se o Supremo Tribunal Federal de conceder habeas corpus a presos políticos;
- políticos tiveram seus direitos políticos cassados;
- acusados de subversão poderiam ser condenados à morte;
- teatro e cinema estavam submetidos à censura prévia;
- o presidente da República podia emendar a Constituição como lhe desse na telha;
- a tortura de presos políticos era prática regular nas cadeias.
É o AI-5 o que vai acima? Não!!! É o Estado Novo do santo Getúlio Vargas, que durou de 1937 A 1945. Mas Janine, que não entende zorra nenhuma de história — ou entende, mas prefere a distorção —, pretende que houve um continuum histórico de 1930 a 1964. É o sumo da vigarice intelectual.
Como se nota, o AI-5 foi apenas a segunda “medida mais liberticida da história do Brasil”. A primeira foi a Constituição fascistóide de 1937 — que, nota-se, Janine deve aplaudir. Porque omite que Getúlio foi um ditador asqueroso, alinhado com os vários fascismos europeus.
Quando me perguntam: “Pô, por que você é tão duro com esses caras?”. Em primeiro lugar, porque eles querem. Em segundo, porque acho a mentira asquerosa. Eles dizem essas porcarias nas salas de aula para estudantes, deformando gerações. Quantos saberão que a ditadura de Getúlio dispunha de um repertório de repressão mais vasto do que o próprio AI-5? Isso livra a barra desse ato? UMA OVA! Isso apenas evidencia que as ditaduras, todas elas, são detestáveis. Não para Janine. Não para as esquerdas.
Esse confisco de uma edição não foi apenas simbólico. Nos anos que se seguiram, o Estado foi o diário brasileiro a amargar o mais longo período de censura prévia de nossa História. É digno de nota que se recusou a se autocensurar. Deixou bem separadas as posições do reprimido e do repressor. Nem café, diz a legenda, dava aos censores.
Também se recusou a substituir as matérias proibidas por outras, palatáveis. Como a censura não deixasse saírem em branco as colunas cortadas, publicou em seu lugar trechos de Os Lusíadas. Seu jornal irmão, o Jornal da Tarde, tratado com igual rudeza, colocava receitas de cozinha nas páginas censuradas. O engraçado, dizia-se, é que leitores distraídos do Jornal da Tarde teriam reclamado que as receitas não davam certo… Mas a grande maioria entendeu o que acontecia.
Depois de fraudar a história, o momento de puxar o saco de quem, na prática, acabou de enxovalhar, fazendo crer que o jornal se opôs ao projeto, sei lá, democrático do getulismo — aquele, vocês sabem, de 1930 a 1964. Janine pertence àquela categoria que aposta na insegurança das elites brasileiras, que se deixariam seduzir por seu charme… acadêmico (???).
Com os ventos dos anos 70, o jornal mudou várias de suas opções antigas. Publicou uma histórica entrevista com Celso Furtado, o que talvez não fizesse 20 anos antes.
Os homens que comandaram a resistência no Estadão certamente não vão se ocupar de corrigir as patacoadas de Janine. Afirmar que o jornal não publicaria entrevista de Celso Furtado 20 anos atrás faz supor que o veículo foi se penitenciando, fazendo o mea-culpa, a autocrítica. A maioria dos esquerdistas é viciada nessa droga!
Tudo isso mostra uma honra que ninguém pode negar ao Estado: é um jornal que teve e tem convicções. Podemos discordar – ou não – de suas posições, mas ele jamais compactuou com a repressão, com a tortura, com a censura.
Ele, de fato, não! Mas quem poupa o Estado Novo de críticas e o coloca apenas como um dado da história que vai de 1930 a 1964 compactua com a repressão, com a tortura e com a censura. Assim, fica demonstrado que Janine compactua com o repressão, a tortura e a censura…
Hoje, se o jornal não apóia a Comissão da Verdade proposta no 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, terá suas razões para isso. Eu, pessoalmente, defendo a apuração da verdade, para que todos os brasileiros saibamos o que aconteceu e para que a (má) História não se repita – só para isso.
É verdade! Já imaginaram como seria vergonhoso haver no futuro alguém que chamasse a ditadura militar de “democracia”, como, na prática, faz Janine com o Estado Novo? Quem não defende a apuração da verdade? Mas não pode ser a verdade só das esquerdas, não é mesmo? Ademais, este senhor precisa tomar cuidado com essa palavra. Não é o seu forte.
Mas de uma coisa tenho certeza: as razões do Estado nada têm em comum com as daqueles que aplaudem a tortura, que ainda usam a palavra “comunista” como insulto contra todos os de quem discordam, que gostariam até mesmo de expulsá-los do País que é de todos nós.
Quem é que aplaude a tortura? Aplaude a tortura, reitero, quem chama o Estado Novo de democracia. Quanto aos comunistas… Eis um bom debate. Todos concordamos que nazistas combinam com cadeia, não? Por que devemos ser mais tolerantes com os comunistas? Só porque, em matéria de morticínio em massa, eles conseguem ser ainda mais produtivos? Como Janine é meigo!!! “O país é de todos nós…” É? Também é dos nazistas, xenófobos, racistas??? “Comunista” como metáfora, metonímia ou simplesmente xingamento é só uma questão de justiça histórica. Ou o nosso “novo homem” sensível pretende resgatar a palavra de uma história que matou 35 milhões da URSS, 70 milhões na China e 3 milhões no Camboja?
Aqui está o recorte entre a democracia e a não-democracia. Aprendemos com a ditadura. Sabemos que ela é uma caixa de Pandora: quando se solta o demônio do autoritarismo, ele devasta. Isso ensina que é essencial termos liberdade para divergir. Nos anos 50 e 60, muitos achavam que a democracia era mero meio para valores mais importantes – para uns, a sociedade ocidental e cristã, para outros, a sociedade sem classes.
Argumento falacioso. A moderna sociedade ocidental e cristã não se descola da democracia, e esta nunca foi um valor tático para ela. Já os comunistas, estes, sim, sempre a tomaram como um simples instrumento. Querer igualar as duas posturas é mais um absurdo num texto de absurdos.
Creio que o longo período de trevas ensinou, a quem o viveu, que a democracia não pode ser rifada em função de outros valores. A democracia não é meio. Ela é um fim em si, um valor fundamental.
Sei.
O curioso é que, em que pese a absurda censura judicial que afeta esse jornal há meio ano, hoje não há mais nenhuma instância estatal que possa punir a expressão de opiniões. Isso é muito bom – e por isso mesmo soa tão chocante a ilegalidade que é a censura ao Estado.
Não há porque, felizmente, os que se opõem aos “novos comunistas” impediram “O partido” de criar um conselho de censura disfarçado de Conselho Federal de Jornalismo. Não há porque o Programa Nacional de Direitos Humanos, que Janine defende neste texto, não é lei e, espero, jamais será. Porque ele recria a censura no Brasil.
Mas, voltando ao fim da repressão política pelo Estado brasileiro, isso não quer dizer que nossa sociedade tenha reconhecido o direito à divergência. Um espírito maniqueísta, opondo bem e mal, domina muitos cidadãos que falam sobre política, costumes e o que seja em nosso país.
Bilu, tetéia… Discordar de Janine, vejam só, é ser maniqueísta. Ele escreve um artigo para dar pito nos leitores do Estadão; chama-os, na prática, de defensores da tortura e da ditadura, mas combate o maniqueísmo…
Por incrível que pareça, nesse ponto o Estado brasileiro e suas instituições parecem mais adiantados que a sociedade. Comecei este artigo criticando opiniões de leitores e internautas, justamente porque eles condenam seus desafetos com mais rapidez do que faria qualquer tribunal, hoje, em nosso país.
Não! Isso quem faz é Janine; quem poupa um ditador de seus crimes neste texto é Janine!
Em outras palavras, a democracia por vezes está mais forte nas leis e nas instituições do que no povo do qual – segundo o artigo 1º de nossa Constituição – ela emana. Ela ainda é um texto, mais que uma prática. Mas palavras, com a força da lei ou a da imprensa, não são pouca coisa. Pode demorar, mas elas acabam surtindo efeito.
Os esquerdistas, devidamente preservados pelo autor neste artigo, nunca viram problema em, como dizer?, mudar o povo, nem que fosse na base da porrada, para preservar a lei dos camaradas — hoje companheiros.
Disse Stendhal em 1817, ao saber da Revolução de Pernambuco (no seu único texto em que menciona o Brasil), que a liberdade é contagiosa. É como a peste e o único meio de acabar com ela, ironiza ele, é “lançar os pestíferos ao mar”. Já sofremos essa tentativa de extermínio. Hoje, graças a quem se opôs à ditadura, vivemos a boa contaminação pela liberdade.
Notem que Janine não escreve “graças a quem se opôs ÀS DITADURAS”. Se o assunto envolve o Estadão, esse plural é fundamental. Para ele, houve apenas um regime ditatorial no país.
E, obviamente, seria ocioso indagar a Janine se, na opinião dele, os terroristas que atuaram na VPR (a ex-organização de Dilma e Carlos Minc), na ALN (de Paulo Vannuchi) e no MR-8 (de Franklin Martins) estavam se opondo “à ditadura” ou lutando por “uma outra ditadura”. Ele vai dar um passo miudinho e acusar o interlocutor de “maniqueísmo”. Assim como seu texto é mentiroso sobre a ditadura do Estado Novo, ele também não está interessado na verdade sobre o Regime Militar. Ele quer uma Comissão da Verdade que possa, enfim, transformar a mentira em história oficial. Como Stálin fazia com as fotografias.
Que os leitores no Estadão não caiam nesse truque vulgar. Janine é um mau professor de história. E uma mau professor de democracia.



Via mrrrwv13